Sabedoria
Poemas neste tema
Reinaldo Ferreira
No princípio, só a vida existia
No princípio, só a vida existia;
O mundo era o que havia
Ao alcance da vida...
E mais nada.
Tudo era certo, simples, claro.
Quando o passado passar
(E passará, porque o passado é hoje)
E o futuro vier
(E há-de vir, porque o futuro é hoje),
Então, sim; há-de saber-se tudo
E tudo será certo, simples, claro.
Eu, porém, não sei nada.
O mundo era o que havia
Ao alcance da vida...
E mais nada.
Tudo era certo, simples, claro.
Quando o passado passar
(E passará, porque o passado é hoje)
E o futuro vier
(E há-de vir, porque o futuro é hoje),
Então, sim; há-de saber-se tudo
E tudo será certo, simples, claro.
Eu, porém, não sei nada.
2 010
Cleómenes Campos
Fábula
No começo do mundo,
quando tudo falava, um Monte, certo dia,
interrogou a um Vale, a quem mal conhecia:
— "Quem é mais alto de nós dois?"
O Vale respondeu-lhe admirado, depois:
— "Eu só te sei dizer quem é o mais profundo. . .
quando tudo falava, um Monte, certo dia,
interrogou a um Vale, a quem mal conhecia:
— "Quem é mais alto de nós dois?"
O Vale respondeu-lhe admirado, depois:
— "Eu só te sei dizer quem é o mais profundo. . .
1 011
Maria Thereza Noronha
Finito e Infinito
Entre as folhas do outono
e a infinita linha do oceano
cumpre-nos escalar montanhas
decifrar inscrições rupestres
desmontar o teorema, captar
sua argúcia de mestre.
E, inabaláveis, posto que lúcidos,
no finito da carne o agudo vértice
suavizar, e o ardor insano.
Entre as folhas do outono
e a sombra dos ciprestes.
e a infinita linha do oceano
cumpre-nos escalar montanhas
decifrar inscrições rupestres
desmontar o teorema, captar
sua argúcia de mestre.
E, inabaláveis, posto que lúcidos,
no finito da carne o agudo vértice
suavizar, e o ardor insano.
Entre as folhas do outono
e a sombra dos ciprestes.
978
Sidney Frattini
Hai Kai
O que sobraDo homemÉ só a obra.
É sempre um sim,Ou sempre um não.Mas sempre em mim.
É sempre um sim,Ou sempre um não.Mas sempre em mim.
821
Orides Fontela
Hamlet
...mais filosofias
que coisas !
que coisas !
1 322
Mário Hélio
4 - IV (Marte e Vênus)
doce amiga, apenas sou o aedo
que ignorando que as coisas eram incertas
e que a própria incerteza é mãe da vida,
te procurou como procura um asceta
sua verdade boiando além das mãos pendidas.
te possuí como se tem a um segredo
e depois de o sabermos sabemos não sabê-lo.
que ignorando que as coisas eram incertas
e que a própria incerteza é mãe da vida,
te procurou como procura um asceta
sua verdade boiando além das mãos pendidas.
te possuí como se tem a um segredo
e depois de o sabermos sabemos não sabê-lo.
835
Luiz Nogueira Barros
Milagre
E operou-se o milagre do silêncio
na boca que para o mundo se fechou.
E nos sentidos, que descobriram transparências
escondidas nas muralhas de argamassa e pedras:
que os sonhos inda imaturos não percebiam,
enganados - por séculos de mentiras...
na boca que para o mundo se fechou.
E nos sentidos, que descobriram transparências
escondidas nas muralhas de argamassa e pedras:
que os sonhos inda imaturos não percebiam,
enganados - por séculos de mentiras...
755
José Eduardo Mendes Camargo
Ouça
Quem silenciosamente
Provou o fel da dúvida,
Derramou lágrimas de tristeza,
Amargou longas esperas,
Sentiu-se só e abandonado,
Teve o descrédito de quase todos
E a tudo superou,
Hoje, nada assombra,
Tudo encanta,
Até mesmo os desencantos.
Provou o fel da dúvida,
Derramou lágrimas de tristeza,
Amargou longas esperas,
Sentiu-se só e abandonado,
Teve o descrédito de quase todos
E a tudo superou,
Hoje, nada assombra,
Tudo encanta,
Até mesmo os desencantos.
904
José Eduardo Mendes Camargo
Aprendendo
Aprender, às vezes, é muito fácil,
basta ouvir uma canção.
Outras vezes, é muito difícil,
só levando um safanão.
Aprender, por vezes, na badalação,
em outras vezes, na solidão.
Aprender, por vezes, na conversação,
em outras vezes, na meditação.
E eu quero morrer aprendendo.
basta ouvir uma canção.
Outras vezes, é muito difícil,
só levando um safanão.
Aprender, por vezes, na badalação,
em outras vezes, na solidão.
Aprender, por vezes, na conversação,
em outras vezes, na meditação.
E eu quero morrer aprendendo.
593
Eunice Arruda
Aspecto
A maturidade
chega
com a maturidade
chega
com a maturidade
926
Deborah Brennand
Sem Preconceito
Senta no primeiro degrau
o mais baixo, todo esmagado,
onde a pedra se une à terra
sem preconceitos.
Ambas têm veios negros.
E sê atenta aos sinais
a alma é muda. Mas,
o coração entende
e traduz bem
o que ela diz calada.
Escuta e sê atenta
lodo e escorpiões
juntos nas frestas
fingem amorosa inocência.
Sem preconceito, são inocentes?
o mais baixo, todo esmagado,
onde a pedra se une à terra
sem preconceitos.
Ambas têm veios negros.
E sê atenta aos sinais
a alma é muda. Mas,
o coração entende
e traduz bem
o que ela diz calada.
Escuta e sê atenta
lodo e escorpiões
juntos nas frestas
fingem amorosa inocência.
Sem preconceito, são inocentes?
1 190
Donizete Galvão
Almanaque da Pedra
Roupa branca no quarador:
enxágue-a com pedra anil.
Afta no canto da boca:
mate-a com pedra-ume.
Água de bica na talha:
jogue-lhe pedra de enxofre.
Faca com corte cego:
amole-a com pedra branca.
Dedo de prosa com craca:
raspe-o com pedra-pomes.
enxágue-a com pedra anil.
Afta no canto da boca:
mate-a com pedra-ume.
Água de bica na talha:
jogue-lhe pedra de enxofre.
Faca com corte cego:
amole-a com pedra branca.
Dedo de prosa com craca:
raspe-o com pedra-pomes.
1 245
Carlos Nóbrega
Discurso do Tempo
se a pressa iguala
o santo à fera
espera.
Não peça à pressa insana
faça-se, Quimera.
Nem pense que o porvir
será de pura primavera
pois que ao nascer a flor em si se desinteira.
Por isso o tempo passava
antes dos relógios
e era maior
quanto selvagem era.
o santo à fera
espera.
Não peça à pressa insana
faça-se, Quimera.
Nem pense que o porvir
será de pura primavera
pois que ao nascer a flor em si se desinteira.
Por isso o tempo passava
antes dos relógios
e era maior
quanto selvagem era.
801
Carlos Nóbrega
O Século Seguinte
eis o tempo
da profunda busca
Em que se busca
o que já está nas mãos
da profunda busca
Em que se busca
o que já está nas mãos
841
Poemas Sânscritos
DE BARTRHARI
1
Com pouco se contenta o que não sabe
e a uma razão se rendem logo os sábios.
Mas nem dos deuses toda a ciência basta
para a um pedante envergonhar os lábios.
Com pouco se contenta o que não sabe
e a uma razão se rendem logo os sábios.
Mas nem dos deuses toda a ciência basta
para a um pedante envergonhar os lábios.
800
Marcial
V, 58 - A PÓSTUMO
Viverás amanhã, sempre me dizes, Póstumo.
Esse amanhã, ó Póstumo, quando virá?
Quão longe mora? E aonde está? Onde buscá-lo?
Esse amanhã mais velho é que Nestor ou Príamo.
Esse amanhã tem preço? Qual o preço? Diz-me.
Viverás amanhã. E viver hoje é tarde.
Aquele é sage, ó Póstumo, que ontem viveu.
Esse amanhã, ó Póstumo, quando virá?
Quão longe mora? E aonde está? Onde buscá-lo?
Esse amanhã mais velho é que Nestor ou Príamo.
Esse amanhã tem preço? Qual o preço? Diz-me.
Viverás amanhã. E viver hoje é tarde.
Aquele é sage, ó Póstumo, que ontem viveu.
759
José Tolentino Mendonça
Da verdade do amor
Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito
pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados
não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce sem rumor
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito
pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados
não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce sem rumor
2 401
Jorge Melícias
Trespassa a hegemonia da sombra
Trespassa a hegemonia da sombra
e descobrirás o ocluso
coração da luz.
O negro é apenas a cor
onde todas as cores repousam.
Não interrogues o dia
sobre a miríade de tons em que ele se imprime.
Procura a penumbra
e ela responder-te-á
com todo o contraste que lhe está negado.
de O Tempo de Foaron(1996)
e descobrirás o ocluso
coração da luz.
O negro é apenas a cor
onde todas as cores repousam.
Não interrogues o dia
sobre a miríade de tons em que ele se imprime.
Procura a penumbra
e ela responder-te-á
com todo o contraste que lhe está negado.
de O Tempo de Foaron(1996)
776
Natália Correia
O Livro dos Amantes I
Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.
Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.
E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.
Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.
E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.
2 099
Fernando Pessoa
Tudo foi dito antes que se dissesse.
Tudo foi dito antes que se dissesse.
O vento aflora vagamente a messe,
E deixa-a porque breve se apagou.
Assim é tudo-nada. Bebe e esquece.
Na eterna sesta de não desejar
Deixa-te, bêbado e asceta, estar.
Lega o amor aos outros, que a beleza
Foi feita só para se contemplar.
24/02/1933
O vento aflora vagamente a messe,
E deixa-a porque breve se apagou.
Assim é tudo-nada. Bebe e esquece.
Na eterna sesta de não desejar
Deixa-te, bêbado e asceta, estar.
Lega o amor aos outros, que a beleza
Foi feita só para se contemplar.
24/02/1933
3 810
Fernando Pessoa
O que sentimos, não o que é sentido,
O que sentimos, não o que é sentido,
É o que temos. Claro, o Inverno triste
Como à sorte o acolhamos.
Haja Inverno na terra, não na mente.
E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
Nossa caveira breve.
08/07/1930
É o que temos. Claro, o Inverno triste
Como à sorte o acolhamos.
Haja Inverno na terra, não na mente.
E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
Nossa caveira breve.
08/07/1930
3 017
Fernando Pessoa
Quanto faças, supremamente faze.
Quanto faças, supremamente faz.
Mais vale, se a memória é quanto temos,
Lembrar muito que pouco.
E se o muito no pouco te é possível,
Mais ampla liberdade de lembrança
Te tornará teu dono.
27/02/1932
Mais vale, se a memória é quanto temos,
Lembrar muito que pouco.
E se o muito no pouco te é possível,
Mais ampla liberdade de lembrança
Te tornará teu dono.
27/02/1932
1 978
Fernando Pessoa
Domina ou cala. Não te percas, dando
Domina ou cala. Não te percas, dando
Aquilo que não tens.
Que vale o César que serias? Goza
Bastar-te o pouco que és.
Melhor te acolhe a vil choupana dada
Que o palácio devido.
27/09/1931
Aquilo que não tens.
Que vale o César que serias? Goza
Bastar-te o pouco que és.
Melhor te acolhe a vil choupana dada
Que o palácio devido.
27/09/1931
2 863
Fernando Pessoa
Quero ignorado, e calmo
Quero ignorado, e calmo
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De não querer mais deles.
Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.
Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera
Tudo que vem é grato.
02/03/1933
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De não querer mais deles.
Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.
Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera
Tudo que vem é grato.
02/03/1933
3 539
Português
English
Español