Fé, Espiritualidade e Religião

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Senhor

Senhor sempre te adiei
Embora sempre soubesse que me vias
Quis ver o mundo em si e não em ti
E embora nunca te negasse te apartei
1987
1 222
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Exílio

Exilámos os deuses e fomos
Exilados da nossa inteireza
1 134
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iii. Ausentes São Os Deuses Mas Presidem

Ausentes são os deuses mas presidem.
Nós habitamos nessa
Transparência ambígua.

Seu pensamento emerge quando tudo
De súbito se torna
Solenemente exacto.

O seu olhar ensina o nosso olhar:
Nossa atenção ao mundo
É o culto que pedem.
1 219
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Tripoli 76

I

Cruzam-se muitas e diversas gentes
Vindas de muitos e diversos mundos
Vestindo muitas e diversas roupas
Falando muitas e diversas línguas
Vêm de muitos e diversos ritos
E cultos e culturas e paragens
II

O recitador entoa a palavra modulada
Rouca de deserto e sol e imensidão
Entoa a veemência nua da palavra
Fronteira de puro Deus e puro nada
III

E Leptis Magna em sua pedra cor de trigo
E em seu chão de laje pelo sol varrido
Guarda o matinal no mais antigo
1 094
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Veste Dos Fariseus

Era um Cristo sem poder
Sem espada e sem riqueza
Seus amigos o negavam
Antes do galo cantar
A polícia o perseguia
Guiada por Fariseus
O poder lavou as mãos
Daquele sangue inocente
Crucificai-o depressa
Lhe pedia toda a gente
Guiada por Fariseus
Foi cuspido e foi julgado
No centro duma cidade
Insultos o perseguiam
E morreu desfigurado
O templo rasgou seus véus
E Pilatos seus vestidos
Rasgaram seu coração
Maria Mãe de João
João Filho de Maria
A treva caiu dos céus
Sobre a terra em pleno dia
Nem uma nódoa se via
Na veste dos Fariseus
943
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

No Tempo Dividido

E agora ó Deuses que vos direi de mim?
Tardes inertes morrem no jardim.
Esqueci-me de vós e sem memória
Caminho nos caminhos onde o tempo
Como um monstro a si próprio se devora.
1 796
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Deus É No Dia

Deus é no dia uma palavra calma
Um sopro de amplidão e de lisura.
1 291
Adélia Prado

Adélia Prado

Num Jardim Japonês

Ao minuto de gozo do que chamamos Deus,
fazer silêncio ainda é ruído.
1 436
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Reza da Manhã de Maio

Senhor, dai-me a inocência dos animais
Para que eu possa beber nesta manhã
A harmonia e a força das coisas naturais.

Apagai a máscara vazia e vã
De humanidade,
Apagai a vaidade,
Para que eu me perca e me dissolva
Na perfeição da manhã
E para que o vento me devolva
A parte de mim que vive
À beira dum jardim que só eu tive.
1 770
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Senhor

Senhor se eu me engano e minto,
Se aquilo a que chamei a vossa verdade
É apenas um novo caminho da vaidade,
Se a plenitude imensa que em mim sinto,
Se a harmonia de tudo a transbordar,
Se a sensação de força e de pureza
São a literatura alheia e o meu bem-estar,
Se me enganei na minha única certeza,
Mandai os vossos anjos rasgar
Em pedaços o meu ser
E que eu vá abandonada
Pelos caminhos a sofrer.
809
Adélia Prado

Adélia Prado

O Vivente

Sem avisos se mostra
a duração perfeita,
forma que de si mesma se acrescenta
e na mesma medida permanece.
Contemplá-la
é querer para si toda a pobreza.
Não causa medo,
só o belo tremor da noiva
deixando a casa paterna.
O que diz é: vem.
O que é: abismo.
Puro gozo
que à medida que come
mais tem fome.
1 034
Adélia Prado

Adélia Prado

As Demoras de Deus

Quero coisas pro corpo,
o que se suja sozinho
e diligente produz sua própria escória.
Por astúcia Vos lembro, ó Criador,
apesar de eterno e eu histórica,
tendes também um corpo.
Portanto, feitos um para o outro,
Vosso ouvido e minha língua.
Ouvi-me pois,
antes que, de tanto pedir-Vos,
do céu da boca me desabem os dentes.
1 025
Adélia Prado

Adélia Prado

Ofício Parvo

Quero limpar a boca e as entranhas
do sonho que me sujou
mais que se em vigília
as mesmas podres coisas me sujassem.
O tentador me cobra sem descanso
uma prova de fé.
Virgem, Porta do Céu, em meu favor,
pisa com teu pé de menina
a cabeça de cobra que ele tem,
me livra da tentação
de sofrer mais do que Deus.
1 188
Adélia Prado

Adélia Prado

No Jardim

Sob sol quente, no jardim flamejante
a varejeira rebrilha, joia viva.
O poder de Deus me aterra em sua inércia.
Não vai impedir a mosca de botar seus ovos
sobre a língua defunta que Lhe cantou as obras.
Tremo, obrigada que sou
a ver Seu rosto sob vermes.
1 282
Adélia Prado

Adélia Prado

Consanguíneos

Não há culpados para a dor que eu sinto.
É Ele, Deus, quem me dói pedindo amor
como se fora eu Sua mãe e O rejeitasse.
Se me ajudar um remédio a respirar melhor,
obteremos clemência, Ele e eu.
Jungidos como estamos em formidável parelha,
enquanto Ele não dorme eu não descanso.
1 219
Adélia Prado

Adélia Prado

Sinal No Céu

É um tom de laranja
sobre os montes
um pensamento inarticulado
de que a Virgem
pôs o mundo no colo
e passeia com ele nos rosais.
1 431
Adélia Prado

Adélia Prado

A Convertida

A liturgia,
o ícone,
o monacato.
Descobri que sou russa.
1 212
Adélia Prado

Adélia Prado

Nossa Senhora Das Flores

Acostuma teus olhos ao negrume do pátio
e olha na direção onde ao meio-dia
cintilava o jardim.
A rosa miúda em pencas
destila inquietações,
peleja por abortar teu passeio noturno.
Há mais que um cheiro de rosas,
o movimento das palmas não será o réptil?
Ó Mãe da Divina Graça,
vem com tua mão poderosa,
mata este medo pra mim.
1 296
Adélia Prado

Adélia Prado

Viés

Ó lua, fragmento de terra na diáspora,
desejável deserto, lua seca.
Nunca me confessei às coisas,
tão melhor do que elas me julgava.
Hoje, por preposto de Deus escolho-te,
clarão indireto, luz que não cintila.
Quero misericórdia e por nenhum romantismo
sou movida.
1 452
Adélia Prado

Adélia Prado

Mais Potente Que Hormônios

Falei sem me dar conta
de que falava coisa teosófica:
Tudo que eu peço Deus me dá.
Desde sempre vivi na eternidade.
Poeta velho é como o Rei Davi,
donzelas são escolhidas
pra lhe aquecer os ossos.
Todas o querem, ainda que, incendiadas,
só lhe restem palavras.
1 035
Adélia Prado

Adélia Prado

Filhinha

Deus não é severo mais,
suas rugas, sua boca vincada
são marcas de expressão
de tanto sorrir pra mim.
Me chama a audiências privadas,
me trata por Lucilinda,
só me proíbe coisas
visando meu próprio bem.
Quando o passeio
é à borda de precipícios,
me dá sua mão enorme.
Eu não sou órfã mais não.
1 551
Adélia Prado

Adélia Prado

O Santo

O padre marxista está cansado.
Deu-se conta
quando viu passar a carroça
entufada de cana verde
e falou sem saber por quê:
mãe, ô mãe, mãezinha,
minha querida mãe.
Nunca mais pregou.
Diz o povo
que pegou fama de santo.
1 340
Adélia Prado

Adélia Prado

Presença

Malefício nenhum resiste
ao encantamento da hora
em que percebo as cúpulas,
até um zimbório
eu vejo na mesquita,
até cruz no santuário
— e são árvores na bruma
à luz reflexa da tarde.
O olho de Deus me vê,
o olho amoroso dele.
1 226
Adélia Prado

Adélia Prado

Citação de Isaías

A matéria de Deus é Seu amor.
Sua forma é Jonathan,
o que dói e perece
e me diz, com tremor da criação inteira:
“És preciosa aos meus olhos,
porque eu te aprecio e te amo,
permuto reinos por ti.”
1 131