Mar, Rios e Oceanos

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Xi. Olhos Abertos do Navegador

Olhos abertos do navegador
Mudam aqui a luz a sombra a cor
E também faces e gestos se modulam
Segundo elaboradas estranhezas
Outro o recorte da vaga e do penedo
Caudas de dragões seguem os barcos
1982
1 113
Sophia de Mello Breyner Andresen

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Ondas

Onde — ondas — mais belos cavalos
Do que estas ondas que vós sois
Onde mais bela curva do pescoço
Onde mais longa crina sacudida
Ou impetuoso arfar no mar imenso
Onde tão ébrio amor em vasta praia?
Dezembro de 1989
1 727
Sophia de Mello Breyner Andresen

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I. Navegámos Para Oriente

Navegámos para Oriente —
A longa costa
Era de um verde espesso e sonolento

Um verde imóvel sob o nenhum vento
Até à branca praia cor de rosas
Tocada pelas águas transparentes

Então surgiram as ilhas luminosas
De um azul tão puro e tão violento
Que excedia o fulgor do firmamento
Navegado por garças milagrosas

E extinguiram-se em nós memória e tempo
1977
1 197
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

I. Deslizado Silêncio Sob Alísios

Deslizado silêncio sob alísios
— As velas todas brandamente inchadas —
Brilho de escamas sobre os grandes mares
E a bombordo nas costas avistadas
Sob o clamor de extáticos luares
Um imóvel silêncio de palmares
1982
1 084
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Oriente

Este lugar amou perdidamente
Quem o cabo rondou do extremo Sul
E a costa indo seguindo para Oriente
Viu as ilhas azuis do mar azul
………………………………………
Viu pérolas safiras e corais
E a grande noite parada e transparente
Viu cidades nações viu passar gente
De leve passo e gestos musicais

Perfumes e tempero descobriu
E danças moduladas por vestidos
Sedosos flutuantes e compridos
E outro nasceu de tudo quanto viu
………………………………………
1988
1 241
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ii. Era a Rota do Oiro

Era a rota do oiro
Porém nos grandes mares
Ou em praias baloiçadas por coqueiros
O espanto nos guiava —
Água escorria de todas as imagens
1982
1 180
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iv. Aqui Viu o Surgir Em Flor Das Ilhas

«Dolce color d’oriental zaffiro»
Dante, Purgatório, Canto I, terceto 5

Aqui viu o surgir em flor das ilhas
Quem vindo pelo mar desceu ao sul
E o cabo contornou para nascente
Orientando o cortar das negras quilhas

E sob as altas nuvens brancas liras
Os olhos viram verdadeiramente
O doce azul de Oriente e de safiras
1977
1 056
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iii. À Luz do Aparecer a Madrugada

À luz do aparecer a madrugada
Iluminava o côncavo de ausentes
Velas a demandar estas paragens

Aqui desceram as âncoras escuras
Daqueles que vieram procurando
O rosto real de todas as figuras
E ousaram — aventura a mais incrível —
Viver a inteireza do possível
1977
643
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iii. Nus Se Banharam Em Grandes Praias Lisas

Nus se banharam em grandes praias lisas
Outros se perderam no repentino azul dos temporais
1982
1 200
Sophia de Mello Breyner Andresen

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Açores

Há um intenso orgulho
Na palavra Açor
E em redor das ilhas
O mar é maior

Como num convés
Respiro amplidão
No ar brilha a luz
Da navegação

Mas este convés
É de terra escura
É de lés a lés
Prado agricultura

É terra lavrada
Por navegadores
E os que no mar pescam
São agricultores

Por isso há nos homens
Aprumo de proa
E não sei que sonho
Em cada pessoa

As casas são brancas
Em luz de pintor
Quem pintou as barras
Afinou a cor

Aqui o antigo
Tem o limpo do novo —
É o mar que traz
Do largo o renovo

E como num convés
De intensa limpeza
Há no ar um brilho
De bruma e clareza

É convés lavrado
Em plena amplidão
É o mar que traz
As ilhas na mão

Buscámos no mundo
Mar e maravilhas
Deslumbradamente
Surgiram nove ilhas

E foi na Terceira
Com o mar à proa
Que nasceu a mãe
Do poeta Pessoa

Em cujo poema
Respiro amplidão
E me cerca a luz
Da navegação

Em cujo poema
Como num convés
A limpeza extrema
Luz de lés a lés

Poema onde está
A palavra pura
De um povo cindido
Por tanta aventura

Poema onde está
A palavra extrema
Que une e reconhece —
Pois só no poema

Um povo amanhece
1976
1 160
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ii. Navegação Abstracta

Navegação abstracta
Fito como um peixe o voo segue a rota
Vista de cima tornou-se a terra um mapa

Porém subitamente
Atravessámos do Oriente a grande porta
De safiras azuis no mar luzente
1977
1 000
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Termoli

Quase lua cheia e baixa sobre o mar
Magnética e brilhante nos panos pretos da noite
Foi então que abordámos em margens de silêncio
E uma pequena cidade surgiu antiga e cor de bronze
1 028
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Fechei À Chave

Fechei à chave todos os meus cavalos
A chave perdi-a no correr de um rio
Que me levou para o mar de longas crinas
Onde o caos recomeça — incorruptível
1 259
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Procelária

É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente

Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo
1 682
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ó Poesia Sonhei Que Fosses Tudo

E eis-me na orla vã abandonada
Uma por uma as ondas sem defeito
Quebram o seu colo azul de espuma
E é como se um poema fosse nada.
1 222
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Arco Das Espumas

O mar rolou as suas ondas negras
Sobre as praias tocadas de infinito.
1 226
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iv. o Encontro

Redonda era a tarde
Sossegada e lisa
Na margem do rio
Alguém se despia.
Sozinho o cigano
Sozinho na tarde
Na margem do rio
Seu corpo surgia
Brilhante da água
Semelhante à lua
Que se vê de dia
Semelhante à lua
E semelhante ao brilho
De uma faca nua.
Redonda era a tarde.
1 662
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Praia

As ondas desenrolam os seus braços
E brancas tombam de bruços.
1 459
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Marinheiro Real

Vem do mar azul o marinheiro
Vem tranquilo ritmado inteiro
Perfeito como um deus,
Alheio às ruas.
1 647
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Reino

Reino de medusas e água lisa
Reino de silêncio luz e pedra
Habitação das formas espantosas
Coluna de sal e círculo de luz
Medida da Balança misteriosa
1 212
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Esquemáticos Caminhos

De múltiplas esperas.
Que abandono divide
A minha alma em dois?

Dois que se combatem
Irmãos e diversos
Tão alheios que
Sem amor se conhecem.

Intacto rosto
Mas tão perdido agora
Na infinita noite
Do tempo que pára.

Esperança e demora
Entre duas luas
Caminhei suspensa.

No rosto dos barcos
Perdi os meus gestos
E o vento cortou
A minha face em dois
Rostos vãos e dispersos.

Ó náufragos azuis enrolados
Em colunas de sal e de corais
E algas verdes e mastros quebrados
Que gemem como pinhais.

Ó quanto vos vejo porque estais
Onde se vive sem memória alguma
E todo o pensamento e toda a posse
São desfeita espuma.
1 024
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Gruta do Leão

Para além da terra pobre e desflorida
Mostra-me o mar a gruta roxa e rouca
Feita de puro interior
E povoada
De cava ressonância e sombra e brilho
1 231
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Atlântico

Mar,
Metade da minha alma é feita de maresia.
1 647
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ir Beber-Te Num Navio de Altos Mastros

No mar alto
Ó grande noite alucinada e pura,
Brilhante e escura,
Bordada de astros.

Para ti sobe a minha inquietação e sobressalto,
O meu caos, desilusão e agonia,
Pois trazes nos teus dedos
A sombra, o silêncio e os segredos,
A perfeição, a pureza e a harmonia.
1 136