Memórias e Lembranças

Poemas neste tema

Fernando Fitas

Fernando Fitas

Tivemos os silêncios vigiados

Tivemos os silêncios vigiados
e os passos proibidos,
o caminho encarcerado
antes de esboçarmos o caminhar

E cercado o murmúrio
e cercados os olhares
nos gélidos muros
a dor tamanha que carregámos.
580
Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

Duramente aprendemos

Duramente aprendemos.
O caos e a memória
delida.
Palavras poucas, e gastas.
595
Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

Temos das coisas a lembrança das viagens

Temos das coisas a lembrança das viagens
ignotas. E o sentido delas estilhaça
no primeiro espelho da memória.

Como aquelas noites muito brancas
povoadas de crimes inenarráveis.

Também as nossas mãos, vorazes,
tacteiam um percurso de sangue:
o de inquestionáveis desígnios do amor.
473
Fernando Fitas

Fernando Fitas

Havia um barco

Havia um barco
(ou um poema)
em cada Primavera
que inventávamos.

O sol inundava
os lábios
de cada sorriso
acordando
as crianças
que habitavam em nós
e uma flauta de vento
pendurou cerejas
nos dedos da manhã

Lindas as cores
suculentos os frutos
dos corpos e das bocas
591
Fernando Fitas

Fernando Fitas

Deitado foi teu corpo

Deitado foi teu corpo
sobre a cama
na comunhão efémera
dos corpos,
na generosa entrega acontecida

E dilatando-se um corpo
noutro corpo
foi mais intensa
e mais sublime a dádiva,
foi mais belo e verdadeiro o amor

Deitado foi teu corpo
sobre a cama
onde hoje jaz inerte
o pó do tempo.
648
Renato Rezende

Renato Rezende

Júbilo

Eu não sei de nada

Eu não consigo me lembrar

de nada



(era tudo memória)
718
Renato Rezende

Renato Rezende

O Ouro Egípcio

O que me impressiona não são os peitorais
e outros antigos artefatos egípcios, de ouro
que hoje sobrevivem em museus.
O que me impressiona é o que não sobreviveu.
O tesouro perdido da civilização conquistada
por mãos anônimas e privadas, pelo ir e vir do deserto,
pelo tempo que cria gerações e as esmaga.


Nova York, dezembro 1995
884
Renato Rezende

Renato Rezende

Aleijadinho

O tempo passa pelo mundo
e nós somos os ponteiros.

Aqui estou eu outra vez,
depois de muitos anos,
em Congonhas do Campo.

Os profetas
continuam olhando para o horizonte
verde mar, azul de Minas
sem sentirem nada,
maiores que a vida, calados,

absortos em si mesmos.


Nova York, julho 1996
894
Renato Rezende

Renato Rezende

Cría Cuervos

Pensando em rever
Cría Cuervos, pela quarta vez,
mas pela primeira vez em dez anos,
meu coração se aperta -- e me emociono.
Não por antever a beleza do filme, ou como Saura
captura a tragédia da infância em suas cenas,
mas pelo jovem que um dia eu fui
e que deve ter morrido
numa sala de cinema.


Nova York, fevereiro 1996
984
Renato Rezende

Renato Rezende

Os Dias

Sobre a estante de madeira
um lenço bordado por um antepassado;
sobre esse delicado trabalho
um copo de plástico:
vaso
para flores amarelas
como astros no espaço.
Assim --
passam os dias.


Boston, setembro 1990
1 044
Renato Rezende

Renato Rezende

As Veias

O mesmo sangue que corre em minhas veias
já correram em minhas veias
em muitos outros corpos, disso tenho certeza.
Já chamei de minhas muitas veias, muitos corpos
em infindáveis línguas passadas, já mortas.
Já vivi muitas, muitas vidas... in short:
não há diferença entre um ser humano e o próximo.


Nova York, 2 de março 1996
1 009
Renato Rezende

Renato Rezende

Sombras

Comprei uma biografia de Joan Miró
com algumas fotografias velhas, uma delas
mostra o pintor-poeta no fundo de um bar
bebendo, admirando La Chunga dançar. A foto
é escura e os dois parecem mortos.
É difícil acreditar que isso realmente aconteceu, a sombra
de toda história mais parece um sonho.


Nova York, 29 de maio 1995
879
Renato Rezende

Renato Rezende

Poemas

Sou ainda muito moço,
mas quando me lembro
dos tantos momentos que já vivi na minha vida
sinto que todo o passado tem sido um sonho
desaparecendo,
e quero mesmo que desapareça
e somente sobre a essência,
o supra-sumo
como cápsulas de amor preservadas em poemas.


Nova York, 23 de julho 1995
1 022
Renato Rezende

Renato Rezende

Andaluza

A janela de serviço do pequeno apartamento
de Granada, onde morava com minha família
(eu, meu marido, três filhos, a empregada)
era também pequena, mas dava
para a rua ensolarada: as copas das árvores
das alamedas de Granada, e a vida, que passava
(sempre!) longe e iluminada.


Nova York, setembro 1995
661
Renato Rezende

Renato Rezende

Bacia

Banho de bacia
de metal esmaltado azul
claro como o dia
que quase-acaba,
como a asa
de uma borboleta pousada
na fruta.
1 084
Renato Rezende

Renato Rezende

As Horas de Amor

O Marajá Akbar
escreve em sua biografia
que durante sua vida inteira
só sentiu amor verdadeiro
por três minutos e meio.

Akbar, o rei, o imperador
não apenas de uma província
mas de um país inteiro.

Quanto tempo de amor
eu tenho vivido na minha vida?


Nova York, 28 de junho 1995
940
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

UMA ALEGRIA

jamais minas gerais
vibrou dentro de mim

o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor

transatlântico negro
como naquele breve maio

ensolarado de alegrias
quando eu deambulava

pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri

em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas

áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
610
Renato Rezende

Renato Rezende

Depois do Banquete

Sobre a mesa fica
o que sobrou da efêmera alegria:
uma garrafa de vinho quase vazia
alguns vestígios de comida já não apetecível
e o último pedaço de pão,
esquecido:
cotovelo de anjo.


Salamanca, julho 1988
876
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

ÁLBUM DE FAMÍLIA

Meu pai viu Casablanca três vezes (duas
no cinema e uma na TV). Meu avô
trabalhou na boca da mina. Meu bisavô
foi, no mínimo, escravo de confiança.
672
António Carlos Cortez

António Carlos Cortez

Poética

Como pedra lançada ao mar da infância quando a mãe abria a porta de casa e trazia o vento e o gelo Mar agitado nos seus círculos pétreos Quem dera eu encontrasse a repercussão das formas antigas e perfeitas até ao ponto em que das margens avistasse o epicentro da dor e da alegria.
535
Simone Brantes

Simone Brantes

Meus mortos

Meus mortos não estão encarapitados
no alto das árvores
não são eles que balançam
os galhos quando eu passo nos dias de calmaria
não estão debaixo da terra nem voam pálidos
sobre minha cabeça debaixo do céu azul
Aparecem nos sonhos e desaparecem
quando são cinco ou seis da manhã
meus mortos são covardes
não têm coragem
de viver
711
Hélia Correia

Hélia Correia

23.

A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
1 134
Armando Silva Carvalho

Armando Silva Carvalho

34

com mãos, olfacto, dentes, boca
que procuro o cheiro dos animais à mesa,
da roupa amarrotada duma antiga
posse viva e de criança,
da comida espessa na sua longa espera,
a mais reconfortante,
o rumor entontecido dos pássaros,
os amigos seguros, a ternura dos tios, a pancada cega,
sempre repetida,
e pelo amor da mãe desmoronada.
1 062
Luís Quintais

Luís Quintais

Passos

Escutaste os passos
no quarto
semi-escurecido
pela tua derrota?

Não eram teus,
mas do que amaste:

os passos
do que esqueces.
737