Amor
Poemas neste tema
Lois Pereiro
Somentes
Somentes
intentaba conseguir
deixar na terra
algo de min que me sobrevivise
sabendo que deberia ter sabido
impedirme a min mesmo
descubrir que só fun un interludio
atroz entre dous muros de silencio
só puiden evitar vivindo á sombra
inocularlle para sempre a quen amaba
doses letais do amor que envelenaba
a súa alma cunha dor eterna
sustituíndo o desexo polo exilio
iniciei a viaxe sen retorno
deixándome levar sen resistencia
ó fondo dunha interna
aniquilación chea de nostalxia.
intentaba conseguir
deixar na terra
algo de min que me sobrevivise
sabendo que deberia ter sabido
impedirme a min mesmo
descubrir que só fun un interludio
atroz entre dous muros de silencio
só puiden evitar vivindo á sombra
inocularlle para sempre a quen amaba
doses letais do amor que envelenaba
a súa alma cunha dor eterna
sustituíndo o desexo polo exilio
iniciei a viaxe sen retorno
deixándome levar sen resistencia
ó fondo dunha interna
aniquilación chea de nostalxia.
1 160
Maria Ângela Alvim
Sempre distante amor e perto anseio
Sempre distante amor e perto anseio,
e triste descambar do adeus e a ida
em promessa que apenas prometida
tanto levou do ser que o fez alheio.
De outra morte morrer, opõe receio?
Morre um morto após si, já em seguida
à perda ao largo de alma tão perdida?
Mortos são os que morrem vida em meio.
São os vivos de amor, que amor esquece,
e, súbito, na morte amadurece
antes de tudo mais que vai morrendo.
Feridos numa dor que está vivendo
no arrastar em gemido e em passo tardo,
ter sido, mais que ser, terrível fardo.
e triste descambar do adeus e a ida
em promessa que apenas prometida
tanto levou do ser que o fez alheio.
De outra morte morrer, opõe receio?
Morre um morto após si, já em seguida
à perda ao largo de alma tão perdida?
Mortos são os que morrem vida em meio.
São os vivos de amor, que amor esquece,
e, súbito, na morte amadurece
antes de tudo mais que vai morrendo.
Feridos numa dor que está vivendo
no arrastar em gemido e em passo tardo,
ter sido, mais que ser, terrível fardo.
857
Lois Pereiro
Luz e sombras de amor resucitado
Tristemente convivo coa túa ausencia
sobrevivo á distancia que nos nega
mentres bordeo a fronteira entre dous mundos
sen decidir cal deles pode darme
a calma que me esixo para amarte
sen sufrir pola túa indiferencia
a miña retirada preventiva
dunha batalla que xa sei perdida
resolto a non entrar xamais en ti
pero non á tortura de evitarte.
sobrevivo á distancia que nos nega
mentres bordeo a fronteira entre dous mundos
sen decidir cal deles pode darme
a calma que me esixo para amarte
sen sufrir pola túa indiferencia
a miña retirada preventiva
dunha batalla que xa sei perdida
resolto a non entrar xamais en ti
pero non á tortura de evitarte.
1 247
Akiko Yosano
Tanka VI
Quando um rapaz entra
pelo portão da perfumaria
numa noite de luar na primavera
na Kyoto de baixo
penso: que meigo!
pelo portão da perfumaria
numa noite de luar na primavera
na Kyoto de baixo
penso: que meigo!
805
Xavier Villaurrutia
Inventar a verdade
Faço atento o ouvido ao peito,
como, na praia, o caracol ao mar.
Ouço meu coração latir sangrando
e sempre e nunca igual.
Sei por quem ele late assim, mas não posso
dizer o porquê será.
Se começasse a dizê-lo com fantasmas
de palavras e enganos, ao acaso,
chegaria, tremendo de surpresa,
a inventar a verdade.
Quando fingi que te amava, não sabia
que já te amava!
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Inventar la verdad
Xavier Villaurrutia
Pongo el oído atento al pecho,
como, en la orilla, el caracol al mar.
Oigo mi corazón latir sangrando
y siempre y nunca igual.
Sé por quién late así, pero no puedo
decir por qué será.
Si empezara a decirlo con fantasmas
de palabras y engaños, al azar,
llegaría, temblando de sorpresa,
a inventar la verdad:
¡Cuando fingí quererte, no sabía
que te quería ya!
como, na praia, o caracol ao mar.
Ouço meu coração latir sangrando
e sempre e nunca igual.
Sei por quem ele late assim, mas não posso
dizer o porquê será.
Se começasse a dizê-lo com fantasmas
de palavras e enganos, ao acaso,
chegaria, tremendo de surpresa,
a inventar a verdade.
Quando fingi que te amava, não sabia
que já te amava!
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Inventar la verdad
Xavier Villaurrutia
Pongo el oído atento al pecho,
como, en la orilla, el caracol al mar.
Oigo mi corazón latir sangrando
y siempre y nunca igual.
Sé por quién late así, pero no puedo
decir por qué será.
Si empezara a decirlo con fantasmas
de palabras y engaños, al azar,
llegaría, temblando de sorpresa,
a inventar la verdad:
¡Cuando fingí quererte, no sabía
que te quería ya!
678
Erich Fried
Limite do desespero
Eu tenho tanto amor por você
que já nem sei mais
se tenho por você tanto amor
ou se tenho mesmo é medo
se tenho mesmo é medo de ver
o que sem você
sobraria de minha vida
ainda em vida
Para que ainda me lavar
para que desejar a saúde
para que ter curiosidades
para que escrever
para que ainda querer ajudar
para que da corrente de mentiras
e horrores ainda irradiar a verdade
sem você
Talvez sim porque você existe
e outros seres ainda
como você haverá
e isso tudo também sem mim
:
Grenze der Verzweiflung
Ich habe Dich so lieb
daß ich nicht mehr weiß
ob ich Dich so lieb habe
oder ob ich mich fürchte
ob ich mich fürchte zu sehen
was ohne Dich
von meinem Leben
noch am Leben bliebe
Wozu mich noch waschen
wozu noch gesund werden wollen
wozu noch neugierig sein
wozu noch schreiben
wozu noch helfen wollen
wozu aus den Strähnen von Lügen
und Greueln noch Wahrheit ausstrählen
ohne Dich
Vielleicht doch weil es Dich gibt
und weil es noch Menschen
wie Du geben wird
und das auch ohne mich
que já nem sei mais
se tenho por você tanto amor
ou se tenho mesmo é medo
se tenho mesmo é medo de ver
o que sem você
sobraria de minha vida
ainda em vida
Para que ainda me lavar
para que desejar a saúde
para que ter curiosidades
para que escrever
para que ainda querer ajudar
para que da corrente de mentiras
e horrores ainda irradiar a verdade
sem você
Talvez sim porque você existe
e outros seres ainda
como você haverá
e isso tudo também sem mim
:
Grenze der Verzweiflung
Ich habe Dich so lieb
daß ich nicht mehr weiß
ob ich Dich so lieb habe
oder ob ich mich fürchte
ob ich mich fürchte zu sehen
was ohne Dich
von meinem Leben
noch am Leben bliebe
Wozu mich noch waschen
wozu noch gesund werden wollen
wozu noch neugierig sein
wozu noch schreiben
wozu noch helfen wollen
wozu aus den Strähnen von Lügen
und Greueln noch Wahrheit ausstrählen
ohne Dich
Vielleicht doch weil es Dich gibt
und weil es noch Menschen
wie Du geben wird
und das auch ohne mich
798
Vitorino Nemésio
Quando Toda és Terra a Terra
Marga, teu busto tufa,
Dois gomos e véus de ilhal
Palpitam palmo de gente
Nesse tefe-tefe igual
E há qualquer coisa de ardente
Que se endireita e que rufa
Nem tambor a general.
Marga, teu peitinho estringes,
Toca a quebrados na praça
De armas que empunham rapazes
De guarda a uma egípcia esfinge,
E um vento de guerra passa
E o pau da bandeira ringe
Antes de fazer as pazes.
Marga, que deusa de guerra,
A Miosótis se interpôs
Quando toda és terra a terra
Cálice de rododendro
Zango nunca em ti se pôs
Em estames senão tremendo...
Dois gomos e véus de ilhal
Palpitam palmo de gente
Nesse tefe-tefe igual
E há qualquer coisa de ardente
Que se endireita e que rufa
Nem tambor a general.
Marga, teu peitinho estringes,
Toca a quebrados na praça
De armas que empunham rapazes
De guarda a uma egípcia esfinge,
E um vento de guerra passa
E o pau da bandeira ringe
Antes de fazer as pazes.
Marga, que deusa de guerra,
A Miosótis se interpôs
Quando toda és terra a terra
Cálice de rododendro
Zango nunca em ti se pôs
Em estames senão tremendo...
1 229
Caio Valério Catulo
51.
Ele me parece igual a um deus,
ele – que digo? – até supera os deuses,
que, sentado à tua frente, sem parar
te olha e te escuta
o doce riso; ai, ai, pobre de mim
que perdi a cabeça: pois assim
que te vi, Lésbia, não sobrou nenhuma
palavra em minha boca e,
a língua imóvel, pelo corpo arde
um fogo lento, os tímpanos tilintam
com a própria vibração, enquanto a noite
apaga a luz dos olhos.
O ócio, Catulo, é o teu veneno;
no ócio exultas, todo te transbordas;
o ócio reinos bem-aventurados
e reis desventurou.
Ille mi par esse deo videtur,
ille, si fas est, superare divos,
qui sedens adversus identidem te
spectat et audit
dulce ridentem, misero quod omnis
eripit sensus mihi: nam simul te,
Lesbia, aspexi, nihil est super mi
vocis in ore,
lingua sed torpet, tenuis sub artus
flamma demanat, sonitu suopte
tintinant aures, gemina teguntur
lumina nocte.
Otium, Catulle, tibi molestum est:
otio exsultas nimiumque gestis:
otium et reges prius et beatas
perdidit urbes.
ele – que digo? – até supera os deuses,
que, sentado à tua frente, sem parar
te olha e te escuta
o doce riso; ai, ai, pobre de mim
que perdi a cabeça: pois assim
que te vi, Lésbia, não sobrou nenhuma
palavra em minha boca e,
a língua imóvel, pelo corpo arde
um fogo lento, os tímpanos tilintam
com a própria vibração, enquanto a noite
apaga a luz dos olhos.
O ócio, Catulo, é o teu veneno;
no ócio exultas, todo te transbordas;
o ócio reinos bem-aventurados
e reis desventurou.
Ille mi par esse deo videtur,
ille, si fas est, superare divos,
qui sedens adversus identidem te
spectat et audit
dulce ridentem, misero quod omnis
eripit sensus mihi: nam simul te,
Lesbia, aspexi, nihil est super mi
vocis in ore,
lingua sed torpet, tenuis sub artus
flamma demanat, sonitu suopte
tintinant aures, gemina teguntur
lumina nocte.
Otium, Catulle, tibi molestum est:
otio exsultas nimiumque gestis:
otium et reges prius et beatas
perdidit urbes.
3 100
Lalla Romano
Tua voz distante
Tua voz distante
é solidão
mais do que ausência
Assim vêem o céu
os sepultados
céu branco dos prisioneiros
céu interdito dos cegos
recusado à memória
:
La tua voce lontana
è solitudine
più che l'assenza
Così vedono il cielo
i sepolti
cielo bianco delle prigioni
cielo vietato dei ciechi
negato alla memoria
é solidão
mais do que ausência
Assim vêem o céu
os sepultados
céu branco dos prisioneiros
céu interdito dos cegos
recusado à memória
:
La tua voce lontana
è solitudine
più che l'assenza
Così vedono il cielo
i sepolti
cielo bianco delle prigioni
cielo vietato dei ciechi
negato alla memoria
850
Lúcio Cardoso
Receita de homem
Depois deve ser alto,
sem lembrar o frio estilo da palmeira.
Moreno sem excesso para que se encontre
tons de sol de agosto em seus cabelos.
E nem louro demais para que, de repente
no olhar cintile algo da cigana pátria adormecida.
E que tenha mãos grandes, para demorados carinhos
e adeuses que se retardem ao peso do próprio gesto.
Pés grandes, também, por que não,
para que os regressos sejam breves
e haja resistência para as conjuntas caminhadas.
Os olhos falem, falem sempre, falem
de amor, de ciúme, de morte ou traição.
Mas que falem. Porque o homem sem a música dos olhos
é como sepultura exposta ao sol do meio-dia.
E que o riso relembre um pouco da infância,
para que se tenha, no fervor do beijo,
uma memória de pitanga e amora esmagadas
Ah, o corpo! Sucedam alvoradas ao longo do tórax gentil,
e escureça a penugem até o sexo velado.
(Mas não definitivamente.)
E o seu passo lembre a dança, mas com firmeza,
e o seu rastro fale de perfume, sem perfume
e escorram pausados rios em seus flancos hieráticos.
E que ele cante, sem cantar
por toda a sua humana contextura,
para que também em torno dele as coisas cantem,
quando, como o primeiro homem,
nu ele se erguer defronte ao mar.
sem lembrar o frio estilo da palmeira.
Moreno sem excesso para que se encontre
tons de sol de agosto em seus cabelos.
E nem louro demais para que, de repente
no olhar cintile algo da cigana pátria adormecida.
E que tenha mãos grandes, para demorados carinhos
e adeuses que se retardem ao peso do próprio gesto.
Pés grandes, também, por que não,
para que os regressos sejam breves
e haja resistência para as conjuntas caminhadas.
Os olhos falem, falem sempre, falem
de amor, de ciúme, de morte ou traição.
Mas que falem. Porque o homem sem a música dos olhos
é como sepultura exposta ao sol do meio-dia.
E que o riso relembre um pouco da infância,
para que se tenha, no fervor do beijo,
uma memória de pitanga e amora esmagadas
Ah, o corpo! Sucedam alvoradas ao longo do tórax gentil,
e escureça a penugem até o sexo velado.
(Mas não definitivamente.)
E o seu passo lembre a dança, mas com firmeza,
e o seu rastro fale de perfume, sem perfume
e escorram pausados rios em seus flancos hieráticos.
E que ele cante, sem cantar
por toda a sua humana contextura,
para que também em torno dele as coisas cantem,
quando, como o primeiro homem,
nu ele se erguer defronte ao mar.
2 578
Caio Valério Catulo
Tuas delícias, Flávio, ao teu Catulo
Tuas delícias, Flávio, ao teu Catulo
(exceto as toscas e as deselegantes)
tu querias contar – calar por quê?
Mas sei que amas uma puta infecta
que, tão pudico, teimas em esconder.
Não sei por que o quieto quarto grita
“Flávio não passa as noites num velório”,
ardendo em flores e óleos do oriente:
um travesseiro aqui, ali e além
um som de atrito, e eis um leito trêmulo,
a ranger, que passeia pelo quarto.
Não adianta negar, fazer silêncio;
por quê? – pois não reclamarias tanto
de dor nas costas, se não fornicasses.
Diz-me o que tens de bom, e o que não presta:
que eu quero a ti, e a teus amores todos,
levar ao céu na graça do meu verso.
Flavi, delicias tuas Catullo,
ni sint illepidae atque inelegantes,
velles dicere nec tacere posses.
Verum nescio quid febriculosi
scorti diligis: hoc pudet fateri.
Nam te non viduas iacere noctes
nequiquam tacitum cubile clamat
sertis ac Syrio fragrans olivo,
pulvinusque peraeque et hic et ille
attritus, tremulique quassa lecti
argutatio inambulatioque.
Nam ibi stat. Pudet nihil tacere.
Cur? Non tam latera ecfututa pandas,
ni tu quid facias ineptiarum.
Quare, quidquid habes boni malique,
dic nobis. Volo te ac tuos amores
ad caelum lepido vocare versu.
980
Natália Correia
O Livro dos Amantes
I
Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.
Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.
E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.
II
Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.
III
Príncipe secreto da aventura
em meus olhos um dia começada e finita.
Onda de amargura numa água tranquila.
Flor insegura enlaçada no vento que a suporta.
Pássaro esquivo em meus ombros de aragem
reacendendo em cadência e em passagem
a lua que trazia e que apagou.
IV
Dá-me a tua mão por cima das horas.
Quero-te conciso.
Adão depois do paraíso
errando mais nítido à distância
onde te exalto porque te demoras.
V
Toma o meu corpo transparente
no que ultrapassa tua exigência taciturna
Dou-me arrepiando em tua face
uma aragem nocturna.
Vem contemplar nos meus olhos de vidente
a morte que procuras
nos braços que te possuem para além de ter-te.
Toma-me nesta pureza com ângulos de tragédia.
Fica naquele gosto a sangue
que tem por vezes a boca da inocência.
VI
Aumentámos a vida com palavras
água a correr num fundo tão vazio.
As vidas são histórias aumentadas.
Há que ser rio.
Passámos tanta vez naquela estrada
talvez a curva onde se ilude o mundo.
O amor é ser-se dono e não ter nada.
Mas pede tudo.
VII
Tu pedes-me a noção de ser concreta
num sorriso num gesto no que abstrai
a minha exactidão em estar repleta
do que mais fica quando de mim vai.
Tu pedes-me uma parcela de certeza
um desmentido do meu ser virtual
livre no resultado de pureza
da soma do meu bem e do meu mal.
Deixa-me assim ficar. E tu comigo
sem tempo na viagem de entender
o que persigo quando te persigo.
Deixa-me assim ficar no que consente
a minha alma no gosto de reter-te
essencial. Onde quer que te invente.
VIII
Eis-me sem explicações
crucificada em amor:
a boca o fruto e o sabor.
IX
Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.
Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.
1 259
Caio Valério Catulo
99.
Um selinho mais doce que doce ambrosia,
Juvêncio, te roubei quando brincavas.
Mas não impunemente: pois da cruz mais alta
me vejo, há uma hora ou mais, pendido
pedindo-te perdão, e sem que minhas lágrimas
consigam aplacar a tua ira.
Assim que te beijei, teus dedos delicados
te lavaram o lábio com gotículas,
de modo que do meu no teu não resta nada,
pois julgaste ser mijo, não saliva.
Desde então me castigas com um amor negado,
e de tantas maneiras me excrucias,
que vejo, então, mudado o beijo de ambrosia
em amargor pior que o mesmo amargo;
por um selinho amor assim me castigou:
o que faria, ai, ai, se fossem dois?
Surripui tibi, dum ludis, mellite Iuventi,
suaviolum dulci dulcius ambrosia.
verum id non impune tuli: namque amplius horam
suffixum in summa me memini esse cruce,
dum tibi me purgo nec possum fletibus ullis
tantillum vestrae demere saevitiae.
nam simul id factum est, multis diluta labella
guttis abstersisti omnibus articulis,
ne quicquam nostro contractum ex ore maneret,
tamquam commictae spurca saliva lupae.
praeterea infesto miserum me tradere amori
non cessasti omnique excruciare modo,
ut mi ex ambrosia mutatum iam foret illud
suaviolum tristi tristius elleboro.
quam quoniam poenam misero proponis amori,
numquam iam posthac basia surripiam.
Juvêncio, te roubei quando brincavas.
Mas não impunemente: pois da cruz mais alta
me vejo, há uma hora ou mais, pendido
pedindo-te perdão, e sem que minhas lágrimas
consigam aplacar a tua ira.
Assim que te beijei, teus dedos delicados
te lavaram o lábio com gotículas,
de modo que do meu no teu não resta nada,
pois julgaste ser mijo, não saliva.
Desde então me castigas com um amor negado,
e de tantas maneiras me excrucias,
que vejo, então, mudado o beijo de ambrosia
em amargor pior que o mesmo amargo;
por um selinho amor assim me castigou:
o que faria, ai, ai, se fossem dois?
Surripui tibi, dum ludis, mellite Iuventi,
suaviolum dulci dulcius ambrosia.
verum id non impune tuli: namque amplius horam
suffixum in summa me memini esse cruce,
dum tibi me purgo nec possum fletibus ullis
tantillum vestrae demere saevitiae.
nam simul id factum est, multis diluta labella
guttis abstersisti omnibus articulis,
ne quicquam nostro contractum ex ore maneret,
tamquam commictae spurca saliva lupae.
praeterea infesto miserum me tradere amori
non cessasti omnique excruciare modo,
ut mi ex ambrosia mutatum iam foret illud
suaviolum tristi tristius elleboro.
quam quoniam poenam misero proponis amori,
numquam iam posthac basia surripiam.
1 290
Lalla Romano
Já que um mesmo inimigo
Já que um mesmo inimigo
nos golpeia no escuro
e numa mesma armadilha
tenteamos perdidos
unamos as nossas noites
como os destroços dispersos
de um exército vencido
Será vitória o silêncio:
não requer som o diálogo
se em vez de dois somos um
:
Poichè uno stesso nemico
ci colpisce nel buio
e tra le stesse insidie
brancoliamo smarriti
uniamo le nostre notti
come gli sparsi tronconi
di un exercito in rotta
Sarà vittoria il silenzio:
il colloquio non ha suono
se non siamo due ma uno
nos golpeia no escuro
e numa mesma armadilha
tenteamos perdidos
unamos as nossas noites
como os destroços dispersos
de um exército vencido
Será vitória o silêncio:
não requer som o diálogo
se em vez de dois somos um
:
Poichè uno stesso nemico
ci colpisce nel buio
e tra le stesse insidie
brancoliamo smarriti
uniamo le nostre notti
come gli sparsi tronconi
di un exercito in rotta
Sarà vittoria il silenzio:
il colloquio non ha suono
se non siamo due ma uno
695
Arseni Tarkóvski
Cai a noite sobre as montanhas da Geórgia;
Cai a noite sobre as montanhas da Geórgia;
À minha frente ruge o Aragva.
Estou em paz e triste; há um lampejo em meus suspiros,
Meus suspiros são todos teus,
Teus, e de mais ninguém... Minha melancolia
Está insensível a angústias e apreensões,
E meu coração arde e ama mais uma vez,
Pois nada pode fazer além de amar.
Todo instante que passávamos juntos
Era uma celebração, uma Epifania,
No mundo inteiro, nós os dois sozinhos.
Eras mais audaciosa, mais leve que a asa de um pássaro,
Estonteante como uma vertigem, corrias escada abaixo
Dois degraus por vez, e me conduzias
Por entre lilases úmidos, até teu domínio
No outro lado, para além do espelho.
Enquanto isso o destino seguia nossos passos
Como um louco de navalha na mão.
Arseni Tarkóvski (1907 - 1989)
1 198
Xavier Villaurrutia
Desejo
Amar você com fogo duro e frio.
Amar você sem palavras, sem pausas, silêncios.
Amar você tão-só quando você quiser
e tão-só com a presença muda dos meus atos.
Amar você na ponta da língua e enquanto a mentira
em você não se diferencia da ternura.
Amar você quando finge toda a indiferença
que seu abandono nega, que funde seu calor.
Amar você cada vez que tua pele e boca
procurem minha pele dormindo, minha boca desperta.
Amar você pela solidão, se você me abandona nela.
Amar você pela cólera que acende em meu coração.
E mais que pela alegria e o delírio,
amar você pela angústia e a dúvida.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Deseo
Xavier Villaurrutia
Amarte con un fuego duro y frío.
Amarte sin palabras, sin pausas ni silencios.
Amarte sólo cada vez que quieras,
y sólo con la muda presencia de mis actos.
Amarte a flor de boca y mientras la mentira
no se distinga en ti de la ternura.
Amarte cuando finges toda la indiferencia
que tu abandono niega, que funde tu calor.
Amarte cada vez que tu piel y tu boca
busquen mi piel dormida y mi boca despierta.
Amarte por la soledad, si en ella me dejas.
Amarte por la ira en que mi razón enciendes.
Y, más que por el goce y el delirio,
amarte por la angustia y por la duda.
896
Wisława Szymborska
Estação
Foi com pontualidade
que não cheguei à cidade de N.
Uma carta por enviar
te avisara.
Conseguiste não chegar
à hora prevista.
O comboio parou na linha n. 3.
Saiu imensa gente.
Seguiu na multidão para a saída
a minha ausência.
Tomou apressadamente o meu lugar
um grupo de mulheres
em toda aquela pressa.
Correu para uma delas
alguém que desconheço,
mas que ela reconheceu
de imediato.
Trocaram então ambos
um beijo que não nosso
durante o qual levou sumiço
a mala que não minha.
A estação da cidade de N.
passou sem problemas o exame
de existência objetiva.
Permaneceu no seu lugar o todo,
moveram-se os detalhes
pelos carris previstos.
Chegou mesmo a efectuar-se
o combinado encontro.
Fora do alcance
da nossa presença.
No paraíso perdido
da verossimilhança.
Noutro lugar.
Noutro lugar.
Como elas vibram, estas palavritas.
que não cheguei à cidade de N.
Uma carta por enviar
te avisara.
Conseguiste não chegar
à hora prevista.
O comboio parou na linha n. 3.
Saiu imensa gente.
Seguiu na multidão para a saída
a minha ausência.
Tomou apressadamente o meu lugar
um grupo de mulheres
em toda aquela pressa.
Correu para uma delas
alguém que desconheço,
mas que ela reconheceu
de imediato.
Trocaram então ambos
um beijo que não nosso
durante o qual levou sumiço
a mala que não minha.
A estação da cidade de N.
passou sem problemas o exame
de existência objetiva.
Permaneceu no seu lugar o todo,
moveram-se os detalhes
pelos carris previstos.
Chegou mesmo a efectuar-se
o combinado encontro.
Fora do alcance
da nossa presença.
No paraíso perdido
da verossimilhança.
Noutro lugar.
Noutro lugar.
Como elas vibram, estas palavritas.
1 474
Sembula Peyaneerar
O que ele disse
O que significaria minha mãe
para a tua? Que parentesco tem meu pai
com o teu, afinal? E como
Tu e eu pudemos enfim nos encontrar?
Mas no amor
nossos corações são como a terra rubra
e a chuva torrencial:
mesclados
além da divisão.
(paráfrase de Ricardo Domeneck)
What He Said
What could my mother be
to yours? What kin is my father
to yours anyway? And how
Did you and I meet ever?
But in love
our hearts are as red earth
and pouring rain:
mingled
beyond parting.
-- Cempulappeyanirar, translated by A.K. Ramanujan
661
Pedro Oom
Poema
Tua boca
é um dia estreito
cheio de moscas
De noite
tem a cor azul-verde
dum veneno
como o mar.
1 168
Jaime Gil de Biedma
Valsa do Aniversário
Não há nada tão doce como um quarto
para dois, quando já não nos queremos demasiado,
nos arredores da cidade, num hotel calmo,
e casais duvidosos e uma criança com gânglios,
se não é esta leve sensação
de irrealidade. Algo como o estio
em casa de meus pais, há algum tempo,
como viagens nocturnas de comboio. Chamo-te
para dizer que não te digo nada
que já não saibas, ou talvez
para beijar-te vagamente
mesmo nos lábios.
Saíste da varanda.
O quarto escureceu
enquanto nos olhamos, contrafeitos
por não sentirmos o peso de três anos.
Tudo é igual, parece
que não foi ontem. E este sabor nostálgico,
que os silêncios nos põem na boca,
possivelmente leva-nos ao equívoco
de nossos sentimentos. Mas não
sem alguma reserva, pois sob isto
algo mais forte vence e é (para dizê-lo
talvez de um modo menos impreciso)
difícil recordar que nos queremos,
se não for com certa imprecisão, e o sábado,
que é hoje, fica tão próximo
de ontem ao fim do dia e de depois
de amanhã
pela manhã...
(de Companheiros de Viagem)
813
Luiza Neto Jorge
Difícil Poema de Amor
Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa do juiz supremo
dos amantes. Para que os juízes me possam julgar, conhecerão primeiro o
amor desonesto infinito feito de marés ambulantes de espinhos nas pálpebras
onde as ruas são os pontos únicos do furor erótico e onde todos os pontos
únicos do amor são ruas estreitíssimas velocíssimas
que se percorrem como um fio de prumo sem oscilação.
Ontem antes de ontem antes de amanhã antes de hoje antes deste
número-tempo deste número-espaço uma boca feita de lábios alheios beijou.
Precipício aberto: ele nada revela que tu já não saibas.
Porque este contágio de precipícios foste tu que mo comunicaste
maléfico como um pássaro sem bico.
Num silêncio breve vestiu-se a cidade. Muito bom-dia querido
moribundo. Sozinho declaraste a terceira grande paz mundial quando abrindo
os olhos me deste de comer cronometricamente às mil e tantas horas da
manhã de hoje.
Deito-me cedo contigo o meu sono é leve para a liberdade acordas-
-me só de pensares nela. As casas e os bichos apoiam-se em ti. Não fujas não
te mexas: vou fixar-te para sempre nessa posição.
Que há? Abrem-se fendas no ar que respiro vejo-lhe o fundo. Tens os
olhos vasados. Qual de nós os dois "quero-Te" gritou?
Bebe-me espaçadamente encostada aos muros. Se és poeta que fazes tu?
Comes crianças jogas ases sentado és uma estátua de pé a cauda de um cometa.
Mães entretanto vão parindo. Os filhos morrerão ainda? Entregas-te a
cálculos. Amas-me demais.
Confesso: não sei se sou amada por ti.
Virás
quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos mais vivos. Então
virás
vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado. Desiludiste-me.
E iremos com o plural de nós nos leitos menores onde o riso, onde o
leito do rio é um filho entre os dois. Que farei de teus braços de meus cabelos
benignos que faremos?
Nasci-te da minha pele com algumas fêmeas te deitei por vezes.
Conheces-me. Não me tens amor
Grave esta corda cortada agudo seixo me ataste aos olhos para me
afundar.
Só por grande angústia me condenas à morte se de mim te veio a cidade
e os minúsculos objectos que já amaste ou que irás amar um dia espero.
Ah a cratera o abismo eléctrico!
Por isso o teu novo amor será comigo mais perigoso que este imaculado
com mais visco de amor cópula mortal.
Calo-me.
Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas
de mulher desabitada. Sei que um dia desviarei sem ti os passeios rectos
esvaziarei os gordos manequins falantes. A razão é uma chapa de ferro
ao rubro: se acredito na tua morte começo o suicídio.
Enquanto penetrantemente te espero a luz coalhou. Os pássaros
coalharam enquanto te espero. O leite enquanto te espero coalhou. Haverá
outro verbo?
Submersa, muito distante de qualquer inferno de um paraíso qualquer existo
eu. Existirão tais palavras?
É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico
calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer
assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se
fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em
volta de mim em volta de mim de ti.
Nunca te conheci - assim explico o teu desaparecimento. Ou antes:
separei-me de ti no solstício de um verão ultrapassado. As mulheres viajavam
pela cidade completamente nuas de corpo e espírito. Os homens mordiam-
-se com cio. Imperturbável pertenceste-me. Assim nos separámos.
Não calhasse morrer um de nós primeiro que o outro porque ambos ao
mesmo tempo será impossível enquanto não houver relógios que meçam
este tempo e as horas fielmente se adiantarem e atrasarem.
Alguma vez pretendi dizer-te o que quer que fosse? Falava por paixão
por tibieza por desgosto por claridade por frio por cansaço
nunca por pretender dizer o que quer que fosse.
Não me desculpo. Se já me cai o cabelo se já não sinto os ombros é
porque o amor é difícil ou a minha cabeça uma pedra escura que carrego
sobre o corpo a horas e desoras ostentando-a como objecto público sagrado
purulento. O odor que as pedras têm quando corpos. O apocalipse de tudo
quando amamos. O nosso sangue em pó tornado entornado.
O teu amor espreita o meu corpo de longe. De longe por gestos
lhe respondo. Tenho raízes nos vulcões ternuras íntimas medos reclu-
-sos beijos nos dentes.
A pobreza surge dentro de nós embora cautelosos deitados de manhã e
de tarde ou simplesmente de noite despertos. Ambos meu amigo estamos
sentados neste momento perfeitamente incautos já. Contemplamos um país
e sentamo-nos e vestimo-nos e comemos e admiramos os monumentos e
morremos.
Inventei a nossa morte em toda a impossível extensão das palavras.
Aterrorizei-me segundos a fio enquanto em corpo nu ouvindo-me ador-
-mecias devagar.
Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito passeei de noite
pela casa. Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um
animal estrangulado acordei-te.
Enterro o meu terror como um alfange na terra. Porque é preciso ter
medo bastante para correr bastante toda a casa celebrar bastantes missas negras
atravessar bastante todas as ruas com demónios privados nas esquinas.
Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me
impus da morte.
És tu tão único como a noite é um astro.
Sobre a poeira que te cobre o peito deixo o meu cartão de visita o meu
nome profissão morada telefone.
Disse-te: Eis-me.
E decepei-te a cabeça de um só golpe.
Não queria matar-te. Choro. Eis-me! Eis-me!
2 748
Teresa de Ávila
Sobre aquelas palavras
Toda me entreguei, sem fim,
e de tal sorte hei trocado,
que é meu Amado para mim,
e eu sou para meu Amado.
Quando o doce Caçador
me atirou, fiquei rendida,
entre os braços do amor
ficou minha alma caída.
E ganhando nova vida,
de tal maneira hei trocado,
que é meu Amado para mim,
e eu sou para meu Amado.
Atirou-me com uma seta
envenenada de amor,
e minha alma ficou feita
una com seu Criador.
Já não quero outro amor,
que a meu Deus me hei entregado,
meu Amado é para mim,
e eu sou para meu Amado.
e de tal sorte hei trocado,
que é meu Amado para mim,
e eu sou para meu Amado.
Quando o doce Caçador
me atirou, fiquei rendida,
entre os braços do amor
ficou minha alma caída.
E ganhando nova vida,
de tal maneira hei trocado,
que é meu Amado para mim,
e eu sou para meu Amado.
Atirou-me com uma seta
envenenada de amor,
e minha alma ficou feita
una com seu Criador.
Já não quero outro amor,
que a meu Deus me hei entregado,
meu Amado é para mim,
e eu sou para meu Amado.
1 805
Hilda Machado
O cineasta do Leblon
“Aquele que escavar em sua consciência
até a camada do ritmo e flutuar nela
não perderá o juízo.”
Nina Gagen-Torn
O brilho de laranja ao sol
amendoeira rubra e pavão
oculta sobressaltos faustianos
encenam-se dramas na alma
suadas peripécias
lágrimas
mímesis
em sítios escusos está a mocinha raptada por um turco
e a nudez do missionário espancado
folheia-se uma antologia de acidentes
títulos afundam
e no lodo
personagens sem nome
e escândalos de fancaria
O comércio incessante
distrai das caudalosas sociologias do fracasso
idades do ouro perdidas
terror espetacular
recorta o esforço de colosso trágico
alçar-se acima da imensa massa de vencidos
violinos pela indesejada que fatalmente alcança e ceifa
carnaval exterior que é dublagem
Nos domingos de lua cheia
um infante sôfrego obriga a minuciosos tratados
miuçalhas
monopólio
asperezas
contrabando
e então
razias de corsário
na lua nova cruzo a cidade pra beijar a sua boca
transpor morros e encontrar a elevação
tropeça-se em pétalas de rosas
em trufas
visitas ao paraíso
as quartas-feiras são turvas
e trazem as penas do inferno
telefonemas seus
telefonemas meus
telefonemas da outra
e a ex
compomos o obrigatório conflito
repetir com honestidade a velha trama
até que ao fim do primeiro bimestre
erra-se no açúcar
escorrega-se na farsa
e mudam-se todos para a novela das 7
Homem da lua
fantasia de rudes hormônios
o bicho se coça
fervor marcial e bico de passarinho
cavalo rampante que rasga com as patas convenções de estilo
atravessa pontes queimadas
alcançou o vale feroz
terremoto maior que o de Lisboa arrasa cidadelas
afrouxa parafusos
e do colchão abala a mola-mestra
ouviu, carro?
tribos bárbaras desabam sobre a minha Europa
ouviu, montanha?
mudaram os livros que eu agora levo pra cama
antigas lendas fabulosas
uma grosseira rapsódia
cinco escritos libertinos
eu bebo como num banquete em Siracusa
e gozo como as prostitutas de Corinto
palmeira, ouviu?
1 071
Lalla Romano
Caminhávamos tranquilos
Caminhávamos tranqüilos
uma noite de verão
no frescor de um jardim?
aflorei tua mão
ou foi uma folha?
beijei tua boca
ou uma fruta úmida e doce?
não sei se bebi o silêncio
da folhagem noturna
ou teu amoroso silêncio
Tua mão me acenou por entre as folhas
mas era a foice da lua
que longe se escondia
:
Noi andavamo leggeri
una notte d'estate
per un fresco giardino?
la tua mano
ho sfiorato o una foglia?
la tua bocca ho baciato
o un frutto umido e dolce?
non so se ho bevuto il silenzio
delle piante notturne
o il tuo amoroso silenzio
La tua mano mi salutò tra le piante
ma era falce di luna
che tramontava lontano
uma noite de verão
no frescor de um jardim?
aflorei tua mão
ou foi uma folha?
beijei tua boca
ou uma fruta úmida e doce?
não sei se bebi o silêncio
da folhagem noturna
ou teu amoroso silêncio
Tua mão me acenou por entre as folhas
mas era a foice da lua
que longe se escondia
:
Noi andavamo leggeri
una notte d'estate
per un fresco giardino?
la tua mano
ho sfiorato o una foglia?
la tua bocca ho baciato
o un frutto umido e dolce?
non so se ho bevuto il silenzio
delle piante notturne
o il tuo amoroso silenzio
La tua mano mi salutò tra le piante
ma era falce di luna
che tramontava lontano
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