Silêncio

Poemas neste tema

Emily Dickinson

Emily Dickinson

543

Temo o Homem de pouca Fala –
Temo o Homem que Cala –
Ao Orador – posso aturar –
Ao Tagarela – entreter –
Mas O que pondera – Enquanto o Restante –
Esbanja até o derradeiro tostão –
Desse Homem – desconfio –
E temo que seja Grande –
948
Maria Azenha

Maria Azenha

poema sem terra

esta é a página onde o poema não se deu

onde o alfabeto e a tinta se encontram

onde não há nenhum poeta nem acontece o som

no campo mais alto da sementeira das árvores

as vogais voam aqui sem produzirem eco

abrem o corpo através do espaço aberto

uma nuvem tão terna um espelho tão doce

as crianças celebram-no esquecendo o seu nome
939
Orides Fontela

Orides Fontela

Esfinge

Não há perguntas. Selvagem
o silêncio cresce, difícil.


Publicado no livro Rosácea (1986).

In: FONTELA, Orides. Trevo, 1969/1988. Il. Mira Schendel. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
2 191
Maria Teresa M. Carrilho

Maria Teresa M. Carrilho

Não, hoje não saio

Não, hoje não saio
eu quero ficar
no espaço
dum cantinho
que é só meu

Não, hoje não falo
eu quero escutar
as palavras floridas
dum canto
que me entonteceu

Não, hoje não vou respirar
eu quero confundir
a minha vertigem
com a tua vertigem
e ser só um todo
ou um nada
num mundo que emudeceu...

1 064
Angela Santos

Angela Santos

De Profundis

Diante
da Beleza, do Amor, de Deus
emudecemos

As palavras são excrescências
e despropositadas vêm
invadir a densa profundidade do silêncio
onde se vive a dimensão do essencial.

925
Fernando Fabião

Fernando Fabião

Em Louvor do Silêncio

Em louvor
do silencio
Lembro os peixes mudos percorrendo o sono
Um fruto que cai grave
No corpo da terra

Lembro o aroma das glicínias
O murmúrio dos mortos povoando as casas
Os versos obscuros onde habita a delicadeza do amor.
É nos estilhaços do mundo
Que o indizível se escreve
Invade as folhas, as mãos pousadas na orla do mar.

885
Angela Santos

Angela Santos

Gestação

De
silêncio
também se faz o canto
gestação da palavra nunca dita
que à obscuridade a luz traz
e o esquecimento transfigura

em que lugar
o prenhe ventre gera
o milagre da palavra?

1 044
Almandrade

Almandrade

V

O universo é incerto
sob meus pés
infinito como a língua
rebelde
uma cidade
na inmensidão da fala
sábios em silêncio
escutando a melodia
de um inseto
e o sopro do mar.

902
Pedro Paulo de Sena Madureira

Pedro Paulo de Sena Madureira

O Olhar Branco

O olhar branco
preso ao vazio
depois que as coisas ficaram por ser vistas.

O silêncio branco
despido de harmonia
depois que as palavras ficaram por ser ditas.

A morte branca
sem grito
sem cruz
sem glória
no avesso da história
depois que a agonia toda ficou por ser escrita.

886
Teruko Oda

Teruko Oda

Inverno

Silêncio profundo
Soba luz da eterna aurora
Dorme o campo seco.

Mugido sedento
Gado magro em pasto seco
Coqueiros ao vento.

1 046
Marco Antônio de Souza

Marco Antônio de Souza

O Som do Poeta

O que foi feito das palavras ?
Quando voltarão a ser versos ?
O poeta perdeu a razão,
ou passou a não usá-la ?
Um ano, ou quase, do último texto !
Último texto ?
Ou último riso ?
Ou último gemido ?
Se a alegria pode ser som
porque não a tristeza... silêncio

996
Mário Hélio

Mário Hélio

36-VI-(Litografia)

que voz sopra os sons
nessas horas sincopadas
no silêncio dos homens?
que voz assoprará
o assombro
o sombrio ressumbro
os sobrolhos selvagens
da solidão?
e sobrará um silvo
seda e sono solto.

859
Mário Hélio

Mário Hélio

33-III-(Bird)

a fragata espera na porta do circo
lábicos tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
a fraca esperança espera na porta do coração
lábios tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
mas não há gritos
nem haverá

949
Luiz Nogueira Barros

Luiz Nogueira Barros

Milagre

E operou-se o milagre do silêncio
na boca que para o mundo se fechou.
E nos sentidos, que descobriram transparências
escondidas nas muralhas de argamassa e pedras:
que os sonhos inda imaturos não percebiam,
enganados - por séculos de mentiras...

755
Luciano Matheus Tamiozzo

Luciano Matheus Tamiozzo

Já Falei

Já falei tanto de amor,
De sonhos e palavras,
Já falei tanto de lágrimas,
Tritezas e sons.

Já falei de mim,
De ti e de nós,
Já falei de pensamentos
Luzes e sóis.

Já falei sobre tudo,
Mas o mais importante
Ainda não falei.

Pois as palavras
Para isto não achei.

966
Valéry Larbaud

Valéry Larbaud

Formalismo

Já cansada de elipses e parábolas,
ela traçou um silêncio retilíneo
onde as nuvens se foram perfilar.

Suspensos às arestas dessa fórmula,
choramos o rigor do formalismo,
felizes, delirantes, ensopados.

886
Valéry Larbaud

Valéry Larbaud

Vôo

Ave a voar sem rumo, tempo acima;
Céu a fluir sem tempo, mero azul;
Livre cor sem sujeito, só de luz;
Luz de luz, voz de estrelas em surdina.

E voz apenas voz, palavra, rima,
Superfície de som, plana e vazia,
Deserto do sentido, sol sem dia,
Com pássaro não-ser planando em cima.

873
Lígia Andrade

Lígia Andrade

Silêncio

O silêncio brota
Flui
escorre em cada canto
Da casa
Exala um perfume triste
De abandono
De algo que passou
Não volta mais
O irremediável
Silêncio
Faca de dois gumes
Cicatriza e ao mesmo tempo fere
E nós
Aproximados na mesma freqüência morna
Mais nos afastamos
Por falta de palavras...

918
Cida Jappe

Cida Jappe

Papel em Branco

Eu quis
fazer um poema
em louvor a Deus
O lápis, o papel
estavam ali,
mudos, imóveis
e eu nem sequer soube pegá-los

Desci a escada
fui embora...
E o meu poema chegou a Deus,
na folha de papel em branco

953
Glícia Rodrigues

Glícia Rodrigues

Jantar

A mesa farta
Era como se estivesse vazia
Esvaziada de afeto
Refletindo nas taças
O nada que continham.
Era como se o banquete fosse
Para fantasmas
Ninguém falava, ninguém amava
Só o mastigar.
No silêncio se ouvia
Prestando mais atenção
Uma certa sofreguidão.

833
Gustavo Alberto Corrêa Pinto

Gustavo Alberto Corrêa Pinto

Haicai

Vulto de homem
contra o horizonte...
Solidão azul.

Noite fria.
Mundo em silêncio.
Tosse ao longe...

1 064
Francisco Carvalho

Francisco Carvalho

Sala

Ouço passos vindos
do alpendre
para dentro da sala.
Será o vento que fala
coisas da cabala?
Ou será o morto
de regresso à senzala?
O vento se cala
e um rumor de sedas
resvala
no ladrilho da sala.
No alto da cumeeira
a coruja gargalha.
De novo o mistério
se instala
em cada movimento
da sala.

961

Gostaria

Gostaria de saber
o que teu silêncio possui
que algo interessante
que...
chega a doer os ouvidos,
pensar no que pensas
chega a me envergonhar
querer o que queres,
chega a quase ser tão puro
tão inocente
mas só quase...

280
Fernanda Benevides

Fernanda Benevides

Voz do Olhar

Quando teus olhos feriram o silêncio,
ouviram os meus...

( in, LUZES DO SILÊNCIO)
Fortaleza - Ce, 1 Fortaleza - Ce, 1988

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