Criatividade e Inspiração

Poemas neste tema

Adélia Prado

Adélia Prado

Arguição da Soberba

O que de pronto se mostra
palpitante e acabado
vazando precioso entre cacófatos
se ri do poeta
ocupado em limpar textículos:
ó truão,
no poema como no quadro
os olhos estão no umbigo.
940
Adélia Prado

Adélia Prado

Na Terra Como No Céu

Nesta hora da tarde
quando a casa repousa
a obra de minhas mãos
é esta cozinha limpa.
Tão fácil
um dia depois do outro
e logo estaremos juntos
nas “colinas eternas”.
Recupera meu corpo
um modo de bondade,
a que me torna capaz
de produzir um verso.
Compreendes-me, Altíssimo?
Ele não responde,
dorme também a sesta.
1 126
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Exercitia, de José Geraldo Nogueira Moutinho

A procura do número
na lição de Agostinho
e o encontro da poesia
no Oriente deserto
(sans ennui)
na escala de Alcavala
na maçã de Cézanne
— flecha em voo andorinho —
tudo revela a arte,
o engenho, a fina parte
da lucidez no sonho
de Nogueira Moutinho.
1 046
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Passatempo

O verso não, ou sim o verso?
Eis-me perdido no universo
do dizer, que, tímido, verso,
sabendo embora que o que lavra
só encontra meia palavra.
1 356
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Porque Não É o Impensável

Porque não é o impensável
a voz do fogo
que desenha
as suas ondas
e as habita
no instante fulgurante?
1 064
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Jardim

Nenhuma cabeça emerge
das linhas que germinam
nenhum corpo é o corpo
visível voo de um pássaro

incendiando o branco.
Mas os ângulos verdes
vibram. Silêncio cintilante.
É talvez o jardim.

Devagar sobre a pedra
um deslumbrado instrumento
cria o signo volátil
para que se abra a esfera.
480
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Por Encanto de Nuvem

Por encanto de nuvem
no favorável silêncio voluptuoso
a forma afluiu com as cabeças
rompendo a água do azul.
549
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Saborear a Alteridade Na Múltipla

Saborear a alteridade na múltipla
divagação de formas silenciosas.
Textura plural a partir da ruptura
donde nasce o movimento inicial.
568
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Quando Ao Sopro Esparso Iniciarmos

Quando ao sopro esparso iniciarmos
na brancura nua a veloz arquitectura
saberemos que a casa está intacta.
1 137
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dizer As Palavras Na Afluência

Dizer as palavras na afluência
que vem do impenetrável arvoredo.
São estes os vocábulos sem miragem.
1 017
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Brecha Aberta Pelo Gesto

A brecha aberta pelo gesto
apaga todas as fórmulas. Do rio
nasce a palavra que corre para o fogo.
Outra boca se abre inicial, perdida.
887
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ei-La Despida Ou

Ei-la despida ou
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada

A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde

O vento é a inteligência libertada

E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
967
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

É Um Lugar Para As Hordas

É um lugar para as hordas
para os cavalos     Para algo
que se designa aqui
na evidência

Contanto que o ardor os nomeie
essa paixão árida que não canta
mas vibra seca no papel incerta

Quem detém os olhos? Quem vê o curso
do vento nas palavras?
E as flechas que por vezes se desfazem?
945
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dizem Que É Jardim

Dizem que é jardim
porque repousa

E diz-se também que se ilumina
em pausas
repentinas

Mas que dizer da trama
em movimento?

Que dizer do vento?
Que se prepara o incêndio
aqui na folha
889
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sucedem-Se As Imagens

Sucedem-se as imagens
sobre imagens
em busca de um alvo que recua a cada avanço inacessível
É preciso deter esta corrida e procurar o caminho da palavra

no branco que a desloca

suscitando
a nitidez nua de umas frases
que esparsas se reúnam num só corpo
1 035
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Com o Instrumento Frágil

Com o instrumento frágil
tudo se ordenaria
concêntrico

Perímetro de luzes
à volta do olhar         Crescem
num início
e disseminam-se

Irisações irrompem
de brisas e de estrume
até à corda nula que apaga o instrumento
967
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nada Se Transcreve Quando

Nada se transcreve quando
simplesmente se passa
num lugar Mas tudo vai transpor-se num silêncio de
passos sobre o chão feliz ou uma terra a descer em
cada linha
e cai no papel em chão deserto
ou um eco de um princípio
inacessível

Escrever é perder     perder para respirar
488
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Pouco Um Quase Nada Não Para o Fogo da Palavra

Um pouco um quase nada Não para o fogo da palavra
Arde só o branco e são as folhas disjuntas unindo-se
desfazendo-se Incertas Exactas No despojamento
o fogo branco
e altas crespas ervas
percorridas pela sombra
1 094
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Trave do Sol Pisada Entre Ramos

A trave do sol pisada entre ramos
A noite perto respira
Fragmentos de luz formam um pólen
sob os passos em branco
O sopro imóvel nas letras
sobre o solo
imóvel a palavra
o espaço alto de árvores negras
a nitidez da página     o vento
que limpa e desloca estas palavras
1 128
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Casa Animal

A casa             animal

de calor e sombra

respira

sobre a página
1 099
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Como Dizer a Outra Face Num Vislumbre

Como dizer a outra face num vislumbre
uma figura respirando
na transparência
e a face transposta no suplício ou no prazer
das linhas
no branco     o novo solo
Lê-las ou pisá-las com o estrume
tremendo no temor de estarem vivas
com raízes inextricáveis e vivazes
519
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

79. a Abstracta Figura Concretiza-Se

79
A abstracta figura concretiza-se
em pedras e pedras sucessivas
num sincopado fluxo de água e de detritos.

Vejam a lâmpada negra da aranha
que entre paredes busca a sintaxe inversa
busquem a pedra essencial a pedra.

Mas o esforço é abandono rouco
às pulsões da terra branca desta escrita
que é animal para ser animal livre.
1 012
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Não É Um Texto:

Não é um texto:

é um movimento da sombra

o pulso dos passos:     pedra     A mão

traça

o caminho     separa as sombras

no desejo de ervas claras     de ervas vivas

e só as pálpebras

pesam

sobre o texto

sem árvores

o braço oscila na montanha
990
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Anel do Insecto Luxúria Mínima

O anel do insecto     luxúria mínima

do poema     os dentes descerrados à frescura do vento

a figura viva     em fragmentos     na fragrância verde

as sílabas     o sol das sílabas sob as sílabas

a pedra escrita

entre a pedra e o silêncio

do nascimento

último

água     ó minha mão na terra
1 002