Paixão

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vii. Eros, Neera, Sacudiu Os Seus

Eros, Neera, sacudiu os seus
Cabelos sobre a testa larga e baixa
Eros-Neera-Antinoos
Irrompe no terraço.

Palmeiras nas ruínas de Palmira.
Eros poisou seu rosto no teu ombro,
Eros soltou as feras
Do halali, Neera.
1 052
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Paixão Nua

A paixão nua e cega dos estios
Atravessou a minha vida como rios
1 594
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

V. o Amor

Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria
Clara que sem descanso esculpirei.

E noite onde sem fim me afundarei.
1 935
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque Nos Outros Há Sempre Qualquer Nojo

Porque nos outros há sempre qualquer nojo
Que me gela e me afasta
E em ti há sempre um pouco de mar largo
Que de olhos cegos atrás de ti me arrasta.
1 235
Adélia Prado

Adélia Prado

Branco E Branco

Fervor, afoiteza, beco estreito,
menino com menina,
flores chamadas lírios,
dente novo mordendo talo verde,
como se o sangue deles fosse branco.
1 085
Adélia Prado

Adélia Prado

Mandala

Minha ficção maior é Jonathan,
mas, como é poética, existe
e porque existe me mata
e me faz renascer a cada ciclo
de paixão e de sonho.
1 075
Adélia Prado

Adélia Prado

O Sempre Amor

Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele falo palavras como lanças.
Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele podem entalhar-me,
sou de pedra-sabão.
Alegre ou triste,
amor é coisa que mais quero.
2 342
Adélia Prado

Adélia Prado

Uma Vez Visto

Para o homem com a flauta,
sua boca e mãos,
eu fico calada.
Me viro em dócil,
sábia de fazer com veludos
uma caixa.
O homem com a flauta
é meu susto pênsil
que nunca vou explicar,
porque flauta é flauta,
boca é boca,
mão é mão.
Como os ratos da fábula eu o sigo
roendo inroível amor.
O homem com a flauta existe?
1 358
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Era Bom Alisar Seu Traseiro Marmóreo

Era bom alisar seu traseiro marmóreo
e nele soletrar meu destino completo:
paixão, volúpia, dor, vida e morte beijando-se
em alvos esponsais numa curva infinita.

Era amargo sentir em seu frio traseiro
a cor de outro final, a esférica renúncia
a toda aspiração de amá-la de outra forma.
Só a bunda existia, o resto era miragem.
921
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Coxas Bundas Coxas

Coxas    bundas   coxas
bundas  coxas     bundas
lábios    línguas   unhas
cheiros  vulvas     céus
terrestresinfernaisno espaço ardente de uma hora
intervalada em muitos meses
de abstinência e depressão.
1 411
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Língua Lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
2 280
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nada No Instante do Tremor

Nada no instante do tremor
nada precede nada
o movimento surge instando conduzindo
numa área de emergência ambígua
até que o enlace intangível nos desnude.
978
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ancas Intermináveis Flancos

Ancas intermináveis     Flancos
que trucidam quando oscilam     dançam
(Trucidemo-las)
já que elas rasgam templos
e o próprio tempo
e o espaço
1 087
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Furor de Espuma Entre As Algas

Um furor de espuma entre as algas
e o abandono de qualquer coisa escura
A violência extrema     a extremidade
desejável
Que verde a violência e que brancura
Neste outro branco agora balbucio
pássaro branco
insecto
espuma
1 036
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Cor Viva Sem Figura

Cor viva sem figura

Ferida

árida     ávida
463
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

66. Arma de Folhas E de Folhas

66
Arma de folhas e de folhas
sobre o seio nu
na folha transparente.

O animal suspenso
pela forma do fruto incandescente
brilhando e fugindo entre a folhagem
ou o sangue fugitivo na praia do teu peito.

Na erva, ausente, respiro o ar da erva
busco a arma de folhas numa sombra
transparente que é o desenho das armas do teu peito.
1 029
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Eis a Primeira Proposição Clara

Eis a primeira proposição clara
a que trouxe o vinho e o cristal da terra

Derramaste o óleo no limiar da face
e sobre as pernas deslizou a chama verde
e sobre as pálpebras os cordões da terra
a boca soçobrou no limiar da treva

Eis a última proposição da terra
a tua língua abriu a ferida viva
a palavra soltou-se do sexo da terra
922
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Entre Tarde E Noite

Liguei-te, na minha febre seca, ao dia dos meus passos.
Lâmina justa contra o peito — um dorso obscuro e doce
entre tarde e noite.
Adormecida moita à minha beira,
com olhos de silêncio.
É noite já, entre tarde e noite.
975
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Paixão do Ar

Olhar sem caminho em cheio
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre

Uma escrita a nascer dos alvos flancos
a paixão do ar como uma chama

Paixão que une a terra cheia ao mar
o olhar respira em todo o corpo igual
o corpo eleva-se sobre a montanha fácil

O fogo flexível.
513
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Casas

à Luiza Neto Jorge

Casas — casas roucas
Atentos muros — umbrais medidos e solenes
Quarto após quarto penumbra sequiosa
Tectos lentos
Como no espelho afloram
Lagos e magia: caminho
Submerso do possível

A paixão habita seu jogo mais secreto
Sua trágica e precisa
Perfeição
1987
1 962
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Como Uma Flor Vermelha

À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.
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Susana Thénon

Susana Thénon

Nomes

Na desolação do meu sangue,
sob a angústia que me cega
eu busco nomes para meu amor:
meu amo quase ódio,
apenas sol.
746
Susana Thénon

Susana Thénon

Habitante

É o habitante
de meus desejos proibidos.
teu ritmo se levanta
perto de meu lado mais tênue.
Tua credencial
é um gemido.
777
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Boca de riso escarlate/Com dentes brancos no meio,

Boca de riso escarlate
Com dentes brancos no meio,
Meu coração bate, bate,
Mas bate por ter receio.
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