Serenidade e Paz Interior
Poemas neste tema
António Ramos Rosa
Casa Entre Árvores
Casa entre árvores
tranquila próxima
na transparência
opaca e azul opaca
E azul
tranquila próxima
na transparência
opaca e azul opaca
E azul
1 011
António Ramos Rosa
Imergir No Não Saber,…
Imergir no não saber, no sono de água contornando o bordo de uma pedra leve, lisa, prosseguir na facilidade de quem nada no sono, nada, até tocar a pedra, quase, ilegível, e pronunciá-la obscura, na densidade, nova.
1 153
António Ramos Rosa
Adormecendo, Procura Como Que
Adormecendo, procura como que
uma folha perdida, branca.
Como se a vida fosse lisa
respira um sono à beira de água.
Acordá-lo seria destruí-lo.
Agora ele é o bafo da folhagem,
uma pedra sem arestas e sem nome,
um campo de murmúrios,
um começo infinito.
uma folha perdida, branca.
Como se a vida fosse lisa
respira um sono à beira de água.
Acordá-lo seria destruí-lo.
Agora ele é o bafo da folhagem,
uma pedra sem arestas e sem nome,
um campo de murmúrios,
um começo infinito.
882
António Ramos Rosa
Estas Palavras
Como quem grava a cabeça silenciosa
como se reúne a água à água
estas palavras
não dizem todavia o júbilo
ou o rio
que sob elas flui
Oh quem diria
o que de súbito nos une um eco um brilho
não os sinais
mas a duna e o espaço
a configuração viva do instante
a nuvem vermelha sobre o monte
o completo sentimento do intacto
como se reúne a água à água
estas palavras
não dizem todavia o júbilo
ou o rio
que sob elas flui
Oh quem diria
o que de súbito nos une um eco um brilho
não os sinais
mas a duna e o espaço
a configuração viva do instante
a nuvem vermelha sobre o monte
o completo sentimento do intacto
986
António Ramos Rosa
Instante
Som velado. Beijo
calmo. E a chama
de uma árvore. O verde
imóvel. Lâmina
irradiante. Sol, o som,
obscura luz de sílaba
interiormente.
Tréguas com o espaço. Interrupção
contínua.
Não sei porquê a luz
se lê
na folha verde calma.
calmo. E a chama
de uma árvore. O verde
imóvel. Lâmina
irradiante. Sol, o som,
obscura luz de sílaba
interiormente.
Tréguas com o espaço. Interrupção
contínua.
Não sei porquê a luz
se lê
na folha verde calma.
978
António Ramos Rosa
Na Lentidão
A lentidão animal.
A casa intensa: nuvem clara, espessa.
Prolongado retorno
ao lugar que retém o sono
do espaço vivo.
Aqui se forma um corpo:
os seus limites tremem.
Uma árvore dorme.
Um nome de ar se abre
para o corpo, para o seu campo claro.
O braço entrego à lenta
roda branca.
Regresso de um regresso
ao solidário solo.
A casa intensa: nuvem clara, espessa.
Prolongado retorno
ao lugar que retém o sono
do espaço vivo.
Aqui se forma um corpo:
os seus limites tremem.
Uma árvore dorme.
Um nome de ar se abre
para o corpo, para o seu campo claro.
O braço entrego à lenta
roda branca.
Regresso de um regresso
ao solidário solo.
876
António Ramos Rosa
No Abandono Límpido Sem Sinais
No abandono límpido sem sinais
só com o ar no ar
antes ainda que a palavra diga o ar
para olhar de frente essa força branca
de um vasto silêncio na distância
num puro assombro de plenitude alegre
no abrir inteiro do olhar do ar
só com o ar no ar
antes ainda que a palavra diga o ar
para olhar de frente essa força branca
de um vasto silêncio na distância
num puro assombro de plenitude alegre
no abrir inteiro do olhar do ar
872
António Ramos Rosa
O Sol da Casa
Sou o que veio por um momento
de sol.
Vim até à beira da janela
até ao hálito da casa.
Venho até ver com o sol
o ouro do campo
da casa.
Uma boca lenta que percorre
o sabor dos quartos
desta casa de terra quente.
Venho até quase à boca desta casa
silenciosa de sol.
de sol.
Vim até à beira da janela
até ao hálito da casa.
Venho até ver com o sol
o ouro do campo
da casa.
Uma boca lenta que percorre
o sabor dos quartos
desta casa de terra quente.
Venho até quase à boca desta casa
silenciosa de sol.
1 047
António Ramos Rosa
Caminho do Alento
ao Luís Amaro
As que dançam no caminho, ervas dos lábios,
as sinuosas e leves,
sabem ao vento em que navegam,
caem na maciez das pálpebras.
Ó amêndoas do ar
nos ébrios dedos,
e na boca um forno de flor.
Quando se caminha assim, quase volante,
a terra amiga e lenta,
no calor forte,
com a fronte do alento perfumada
ardente entre as searas?
As que dançam no caminho, ervas dos lábios,
as sinuosas e leves,
sabem ao vento em que navegam,
caem na maciez das pálpebras.
Ó amêndoas do ar
nos ébrios dedos,
e na boca um forno de flor.
Quando se caminha assim, quase volante,
a terra amiga e lenta,
no calor forte,
com a fronte do alento perfumada
ardente entre as searas?
534
António Ramos Rosa
Órbita de Verão — 2
Oiço a pedra vasta
do calor.
Aceso, à sombra,
ao tronco
igualo
o silêncio
do meu peito.
Insectos surdos
do olhar
fortificam
o instante.
do calor.
Aceso, à sombra,
ao tronco
igualo
o silêncio
do meu peito.
Insectos surdos
do olhar
fortificam
o instante.
976
António Ramos Rosa
Neste Campo
Neste campo não divago e nada emerge
e um lago subsiste e a pedra investe o sol,
rápidos vestidos soçobram,
nervuras que não vês murmuram,
a terra é um sossego sem cristal,
uma veia plena de sono e de sorriso.
A terra não canta: tu não esperas
na alta mesa do meio-dia.
Um animal surge tímido
e duas mãos o envolvem de folhas e de sol.
e um lago subsiste e a pedra investe o sol,
rápidos vestidos soçobram,
nervuras que não vês murmuram,
a terra é um sossego sem cristal,
uma veia plena de sono e de sorriso.
A terra não canta: tu não esperas
na alta mesa do meio-dia.
Um animal surge tímido
e duas mãos o envolvem de folhas e de sol.
991
António Ramos Rosa
Momento 2
Lentamente inalterada
a curva radiosa e justa
(comunhão de olhar e de mulher
os corpos salvos
na larga clareira em frente ao mar)
Momento imenso de espaço
a terra silenciosa e escura
atrás da casa
uma palavra nova apaga o sol
a curva radiosa e justa
(comunhão de olhar e de mulher
os corpos salvos
na larga clareira em frente ao mar)
Momento imenso de espaço
a terra silenciosa e escura
atrás da casa
uma palavra nova apaga o sol
979
António Ramos Rosa
Um Fruto Verde-Amarelo
Um fruto verde-amarelo,
nítido, redondo, cheio,
seca fascinação suave,
imóvel, presente, alheio
— perfeito no silêncio agora meu.
nítido, redondo, cheio,
seca fascinação suave,
imóvel, presente, alheio
— perfeito no silêncio agora meu.
555
António Ramos Rosa
Esta Luz Súbita
Esta luz súbita
que nasce das raízes
onde o implacável vive
Homens
tímidos passageiros
eu rangerei os dentes
até à violência extrema
em que a paz me aniquilará
que nasce das raízes
onde o implacável vive
Homens
tímidos passageiros
eu rangerei os dentes
até à violência extrema
em que a paz me aniquilará
569
António Ramos Rosa
Eis Os Instrumentos
Eis os instrumentos
no vagar da terra
A ordem é do mar
com seu repouso manso
Os objectos e os dias
têm as suas pontes
onde a leveza é densa
Há pratos onde o silêncio
salvou o tempo
e faixas de luz
que a mão bebe
no vagar da terra
A ordem é do mar
com seu repouso manso
Os objectos e os dias
têm as suas pontes
onde a leveza é densa
Há pratos onde o silêncio
salvou o tempo
e faixas de luz
que a mão bebe
889
António Ramos Rosa
Terra Dos Silêncios Grandes
Terra dos silêncios grandes
e numerosos quartos
livros e homens dormem
e prolongam-se os arcos
nas memórias e nos sonhos
pastam cavalos nas
nuvens rente ao horizonte
cantam mulheres na branca
tranquilidade do mundo
e nos espelhos velhos
corpos novos resplendem
e numerosos quartos
livros e homens dormem
e prolongam-se os arcos
nas memórias e nos sonhos
pastam cavalos nas
nuvens rente ao horizonte
cantam mulheres na branca
tranquilidade do mundo
e nos espelhos velhos
corpos novos resplendem
1 082
António Ramos Rosa
No Vagar da Terra
Serão nossos os nomes nesta pausa,
mas ela é a própria luz do campo que persiste
com sua seiva concentrada em nós tranquilos,
a madeira em que silêncio e força se conjugam
para a dicção diurna das fragrâncias visíveis.
mas ela é a própria luz do campo que persiste
com sua seiva concentrada em nós tranquilos,
a madeira em que silêncio e força se conjugam
para a dicção diurna das fragrâncias visíveis.
951
António Ramos Rosa
Um Riso Canta No Fogo
Um riso canta no fogo
na cumplicidade das mãos
a grande paz dum segredo
Os olhos vêem a neve
Sobre o silêncio do fogo
a palma doce da mão
E contra a noite que avança
todo o fogo do segredo
na cumplicidade das mãos
a grande paz dum segredo
Os olhos vêem a neve
Sobre o silêncio do fogo
a palma doce da mão
E contra a noite que avança
todo o fogo do segredo
613
António Ramos Rosa
Terraço Aberto
Terraço aberto
aos ventos e aos astros
crivado
das balas de frescura
das ranhuras do sol
muros
onde vejo dedos
muros fraternos
de meus ossos
aqui respiro
através das flores
da chaminé
nos planos brancos
nos montes azulados
nas velas brancas
nas areias douradas
aqui respiro
a claridade
aos ventos e aos astros
crivado
das balas de frescura
das ranhuras do sol
muros
onde vejo dedos
muros fraternos
de meus ossos
aqui respiro
através das flores
da chaminé
nos planos brancos
nos montes azulados
nas velas brancas
nas areias douradas
aqui respiro
a claridade
1 095
Sophia de Mello Breyner Andresen
Eis Aqui o País da Imanência Sem Mácula
Eis aqui o país da imanência sem mácula
O reino que te reúne
Sob o rumor de folhagem que há nos deuses
O reino que te reúne
Sob o rumor de folhagem que há nos deuses
1 953
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Grutas
O esplendor poisava solene sobre o mar. E — entre as duas pedras erguidas numa relação tão justa que é talvez ali o lugar da Balança onde o equilíbrio do homem com as coisas é medido — quase me cega a perfeição como um sol olhado de frente. Mas logo as águas verdes em sua transparência me diluem e eu mergulho tocando o silêncio azul e rápido dos peixes. Porém a beleza não é só solene mas também inumerável. De forma em forma vejo o mundo nascer e ser criado. Um grande rascasso vermelho passa em frente de mim que nunca antes o imaginara. Limpa, a luz recorta promontórios e rochedos. É tudo igual a um sonho extremamente lúcido e acordado. Sem dúvida um novo mundo nos pede novas palavras, porém é tão grande o silêncio e tão clara a transparência que eu muda encosto a minha cara na superfície das águas lisas como um chão.
As imagens atravessam os meus olhos e caminham para além de mim. Talvez eu vá ficando igual à almadilha da qual os pescadores dizem ser apenas água.
Estarão as coisas deslumbradas de ser elas? Quem me trouxe finalmente a este lugar? Ressoa a vaga no interior da gruta rouca e a maré retirando deixou redondo e doirado o quarto de areia e pedra. No centro da manhã, no centro do círculo do ar e do mar, no alto do penedo, no alto da coluna está poisada a rola branca do mar. Desertas surgem as pequenas praias.
Um fio invisível de deslumbrado espanto me guia de gruta em gruta. Eis o mar e a luz vistos por dentro. Terror de penetrar na habitação secreta da beleza, terror de ver o que nem em sonhos eu ousara ver, terror de olhar de frente as imagens mais interiores a mim do que o meu próprio pensamento. Deslizam os meus ombros cercados de água e plantas roxas. Atravesso gargantas de pedra e a arquitectura do labirinto paira roída sobre o verde. Colunas de sombra e luz suportam céu e terra. As anémonas rodeiam a grande sala de água onde os meus dedos tocam a areia rosada do fundo. E abro bem os olhos no silêncio líquido e verde onde rápidos, rápidos fogem de mim os peixes. Arcos e rosáceas suportam e desenham a claridade dos espaços matutinos. Os palácios do rei do mar escorrem luz e água. Esta manhã é igual ao princípio do mundo e aqui eu venho ver o que jamais se viu.
O meu olhar tornou-se liso como um vidro. Sirvo para que as coisas se vejam.
E eis que entro na gruta mais interior e mais cavada. Sombrias e azuis são águas e paredes. Eu quereria poisar como uma rosa sobre o mar o meu amor neste silêncio. Quereria que o contivesse para sempre o círculo de espanto e de medusas. Aqui um líquido sol fosforescente e verde irrompe dos abismos e surge em suas portas.
Mas já no mar exterior a luz rodeia a Balança. A linha das águas é lisa e limpa como um vidro. O azul recorta os promontórios aureolados de glória matinal. Tudo está vestido de solenidade e de nudez. Ali eu quereria chorar de gratidão com a cara encostada contra as pedras.
As imagens atravessam os meus olhos e caminham para além de mim. Talvez eu vá ficando igual à almadilha da qual os pescadores dizem ser apenas água.
Estarão as coisas deslumbradas de ser elas? Quem me trouxe finalmente a este lugar? Ressoa a vaga no interior da gruta rouca e a maré retirando deixou redondo e doirado o quarto de areia e pedra. No centro da manhã, no centro do círculo do ar e do mar, no alto do penedo, no alto da coluna está poisada a rola branca do mar. Desertas surgem as pequenas praias.
Um fio invisível de deslumbrado espanto me guia de gruta em gruta. Eis o mar e a luz vistos por dentro. Terror de penetrar na habitação secreta da beleza, terror de ver o que nem em sonhos eu ousara ver, terror de olhar de frente as imagens mais interiores a mim do que o meu próprio pensamento. Deslizam os meus ombros cercados de água e plantas roxas. Atravesso gargantas de pedra e a arquitectura do labirinto paira roída sobre o verde. Colunas de sombra e luz suportam céu e terra. As anémonas rodeiam a grande sala de água onde os meus dedos tocam a areia rosada do fundo. E abro bem os olhos no silêncio líquido e verde onde rápidos, rápidos fogem de mim os peixes. Arcos e rosáceas suportam e desenham a claridade dos espaços matutinos. Os palácios do rei do mar escorrem luz e água. Esta manhã é igual ao princípio do mundo e aqui eu venho ver o que jamais se viu.
O meu olhar tornou-se liso como um vidro. Sirvo para que as coisas se vejam.
E eis que entro na gruta mais interior e mais cavada. Sombrias e azuis são águas e paredes. Eu quereria poisar como uma rosa sobre o mar o meu amor neste silêncio. Quereria que o contivesse para sempre o círculo de espanto e de medusas. Aqui um líquido sol fosforescente e verde irrompe dos abismos e surge em suas portas.
Mas já no mar exterior a luz rodeia a Balança. A linha das águas é lisa e limpa como um vidro. O azul recorta os promontórios aureolados de glória matinal. Tudo está vestido de solenidade e de nudez. Ali eu quereria chorar de gratidão com a cara encostada contra as pedras.
3 817
Sophia de Mello Breyner Andresen
Campo
Estou só nos campos
A doce noite murmura
A lua me ilumina
Corre em meu coração um rio de frescura
De tudo o que sonhou minha alma se aproxima
A doce noite murmura
A lua me ilumina
Corre em meu coração um rio de frescura
De tudo o que sonhou minha alma se aproxima
2 668
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Rei de Chipre
Se não fosse o amor que tudo esconde
Sob o excessivo tumulto do seu corpo
Nem fosse a solidão que tudo esfria
Como pequena pedra que irradia
Mas antes um lugar de transparência
E o rei de Chipre tão só a companhia
E a clareza do trigo em sua face
Como quem só em ilhas habitasse
Sob o excessivo tumulto do seu corpo
Nem fosse a solidão que tudo esfria
Como pequena pedra que irradia
Mas antes um lugar de transparência
E o rei de Chipre tão só a companhia
E a clareza do trigo em sua face
Como quem só em ilhas habitasse
1 892
Sophia de Mello Breyner Andresen
Oásis
Penetraremos no palmar
A água será clara o leite doce
O calor será leve o linho branco e fresco
O silêncio estará nu — o canto
Da flauta será nítido no liso
Da penumbra
Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira
A água será clara o leite doce
O calor será leve o linho branco e fresco
O silêncio estará nu — o canto
Da flauta será nítido no liso
Da penumbra
Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira
2 010
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