Cidade e Cotidiano

Poemas neste tema

Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Entre o Céu e a Terra

Antes éramos um ponto
Hoje não me contento
Estou rodeado
Por cimento

Vivemos em sociedades
Não somos primitivos
Ganhamos adjetivos
Enquanto perdemos qualidades

Será uma máquina,
Arranha-céu, ou fato extraordinário
capaz de apagar o cenário
bonito, do anil infinito?

874
Marcelo Tápia

Marcelo Tápia

cidade-luz

metrópole: elétricos
astros encobrem escuros
uracos de pedra

(1983)

903
Sérgio de Castro Pinto

Sérgio de Castro Pinto

Sem Fórmula

não piso a embreagem,
piso a paisagem
e a ponho em primeira,
segunda, terceira e quarta
de segunda à sexta.

(às vezes dou-lhe ré,
mas ela sempre me escapa).
Aos sábados e domingos
deixo-me ficar em ponto morto
diante dessas fotos já sem cor:

paisagens vistas de um retrovisor?

1 013
Marcelo Tápia

Marcelo Tápia

veículos da cidade

nas ruas cada um vai
ou vem traçando
seu roteiro
único
em meio
a tantos trajetos
cruzados cruzados cruzados
fios que se torcem se desenlaçam
se anovelam se anulam dão-se nó
cada um no seu curso
cada qual no seu leito, seu sulco, seu trilho
seu caminho, seu destino
suas vidas atadas desatadas
seus emaranhados de nadas

885
Sílvia Rocha

Sílvia Rocha

Haicai

chuva de verão
transito no trânsito
chora coração

solidão
não te come não te mata
te retrata

961
Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

Lisboa

A cidade tomou banho
Água suja do Tejo
A Torre de Belém
no poente decadente
sonha com impossíveis caravelas.

1 467
Roberto Saito

Roberto Saito

Verão

Súbita tontura.
Ainda mal desperto ouço
o som das cigarras.

Verão. Meio-dia.
Queimando as patas dos gatos —
paralelepípedos.

902
João Augusto Sampaio

João Augusto Sampaio

De Civitate Dei

Quié que o Povo pode e os arquitetos não sabem?
Fazer cidades:
Brasília, Pilar, Stevenage...

Cidade não se faz,
Planta-se.
O Povo rega e aduba.

730
Ruy Pereira e Alvim

Ruy Pereira e Alvim

Cidade Nua

Convulsa verdade
flutua no ar frio
da cidade avulsa.

A cidade ulula
sob a verdade
que não é sua...

A alma nua
largou o corpo
ocioso na rua
a chapinhar
na água da chuva.

É água suja,
condensa e resídua
verdade
que flutua
sobre a cidade
crua.

809
Saulo Mendonça

Saulo Mendonça

Haicai

Sob o sol poente
engolindo as suas sombras:
camponeses retornam.

Cai a tarde em Tambaú.
Restos de nuvens
são bailados de andorinhas.

2 020
João Augusto Sampaio

João Augusto Sampaio

Ilhota Verde Oportunista

Lá em Jaguarari, sertão da Bahia, tem um pração que cabe todo o povo dentro.
Uma pedra no centro, algumas algarobas
Tudo mais é secura e pó.

Miracolo!

Uma moitinha de grama verde
Só podia ser prumode do vazamento do cano d’água.
Água aqui não cai do céu, em Jaguarari.

834
Ana Júlia Monteiro Macedo Sança

Ana Júlia Monteiro Macedo Sança

Napoleon Fillet Mignon

Que lá do alto da tua Torre
vejo-te como um mapa nas minhas mãos
E no Arco do Triunfo
a chama sempre acesa
embalando calmamente
o teu soldado desconhecido
Adormecido...

Et moi, je suis ici
Mon doux PARIS
De mon SOUVENIR.
954
Paulo Roberto Cecchetti

Paulo Roberto Cecchetti

Haicai

Solidão

Essa solidão
à mesa, em pleno almoço:
mastigar a vida!

Motocicleta

Na rua de lua,
um vaga-lume eletrônico:
a motocicleta.

744
Delores Pires

Delores Pires

Outono

Imersa em neblina
a cidade se reveste
de um tom nostalgia.

1 060
Neusa Peçanha

Neusa Peçanha

Haicai

Começa a ventar:
o velho apanha o casaco,
o menino, a pipa.

O bonde da praça,
entre balanços vadios,
é brinquedo triste.

662
Myriam Fraga

Myriam Fraga

Calendário

Janeiro

Verão

E esta cidade como um sáurio,
Como um réptil,
Emergindo das águas

Verão...

E esta cidade
Como um pássaro
Renascendo das brasas

Verão...

E esta cidade como um signo,
Astrolábio ou mandala,

Esta cidade
Como um dado
Atirado ao acaso

De males nunca dantes
Confessados.

1 172
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Pássaro

O PÁSSARO SOBREVOA A CIDADE

As asas são meros instrumentos
que aos olhos se moldam

E o universo é um pequeno trecho
em suas aspirações,
que na virtude de galgar
espaços delineou sua missão
(a reconstrução)

E o pássaro voa
libertinamente no
azul poluído da cidade,

UM GRANDE PÁSSARO HOMEM

612
Micheliny Verunschk

Micheliny Verunschk

Cartório do 2º Ofício

Cato os minutos,
Grãos de milho
Caídos na música
Datilográfica
Do relógio velho
Da parede;
Sementes loiras
De tão sonífera
Claridade
Que só os posso
Contemplar
Com os olhos
Semicerrados;
Óvulos de pó
Que ajunto
No bojo do avental
Para tentar
Saciar a fome
Desse galo voraz,
Desse expediente infindo.

971
Micheliny Verunschk

Micheliny Verunschk

Feira

Me comove o apurado capricho
Dos meninos carroceiros da feira:
Arrumam da melhor maneira
A mercadoria nas suas
Mais possantes carroças.

985
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Primeira Vez

Um dia João
resolveu sair
do seu silêncio

e em frente à fábrica
pôs-se a recitar poesias

era hora do almoço . . .
barriga vazia
Todos olhavam-no
admirados

negavam-se a acreditar
que aquele fosse
"o joão de todos os dias"

Foi alvo das atenções
pela primeira vez na vida

883
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Rotina

Amanheceu
O orvalho molhou a flor
O passarinho cantou
Clareou

A sirene de uma fábrica
O empregado sai correndo
Tumulto
Houve atropelamento

A rádio anuncia
Nota de falecimento

Mais uma alma que vai
Para onde?

821
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Esperança

O menino
chupa laranjas
a dona de casa
sentada à varanda
contempla o fim de
mais um dia.

Um passarinho canta
no pomar
onde o menino
chupa laranja
às escondidas.

Fim de dia,
mas a esperança persiste
nos versos do poeta
no rosto do operário triste.

909
Marco Antônio Rosa

Marco Antônio Rosa

Fortaleza

Fortaleza, Fortaleza,
já quase quites então:
quantos turistas
fazem uma cidade,
com quantas ausências
se faz solidão?

845
Marcos A. P. Ribeiro

Marcos A. P. Ribeiro

12 SETEMBRO 1977

Robert Lowell morto num táxi em Manhattan.

O sol parece infantil.

926