Tempo e Passagem

Poemas neste tema

Renato Rezende

Renato Rezende

Depois do Banquete

Sobre a mesa fica
o que sobrou da efêmera alegria:
uma garrafa de vinho quase vazia
alguns vestígios de comida já não apetecível
e o último pedaço de pão,
esquecido:
cotovelo de anjo.


Salamanca, julho 1988
875
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

CINCO SONETETOS GROTESCOS V

É a mais nova versão do real.
Não tão bela quanto a anterior,
que no último verão fez furor
e não deixou vestígio. É natural.

Esta de agora, tímida e avara,
já bate as asas, feito um estertor,
e alça vôo. É a nossa cara.
689
Alexandre Guarnieri

Alexandre Guarnieri

O sangue

no corpo
há tão pouco espaço
entre um osso   e outro

só o óleo dos glóbulos
passa (o plasma)
quando não     é pálido

(na ampulheta viva /
sangue é tempo)

como a graxa
(da máquina)
escorre    entre

as engrenagens
               do   relógio
                bio    lógico
496
Simone Brantes

Simone Brantes

order in chaos

Meu relógio tem ponteiros soltos
os compromissos caem
e ficam no chão
De tempos em tempos
olho para eles
e lhes dou esperança
no meu relógio meu dia
é metade noite
minha noite
metade dia
619
Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

MORTE SOB CARBONO

a floresta (dentro
da sala)
espia o homem
que se apóia na caneta

nomes números nódoas

as velhas esperam
o ventilador gira
o café esfria o bigode do funcionário

— papel poeira pesares
— idades vãs
entre
um documento e outro
um carimbo e outro
uma certidão e outra

as velhas

acertam um grampo na alma
e pactuam um prazo com a morte
646
Mailson Furtado Viana

Mailson Furtado Viana

por causa do alvará de funcionamento

as casas
as ruas
cheiravam
fediam
apodreciam

tinham cheiro de feijão às quinze pro meio-dia
cheiro de cigarro às seis e tanto
gosto de sexo depois das dez
fediam ao uso

hoje
são estéreis

sovinam sussurros
se afogam em antidepressivos
se negam morrer

são hipócritas
700
Mailson Furtado Viana

Mailson Furtado Viana

poeminhas de amor

I.
tu tão amanhã eu tão instante
conjugamos o tempo vivendo

II.
a gente tão longe
- 'tá bonita a lua hoje
- 'tá mesmo, 'tá linda

vartoja era tão perto
do mundo

soubemos

depois disso
tudo ficou mais fácil
721
Simone Brantes

Simone Brantes

Die Aufgabe

Chegar em casa um pouco mais
do que cansada e puxar ainda assim
e aos poucos o fio longo da mortalha
até fazer da noite sair enfim um dia
dentre todos os dias a morrer na praia
641
Mailson Furtado Viana

Mailson Furtado Viana

das amizades distantes

o poeta escreveu algo
que agora não lembro de cor
mas o li
outros também
e depois outros e outros e outros
e pararipararaparara

ficou famoso
saiu no jornal
fez pose de importante
e a vida voou voou

fiquei amigo dele
depois de o matarem
no século dezenove
606
Daniel Jonas

Daniel Jonas

UMA SAISON NOS INFERNOS

Tudo é breve: um deus,
o plâncton, o ferro.
O meu poema é uma miséria
comparado com o teu nome
no edital.

A voragem dos grandes estúdios,
a saída dos operários da fábrica,
a grande depressão
dos trinta anos:

Eu bebo
porque se não beber
não conduzo
este corpo a casa.
686
Daniel Jonas

Daniel Jonas

DENTE-DE-LEÃO

A juba encanecida do dente-de-leão.
Eu soprei-a como velas
de aniversários
e ele envelheceu anos.

Ali, tão calvo agora, o ancião,
um leão glabro
entupido de testosterona,
um Sanção

com a sua cerviz rente
descravando
dos quadris da fêmea
a fome de uma semente.
680
Daniel Jonas

Daniel Jonas

A RESISTÊNCIA À TEORIA

Eu ficarei à espera de que as uvas
das minhas videiras
amadureçam
à luminosidade da palavra
dia
691
Daniel Jonas

Daniel Jonas

Nostalgia

Perder uma fotografia
é perder
um momento
duas vezes.
665
Harry Martinson

Harry Martinson

Aviso

Pelo Atlântico Norte viajou  dezessete anos
ondulando uma garrafa
com uma mensagem como passageira.
Frequentemente se assemelhava, em silêncio,
a um gigantesco vapor de Southampton.
Encalhou sem que a houvessem lido e ficou
     congelada
entre as geleiras da Costa do Labrador.
584
Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

3 ESTROFES

1
O cavaleiro e a sua mulher
petrificada, mas feliz
na tampa de um caixão voador
para lá do tempo.

2
Jesus segurava uma moeda ao alto
com o perfil de Tibério,
um perfil sem amor,
o poder em circulação.

3
Uma espada fluente
extingue a memória.
No chão trompetas e pendentes
enferrujados.
577
Mauro Mota

Mauro Mota

Natal

Natal, antes e agora 
imutável. Feliz 
noite branca sem hora 
no pátio da Matriz. 

Natal: os mesmos sinos 
de repiques iguais. 
Brinquedos e meninos, 
Natal de outros natais. 

A Banda, vozes, passos 
da multidão fiel. 
Tudo nos seus espaços, 
o mundo e o carrossel. 

Tudo, menos o andejo 
homem que se conclui. 
Olho-me, e não me vejo, 
não sei para onde fui.
757
Fernando Echevarría

Fernando Echevarría

O Tempo Vive

O tempo vive, quando os homens, nele,
se esquecem de si mesmos,
ficando, embora, a contemplar o estreme
reduto de estar sendo.
O tempo vive a refrescar a sede
dos animais e do vento,
quando a estrutura estremece
a dura escuridão que, desde dentro,
irrompe. E fica com o uivo agreste
espantando o seu estrondo de silêncio.
574
Saúl Dias

Saúl Dias

Quieta

Passaste
subtil
na tarde quieta.

O ar anil
ondulou…
Como uma seta
uma ave baixou
da velha torre
e pousou quieta.

Eu era o esteta
procurando
entre fórmulas mil
o ancoradouro, a meta…

Inúteis tentativas!…

Tudo passou…
Tudo queimou 
o tempo vil…

Só perdurou
o ar anil
da tarde quieta.
654
Saúl Dias

Saúl Dias

Envelhecer

É bom envelhecer!

Sentir cair o tempo,
magro fio de areia,
numa ampulheta inexistente!

Passam casais jovens
abraçados!...

As árvores
balançam novos ramos!...

E o fio de areia
a cair, a cair, a cair...
748
Manuel Gusmão

Manuel Gusmão

o comboio de corda

o comboio de corda
cruza o sítio de partida
e fecha um dos zeros
do ∞ deitado no mapa
celeste
e se leste
até ao fim o seu movimento
viste-o fechar o outro zero
e caíste infinitamente
na terra finita.
1 127
Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

VINHETA

Ame-se o que é, como nós,
efêmero. Todo o universo
podia chamar-se: gérbera.
Tudo, como a flor, pulsa

e arde e apodrece. Sei,
repito ensinamento já sabido
e lições não dizem mais
que margaridas e junquilhos.

Lições, há quem diga,
são inúteis, por mais belas.
Melhor, porém, acrescento,
se azuis, vermelhas, amarelas.
674
Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

5 412971 117161

Tem cara de perder. Esta semana
voltou a não levar preservativos
e nunca mais comprou comida para o cão.
Se calhar divorciaram-se, e sicou ela
com o bicho. Só não percebo como é que
Ele sozinho consegue beber tanto leite.
perdeu também um pouco da arrogância
com que habitualmente me passava
o visa. Mas devia ser bonito, em novo
962
Grazia Deledda

Grazia Deledda

Cai uma folha

Cai uma folha que parece
tingida pelo sol, que ao cair
tem a iridescência de uma mariposa;
mas assim que atinge o chão
funde-se com a sombra, já morta.
776
Salgado Maranhão

Salgado Maranhão

Do Raio

Nem o acre sabor das uvas
nos aplaca. Nem a chuva

nos olhos incendidos
devolve o que é vivido.

O magma que nos evapora
tange o rascunho das horas

sob um raio de suspense.
Nem o que é nosso nos pertence.
714