Escritas

Memória

Poemas neste tema

Silvaney Paes

Silvaney Paes

Velho Moleque

Serei
menino de novo,
Criança pagã, nua de crenças tolas.
Meu credo será viver na molecagem,
Largarei meu velho na passagem.

Vestirei a roupagem da puerícia,
Deitando fora essa da velhice
E acharei hilário uns poucos tolos,
Que enxergarem em mim a caduquice.

E o tempo por demais zeloso,
Sabendo às vezes ser cioso
Gritará comigo um pouco,
Mas lhe farei ouvidos moços.

Ditoso, correrei pelos caminhos,
Desnudo tomarei banhos de riacho,
Andarei descalço pelos matos
E não conhecerei pudores ou receios.

Alguns se apressarão em alaridos:
- Lá vai o velho louco varrido!
E eu explodirei em risos,
Pois no menino descobri que vivo.

Mas se o tempo em ardil com a morte,
Resolverem arrematar-me a sorte,
Levarão consigo apenas o senil,
Pois o menino que mim reside
Traz o alento de ser sempre vivo.

1 341
Silvaney Paes

Silvaney Paes

Brasil - Portugal

Um Dom
Um Dom de Pedro
Um tal D. Pedro

Num Ipiranga Português
Mais também Tupí na raça
Diziam Gritava

Um Dom
Um Dom de Pedro
Um tal D.Pedro

Mais que Gritava?
Grita Morte
Grito que Libertava

Um Dom
Um Dom de Pedro
Um Tal D. Pedro

Mas morreu?
Não. Só libertara.
Rompeu.

Um Dom
Um Dom de Pedro
Um tal D. Pedro

E Porque Rompeu
E não morreu?
Viu num futuro.

Um Dom
Um Dom de Pedro
Um tal D. Pedro

Mais que achou haver de Novo?
La no Futuro......
Irmãos de Novo.

Um Dom
Um Dom de Pedro
Um D. PEDRO

890
Regina Souza Vieira

Regina Souza Vieira

Memória

Cheira
a café de manhã
Cheira a assados ao meu dia
Cheira a doce à tarde
À noite, a chuva cai.

Vem então o cheiro
Mistura de tantos outros
Que o dia transportou
Deixando neste último
o que melhor / pior passou.

Dele a memória guarda
a permanência daquele dia
Soma-se ainda a ele
o cheiro da chuva fria.

Ah, o fugaz olfato
Esse sentido que absorve
Das paixões a lembrança
Trazidas tão de repente

Num cheiro, o doce contente
ou o azedo inconformado
o perfume inesperado
exalando, às vezes, saudade!

Dulcíssima brevidade
Só o olfato se apercebe
Que todo segundo passa
Por esse ar que a gente bebe

E que só em nós se guarda
Quando uma semente solta
Dele em nós se embebe.

932
Jorge Viegas

Jorge Viegas

Amanhã é Longe Demais

Fragmentos
sensíveis
Andam pelo tempo
Marcando o ritmo
Do voo das aves invisíveis

Doces melancolias
Desfazem-se pelos mistérios dos olhares
A beleza navega pelos sete mares
Diluída no brilho dos sonhos

Sombras de movimentos ancestrais
Dançam a beleza da luz imaculada
Por entre os astros do silêncio
Libertando transparências sentimentais.

Na baía das lendas
Abraçando a leveza dos espíritos
Gotas cristalinas de fontes eternas
Escorrem suavemente sonhadoras

Libertam o agora
Das profundezas do sonho da vida
E a sombra misteriosamente adormecida
Diz-nos que chegou a hora.
1 284
Regina Souza Vieira

Regina Souza Vieira

Memória

Memória
Como se um dia injustamente
Tivesse partido á frente
Para deixar-nos somente a noite

Como se o mar sozinho
Tivesse decidido
Deixar-nos secas areias moribundas

Só porque vergaste o sol, camarada
Para levá-lo contigo
Na tipóia

Não há memória, querido amigo
De Setembro
Ter arrefecido tanto
801
Regina Souza Vieira

Regina Souza Vieira

Luanda

Aqui reside tudo
E todos
Germinam as raízes todas

Aqui está cada um dos braços e dos rostos
Dum só corpo que anda sobre o vento
Navega os céus e toda a geografia
Desde a minha aldeia e do meu povo

Desce o campo refugia-se na cidade
Das ruínas às pontes de margens ansiosas

Tarda o abraço
Demora o dia das horas sucessivas
Sem paragem

No tempo de memórias tristes
Aqui estamos e estaremos
Porque somos
Mais do que pó e húmus
Unida essência dum jardim de vida
Morremos várias vezes no percurso
Mas seremos sempre
Capazes de chegar
à vida

Porque somos todos, somos um
Em cada um
Dos pontos cardeais
Deste país.

710
Jorge Viegas

Jorge Viegas

Infinitamente Presente

No voo
pela noite dos leves mistérios
Onde as estrelas se transformam em anjos,
O sonho liberta um calor profundo,
Enchendo o infinito de fogo e paixão.

O murmúrio dourado dos teus olhos,
Transforma-se no raio de luz
Que multiplica a estrada da vida
Clarificando a imagem do amanhã.

Os segredos vão voando docemente
Por entre vagas de suspiros,
E as recordações vagueando
Pelos recantos da memória transparente.

Simples histórias quentes,
Remexendo com o passado recente,
Crepúsculo de energia crescente
Paraíso da sereia apaixonada.

No esplendor da viagem
Encontro o brilho da canção
Sorrindo alegremente
E descubro a pureza da tua imagem.

1 030
Susana Pestana

Susana Pestana

Juntos

Pedacinhos de tempo
roubados
Aqui e a ali
ruídos num quarto
que nos salva…
Desejos que nos acalmam.
Quando estamos juntos!
Dois mundos
Um Tejo iluminado
Uma canção
Uma noite de raspão
Juntos
O Azul se esconde
entre portas que se abrem
Períodos nus
desejos submersos
passadeiras com vontades
Quando estamos juntos
Um medo empurrado
Uma madrugada acordada
Uma alma entre nos
Dois corpos alinhados
Juntos
Modelamos a saudade
cega-se a ausência
interrompe-se os vazios
reconcilia-se fragilidades
Por sombras de sílabas.
Quando estamos juntos
….penetramos nos gestos dos nossos corpos

888
Luiz Felipe Coelho

Luiz Felipe Coelho

Talvez um conto de Andersen

Há silenciosos
bosques na memória,
tão solenes que lá os deuses não entram,
vida e morte congelados em denso nevoeiro
a confundir o eterno ciclo do tempo.

Tenebrosas fábulas os povoam
imagens de trevas, feitiços e bruxas
árvores que perderam a casca:
seu duro interior exposto rejeita marcas
de canivetes de namorados,
folhas sêcas não mais beijadas pela luz do Sol
esperam inutilmente ventos que as levarão
para longe,
para fora dos densos remansos,
para dentro do eterno reciclar dos insetos,
das bactérias e dos cogumelos,
galhos e troncos onde nunca crianças subirão
e que cansaram de se erguer para o céu.

Quando lá entramos
vindos dos longos corredores do sonho
sentimos o frio terror do reverso do espelho
e ouvimos o convite do cansaço
para deitar, para dormir,para o final.
793
Mariana Ianelli

Mariana Ianelli

Diário

No teu
rosto me contaste
Todas as noites de suicídio interminadas
As juras de amar tua mãe (todas quebradas)
A reconciliação de ti contigo
Na recordação do vaso dando
Milhões de rosas ressequidas
No tempo ultrapassado
Em que resolveste retornar a tua casa.
No teu rosto me revelaste
Todos os montes que galgaras
Num desfile infantil de marcar passo
Revelaste todo fim de tardinha
Em que o gás da rua não te quis iluminar,
Vejo nas tuas olheiras
Como levaste tempo em abraçar
Teu próprio busto,
Revolvidos, contundentes, os teus braços,
Na amizade de ti contigo...
No teu rosto vi os sinais da vergonha
Por teres desejado um filho
Que engordasse tuas ancas,
Vi os indícios desaforados da velhice
E dos pecados menores,
Reconheci nos teus beiços fechados
O amor sofrido que tiveste a ti mesmo
E aos teus ímpetos de inspiração
Para amar a alguém mais.
No teu rosto a carga que há
Por não teres mostrado
Que quiseste um abraço
Da tua maior amiga,
A carga que há por te arrependeres
Do pacto irresponsável
De te casares com um homem,
Como numa folia desastrada.
No teu rosto me contaste o teu rosto,
Gaze de pele vestindo a tua caveira
E esse é hoje nosso melhor segredo,
Eu juro.

931
Luiz Felipe Coelho

Luiz Felipe Coelho

Colinas

Suaves morros se sucediam
-verdes pastos,
raros bois,
desertos de capim-
e exibiam silenciosos discursos
aos que passavam na estrada.

Sim,
já tinham sido cobertos por imensas matas
a darem trabalho para índios,
bandeirantes, padres e quem mais
desejasse atravessá-las.

Sim,
já tinham visto o ouro de Minas fluir,
tropas de burros com soldados,
civis e agentes do distante Rei,
seus passos ecoando em trilhas e vales.

Sim,
já tinham sido vastos cafezais
de dominadores barões do Império,
enquanto o café seguia para longe,
por longos trilhos e dormentes hoje insones.

Pessoas inumeráveis
também murmuravam inaudíveis silêncios:
índios e caciques, brancos e escravos,
pobres e ricos, ingleses e caboclos,
mestiços e barões, todos já mandaram
e já obedeceram, já respiraram
e já os esquecemos.

Matas, ouro, plantações, pessoas...
muito viveu e muito desapareceu.
Das vidas sacrificadas pelo tempo,
nada sabemos, suas gargalhada e choros
não mais ecoam, suas tristezas e felicidades
desapareceram. O opaco presente silencia,
invisível alambique a destilar
esquecimento e ternura.

Só o céu, o mesmo céu azul e frio,
nos envolve com o mesmo manto de silêncios,
nos contamina com o que nada mais é,
e falamos.
Ou talvez calemos, não sabendo
se tremeremos inquietos pelo passado
ou pelo futuro, não sabendo
que perguntas acordarão o gênio maligno
que Salomão aprisionou na garrafa
e o jogou no esquecimento do oceano.

Algum dia seremos também punidos
com o eterno desaparecimento,
tudo será deserto à nossa volta,
tudo será esquecido. Então, alguém,
passando por alguma estrada se interrogará
sobre os mundos desaparecidos
e sobre os que os habitavam.
E nós também os olharemos,
invisíveis.

837
Susana Pestana

Susana Pestana

Uma Lágrima

Passou por mim uma voz
Um estoiro!
Equilibrado na luz do dia
derradeiras esperanças
mostradas pela realidade acordada
Um despertar sem aviso
Um olhar entreaberto nas metades agitadas.
de um dia adulto...
O brilho nos olhos
Infantilidades adormecidas!

Tu

Criança que espreitas às escondidas
dentro da minha vida num quarto pequeno.
De olhos arregalados
Congelados num momento de dor
em feridas que se deslizam
no despertar de uma lágrima que não rola.
Uma apenas!
Sabedora lágrima que és, minha amiga
foge desse olhar arranhado pelos anos
e sobrevoa por galhos rijos e carinhosos.
vultos aquecidos por momentos.
Cresce por fora
voa!

826
Jorge Viegas

Jorge Viegas

Sonho Azul

Voando
fechado no tempo,
Encontro momentos à muito perdidos.
Nos vales do paraíso
Infiltro a magia da liberdade
Nas veias da imaginação
E navego pela leveza do esplendor.
Acendo a tocha da reflexão
Embalo os sentimentos nos fluidos do silêncio
E abro a janela da criação

Vem comigo desvendar os mistérios da primavera
Delicadamente sentada no brilho das águas cristalinas,
Vaguear por entre os sons da inocência
E saborear a profundidade da beleza do carinho.
Vem decifrar as doces linhas dos enigmas
Que se escondem na beleza dos murmúrios do vento
E nas cores quentes do por do sol.
Vem percorrer as ondas do magnetismo absorvente
Do brilho dos olhares apaixonados pela sensual motivação
Da união de dois sentimentos.
Vem absorver essas gotas criadoras de sonhos interruptos
Que derrubam montanhas inexploráveis
Criando riachos por onde deslizas delicadamente deitada.
Vem provar o amor.

1 616
Mariana Ianelli

Mariana Ianelli

Reminiscência

Esquecemos
o tema.
Ele fende a madeira, bordando delicado as arestas,
eu trato a colheita debaixo do cordão da aragem.
Nada nos pertence - últimos mandamentos,
o dever e o tédio dos dias,
famílias lendárias, ironia.
Estamos de volta à beira dos mundos
e sob o pano se aquieta a razão
da nossa continuidade secreta.
A geada bate na terra, desatina as séries da fome
e nós não desanimamos.
Todo tempo pela coragem da maior renúncia,
todo tempo de hoje arrancado de falsas glórias.
Ele talha a madeira, aparando com bom jeito as margens,
eu escolho as raízes, separo a polpa da casca.
Alguma diferença estrita em nós
surpreende a imprudência da fuga,
um mistério não comentado,
uma ambição impedida de voltar ao passado
que tínhamos matado no tempo por um golpe de sorte.
Não perguntamos pela mãe deixada na ponta da história.
Assim foi resolvido.
Mortos, quebrados ao meio.
Revemos os exércitos calmos,
a conformação de milhares, o vírus temerário.
E nenhum reconhecimento é nosso,
a cela terrível dos anos, o verbo régio da tradição.
Na tarde isolada do terceiro dia,
nós renascemos do ácido.

737
Andres Provi Pereira

Andres Provi Pereira

Mia, Vulevo a ti

luego...

Mía, vuelvo
a tí luego de los años de ausencia camino por doquier mis pies me guien
y me hiere la nostalgia que piensa en el ayer, ese ayer de aventuras
y locuras juveniles que tejieron ilusiones en cada tarde de arena y
frente al mar cromado una vez más siento la brisa serena Mía, los días
y los años de milejanía te han cambiado, más hermosa y madura eres,
camino por tus calles llenas de recuerdos y las esquinas aún conservan
las travesuras de mi infancia y los días tempranos de la adolescensia.
Hoy te palpo y a los ojos puedo mirarte, tus lágrimas se confunden con
las mías y se que amas mi presencia. Mía, cómo no amarte, cómo estar
lejos y no adorarte si de ti mi vida está llena, mi vida está formada.
Llevo muy dentro el amor de tus raíces y tu dulce savia a hago mía y
me hago tuyo, se que amas mi presencia. Cómo olvidarte, en ti están
mis días de la secundaria, hoy recorro las aulas, hay tanto de mí y
los pupitres me recuerdan, mi lugar favorito, la cueva de rocas, hoy
está solitaria. Mía, tus palmeras y el sol ardiente me recuerdan las
tardes domingueras cuando tu mar me cubría de alegría, cuando sumergido
en tus aguas de colores buscaba la barracuda que Simón tantas veces
pregonaba, tiene ojos verdes, lágrimas azules y es hermosa, la busque
y nunca, nunca pude hallarla. Te amaré por siempre mía, perla del mar
olorosa.

850
Odete Silva

Odete Silva

Tempo


razão para mudar o tempo
mas, há razão para querer pará-lo.

Há razão para matar o tempo
como há razão para sonhá-lo

Há razão para existir no tempo
razão também há para ele existir, somente

Porém, há uma razão maior:
a de tornar infinito
o pouco que resta do tempo.

607
Jorge Viegas

Jorge Viegas

Saudade

Pairam ascendentes seduções
Nas formas cor de purpura
Da mística brisa distante.

Suaves recordações
Invisíveis fontes puras
Acordam na memória viajante.

Saudade,
Aquele calor sensível
Que se esconde no forro íntimo do sentimento

Aquela onda suave
Que refresca os horizontes da verdade

Aquele arrepio simples
Que se estende pelos sentidos da memória

Aquela fita silenciosa
Que se projecta no interior do peito

Aquele ardor nostálgico
Que se instala na serenidade do horizonte

Aquele murmúrio terno
Que ilumina a canção do olhar

Aquela seiva melancólica
Que alimenta os rios intermináveis do corpo

Há muito que não vejo
Aquele olhar radiante
Sorvendo a sensualidade do ar.

1 253
Nuno Filipe Torres Dias

Nuno Filipe Torres Dias

A Ti

O dia abstém-se
com o fulgor da aurora,
Entre azáfama das gentes
Que murmuram cansaço de outrora
E eu perdido nos teus olhos comoventes.
A noite faz-se durante horas
Com um toque de fundo das nascentes,
Que procuram o seu destino entre vidas abstinentes.
E eu perdido na magia do teu sorriso, querendo saber onde moras.
Assim, faz-se vinte e quatro horas,
Numa admiração incessante da tua graça, Onde o sentimento não se desfaça.

E, com os olhos postos em ti, pensares vagueiam em mim,
Com palpitações que se confundem com crateras vivas.
Por isso, vejo-te como começo e fim.

1 075
Emídia Felipe

Emídia Felipe

A Janela do Teu Quarto

Da janela do teu quarto
Dá pra ver quase o mundo inteiro
E os teus retratos
Recortes e colagens
Que formam a paisagem de você
Deixa o sol entrar
Então posso lembrar
Que há um só lugar
Em que deveríamos estar
Posso ver até o que perdemos
Por deixar que o tempo
Fizesse a gente esquecer o que era sagrado
Que deixou a correnteza te levar
Pro lado errado
Coisas do passado
Promessas de melhoras
Beijos e abraços
Da janela do teu quarto.
815
Antonio Rogerio Czelusniak

Antonio Rogerio Czelusniak

Vôo

Num voo
sem destino
desabalo carreiras sem fim
procuro pousada
negam abrigo
eu....
pássaro ferido
pela mão
pela arma
pelo não.
Voarei uma eternidade
descansarei na saudade
morrerei
ao alvorecer.

336
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Olhos iguais, outro olhar

Olhos iguais, outro olhar,
Silêncios da mesma voz,
Memória vaga e lunar
Do sol que fôssemos nós...

Assim erramos incertos,
Juntos, distantes, cansados,
Mordendo o pó nos desertos
Onde houve relvas e prados.

E a Vida escoa-se, enquanto
O tempo, alheio à vontade,
Deslisa, remoto pranto
Duma tranquila orfandade.

1 768
Luiz Felipe Coelho

Luiz Felipe Coelho

E na ausência surgiu a vida

A ausência
era um gigantesco bloco,
estarrecedor desprezo ao fluxo do tempo.
Orquídeas habitavam suas fendas,
confraternizavam com as samambaias,
delirando bebadas da úmida verdade da Terra,
buscando a luz do Sol,
o vento e os pássaros.

Admirei-a, espantoso nada,
cadeira vazia, transparente janela a ressoar
nas breves melodias ensinadas pelo vento,
aprisionando o Universo do lado de dentro,
enquanto fabricava a vida e, aos poucos,
consegui enxergar sua totalidade,
o quase vazio onde cometas de luz nasciam.

Contornei a ausência por dentro de mim,
até vislumbrar sua interna clareira,
ninho de ventos a desabrochar,
e onde começava uma dura construção,
uma alegre doação.
Silenciei então e os ecos adormeceram,
grávidos de espanto.
702
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Ânfora fui

Ânfora fui;
O seu cadáver sou.

Emparedada neste museu,
Pasto do pó e dos olhares
Que não perscrutam a minha mágoa,
Eu sou quem fui,
Menos o fim que alguém me deu,
De conter vinho e mel e água...

Enfim, eu não sou nada,
Que há muito já se não propaga a mim
O calor de uma anca,
E o meu fresco conteúdo
Não encontra uma boca
E uma sede não estanca.

Do oleiro que me fez
- A poeira, talvez
Dispersa e reunida,
A contenha outra vida
Ou outra ânfora... -
Nem memória persiste do seu nome.

1 801
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

De Copélia guardo três cartas melancólicas

De Copélia guardo três cartas melancólicas,
Um laço e, de uma rosa
Que o perfume aprendeu nos seus cabelos,
Um esvaído botão.
Evade-se do todo um halo a antigo, triste.
Claro que Copélia não existe
E as cartas também não.
Só é real porque me falta.
Porque a não tive creio nela e creio
Na memória de quem foi no meu passado;
Nos passeios furtivos que tivemos;
Nos astros que pusemos
Nalgum beijo trocado;
Na exaltação de certa dança, alada
Na sensação de que uma nuvem me enlaçasse;
E na suave e pura e filtrada emoção
De alguma vez que a sua mão
Entre as minhas tardasse.
Esta é Copélia a quem, se acaso dado fosse
Nascer ou ter vivido,
Rígido pai ma recusasse,
Lírico mal ma arrebatasse
Sem a ter possuído,
Para que doutro ou morta virgem
Ilesa e viva dentro de mim permanecesse.

1 747