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Poemas neste tema

Odylo Costa Filho

Odylo Costa Filho

A Onça

Um dia... Eu lhes conto?
Não lhes conto nada...
Quis subir ao Céu
uma onça-pintada.

Estava morrendo
de arrependimento?
Ou queria apenas
ver o firmamento?

Todos os bichinhos
tinham medo dela.
Onça? Nem pintada,
nem preta ou amarela.

Vai Jesus menino,
deu-a a São Francisco.
Virou num gatinho
chamado Corisco.


In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
1 918
Rubens Rodrigues Torres Filho

Rubens Rodrigues Torres Filho

Clorofila

Verde mar, verde rio e verde pranto
que choveria em verdes matas prisioneiras
aprisionadas neste longo e frio amante
que fui, para nós dois, na sexta-feira
da solidão.

As borboletas lúcidas na treva
que por artes de ausência vêm caindo
em chuvas-lantejoulas vão cobrindo
as lajes destes bosques, clorofila
irrespirável.

São páginas colhidas, escolhidas
que este vazio por dentro desescreve
e o tempo reinscreve do outro lado.
E nós, por dois ou três, unidos por engano,
partilhamos o frio, que só nos damos
sob condição, à espreita ou de tocaia.

Por trás do olhar dos lírios vai roendo
algum sutil inseto iluminado
que sabe dos desertos e a cavá-los
galopa nesse nada que o devora.


In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
1 596
Régis Bonvicino

Régis Bonvicino

Mário Carlos Virardo

mário carlos virardo
chamado mário pintor
não pintava para o deleite burguês
declarava
no cartão de visitas
o cgc

a calça manchada de tinta
a camisa xadrez
mais para aquele velho volpi
do que para quem vive à cata de freguês
(vaquinha de presépio
galerias nova york milão paris
o tipo que quando fala
não fala com o próprio nariz)

pintava portas que se abriam
janelas

o dia a dia
onde o óleo se mistura com os olhos da vida

vivia na vila olímpia
subdistrito do itaim
exalava no cheiro da roupa
alma limpa de solidão boa

não eram
investimentos em dólares
mas quadros
que permanecem na memória
como pai ou mãe


In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987
1 316
Claudio Willer

Claudio Willer

Poema Transparente

Agora você treme observada pelas paredes do seu próprio quarto
agora você espreita atravessada pelo último aguilhão do cansaço
em um tempo sem memória
um tempo que é um punhal atravessado nos intestinos
um tempo em que nenhum sobressalto
deixará de aparecer sob forma de monstro adormecido
quando as últimas guerras forjam o grande rodamoinho
a alma é vibrada em todas as suas cordas
agora você está você espreita você busca
pelas estações desertas
pelas fendas do musgo
pelos assoalhos de cinza
pelas multidões que gritam
no entanto você ainda escuta
tem o pressentimento do beijo comprimido entre paredes
e sabe coisas sobre a mão que pode emergir da lava


In: WILLER, Claudio. Dias circulares. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1976
1 210
Régis Bonvicino

Régis Bonvicino

O Tempo

O tempo foi de encontro
ao galho da quaresmeira
podre, no chão,
depois da chuva

Folhas murchas
de outra árvore
encurvadas pelo calor
como mãos fechadas

Menos vivas,
agora, as cores da estrelitzia

O portão da casa,
não lembra seu primeiro dia

Um buraco
exauriu
um pedaço de asfalto

O vermelho,
do automóvel na esquina

Os azuis em tons,
na fachada do edifício,
quase invisíveis

Grafites coloridos nos muros,
tampouco
poupados pelo tempo,
tornaram-se ilegíveis


Poema integrante da série Um.

In: BONVICINO, Régis. Outros poemas, 1990/1992. São Paulo: Iluminuras, 1993
1 290
Odylo Costa Filho

Odylo Costa Filho

Soneto do Pantanal

Este jardim me lembra outro jardim
Marly de Oliveira

Este jardim me lembra outro jardim,
esta janela outra janela obscura,
e nos mundos sem fim mundo sem fim,
e após o mergulhar da escada escura,

uma aurora de plantas e de garças,
porto de bois, cavalos e meninos,
ninhos pendentes de árvores esparsas,
nos grandes céus os astros pequeninos

e as aves em cardumes navegantes,
rios róseos nas asas inaudíveis,
gritos, cantos cruzados pelo espaço,

mundo de ervas e de águas, onde dantes
os homens eram duros, mas sensíveis,
e a vereda no campo era seu traço.


In: COSTA, FILHO, Odylo. Notícias de amor. Il. Nazareth Costa. Rio de Janeiro: Artenova; Brasília: INL, 1977
1 537
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Não Mudamos

pena

não mudamos

o tempo

escorreu
água entre
os dedos

pena

pássaros coloridos alcançam as nuvens
todos os dias
ficamos

Raízes.


In: ARRUDA, Eunice. Os momentos. Pref. Álvaro Alves de Faria. São Paulo: Nobel: Secretaria de Estado da Cultura, 1981
852
Claudio Willer

Claudio Willer

Sobre os 40 Anos da Morte de García Lorca (1936-1976)

Eu vi pouca coisa nos jornais & revistas sobre os 40 anos
da morte de García Lorca
algumas manifestações e homenagens, & uma notícia interessante
(na Veja) detalhando as circunstâncias — só isso
o resto, notas esparsas perdidas nos textos
quase ninguém lembrou
passou despercebido
ninguém disse nada
ninguém quis lembrar
porque as pessoas não querem mais lembrar
e desistiram de falar
pois esta é a era do silêncio
silêncio de covas rasas e túmulos lacrados e circunscritos
silêncio vigiado e preso
silêncio de poeiras há pouco assentadas
pois todos estão mudos e perplexos
alguns mortos incomodam demais
e ninguém quer saber
ninguém quer ver
ninguém quer saber o que tem a ver
apenas este silêncio selado esponjoso grávido
de escorpiões & maresias & tempos & memórias
.& vítimas do fascismo
(...)


In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981. Poema integrante da série Sobre García Lorca.
1 116
Max Martins

Max Martins

O Fazedor de Chuva

(Ou os Xumucuís do Sarubi)

Vai Sarubi sarubindo
magiôcos xumucuís de tala
— Sarub'indo ala?

— Fala
de garça voando e fins de tarde
Curumins de cócoras
Beira de rios
Bilros
tecendo fios
de chuva
— Se calhar não chove?

— Chove nas palhas
Chove nas calhas
Chove nas cuias
uns cuís de chuva
Xuís Xuás

E xororós caindo
vai Saru bulindo
bolinando a chuva


Publicado no livro O Risco Subscrito (1980).

In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. p.215. (Verso & reverso, 2
1 887
Stella Leonardos

Stella Leonardos

Dois Temas para Debret

I

Pequeno príncipe, via
preso às janelas do Paço
o Rio onde já vivia.
Ah ser livre em mais espaço!

Das janelas via o largo
e, no largo, o chafariz.
Além do largo, o horizonte
— horizonte longilargo
de larguíssimo matiz.

Salpicados dágua doce,
os negros vinham cantando,
carregados de barris.

"Ei ê, qui foi, na fonte.
Ei ê, qui foi, na fonte.
Sinhora me disse
qui foi na fonte,
qui foi na fonte
Sinhora me disse
qui foi na fonte
com dois barri:
qui foi na fonte Sinhora me disse
com dois barri.
Ee ê ei ê."

E do cais e da baía
pescadores aportavam
nos barcos de maresia
contando aos ventos e às gentes
grandes pescas de baleia.

Se negros, afrocantavam
no ritmo de arpão afiado
e vozes de maré cheia:

"Mara, mara mdimba, auê ia ia auê,
mdimba urira,
mara, mara mdimba, auê ia ia auê".

Salpicando-se do sal
e do sol mares braveza.


In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro da Abolição: poesia. São Paulo: Melhoramentos, 1986
1 134
Lila Ripoll

Lila Ripoll

No Casarão

Nasci num casarão velho, de esquina,
Escondido entre salsos pensativos.
E foi lá que a minha alma, ainda menina,
Olhando dia e noite os poentes vivos,
Aprendeu a viajar no pensamento.
Eu fui uma criança sem infância.
Senti, desde pequena, esse tormento
Que o sonho traz depois de cada ânsia,
E que é o maior dos males que conheço!
Às vezes, noite alta, eu levantava,
Vestia minha roupa pelo avesso
E saía sozinha (a lua espiava!)
Para olhar as estrelas e os céus altos...
O quintal era um mundo diferente,
Que eu percorria sem temer assaltos.
Meu corpo, que já era um pobre doente,
Tiritava de frio e de emoção
Quando o vento arrepiava os velhos salsos
Que arrastavam os braços pelo chão...
Meia-noite... Fantasmas... Bruxas brancas...
Eu sozinha vagando pelo escuro...
Minha casa fechada com mil trancas,
E as pedras a cair do velho muro...
Quando a lua fugia, já cansada,
Meus passos, silenciosos, apagados,
Voltavam pelas pedras da calçada
Que a nossa casa tinha de um dos lados.
De manhã: os olhares, as perguntas...
(Eu estava tão branca. Tão sem cor.
As olheiras iguais às de defuntas...)
— "Era o vento!" "Era o frio!" "Era o calor!":
A mentira que achava na ocasião...
E de noite, outra vez, às escondidas,
Abandonava o velho casarão...


Publicado no livro De Mãos Postas (1938).

In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.1
2 004
Gilberto Mendonça Teles

Gilberto Mendonça Teles

Meus Outros Anos

A Maximiano de Carvalho e Silva

Eu me lembro, eu me lembro, Casimiro,
no meu São João, no meu Goiás, na aurora
da minha vida, eu li o teu suspiro,
li teus versos de amor que leio agora.

E que meu filho lê, e todo mundo
sabe de cor, de coração, de ouvido,
desde que sinta o apelo mais profundo
de tudo que tem força e tem sentido.

Contigo comecei a ver e vi
as coisas mais comuns — o natural:
o rio, a bananeira, a juriti
e a tarde que cismava no quintal.

Contigo descobri a travessia
do tempo na manhã, no amor, no medo,
nos olhares da prima que sabia
a dimensão maior do meu brinquedo.

E até este confuso sentimento,
esta idéia de pátria, que persiste,
veio de teus poemas, no momento
em que tudo era belo e apenas triste

era pensar no exílio e ver no termo
um motivo de doença e de pecado;
triste era imaginar o poeta enfermo,
tossindo os seus silêncios no passado.

Eu me lembro, eu me lembro! e quis de perto
ver o teu rio, teu São João, teu lar;
ler a poesia desse céu aberto
que continuas a escrever no mar.


In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 78. Poema integrante da série Sombras da Terra.

NOTA: Referência aos poemas "Amor e Medo", "Juriti", "Meus Oito Anos", "No Lar" e "Suspiros", do livro AS PRIMAVERAS (1859), de Casimiro de Abre
1 570
Alberto da Costa e Silva

Alberto da Costa e Silva

Elegia, outubro de 1950

Sofrer esta infância, esta morte, este início.
As cousas não param. Elas fluem, inquietas,
como velhos rios soluçantes. As flores
que apenas sonhamos em frutos se tornaram.
Sazonar, eis o destino. Porém, não esquecer
a promessa de flores nas sementes dos frutos,
o rosto de teu pai na face do teu filho,
as ondas que voltam sobre as mesmas praias,
noivas desconhecidas a cada novo encontro.
As cousas fluem, não param. As folhas nascem,
as folhas tombam longe, em longínquos jardins.
Em silêncio, vives a infância de teus olhos
e, morto, és tão puro que te tornas menino.


Publicado no livro O parque e outros poemas (1953).

In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.2
1 839
da Costa e Silva

da Costa e Silva

O Carrossel Fantasma

Ganhei o dia a meditar na minha vida,
porque a saudade me levou à longínqua Amarante
que cisma, talvez por mim, debruçada sobre as águas
lentas e sonolentas do Parnaíba
a rolar para o mar como eu para o mistério...
Então, num sonho de criança convalescente,
vem-me à memória o carrossel que fascinava,
no seu giro constante, os meninos de minha idade:
Cesário, Luís, Holanda... meus irmãos Nica e Joca,
na vertigem do carrossel arrebatados tão cedo!

Tal qual o largo da matriz em noites de novena,
meu pensamento se ilumina de uma luz ardente e doce
como a dos balõezinhos pendentes dos arcos verdes,
festonados de folhagens e frementes de bandeirolas...
E vejo, com os olhos de hoje, ao fundo do largo em festa,
o mesmo carrossel ruidoso da minha ruidosa infância,
rodando... rodando... rodando continuadamente...

Eu fui o mais feliz dos meninos do meu tempo:
gastava todas as moedas das imagens que fazia
(já tinha o dom divino de um criador de imagens)
a dar voltas e voltas nos cavalos de madeira,
que galopavam automaticamente, feito cavalos
[árabes...
Era arrogante e destemido que nem os vaqueiros da
[minha terra,
quando galgava o lombo de um desses pégasos sem asas,
mas nem por sombra imaginava o meu destino de
[poeta...

O carrossel parou no largo... mas não pagou na vida...
Continua em meu sonho, rodando... rodando sempre...
E andando e desandando, num ritmo contraditório,
ainda me dá a alegria inevitável de dar voltas...
de girar, de rolar como os astros no espaço,
de elevar-me a um destino superior ao do planeta,
que em torno da sua órbita, como um símbolo, roda...

— Upa! upa! meu pensamento!


In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.318-319. Poema integrante da série Alhambra
2 809
Alberto da Costa e Silva

Alberto da Costa e Silva

Aparição de Fortaleza, setembro de 1950

Ruas e sombras de Fortaleza, meninas doces,
árvores velhas onde esqueci a infância que foi
tão triste e tão pouca, cidade onde o amor
está tombado a teus pés,
frágil e puro
como uma flor.
Onde caminho cercado pelos meus fantasmas,
entregue aos meninos que são o que fui,
embalado pela pureza de minhas próprias palavras,
cansado, tão cansado, Fortaleza,
quase perdido por vos haver perdido.

Roteiros de bicicletas pela Praça do Carmo,
ganhando as distâncias das longas alamedas,
revendo as frágeis moças que passam
na doçura morna das tardes,
recompondo a imagem dos vendeiros encarapitados nos burricos
[mansos,
a suavidade dos contornos, a brisa envolvente, os oscilantes jardins,
os longos e inesperados encontros com o desconhecido,
os pressentimentos de inúteis e infindáveis viagens
do menino triste, sentado no muro, a mãozinha no queixo.

Cidade de meu pai enfermo. Minha cidade.
Cidade onde se pode chorar sobre os muros de saudade.
Cidade feita para as lágrimas e para adeuses,
para as súbitas e inexplicáveis alegrias.
Cidade onde o mar quebra
com o impulso de velhos marinheiros náufragos
que subitamente retornassem à pureza das praias.


Publicado no livro O parque e outros poemas (1953).

In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.2
1 434
Armindo Trevisan

Armindo Trevisan

Elegia 9

No enxame
dos dedos

a água cerze orifícios.

Noite fora a lua afia pastagens.

Molda-se a argila do corpo
com lágrimas.

Outra precisão,
outra imobilidade:

a do pião
na retina
de uma criança.


In: TREVISAN, Armindo. A mesa do silêncio. Porto Alegre: L± Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Os Velhos
1 050
Gilberto Mendonça Teles

Gilberto Mendonça Teles

Era um moinho sem vento

Era um moinho sem vento,
uma palmeira sem chão,
estrela sem firmamento,
tristeza sem solidão.

(Queria agarrar o tempo,
vê-lo na palma da mão.
Ir ao contrário volvendo-o,
fechá-lo no seu galpão.
Depois soltá-lo em silêncio,
segui-lo na direção
que a vida com seus inventos
perdeu em libertação.)

Deu o vento no moinho,
teve a palmeira seu chão,
teve a estrela o seu caminho
e a tristeza, a solidão.

(Tentou gritar que era tarde,
que a vida perdia em vão.
Veio um anjo de alvaiade,
cantou-lhe alguma canção.
Depois olhou-o espantado,
jogou as asas no chão,
tirou a rosa dos lábios
e pôs-lhe o tempo na mão.)


Publicado no livro Sintaxe invisível (1967).

In: TELES, Gilberto Mendonça. Os melhores poemas. Seleção de Luiz Busatto. São Paulo: Global, 1993. p. 54. (Os Melhores poemas, 27
1 850
Armindo Trevisan

Armindo Trevisan

Funilaria no Ar X

Vamos, irmão, de mãos dadas,
trazer o que no sótão amadureceu
para este momento de palavra e gume,
de melancolia enfiada no sangue.

Vamos, sem tardança, adoecer de instinto,
para que o comprido de nossa exigência
abarque a brevidade de quinhentos anos.
Estou contigo, dá-me a tua mão, sempre.

Vamos até à certeza de que o tremor
da terra que sacudiu a primeira manhã,
e a perdemos por ser infantes,
ressuscite em nós, seja um longo compromisso.

Vamos regredir, se preciso for, somos jovens,
o negro não nos doeu demais na carne,
nem o canibal arreganhou nossa ciência.
Ali estão, neles, os desmandos apetecidos.

Poderemos, por instante, escrever nossos nomes,
as mãos dadas são dadas também quando se separam;
mas as mãos caminham pelos pés, se a estes
incumbe o apoio sem o qual só pensamos.

Demo-nos as palavras, uns aos outros, irmão,
as palavras farejam o álcool da guerra,
cada guerra que se cogita traz dentro do peito
outra guerra maior, a guerra consigo mesmo.

Vamos, irmão! A funilaria está marcada
pela lata que se torce, enferruja, mas corta.
De poesia também se amassa o pão que empurra
o caminho preparado no silêncio do dia.


In: TREVISAN, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Movimento; Brasília: INL, 1973. (Poesia Sul, 7)
1 145
Stella Leonardos

Stella Leonardos

Serenata em Vila Rica

"Pisar com carinho as ruas/ que o Aleijadinho
pisou/ marcando-as com sua força/ como se
essas ruas fossem/ lotes de pedra-sabão."

Henriqueta Lisboa
Pisar com carinho as ruas
que o Aleijadinho pisou
e onde serestas flutuam.

Pisar com carinho as ruas
que o Aleijadinho pisou
marcando-as com sua força
à força de frustração.

Como se as ruas não fossem
de pedra e as pedras não fossem
pedaços de coração.


In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
1 054
Alberto da Costa e Silva

Alberto da Costa e Silva

Flumen, Fluminis, setembro de 1950

Ouçamos o fluir deste curso de rio
entre velhos muros imóveis de fadiga
não apenas meras lajes limitadas e cinzentas
mas pedras tristes e calmas
entre as quais escorre o límpido silêncio
da água que flui sobre a nudez
pura da morte

em nenhuma outra fonte, o cansaço
de ser manhã quando a noite se debruça
sobre nós, sofreremos
pois tão estranhos seremos ao murmúrio
de suas águas veladas
à música que nada anuncia a não ser primaveras
como agora, sôfregos, nos reclinamos
sobre o líquido móvel deste rio que leva
para o mar distante e irrevelado
estas formas maduras e tranqüilas
este sopro perfeito
daquilo que foi apenas o fugidio e precário pó.


Publicado no livro O parque e outros poemas (1953).

In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.2
1 626
José Bonifácio, o Moço

José Bonifácio, o Moço

A Camões

Entre dois sonhos — lida mal sonhada —
De fantasias mil a fantasia
Viveu, como sua alma desvivia
De seus fundos cuidados mal cuidada.

Em lembrança da pátria deslembrada
A glória sua e a glória dela erguia;
Escura noite lhe surgira um dia
Na viva luz da formosura amada.

Partido o coração, a alma partida
Naqueles sonhos, vasta imensidade,
Era-lhe a vida morte e a morte, vida!

Hoje renasce a imortal saudade:
Tem nos versos a pátria aos céus erguida,
E o seu amor num templo — a eternidade.


In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. (Poesia, 5).

NOTA: Poema publicado na Revista Brasileira, 10 jun. 188
1 442
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Fim do dia (no lado quente da saudade)

Esperei-te no fim de um dia cansado
À mesa do café de sempre
O fumo, o calor e o mesmo quadro
Na parede já azul poente
Alguém me sorri do balcão corrido
Alguém que me faz sentir
Que há lugares que são pequenos abrigos
Para onde podemos sempre fugir

Da tarde tão fria há gente que chega
E toma um café apressado
E há os que entram com o olhar perdido
À procura do futuro no avesso do passado

O tempo endurece qualquer armadura
E às vezes custa arrancar
Muralhas erguidas à volta do peito
Que não deixam partir nem deixam chegar

O escuro lá fora incendeia as estrelas
As janelas, os olhares, as ruas
Cá dentro o calor conforta os sentidos
Num pequeno reflexo da lua

Enquanto espero percorro os sinais
Do que fomos que ainda resiste
As marcas deixadas na alma e na pele
Do que foi feliz e do que foi triste

Sabe bem voltar-te a ver
Sabe bem quando estás ao meu lado
Quando o tempo me esvazia
Sabe bem o teu braço fechado

E tudo o que me dás quando és
Guarida junto à tempestade
Os rumos para caminhar
No lado quente da saudade
1 209
Augusto Frederico Schmidt

Augusto Frederico Schmidt

Apocalipse

As velas estão abertas como luzes.
As ondas crespas cantam porque o vento as afogou.
As estrelas estão dependuradas no céu e oscilam.
Nós as veremos descer ao mar como lágrimas.
As estrelas frias se desprenderão do céu
E ficarão boiando, as mãos brancas inertes, sobre as águas
[frias.
As estrelas serão arrastadas pelas correntes boiando nas
[águas imensas.
Seus olhos estarão fechados docemente
E seus seios se elevarão gelados e enormes
Sobre o escuro do tempo.


Publicado no livro Canto da Noite (1934).

In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1956
2 055
Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo

Poesia da Presença Invisível

Através do quadro iluminado da janela
Olho as grandes nuvens que chegaram do Oriente
E me lembro dos homens que seriam meus amigos
Se eu tivesse nascido em Cingapura.

E aqueles que estiveram comigo nas horas concluídas
Ainda impressionam o ar
— Todos eles perderam-se no mar.

Agora, na praia deserta estou sozinho
— Caminho
Com os pés descalços na areia.

Nesta tarde morta o perfume das almas
Invade as enseadas, estende-se sobre os rios, paira sobre as
[colinas

— A Natureza assume a precária presença de um sonho;
Um trem corre sereno na planície dos homens ausentes;
Do fundo de minha memória sobe um canto de guitarras
[confusas;

Sinto correr de minha boca um rio de sombra,
A sombra contínua e suave da Noite.


Publicado no livro Poemas (1947).

In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.18-19
1 410