Arte
Poemas neste tema
Diva Cunha
Em casa sozinha
Em casa sozinha
para matar meu desejo
leio poesias
não beijo
Me masturbo
e me contorço
leio poesias
não ouço
a voz
onda da pele clara
que aflora
sobre meus ossos
Em casa
entre coqueiros e arcos
ouço o desejo e passo
pelo fim do meu desejo
portas adentro atravesso
prendo sonhos entre paredes
minhas mãos prendem nos versos
os meus desejos inda verdes.
para matar meu desejo
leio poesias
não beijo
Me masturbo
e me contorço
leio poesias
não ouço
a voz
onda da pele clara
que aflora
sobre meus ossos
Em casa
entre coqueiros e arcos
ouço o desejo e passo
pelo fim do meu desejo
portas adentro atravesso
prendo sonhos entre paredes
minhas mãos prendem nos versos
os meus desejos inda verdes.
1 662
1
Joaquim Pessoa
Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.
Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.
Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.
Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.
Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.
2 669
1
Jorge de Sena
Bucólica e Nâo
Há sempre poetas para fazer versos à terra,
às plantas, animais, num cheiro de bucólico,
mistura de verduras podres, resinas escorrendo,
flores perfumadas, terra humedecida, e o adocicado
e acre também estrume: é sexo o que cheiram?
Amor o que respiram? As ervas que no vento
se abaixam e se entesam, e o arvoredo erecto,
de ramos balançando mas retesos,
é de si mesmos sem baixar os olhos
ao longo do seu corpo e sem tocar-se
com as mãos- que lhes recordam?
E aqueles nós peludos de musgentos
em troncos. Ou no chão buracos de formigas,
e de si mesmos, fêmeas, que lhes lembram?
É orvalho em flores ou folhas ou nos troncos,
rios e regatos murmurantes- que serão?
Acaso podem ser opacos e leitosos,
Jorrando intermitentes num agudo jacto?
que terra o amor mostra que não seja
o amor que não se abriu ou não saltou,
o amor que não foi feito ou não se deu?
às plantas, animais, num cheiro de bucólico,
mistura de verduras podres, resinas escorrendo,
flores perfumadas, terra humedecida, e o adocicado
e acre também estrume: é sexo o que cheiram?
Amor o que respiram? As ervas que no vento
se abaixam e se entesam, e o arvoredo erecto,
de ramos balançando mas retesos,
é de si mesmos sem baixar os olhos
ao longo do seu corpo e sem tocar-se
com as mãos- que lhes recordam?
E aqueles nós peludos de musgentos
em troncos. Ou no chão buracos de formigas,
e de si mesmos, fêmeas, que lhes lembram?
É orvalho em flores ou folhas ou nos troncos,
rios e regatos murmurantes- que serão?
Acaso podem ser opacos e leitosos,
Jorrando intermitentes num agudo jacto?
que terra o amor mostra que não seja
o amor que não se abriu ou não saltou,
o amor que não foi feito ou não se deu?
3 699
1
Angela Santos
Strip-Tease
Escancaro
para o mundo
o dentro de mim
em puras exibições de strip-tease da alma
Desnudo-me pelo avesso
adornado de sedas, rendas e cetins
e o avesso se contorce nas palavras
ao jeito de dançarina, comerciando prazer
Vislumbro plateias ávidas,
pupilas inchadas, linguas humidas avermelhadas
exibindo-se ante o languido
arquejar de minha alma
O dentro de mim realiza o sortilegio
o secreto desejo que me habita,
dispo-me inteira pelo avesso
e na nudez primordial da chegada
ofereço-me a visão da minha própria luxuria.
Nas palavras que são corpo, dor, prazer
no palco branco de uma página vazia
nos fluídos de tinta, que rasgam meu ser
na energia pura de clarões que me atravessa
atinjo o êxtase pelo avesso de mim.
para o mundo
o dentro de mim
em puras exibições de strip-tease da alma
Desnudo-me pelo avesso
adornado de sedas, rendas e cetins
e o avesso se contorce nas palavras
ao jeito de dançarina, comerciando prazer
Vislumbro plateias ávidas,
pupilas inchadas, linguas humidas avermelhadas
exibindo-se ante o languido
arquejar de minha alma
O dentro de mim realiza o sortilegio
o secreto desejo que me habita,
dispo-me inteira pelo avesso
e na nudez primordial da chegada
ofereço-me a visão da minha própria luxuria.
Nas palavras que são corpo, dor, prazer
no palco branco de uma página vazia
nos fluídos de tinta, que rasgam meu ser
na energia pura de clarões que me atravessa
atinjo o êxtase pelo avesso de mim.
1 334
1
Amparo Jimenez
Ilusión
Marina
(A Rosamaría)
Tu lengua,
pececillo inquieto en mi rostro.
Tu boca,
ostra que juega con mis labios.
Tu piel,
arena ardiente sobre mi cuerpo todo.
Tu voz,
canto de sirena que me llama y espera.
Mi piel y mi alma responden
pero tú, sirena mía,
te esfumas con el sol
al bajar la marea.
(A Rosamaría)
Tu lengua,
pececillo inquieto en mi rostro.
Tu boca,
ostra que juega con mis labios.
Tu piel,
arena ardiente sobre mi cuerpo todo.
Tu voz,
canto de sirena que me llama y espera.
Mi piel y mi alma responden
pero tú, sirena mía,
te esfumas con el sol
al bajar la marea.
987
1
Jorge de Lima
Madorna de Iaiá
Iaiá está
na rede de tucum.
A mucama de Iaiá tange os piuns,
Balança a rede,
Canta um lundum
Tão bambo, tão molengo, tão dengoso,
Que Iaiá tem vontade de dormir
Com quem?
Rem-rem.
Que preguiça, que calor!
Iaiá tira a camisa,
Toma aluá
Prende o cocó,
Limpa o suor
Pula pra rede.
Mas que cheiro gostoso tem Iaiá!
Que vontade doida de dormir,,,
Com quem?
Cheiro de mel da casa das caldeiras!
O saguim de Iaiá dorme num coco.
Iaiá ferra no sono
Pende a cabeça,
Abre-se a rede
Como uma ingá.
Para a mucama de cantar,
Tange os piuns,
Cala o ram-rem,
Abre a janela,
Olha o curral:
- um bruto sossego no curral!
Muito longe uma peitica faz si-dó....
Si-dó.....si-dó......si-dó....
Antes que Iaiá corte a madorna
A moleca de Iaiá
Balança a rede,
Tange os piuns,
Canta um lundum
Tão bambo,
Tão molengo,
Tão dengoso,
Que Iaiá sem se acordar,
Se coça,
Se estira
E se abre toda, na rede de tucum.
Sonha com quem?
na rede de tucum.
A mucama de Iaiá tange os piuns,
Balança a rede,
Canta um lundum
Tão bambo, tão molengo, tão dengoso,
Que Iaiá tem vontade de dormir
Com quem?
Rem-rem.
Que preguiça, que calor!
Iaiá tira a camisa,
Toma aluá
Prende o cocó,
Limpa o suor
Pula pra rede.
Mas que cheiro gostoso tem Iaiá!
Que vontade doida de dormir,,,
Com quem?
Cheiro de mel da casa das caldeiras!
O saguim de Iaiá dorme num coco.
Iaiá ferra no sono
Pende a cabeça,
Abre-se a rede
Como uma ingá.
Para a mucama de cantar,
Tange os piuns,
Cala o ram-rem,
Abre a janela,
Olha o curral:
- um bruto sossego no curral!
Muito longe uma peitica faz si-dó....
Si-dó.....si-dó......si-dó....
Antes que Iaiá corte a madorna
A moleca de Iaiá
Balança a rede,
Tange os piuns,
Canta um lundum
Tão bambo,
Tão molengo,
Tão dengoso,
Que Iaiá sem se acordar,
Se coça,
Se estira
E se abre toda, na rede de tucum.
Sonha com quem?
4 066
1
Herberto Sales
Bruma Rubra
Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome da indermida nudez de tuas formas,
que em seus túmidos relevos
são meu repasto e minha bilha.
Na bruma rubra,
buscando teu corpo
em ti me encontro.
E contigo parto em noturna cavalgada,
num dorcel de linho e plumas.
Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome de tua alma.
busco teu corpo,
na fome da indermida nudez de tuas formas,
que em seus túmidos relevos
são meu repasto e minha bilha.
Na bruma rubra,
buscando teu corpo
em ti me encontro.
E contigo parto em noturna cavalgada,
num dorcel de linho e plumas.
Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome de tua alma.
1 331
1
Reinaldo Ferreira
Café de cais
Café de cais,
Onde se juntam,
Anónimos de iguais,
Os ratos dos porões,
Babel de todos os calões,
Rio de fumo e de incontido cio,
Sexuado rio
Que busca, único mar,
Mulheres de pernoitar,
Unge-te a nojo, não Anfritite,
Fina ficção marinha,
Mas nauseabundo
E tutelar,
O vulto familiar
Da Virgem Vício
Nossa Senhora do Baixo Mundo.
Onde se juntam,
Anónimos de iguais,
Os ratos dos porões,
Babel de todos os calões,
Rio de fumo e de incontido cio,
Sexuado rio
Que busca, único mar,
Mulheres de pernoitar,
Unge-te a nojo, não Anfritite,
Fina ficção marinha,
Mas nauseabundo
E tutelar,
O vulto familiar
Da Virgem Vício
Nossa Senhora do Baixo Mundo.
1 483
1
Tasso Azevedo da Silveira
Sonho Vago
Ó branca e luminosa!
Na alcova quieta e silenciosa
que a penhumbra parece transformar
Num ambiente imaginário
De cidade lacustre ou num aquário,
Teu corpo claro, fino, gransparente,
A se mover preguiçosamente
Como a ondular...
Lembra, nessa nudez que as sombras ilumina,
Sonâmbulo país de águas e brumas,
Visão de uma paisagem submarina,
Em que andas a flutuar...
Como no meio de algas e de espumas
- Uma ninfa, sereia ou estrela-do-mar.
Vendo-te assim, meio acordado,
Eu me deixo embalar
Num esquisito, incomparável gozo,
De deleites estranhos inundado.
Crendo que vou contigo a mergulhar,
Num sonho lvoluptuoso,
Por entre espaços fluidos de veludo,
-Um país de perfumes e de encanto -
Em que de um vago luar o tênue manto
Amacia tudo...
II
Quantas imaagens brancas me sugeres!
- Magnólia, flor dos Alpes, nebulosa...
- Branca lua perdida entre as mulheres!
- Garça, vela no mar, alvor de rosa!
Ao vê-lo assim, tão claro e leve, eu plenso
Que o teu corpo, a florir na luz cendrada,
Sonha, dentro da noite, o sonho imenso
Que as rosas brancas sonham na alvorada.
Na alcova quieta e silenciosa
que a penhumbra parece transformar
Num ambiente imaginário
De cidade lacustre ou num aquário,
Teu corpo claro, fino, gransparente,
A se mover preguiçosamente
Como a ondular...
Lembra, nessa nudez que as sombras ilumina,
Sonâmbulo país de águas e brumas,
Visão de uma paisagem submarina,
Em que andas a flutuar...
Como no meio de algas e de espumas
- Uma ninfa, sereia ou estrela-do-mar.
Vendo-te assim, meio acordado,
Eu me deixo embalar
Num esquisito, incomparável gozo,
De deleites estranhos inundado.
Crendo que vou contigo a mergulhar,
Num sonho lvoluptuoso,
Por entre espaços fluidos de veludo,
-Um país de perfumes e de encanto -
Em que de um vago luar o tênue manto
Amacia tudo...
II
Quantas imaagens brancas me sugeres!
- Magnólia, flor dos Alpes, nebulosa...
- Branca lua perdida entre as mulheres!
- Garça, vela no mar, alvor de rosa!
Ao vê-lo assim, tão claro e leve, eu plenso
Que o teu corpo, a florir na luz cendrada,
Sonha, dentro da noite, o sonho imenso
Que as rosas brancas sonham na alvorada.
1 138
1
Castro Menezes
Messalina
Anelante, a vagar, ébria como uma escrava,
Achou-a um centurião certa noite, na rua
E ambos, a carne em fogo, enlaçaram-se à lua.
Como um casal de leões numa floresta brava.
Rugem de gozo os dois, sob a incendida lava
Do furor que num beijo infindo os extenua,
Deixando-a desgrenhada, exausta, seminua,
Mas feliz no atascal do vício que a deprava.
Desde então, a indagar-lhe o nome e o paradeiro,
Mortas horas da noite, o lúbrico guerreiro,
Abrasado de amor, no lupanar assoma.
Mas a buscá-la em vão, da Urbs pelo antro impuro,
Morrerá sem saber que ele, um soldado obscuro,
Possuíra, em plena rua, a Imperatriz de Roma!
Achou-a um centurião certa noite, na rua
E ambos, a carne em fogo, enlaçaram-se à lua.
Como um casal de leões numa floresta brava.
Rugem de gozo os dois, sob a incendida lava
Do furor que num beijo infindo os extenua,
Deixando-a desgrenhada, exausta, seminua,
Mas feliz no atascal do vício que a deprava.
Desde então, a indagar-lhe o nome e o paradeiro,
Mortas horas da noite, o lúbrico guerreiro,
Abrasado de amor, no lupanar assoma.
Mas a buscá-la em vão, da Urbs pelo antro impuro,
Morrerá sem saber que ele, um soldado obscuro,
Possuíra, em plena rua, a Imperatriz de Roma!
1 038
1
Ednólia Fontenele
Busca
Procuro um poema novo
derramando sangue
cheirando mal
falando de paixões eróticas
de crimes violentos.
Procuro um poema
com a cor do sol,
o brilho da tua pele,
com sabor de língua.
Procuro um poema
perverso como eu,
triste, mas contestador.
Quero mais sal na comida,
mais prudência na vida,
evitar o espelho na saída,
sorrir na despedida
e sem dor nenhuma
negar essa paixão.
derramando sangue
cheirando mal
falando de paixões eróticas
de crimes violentos.
Procuro um poema
com a cor do sol,
o brilho da tua pele,
com sabor de língua.
Procuro um poema
perverso como eu,
triste, mas contestador.
Quero mais sal na comida,
mais prudência na vida,
evitar o espelho na saída,
sorrir na despedida
e sem dor nenhuma
negar essa paixão.
906
1
Núbia Marques
Itinerário
Se tua cabeça de repente
fosse bússolas-rotas
mesmo amando a segurança-nortes
teria receio de seguí-la
Se do teu peito torpe
Surgisse lírio orvalhado
mesmo amando a delirante beleza-lírio
teria medo de olhá-lo
Se do teu sexo impetuoso e voraz
de repente surgisse estrela candente luminosa
mesmo amando a cintilante brancura da estrela
teria horror de tocá-lo
Se da tua voz afônica
surgissem de repente sonatas andantinas
mesmo sentindo a música em todos os recantos
de mim
teria pânico de escutá-la
Se nos teus calcanhares de Aquiles
houve milagre das andanças seculares
e de repente o caminho não fosse acaso mas rumo
mesmo assim teria horror de seguí-los
Bússolas e rotas
Lírio orvalho
sonatas andantinas
caminho seguro
tudo é frágil taça de cristal.
fosse bússolas-rotas
mesmo amando a segurança-nortes
teria receio de seguí-la
Se do teu peito torpe
Surgisse lírio orvalhado
mesmo amando a delirante beleza-lírio
teria medo de olhá-lo
Se do teu sexo impetuoso e voraz
de repente surgisse estrela candente luminosa
mesmo amando a cintilante brancura da estrela
teria horror de tocá-lo
Se da tua voz afônica
surgissem de repente sonatas andantinas
mesmo sentindo a música em todos os recantos
de mim
teria pânico de escutá-la
Se nos teus calcanhares de Aquiles
houve milagre das andanças seculares
e de repente o caminho não fosse acaso mas rumo
mesmo assim teria horror de seguí-los
Bússolas e rotas
Lírio orvalho
sonatas andantinas
caminho seguro
tudo é frágil taça de cristal.
912
1
Pedro Homem de Mello
Poema
Noite. Fundura. A treva
E mais doce talvez...
E uma ânsia de nudez
Sacode os filhos de Eva.
Não a nudez apenas
Dos corpos sofredores
Mas a das almas plenas
De indecisos amores.
A voz do sangue grita
E a das almas responde!
Labareda infinita
Que nas sombras se esconde.
Mas quase sem ruído,
Na carne ao abandono
O hálito do sono
Desce como um vestido...
E mais doce talvez...
E uma ânsia de nudez
Sacode os filhos de Eva.
Não a nudez apenas
Dos corpos sofredores
Mas a das almas plenas
De indecisos amores.
A voz do sangue grita
E a das almas responde!
Labareda infinita
Que nas sombras se esconde.
Mas quase sem ruído,
Na carne ao abandono
O hálito do sono
Desce como um vestido...
1 863
1
Pedro Kilkerry
Ad veneris lacrimas
Em meus nervos, a arder, a alma é volúpia... Sinto
Que Amor embriaga a Íon e a pele de ouro. Estua,
Deita-se Íon: enrodilha a cauda o meu Instinto
aos seus rosados pés... Nyx se arrasta, na rua...
Canta a lâmpada brônzea? O ouvido aos sons extinto
Acorda e ouço a voz ou da alâmpada ou sua
O silêncio anda à escuta. Abre um luar de Corinto
Aqui dentro a lamber Hélada nua, nua.
Íon treme, estremece. Adora o ritmo louro
Da áurea chama, a estorcer os gestos com que crava
Finas frechas de luz na cúpula aquecida...
Querem cantar de Íon os dois seios, em coro...
Mas sua alma - por Zeus! - na água azul doutra Vida
Lava os meus sonhos, treme em seus olhos, escrava.
Que Amor embriaga a Íon e a pele de ouro. Estua,
Deita-se Íon: enrodilha a cauda o meu Instinto
aos seus rosados pés... Nyx se arrasta, na rua...
Canta a lâmpada brônzea? O ouvido aos sons extinto
Acorda e ouço a voz ou da alâmpada ou sua
O silêncio anda à escuta. Abre um luar de Corinto
Aqui dentro a lamber Hélada nua, nua.
Íon treme, estremece. Adora o ritmo louro
Da áurea chama, a estorcer os gestos com que crava
Finas frechas de luz na cúpula aquecida...
Querem cantar de Íon os dois seios, em coro...
Mas sua alma - por Zeus! - na água azul doutra Vida
Lava os meus sonhos, treme em seus olhos, escrava.
1 844
1
Micheliny Verunschk
Rápido Monólogo do Caçador Com Sua Caça
Trago
Pardos
Os olhos
De cobiça
Que atiro
Sobre ti,
Teu verbo/teu sexo:
Tua presa
de
marfim.
Pardos
Os olhos
De cobiça
Que atiro
Sobre ti,
Teu verbo/teu sexo:
Tua presa
de
marfim.
1 192
1
Luís Delfino
Altar sem Deus
Inda não voltas? — Como a vida salta
Destes quadros de esplêndidas molduras!
Mulheres nuas, raras formosuras...
Só a tua nudez entre elas falta ...
Pede-te o espelho de armação tão alta,
Onde revias tuas formas puras;
Pedem-te as cegas, lúbricas alvuras
Do linho, que a Paixão no leito exalta.
Pedem-te os vasos cheios de perfume
Os dunquerques, as rendas, as cortinas,
Tudo quanto a mulher de bom resume,
Escolhido por tuas mãos divinas...
E sai do teu altar vazio, ó nume,
A tristeza indizível das ruínas ...
Destes quadros de esplêndidas molduras!
Mulheres nuas, raras formosuras...
Só a tua nudez entre elas falta ...
Pede-te o espelho de armação tão alta,
Onde revias tuas formas puras;
Pedem-te as cegas, lúbricas alvuras
Do linho, que a Paixão no leito exalta.
Pedem-te os vasos cheios de perfume
Os dunquerques, as rendas, as cortinas,
Tudo quanto a mulher de bom resume,
Escolhido por tuas mãos divinas...
E sai do teu altar vazio, ó nume,
A tristeza indizível das ruínas ...
1 543
1
José Eduardo Mendes Camargo
Nossa Atração
Não sei se é cósmica,
Ou é química.
Não sei se é admiração
Ou compreensão.
Não sei se é afinidade
Ou é continuidade.
Não sei se é ternura
Ou é loucura.
Sinto até que é tesão
Temperada de paixão.
Ou é química.
Não sei se é admiração
Ou compreensão.
Não sei se é afinidade
Ou é continuidade.
Não sei se é ternura
Ou é loucura.
Sinto até que é tesão
Temperada de paixão.
759
1
Guimarães Passos
Pubescência
Ei-la! Chega ao jardim, que estava triste,
Porque a sua alegria ausente estava,
E ela, que em vê-lo dantes se alegrava,
Agora a toda a tentação resiste.
Seria outra alma, pensa, que a animava ?
Por que um desejo que a persegue insiste?
Qualquer cousa que ignora, mas que existe,
Pulsa-lhe ao coração que não pulsava.
Triste cismando segue, e em frente à fonte:
— Um sátiro, de cuja boca escorre
Um fino fio dágua transparente,
Ri-se dos cornos que lhe vê na fronte,
Os lábios cola aos dele, e porque morre
De sede, bebe alucinadamente...
Porque a sua alegria ausente estava,
E ela, que em vê-lo dantes se alegrava,
Agora a toda a tentação resiste.
Seria outra alma, pensa, que a animava ?
Por que um desejo que a persegue insiste?
Qualquer cousa que ignora, mas que existe,
Pulsa-lhe ao coração que não pulsava.
Triste cismando segue, e em frente à fonte:
— Um sátiro, de cuja boca escorre
Um fino fio dágua transparente,
Ri-se dos cornos que lhe vê na fronte,
Os lábios cola aos dele, e porque morre
De sede, bebe alucinadamente...
809
1
Filinto Elísio
Madrigal
Dormias Márcia, e eu vi Cupidoansioso
Já dum, já do outro lado
Querer furtar-te um beijo gracioso,
Que tu, a cada arquejo descansado,
Na linda boca urdias.
Graciosíssimo, oh! Márcia!... Não sabias
Como o nume girava de alvoroço.
Escondendo-lhe o jeito
De o dar do melhor lado. Eu vim, e dei-to
Bem na boca, e logrei o esperto moço.
Já dum, já do outro lado
Querer furtar-te um beijo gracioso,
Que tu, a cada arquejo descansado,
Na linda boca urdias.
Graciosíssimo, oh! Márcia!... Não sabias
Como o nume girava de alvoroço.
Escondendo-lhe o jeito
De o dar do melhor lado. Eu vim, e dei-to
Bem na boca, e logrei o esperto moço.
1 095
1
António Cardoso
Árvore de Frutos
Cheiras ao caju da minha infância
e tens a cor do barro vermelho molhado
de antigamente;
há sabor a manga a escorrer-te na boca
e dureza de maboque a saltar-te nos seios.
Misturo-te com a terra vermelha
e com as noites
de histórias antigas
ouvidas há muito.
No teu corpo
sons antigos dos batuques à minha porta,
com que me provocas,
enchem-me o cérebro de fogo incontido.
Amor, és o sonho feito carne
do meu bairro antigo do musseque!
e tens a cor do barro vermelho molhado
de antigamente;
há sabor a manga a escorrer-te na boca
e dureza de maboque a saltar-te nos seios.
Misturo-te com a terra vermelha
e com as noites
de histórias antigas
ouvidas há muito.
No teu corpo
sons antigos dos batuques à minha porta,
com que me provocas,
enchem-me o cérebro de fogo incontido.
Amor, és o sonho feito carne
do meu bairro antigo do musseque!
1 100
1
Castro Alves
Rmorsos
Em que pensa Carlota após a valsa,
No tapete
Atirando o bournous quando descalça...
Ou melhor... quando rompe a luva, a fita,
Se a presilha, o colchete,
Em leve resistência a mão lhe irrita...
Em que pensa Carlota após a valsa?
Em que sonha Carlota à madrugada,
Quando aperta
Ao travesseiro a boca perfumada.
E afoga o seio sob a cruz de prata,
Pela camisa aberta,
Que um movimento lânguido desata...
Em que sonha Carlota à madrugada?
Com quem fala Carlota ao sol poente,
Na sombria alameda,
Quando os cisnes se arrufam na corente...
E o vento pelas grutas cochichando
Uns noivos arremeda,
Que estão como dois pombos arrulando...
Com quem fala Carlota ao sol poente?
Por que chora Carlota ao meio-dia,
Quando nua de adorno,
Cobrindo os pés... co’a trança luzidia,
Entrega o corpo ao vacilar da rede,
E olhando o campo morno,
Os lábios morde... pr’a matar a sede.
Por que chora Carlota oa meio-dia?
O que cisma, o que sente, por quem chora
A soberba Carlota?
A rainha das salas já descora...
Foge o cetro do leque aos dedos frouxos,
E a turba alegre nota
O fundo circ’lo de seus olhos roxos.
Que não diz o que cisma e porque chora...
Quem te mata, Carlota, são remorsos
De algum divino crime?
São ciúmes que escondem teus esforços?
Tens vergonha talvez deste rosário
Que tua mão comprime,
Porque um sopro roçou no relicário?
E desmaias, Carlota, de remorsos?!
Se é por isso não pises tanto os olhos...
Formosa criatura!
O mundo é um mar de pérfidos escolhos,
Quem te pode lançar primeiro a pedra?
Amor! e formosura!
Deus não corta a roseira porque medra...
Se é por isso não pises tanto os olhos!
Mas não! Chora! Teu mal é sem remédio...
Serás mártir sem palma,
Pregada numa cruz... na cruz do tédio!
Fria Carlota! Cobre-te de pejo...
Mataste à sede um’alma!
Fizeste o crime... de negar um beijo!
Chora! Que este remorso é sem remédio!!...
No tapete
Atirando o bournous quando descalça...
Ou melhor... quando rompe a luva, a fita,
Se a presilha, o colchete,
Em leve resistência a mão lhe irrita...
Em que pensa Carlota após a valsa?
Em que sonha Carlota à madrugada,
Quando aperta
Ao travesseiro a boca perfumada.
E afoga o seio sob a cruz de prata,
Pela camisa aberta,
Que um movimento lânguido desata...
Em que sonha Carlota à madrugada?
Com quem fala Carlota ao sol poente,
Na sombria alameda,
Quando os cisnes se arrufam na corente...
E o vento pelas grutas cochichando
Uns noivos arremeda,
Que estão como dois pombos arrulando...
Com quem fala Carlota ao sol poente?
Por que chora Carlota ao meio-dia,
Quando nua de adorno,
Cobrindo os pés... co’a trança luzidia,
Entrega o corpo ao vacilar da rede,
E olhando o campo morno,
Os lábios morde... pr’a matar a sede.
Por que chora Carlota oa meio-dia?
O que cisma, o que sente, por quem chora
A soberba Carlota?
A rainha das salas já descora...
Foge o cetro do leque aos dedos frouxos,
E a turba alegre nota
O fundo circ’lo de seus olhos roxos.
Que não diz o que cisma e porque chora...
Quem te mata, Carlota, são remorsos
De algum divino crime?
São ciúmes que escondem teus esforços?
Tens vergonha talvez deste rosário
Que tua mão comprime,
Porque um sopro roçou no relicário?
E desmaias, Carlota, de remorsos?!
Se é por isso não pises tanto os olhos...
Formosa criatura!
O mundo é um mar de pérfidos escolhos,
Quem te pode lançar primeiro a pedra?
Amor! e formosura!
Deus não corta a roseira porque medra...
Se é por isso não pises tanto os olhos!
Mas não! Chora! Teu mal é sem remédio...
Serás mártir sem palma,
Pregada numa cruz... na cruz do tédio!
Fria Carlota! Cobre-te de pejo...
Mataste à sede um’alma!
Fizeste o crime... de negar um beijo!
Chora! Que este remorso é sem remédio!!...
1 757
1
Robert Burns
ANA
Ai, vinho que ontem bebi
Escondido numa choupana,
quando em meu peito senti
os negros cabelos de Ana!
O judeu já no deserto
que bebia o que Deus mana
não sabia o mel oferto
nos lábios ardentes de Ana!
Reis, tomai o Leste e o Oeste,
desde o Indo até o Savana,
mas dai ao corpo que as veste
as formas trementes de Ana!
Encantos desdenharei
de imperatriz ou sultana
pelo prazer que darei
e tomarei só com Ana.
Vai-te, faustoso deus diurno!
Vai-te, pálida Diana!
Suma-se o claror nocturno,
quando eu me encontro com Ana!
Venha a noite em negro manto!
Sol, Lua, Estrelas, deixai-nos!
Só com, penas de anjo o encanto
direi dos gozos com Ana.
Escondido numa choupana,
quando em meu peito senti
os negros cabelos de Ana!
O judeu já no deserto
que bebia o que Deus mana
não sabia o mel oferto
nos lábios ardentes de Ana!
Reis, tomai o Leste e o Oeste,
desde o Indo até o Savana,
mas dai ao corpo que as veste
as formas trementes de Ana!
Encantos desdenharei
de imperatriz ou sultana
pelo prazer que darei
e tomarei só com Ana.
Vai-te, faustoso deus diurno!
Vai-te, pálida Diana!
Suma-se o claror nocturno,
quando eu me encontro com Ana!
Venha a noite em negro manto!
Sol, Lua, Estrelas, deixai-nos!
Só com, penas de anjo o encanto
direi dos gozos com Ana.
2 505
1
Maria Teresa Horta
Os anjos – I
Eles andam no ar
com as suas vestes
longas
as asas frementes
a baterem no tempo
Vêm
da infância
a rasar a memória
a voarem o vento
Ouvia os insectos,
deitada-rente
sobre a terra
e imaginava os anjos
debruçados no espaço
a beberem o sol
Uma por uma as pétalas
Os gomos
as citilantes escamas
mais pequenas
Uma por uma as penas
a formularem a nossa memória
das asas dos anjos
Tem a força estagnada
das paredes
a respirarem através da cal do útero
num arfar
lento
menstruação contida
Os pés vão nus,
a bordejarem o voo
a controlarem o
espaço
lemes do corpo
a fixarem
as asas:
crespas e acesas
nos ombros dos
anjos
São anjos
apenas
com o corpo dos homens
num corpo de mulher
e um ligeiro crepitar
de asas
na altura dos ombros
Tem uma conotação
sexual
de aventura
com a sua vagina
entreaberta
e o seu clitóris tumefacto
e tenso
à ponta dos dedos
Desviar os lábios
dos anjos
mas entreabrir-lhes também
as coxas
os sonhos – a mente
enquanto eles observam
Quando os anjos
flutuam
sobre as tréguas
naquele segundo
em que se ouve bater
o coração das pedras
Uma flor de
amparo,
o apoio de uma
asa
no voo raso às raízes do tempo
Até ao vácuo?
Os anjos são
os olhos
da cidade
Olhos de mulher,
que voa
Tem asas de cristal
e água
os anjos que à flor-do-dia
entornam a madrugada
cintilantes e volácteis
Eles voam com as suas asas
de prazer:
os anjos da fala
– dormindo na saliva da boca
Substituir os peixes alados
por anjos
Com as suas longínquas asas
a afagar os meus ombros
Queria saber
do destino dos anjos
quando voam
no mar
dos nossos olhos
No céu líquido
dos olhos
das mulheres
Diz-me
da poesia
através da palavra
dos anjos...
Aos olhos do tempo
a transgressão
das horas
pelo dentro das nervuras
das asas
pequenos capilares de vento
onde começa a vontade
de voar
num caminhar
sedento
Têm todos os anjos
o vício:
da queda?
com as suas vestes
longas
as asas frementes
a baterem no tempo
Vêm
da infância
a rasar a memória
a voarem o vento
Ouvia os insectos,
deitada-rente
sobre a terra
e imaginava os anjos
debruçados no espaço
a beberem o sol
Uma por uma as pétalas
Os gomos
as citilantes escamas
mais pequenas
Uma por uma as penas
a formularem a nossa memória
das asas dos anjos
Tem a força estagnada
das paredes
a respirarem através da cal do útero
num arfar
lento
menstruação contida
Os pés vão nus,
a bordejarem o voo
a controlarem o
espaço
lemes do corpo
a fixarem
as asas:
crespas e acesas
nos ombros dos
anjos
São anjos
apenas
com o corpo dos homens
num corpo de mulher
e um ligeiro crepitar
de asas
na altura dos ombros
Tem uma conotação
sexual
de aventura
com a sua vagina
entreaberta
e o seu clitóris tumefacto
e tenso
à ponta dos dedos
Desviar os lábios
dos anjos
mas entreabrir-lhes também
as coxas
os sonhos – a mente
enquanto eles observam
Quando os anjos
flutuam
sobre as tréguas
naquele segundo
em que se ouve bater
o coração das pedras
Uma flor de
amparo,
o apoio de uma
asa
no voo raso às raízes do tempo
Até ao vácuo?
Os anjos são
os olhos
da cidade
Olhos de mulher,
que voa
Tem asas de cristal
e água
os anjos que à flor-do-dia
entornam a madrugada
cintilantes e volácteis
Eles voam com as suas asas
de prazer:
os anjos da fala
– dormindo na saliva da boca
Substituir os peixes alados
por anjos
Com as suas longínquas asas
a afagar os meus ombros
Queria saber
do destino dos anjos
quando voam
no mar
dos nossos olhos
No céu líquido
dos olhos
das mulheres
Diz-me
da poesia
através da palavra
dos anjos...
Aos olhos do tempo
a transgressão
das horas
pelo dentro das nervuras
das asas
pequenos capilares de vento
onde começa a vontade
de voar
num caminhar
sedento
Têm todos os anjos
o vício:
da queda?
4 007
1
Paul Verlaine
Moral abreviada
Uma nuca de loura e de graça inclinada,
Um colo que arrulha, belos, lascivos seios,
Com medalhões escuros na mama afogueada,
Esse busto se assenta em baixas almofadas
Enquanto entre duas pernas para o ar, vibrantes,
Uma mulher se ajoelha - ocupada com quê?
Amor o sabe - expondo aos deuses a epopéia
Singela de seu cu magnífico, um espelho
Límpido da beleza, que ali quer se ver
Pra crer. Cu feminino, que vence o viril
Serenamente - o de efebo e o infantil.
Ao cu feminino, supremo, culto e glória!
Um colo que arrulha, belos, lascivos seios,
Com medalhões escuros na mama afogueada,
Esse busto se assenta em baixas almofadas
Enquanto entre duas pernas para o ar, vibrantes,
Uma mulher se ajoelha - ocupada com quê?
Amor o sabe - expondo aos deuses a epopéia
Singela de seu cu magnífico, um espelho
Límpido da beleza, que ali quer se ver
Pra crer. Cu feminino, que vence o viril
Serenamente - o de efebo e o infantil.
Ao cu feminino, supremo, culto e glória!
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