Literatura e Palavras
Poemas neste tema
Herberto Helder
4D
A solidão de uma palavra. Uma colina quando a espuma
salta contra o mês de maio
escrito. A mão que o escreve agora.
Até cada coisa mergulhar no seu baptismo.
Até que essa palavra se transmude em nome
e pouse, pelo sopro, no centro
de como corres cheio de luz selvagem,
como se levasses uma faixa de água
entre
o coração e o umbigo.
salta contra o mês de maio
escrito. A mão que o escreve agora.
Até cada coisa mergulhar no seu baptismo.
Até que essa palavra se transmude em nome
e pouse, pelo sopro, no centro
de como corres cheio de luz selvagem,
como se levasses uma faixa de água
entre
o coração e o umbigo.
583
Herberto Helder
4H
O dia abre a cauda de água, o copo
vibra com tanta força,
as unhas fulguram sobre a toalha.
Cada palavra pensa cada coisa.
Entre imagens de ouro e vento, a constelação arterial dos objectos
do mundo alarga os braços furiosamente
de abismo a abismo.
A mão convulsa manobra a vida máxima.
E então sou devorado pelos nomes
selvagens.
vibra com tanta força,
as unhas fulguram sobre a toalha.
Cada palavra pensa cada coisa.
Entre imagens de ouro e vento, a constelação arterial dos objectos
do mundo alarga os braços furiosamente
de abismo a abismo.
A mão convulsa manobra a vida máxima.
E então sou devorado pelos nomes
selvagens.
1 071
Herberto Helder
Quatro Poemas Árabes - Divisa
Conhecem-me os cavalos e a noite e os desertos
traiçoeiros e a guerra e as feridas e o papel e a pena.
traiçoeiros e a guerra e as feridas e o papel e a pena.
1 171
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - a Leitura
Meus olhos resgatam o que está preso na página: o branco do branco e o
preto do preto.
preto do preto.
1 084
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - a Lua
A lua é um espelho empanado pelo hálito das raparigas.
E a noite veste-se com o seu brilho como a negra tinta se veste com o
papel branco.
E a noite veste-se com o seu brilho como a negra tinta se veste com o
papel branco.
1 213
Herberto Helder
Iv E
Quero um erro de gramática que refaça
na metade luminosa o poema do mundo,
e que Deus mantenha oculto na metade nocturna
o erro do erro:
alta voltagem do ouro,
bafo no rosto.
na metade luminosa o poema do mundo,
e que Deus mantenha oculto na metade nocturna
o erro do erro:
alta voltagem do ouro,
bafo no rosto.
954
Herberto Helder
Iv J
Arquipélago:
ar que o habita, movimento, sal, abalo.
O barulho, o verbo.
Arqueja a folha onde se funda escrito.
Na linha dos trópicos arqueja de calor e velocidades de água:
e nas frias braças da natação a pique, a morte
submarina.
ar que o habita, movimento, sal, abalo.
O barulho, o verbo.
Arqueja a folha onde se funda escrito.
Na linha dos trópicos arqueja de calor e velocidades de água:
e nas frias braças da natação a pique, a morte
submarina.
544
Herberto Helder
95
abrupto termo dito último pesado poema do mundo
até novembro de 2008.
até novembro de 2008.
897
Herberto Helder
16
queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima
1 128
Herberto Helder
13
e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma
à mão que me administra a alma
959
Herberto Helder
25
e encerrar-me todo num poema,
não em língua plana mas em língua plena
não em língua plana mas em língua plena
1 195
Herberto Helder
71
mesmo assim fez grandes mãos, mãos sem anéis, incorruptíveis,
e aplicou-as nas matérias virgens,
escreveu algumas palavras numa folha fechada escreveu-as
oh milagre na folha estanque, e elas
transbordaram:
morreu disso
e aplicou-as nas matérias virgens,
escreveu algumas palavras numa folha fechada escreveu-as
oh milagre na folha estanque, e elas
transbordaram:
morreu disso
898
Herberto Helder
49
do mundo que malmolha ou desolha não me defendo,
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento
989
Herberto Helder
53
mesmo sem gente nenhuma que te ouça,
poema intrínseco dito a português e dentes,
a sangue desmanchado,
com a estria lírica a fervilhar de riscas
rudes, frescas, roucas,
tu que como que iluminas pela boca fora
poema intrínseco dito a português e dentes,
a sangue desmanchado,
com a estria lírica a fervilhar de riscas
rudes, frescas, roucas,
tu que como que iluminas pela boca fora
1 037
Herberto Helder
28
mas como: um pequeno poema com um relâmpago íngreme e
instantâneo entre as linhas,
pau puro, ar
balançado, laranja,
a mais limpa chama coada pela árvore,
e a noite devora o mundo,
e eu reluzo,
as varas requeimadas contra as grandes fábricas da água,
até à mesa onde escrevo?
instantâneo entre as linhas,
pau puro, ar
balançado, laranja,
a mais limpa chama coada pela árvore,
e a noite devora o mundo,
e eu reluzo,
as varas requeimadas contra as grandes fábricas da água,
até à mesa onde escrevo?
863
Herberto Helder
9
que fosses escrita com todas as linhas de todas as coisas numa frase de ensino
supremacia, pela
quantidade de brancura fêmea,
pelo enredo luminoso,
com as linhas dos dias concêntricos
rectos e curvos numa só linha
respirada,
unida
supremacia, pela
quantidade de brancura fêmea,
pelo enredo luminoso,
com as linhas dos dias concêntricos
rectos e curvos numa só linha
respirada,
unida
1 048
Herberto Helder
Vida Aguda Atenta a Tudo
vida aguda atenta a tudo
e contudo para acabar mais depressa no escuro
escrevo rescrevo
e enfim reluzo e desmorro
(finjo pensá-lo)
um pouco um pouco
acautela a tua dor que se não torne académica
e contudo para acabar mais depressa no escuro
escrevo rescrevo
e enfim reluzo e desmorro
(finjo pensá-lo)
um pouco um pouco
acautela a tua dor que se não torne académica
1 100
Herberto Helder
Ele Que Tinha Ouvido Absoluto Para As Músicas
ele que tinha ouvido absoluto para as músicas sumptuosas do verso
livre
ouvia a cada nó de sílaba
um silêncio de morte
livre
ouvia a cada nó de sílaba
um silêncio de morte
1 099
Herberto Helder
Nada Pode Ser Mais Complexo Que Um Poema
nada pode ser mais complexo que um poema,
organismo superlativo absoluto vivo,
apenas com palavras,
apenas com palavras despropositadas,
movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
nada mais que isso,
música,
e o silêncio por ela fora
organismo superlativo absoluto vivo,
apenas com palavras,
apenas com palavras despropositadas,
movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
nada mais que isso,
música,
e o silêncio por ela fora
1 276
Herberto Helder
¿Mas Que Sentido Faz Isto
mas que sentido faz isto:
pedras quadradas, árvores vermelhas sob condição de atmosfera azul petróleo,
poema —
que sal bruto em água abrupta,
que água adulta e muita,
que subtil pepita a transcorrer entre pulso e unha,
que tumulto no mundo avulso unido?
— e tudo com umas gotas poucas apenas nem de orvalho mas de tinta!
pedras quadradas, árvores vermelhas sob condição de atmosfera azul petróleo,
poema —
que sal bruto em água abrupta,
que água adulta e muita,
que subtil pepita a transcorrer entre pulso e unha,
que tumulto no mundo avulso unido?
— e tudo com umas gotas poucas apenas nem de orvalho mas de tinta!
940
Herberto Helder
Só Quanto Ladra Na Garganta, Sofreado, Curto, Cortado
só quanto ladra na garganta, sofreado, curto, cortado,
a um sopro do surto,
riscado nas gengivas,
intrínseco em suas músicas ou
intransitivo:
poema perfeito prometido que não nunca
a um sopro do surto,
riscado nas gengivas,
intrínseco em suas músicas ou
intransitivo:
poema perfeito prometido que não nunca
1 023
Herberto Helder
Esquivar-Se À Sintaxe E Abusar do Mundo
esquivar-se à sintaxe e abusar do mundo,
oh como em pedra trançada ficou dito,
ígnea pedra até ao fim de tudo e mais que tudo isso infundido,
lá onde fresca e unânime a terra que respira:
ferida funda
— e sem nada a ver com tudo,
os burrocratas indizíveis
oh como em pedra trançada ficou dito,
ígnea pedra até ao fim de tudo e mais que tudo isso infundido,
lá onde fresca e unânime a terra que respira:
ferida funda
— e sem nada a ver com tudo,
os burrocratas indizíveis
861
Herberto Helder
Escrevi Um Curto Poema Trémulo E Severo
escrevi um curto poema trémulo e severo,
sete ou nove linhas,
e a densa delicadeza dessas linhas
era cortada por uma ferida cega,
mas aquilo que o alimentava e unia
— fundo, devastador, incompreensível —
nem eu sabia o que era:
talvez a técnica atenção da morte
vigiasse arte tão breve, tão furtiva
sete ou nove linhas,
e a densa delicadeza dessas linhas
era cortada por uma ferida cega,
mas aquilo que o alimentava e unia
— fundo, devastador, incompreensível —
nem eu sabia o que era:
talvez a técnica atenção da morte
vigiasse arte tão breve, tão furtiva
1 079
Herberto Helder
Hoje, Que Eu Estava Conforme Ao Dia Fundo
hoje, que eu estava conforme ao dia fundo,
fui-me a reler alguns dos meus poemas,
e então cai abaixo de mim mesmo,
e era só o que faltava:
sáfara safra
— nem as mãos me serviam,
nem a dor escrita e lida me serve para nada
fui-me a reler alguns dos meus poemas,
e então cai abaixo de mim mesmo,
e era só o que faltava:
sáfara safra
— nem as mãos me serviam,
nem a dor escrita e lida me serve para nada
729
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