Desilusão e Desamor

Poemas neste tema

Martha Medeiros

Martha Medeiros

não faz diferença

não faz diferença
se você vem amanhã
ou não vem
desisti de esperar
por alguém
cuja ausência
me faz companhia
1 184
Martha Medeiros

Martha Medeiros

o que uma guitarra faz

o que uma guitarra faz
nenhum rapaz comigo já fez
1 084
Martha Medeiros

Martha Medeiros

amor por correspondência

amor por correspondência
tem problema de fuso horário
ele me entende tarde demais
eu desisto dele muito cedo
1 102
Martha Medeiros

Martha Medeiros

o término da nossa relação

o término da nossa relação
foi pra mim um choque térmico
não senti mais teu calor
nunca te vi tão frio
930
Martha Medeiros

Martha Medeiros

a emoção que veio vermelha

a emoção que veio vermelha
virou saudade branca
e ficou a lembrança cor-de-rosa
do teu olhar azul
do meu sorriso amarelo
e daquele nosso desejo
tão cor da pele
1 173
Martha Medeiros

Martha Medeiros

quando dou pra ti

quando dou pra ti
sou mulher


quando dou por mim
solidão
1 128
Martha Medeiros

Martha Medeiros

foi então que ela viu no calendário

foi então que ela viu no calendário
um sofrimento diário
uma dor que tinha número
e uma aflição já havia um mês


foi então que resolveu queimá-lo
e trocá-lo por uma ampulheta
que baixa a dor mais rápido
e mata o amor de vez
1 056
Martha Medeiros

Martha Medeiros

caprichei na meia-calça

caprichei na meia-calça
preparei a meia-luz
irrompi à meia-noite


ficou tudo meia-boca
966
Martha Medeiros

Martha Medeiros

aquele amor poderia ter me matado

aquele amor poderia ter me matado
como mata centenas de mulheres por aí


certos amores não passam
de uma bomba a ser desativada a tempo
1 012
Martha Medeiros

Martha Medeiros

você

você
não sente a minha falta


e eu
sem ti
555
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Poema Perdido

Porque eu trazia rios de frescura
E claros horizontes de pureza
Mas tudo se perdeu ante a secura
De combater em vão

E as arestas finas e vivas do meu reino
São o claro brilhar da solidão.
1 276
Martha Medeiros

Martha Medeiros

bem que me avisaram

bem que me avisaram
ficarás sozinha e mal falada
dolorida e abandonada
à mercê dos tubarões


mas não pude resistir
foi mais forte os calafrios
agora a ver navios
nunca mais os garanhões
978
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Como Todo o Amor Humano

Eras impuro, falso e vil,
Mas eu ergui a perfeição do teu perfil
Na manhã d’hoje em frente do Oceano.
1 134
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Xiv. Através do Teu Coração Passou Um Barco

Através do teu coração passou um barco
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho
1982
1 360
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Será Possível

Será possível que nada se cumprisse?
Que o roseiral a brisa as folhas de hera
Fossem como palavras sem sentido
— Que nada sejam senão seu rosto ido
Sem regresso nem resposta — só perdido?
977
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Lamentação de Adriano Sobre a Morte de Antinoos

Não escreverei mais o meu nome em letras gregas sobre a cera das tabuinhas
Porque estás morto
E contigo morreu o meu projecto de viver a condição divina
1 090
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Traduzido de Kleist

Dizem que no outro mundo o sol é mais brilhante
E brilha sobre campos mais floridos
Mas os olhos que vêem essas maravilhas
São olhos apodrecidos
1 514
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Saga

Aos outros dei aquilo que não eram
E por isso depois me arrependi.
Um homem morto em tudo o que perdi —
E olhos que são meus e não me esperam.
1 453
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Aquelas Cujos Ombros Se Extinguiram

Contra os muros dum quarto misterioso
Onde há uma janela voltada para longe

Aquelas em cujos olhos não há cor
À força de fitarem o vazio
Que vai e vem entre o horizonte e elas

Aquelas cujo desespero cai
De todo o céu a pique sobre a terra,
Imutável e completo, igual
Ao silêncio do mar sobre os naufrágios.

Elas são aquelas que esperaram
Que todas as promessas se cumprissem
E que nos cegos deuses confiaram.
1 094
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Mais do Que Tudo, Odeio

Tantas noites em flor da Primavera,
Transbordantes de apelos e de espera,
Mas donde nunca nada veio.
1 015
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vi. Por Que Será Que Não Há Ninguém No Mundo

Por que será que não há ninguém no mundo
Só encontrei distância e mar
Sempre sem corpo os nomes ao soar
E todos a contarem o futuro
Como se fosse o único presente
Olhos criavam outras as imagens
Quebrando em dois o amor insuficiente
Eu nunca pedi nada porque era
Completa a minha esperança
1 034
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Às Vezes Julgo Ver Nos Meus Olhos

A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.

Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.
1 109
Adélia Prado

Adélia Prado

À Mesa

Faca oxidada contra a polpa verde,
é roxo o amor.
De amoras, não.
De dor.
1 341
Adélia Prado

Adélia Prado

A Diva

Vamos ao teatro, Maria José?
Quem me dera,
desmanchei em rosca quinze quilos de farinha,
tou podre. Outro dia a gente vamos.
Falou meio triste, culpada,
e um pouco alegre por recusar com orgulho.
TEATRO! Disse no espelho.
TEATRO! Mais alto, desgrenhada.
TEATRO! E os cacos voaram
sem nenhum aplauso.
Perfeita.
2 655