Sonhos e Imaginação
Poemas neste tema
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dia do Mar No Ar, Construído
Dia do mar no ar, construído
Com sombras de cavalos e de plumas.
Dia do mar no meu quarto — cubo
Onde os meus gestos sonâmbulos deslizam
Entre o animal e a flor como medusas.
Dia do mar no ar, dia alto
Onde os meus gestos são gaivotas que se perdem
Rolando sobre as ondas, sobre as nuvens.
Com sombras de cavalos e de plumas.
Dia do mar no meu quarto — cubo
Onde os meus gestos sonâmbulos deslizam
Entre o animal e a flor como medusas.
Dia do mar no ar, dia alto
Onde os meus gestos são gaivotas que se perdem
Rolando sobre as ondas, sobre as nuvens.
4 094
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dança de Junho
Em silêncio nas coisas embaladas
Vão dançando ao sabor dos seus segredos.
Nos seus vestidos brancos e bordados
Raios de lua poisam como dedos,
E em seu redor baloiçam arvoredos
Escuros entre os céus atormentados.
Vão dançando ao sabor dos seus segredos.
Nos seus vestidos brancos e bordados
Raios de lua poisam como dedos,
E em seu redor baloiçam arvoredos
Escuros entre os céus atormentados.
2 141
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Nossos Dedos Abriram Mãos Fechadas
Os nossos dedos abriram mãos fechadas
Cheias de perfume
Partimos à aventura através de vozes e de gestos
Pressentimos paixões como paisagens
E cada corpo era um caminho.
Mas um se ergueu tomando tudo
E escorreram asas dos seus braços.
Florestas, pântanos e rios,
Viajámos imóveis debruçados,
Enquanto o céu brilhava nas janelas.
E a cidade partiu como um navio
Através da noite.
Cheias de perfume
Partimos à aventura através de vozes e de gestos
Pressentimos paixões como paisagens
E cada corpo era um caminho.
Mas um se ergueu tomando tudo
E escorreram asas dos seus braços.
Florestas, pântanos e rios,
Viajámos imóveis debruçados,
Enquanto o céu brilhava nas janelas.
E a cidade partiu como um navio
Através da noite.
2 006
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Flauta
No canto do quarto a sombra tocou sua pequena flauta
Foi então que me lembrei de cisternas e medusas
E do brilho mortal da praia nua
Estava o anel da noite solenemente posto no meu dedo
E a navegação do silêncio continuou sua viagem antiquíssima
Foi então que me lembrei de cisternas e medusas
E do brilho mortal da praia nua
Estava o anel da noite solenemente posto no meu dedo
E a navegação do silêncio continuou sua viagem antiquíssima
2 278
Susana Thénon
Mediador Dei
O contrabandista dos medos antigos
o malabarista delirante em sua varanda vermelha
(com pequenos pés enferrujados)
lava as mãos no peito das nuvens
e se cobre de azul para não ver sangue.
o malabarista delirante em sua varanda vermelha
(com pequenos pés enferrujados)
lava as mãos no peito das nuvens
e se cobre de azul para não ver sangue.
715
Fernando Pessoa
Pia número SEIS
Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.
Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.
Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.
Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.
Pia número DEZ
Para quem cola selos nas unhas dos pés.
E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!
Para quem se penteia com bolos-reis.
Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.
Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.
Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.
Pia número DEZ
Para quem cola selos nas unhas dos pés.
E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!
1 409
Fernando Pessoa
Na quinta que nunca houve
Na quinta que nunca houve
Há um poço que não há
Onde há-de ir encontrar água
Alguém que te entenderá.
Há um poço que não há
Onde há-de ir encontrar água
Alguém que te entenderá.
974
Fernando Pessoa
Dizes-me que nunca sonhas
Dizes-me que nunca sonhas
E que dormes sempre a fio.
Quais são as coisas risonhas
Que sonhas por desfastio?
E que dormes sempre a fio.
Quais são as coisas risonhas
Que sonhas por desfastio?
1 275
Fernando Pessoa
O ar do campo vem brando,
O ar do campo vem brando,
Faz sono haver esse ar.
Já não sei se estou sonhando
Nem de que serve sonhar.
Faz sono haver esse ar.
Já não sei se estou sonhando
Nem de que serve sonhar.
1 480
Fernando Pessoa
Durmo, remoto; sonho, diferente,
Durmo, remoto; sonho, diferente,
Meu coração, ansioso e pressuroso,
Foi entalado num comboio entre
Os dois vagões do meu destino ocioso.
Meu coração, ansioso e pressuroso,
Foi entalado num comboio entre
Os dois vagões do meu destino ocioso.
1 027
Fernando Pessoa
Sonhos dentro de sonhos,
Sonhos dentro de sonhos,
Involuções do sonhar,
Os pensamentos são medonhos
Quando se querem aprofundar;
E os corações ficam tristonhos, tristonhos
Quando se sentem sentir pensar.
ilusões dentro d'ilusões
Atormentando o descrer;
Descrenças e crenças são ambas visões
São ambas sonhar, são ambas crer.
Involuções do sonhar,
Os pensamentos são medonhos
Quando se querem aprofundar;
E os corações ficam tristonhos, tristonhos
Quando se sentem sentir pensar.
ilusões dentro d'ilusões
Atormentando o descrer;
Descrenças e crenças são ambas visões
São ambas sonhar, são ambas crer.
1 382
Fernando Pessoa
Nuvem do céu, que pareces
Nuvem do céu, que pareces
Tudo quanto a gente quer,
Se tu, ao menos, me desses
O que se não pode ter!
Tudo quanto a gente quer,
Se tu, ao menos, me desses
O que se não pode ter!
762
Fernando Pessoa
Rosa verde, rosa verde...
Rosa verde, rosa verde...
Rosa verde é coisa que há?
É uma coisa que se perde
Quando a gente não está lá.
Rosa verde é coisa que há?
É uma coisa que se perde
Quando a gente não está lá.
1 880
Fernando Pessoa
Vou dormir, dormir, dormir,
Nirvana
Vou dormir, dormir, dormir,
Vou dormir sem despertar,
Mas não dormir sem sentir
Que estou dormindo a sonhar.
Não insciência e só treva
Mas também estrelas a abrir
Olhos cujo olhar me enleva,
Que estou sonhando a dormir.
Constelada inexistência
Em que subsiste de meu
Só uma abstracta insciência
Una com estrelas e céu.
Vou dormir, dormir, dormir,
Vou dormir sem despertar,
Mas não dormir sem sentir
Que estou dormindo a sonhar.
Não insciência e só treva
Mas também estrelas a abrir
Olhos cujo olhar me enleva,
Que estou sonhando a dormir.
Constelada inexistência
Em que subsiste de meu
Só uma abstracta insciência
Una com estrelas e céu.
1 826
Fernando Pessoa
O capilé é barato
O capilé é barato
E é fresco quando há calor.
Vou sonhar o teu retrato
Já que não tenho melhor.
E é fresco quando há calor.
Vou sonhar o teu retrato
Já que não tenho melhor.
1 315
Fernando Pessoa
EPIGRAM
«I love my dreams», I said, a winter morn,
To the practical man, and he, in scorn,
Replied: «I am no slave of the Ideal,
But, as all men of sense, I love the Real.»
Poor fool, mistaking all that is and seems!
I love the Real when I love my dreams.
To the practical man, and he, in scorn,
Replied: «I am no slave of the Ideal,
But, as all men of sense, I love the Real.»
Poor fool, mistaking all that is and seems!
I love the Real when I love my dreams.
1 416
Fernando Pessoa
Meia volta, toda a volta,
Meia volta, toda a volta,
Muitas voltas de dançar...
Quem tem sonhos por escolta
Não é capaz de parar.
Muitas voltas de dançar...
Quem tem sonhos por escolta
Não é capaz de parar.
1 633
Fernando Pessoa
Deram-me, para se rirem,
Deram-me, para se rirem,
Uma corneta de barro,
Para eu tocar à entrada
Do Castelo do Diabo.
Uma corneta de barro,
Para eu tocar à entrada
Do Castelo do Diabo.
1 226
Fernando Pessoa
Bem sei que ela era a Rainha.
Bem sei que ela era a Rainha.
Tantas vezes a sonhei
Que julguei até que a tinha
Com quanto a imaginei…
Porque a gente, por pensar,
Talvez que pode querer,
Até sentir que sonhar
É pensar sem poder ter.
Bem sei. Mas era a Rainha
E não abdico encontrá-la.
Faltam-me o ser ela minha
E as condições e a sala.
Tantas vezes a sonhei
Que julguei até que a tinha
Com quanto a imaginei…
Porque a gente, por pensar,
Talvez que pode querer,
Até sentir que sonhar
É pensar sem poder ter.
Bem sei. Mas era a Rainha
E não abdico encontrá-la.
Faltam-me o ser ela minha
E as condições e a sala.
1 702
Fernando Pessoa
Sonho feito do horror do pensamento,
Sonho feito do horror do pensamento,
Informe e hórrido, para sempre
Longe de mim vossa lembrança horrível.
Informe e hórrido, para sempre
Longe de mim vossa lembrança horrível.
1 273
Fernando Pessoa
Tudo é mistério e o mistério é tudo.
Tudo é mais que ilusão; o próprio sonho
Do universo transcende-se a si mesmo
E a compreensão, ao penetrar
Escuramente a essência da ilusão,
Fica sempre aquém mesmo do ver bem
O quanto tudo é ilusão o sonho,
E quanto o próprio pensamento fundo
Se ilude na desilusão falaz
E no desiludir-se dele mesmo.
Do universo transcende-se a si mesmo
E a compreensão, ao penetrar
Escuramente a essência da ilusão,
Fica sempre aquém mesmo do ver bem
O quanto tudo é ilusão o sonho,
E quanto o próprio pensamento fundo
Se ilude na desilusão falaz
E no desiludir-se dele mesmo.
859
Fernando Pessoa
Lidas, / guerras... e guerras
Lidas,
guerras... e guerras
Porque é tudo tão falso e irreal
Tão intimamente (um) sonho?
guerras... e guerras
Porque é tudo tão falso e irreal
Tão intimamente (um) sonho?
1 305
Fernando Pessoa
SONHO DE GÓRGIAS
Sonhei uma cidade eterna e colossal
Fora da sensação e ideia de existir
À qual nem o amor saberia sorrir
Tão estranha ao que nós alcunhamos real.
[...]
O ceptro do Horror caíra dalgum braço
E jaziam ao pé ocamente partidas
As estátuas do Ser, e do Tempo, e do Espaço.
Fora da sensação e ideia de existir
À qual nem o amor saberia sorrir
Tão estranha ao que nós alcunhamos real.
[...]
O ceptro do Horror caíra dalgum braço
E jaziam ao pé ocamente partidas
As estátuas do Ser, e do Tempo, e do Espaço.
1 107
Fernando Pessoa
Primeiro: D. SEBASTIÃO
Esperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
3 851
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