Consciência e autoconhecimento
Poemas neste tema
Luís Miguel Nava
Teatro
Na selva dos meus órgãos,sobre a qual foi desde sempre a pele o
firmamento,ao coração coube o papel de rei da criação.
Ignoro de que peça é todo este meu corpo a encenação perversa,onde se
vê o sangue rebentar contra os rochedos.
Do inferno,aonde às vezes o sol vai buscar as chamas,sobre ele
impediosamente jorram os projectores.
firmamento,ao coração coube o papel de rei da criação.
Ignoro de que peça é todo este meu corpo a encenação perversa,onde se
vê o sangue rebentar contra os rochedos.
Do inferno,aonde às vezes o sol vai buscar as chamas,sobre ele
impediosamente jorram os projectores.
1 628
1
José Tolentino Mendonça
Mercado velho, Machico
Uma paisagem muito ao longe
quando se regressa
continuamos a vê-la no escuro
fechamos os olhos,sentimo-nos vivos
na sucessão dos séculos
falamos de súbito
daquilo que nos assusta
um segredo demasiado intenso
o malogro dos códigos
qualquer ideia extrema
que destrói o mundo e não queríamos
mas estamos tão pouco
onde estamos
quando se regressa
continuamos a vê-la no escuro
fechamos os olhos,sentimo-nos vivos
na sucessão dos séculos
falamos de súbito
daquilo que nos assusta
um segredo demasiado intenso
o malogro dos códigos
qualquer ideia extrema
que destrói o mundo e não queríamos
mas estamos tão pouco
onde estamos
1 936
1
Emily Dickinson
Im Nobody! Who are you?
Im Nobody! Who are you?
Im Nobody! Who are you?
Are you--Nobody--Too?
Then theres a pair of us?
Dont tell! theyd advertise--you know!
How dreary--to be--Somebody!
How public--like a Frog--
To tell ones name--the livelong June--
To an admiring Bog!
Im Nobody! Who are you?
Are you--Nobody--Too?
Then theres a pair of us?
Dont tell! theyd advertise--you know!
How dreary--to be--Somebody!
How public--like a Frog--
To tell ones name--the livelong June--
To an admiring Bog!
1 303
1
Carlos Figueiredo
Jardins Secretos
A Goya
Além do espaço que o corpo esculpe
existem abismos.
São segredos que vão se consumindo
em silêncio como cera
no calor da vida
são silêncios de uma cor tão clara
são como flores.
Como são pássaros
as almas.
Além do espaço que o corpo esculpe
existem abismos.
São segredos que vão se consumindo
em silêncio como cera
no calor da vida
são silêncios de uma cor tão clara
são como flores.
Como são pássaros
as almas.
1 100
1
Adriana Sampaio
Reflexo
Reflexo
Eu sou o espelho que reflete o mundo
Decodificando a coletiva sensação
Mas também espelho
O que reflete ao mundo
O meu interno e plácido
Estampado
Reflexões num espelho plano...
Eu sou o espelho que reflete o mundo
Decodificando a coletiva sensação
Mas também espelho
O que reflete ao mundo
O meu interno e plácido
Estampado
Reflexões num espelho plano...
1 295
1
João de Jesus Paes Loureiro
O Poeta
Debruçado no poço
salmodia
e a própria voz escuta.
Osso.
atirado a si mesmo
(espelho)
por um cão faminto.
salmodia
e a própria voz escuta.
Osso.
atirado a si mesmo
(espelho)
por um cão faminto.
1 073
1
Albano Dias Martins
O sonho
da lâmina: ser
ao mesmo tempo a bainha.
in:Com
as flores do salgueiro(1995)
ao mesmo tempo a bainha.
in:Com
as flores do salgueiro(1995)
1 184
1
Fernando Pessoa
Tudo quanto penso,
Tudo quanto penso,
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem eu estou.
Extensão parada
Sem nada a estar ali,
Areia peneirada
Vou dar-lhe a ferroada
Da vida que vivi.
(...)
11/03/1935
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem eu estou.
Extensão parada
Sem nada a estar ali,
Areia peneirada
Vou dar-lhe a ferroada
Da vida que vivi.
(...)
11/03/1935
8 115
1
Fernando Pessoa
Tudo que sou não é mais do que abismo
Tudo o que sou não é mais do que abismo
Em que uma vaga luz
Com que sei que sou eu, e nisto cismo,
Obscura me conduz.
Um intervalo entre não-ser e ser
Feito de eu ter lugar
Como o pó, que se vê o vento erguer,
Vive de ele o mostrar.
Em que uma vaga luz
Com que sei que sou eu, e nisto cismo,
Obscura me conduz.
Um intervalo entre não-ser e ser
Feito de eu ter lugar
Como o pó, que se vê o vento erguer,
Vive de ele o mostrar.
4 937
1
Fernando Pessoa
Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
Com exacta memória não o sinto.
Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.
A vasta teia, estive-a e não a vi.
Obscuramente me desconcebi.
07/07/1930
Que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
Com exacta memória não o sinto.
Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.
A vasta teia, estive-a e não a vi.
Obscuramente me desconcebi.
07/07/1930
4 113
1
Fernando Pessoa
Como um vento na floresta,
Como um vento na floresta,
Minha emoção não tem fim.
Nada sou, nada me resta.
Não sei quem sou para mim.
E como entre os arvoredos
Há grandes sons de folhagem,
Também agito segredos
No fundo da minha imagem.
E o grande ruído do vento
Que as folhas cobrem de som
Despe-me do pensamento:
Sou ninguém, temo ser bom.
30/09/1930
Minha emoção não tem fim.
Nada sou, nada me resta.
Não sei quem sou para mim.
E como entre os arvoredos
Há grandes sons de folhagem,
Também agito segredos
No fundo da minha imagem.
E o grande ruído do vento
Que as folhas cobrem de som
Despe-me do pensamento:
Sou ninguém, temo ser bom.
30/09/1930
4 783
1
Fernando Pessoa
Lembro-me ou não? Ou sonhei?
Lembro-me ou não? Ou sonhei?
Flui como um rio o que sinto.
Sou já quem nunca serei
Na certeza em que me minto.
O tédio de horas incertas
Pesa no meu coração.
Paro ante as portas abertas
Sem escolha nem decisão.
13/06/1932
Flui como um rio o que sinto.
Sou já quem nunca serei
Na certeza em que me minto.
O tédio de horas incertas
Pesa no meu coração.
Paro ante as portas abertas
Sem escolha nem decisão.
13/06/1932
4 234
1
Fernando Pessoa
Parece estar calor, mas nasce
Parece estar calor, mas nasce
Subitamente
Contra a minha face
Uma brisa fresca que se sente.
Assim também – poder comparar
É que é poesia –
A alma sente-se a esperar,
Mas não conhece em que confia.
31/08/1930
Subitamente
Contra a minha face
Uma brisa fresca que se sente.
Assim também – poder comparar
É que é poesia –
A alma sente-se a esperar,
Mas não conhece em que confia.
31/08/1930
4 712
1
Fernando Pessoa
Flui, indeciso na bruma,
Flui, indeciso na bruma,
Mais do que a bruma indeciso,
Um ser que é coisa a achar
E a quem nada é preciso.
Quer somente consistir
No nada que o cerca ao ser,
Um começo de existir
Que acabou antes de o ter.
É o sentido que existe
Na aragem que mal se sente
E cuja essência consiste
Em passar incertamente.
26/04/1934
Mais do que a bruma indeciso,
Um ser que é coisa a achar
E a quem nada é preciso.
Quer somente consistir
No nada que o cerca ao ser,
Um começo de existir
Que acabou antes de o ter.
É o sentido que existe
Na aragem que mal se sente
E cuja essência consiste
Em passar incertamente.
26/04/1934
4 592
1
Fernando Pessoa
Nada que sou me interessa.
Nada que sou me interessa.
Se existe em meu coração
Qualquer coisa que tem pressa
Terá pressa em vão.
Nada que sou me pertence.
Se existo em quem me conheço
Qualquer coisa que me vence
Depressa a esqueço.
Nada que sou eu serei.
Sonho, e só existe em meu ser,
Um sonho do que terei.
Só que o não hei-de ter.
24/08/1932
Se existe em meu coração
Qualquer coisa que tem pressa
Terá pressa em vão.
Nada que sou me pertence.
Se existo em quem me conheço
Qualquer coisa que me vence
Depressa a esqueço.
Nada que sou eu serei.
Sonho, e só existe em meu ser,
Um sonho do que terei.
Só que o não hei-de ter.
24/08/1932
4 478
1
Fernando Pessoa
Ouço sem ver, e assim, entre o arvoredo,
Ouço sem ver, e assim, entre o arvoredo,
Vejo ninfas e faunos entremear
As árvores que fazem sombra ou medo
E os ramos que sussurram de eu olhar.
Mas que foi que passou? Ninguém o sabe.
Desperto, e ouço bater o coração –
Aquele coração em que não cabe
O que fica da perda da ilusão.
Eu quem sou, que não sou meu coração?
24/09/1932
Vejo ninfas e faunos entremear
As árvores que fazem sombra ou medo
E os ramos que sussurram de eu olhar.
Mas que foi que passou? Ninguém o sabe.
Desperto, e ouço bater o coração –
Aquele coração em que não cabe
O que fica da perda da ilusão.
Eu quem sou, que não sou meu coração?
24/09/1932
4 373
1
Fernando Pessoa
Basta pensar em sentir
Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar e andar,
Depois de ficar e ir,
Hei-de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.
Viver é não conseguir.
14/06/1932
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar e andar,
Depois de ficar e ir,
Hei-de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.
Viver é não conseguir.
14/06/1932
6 568
1
Fernando Pessoa
Grande sol a entreter
Grande sol a entreter
Meu meditar sem ser
Neste quieto recinto...
Quanto não pude ter
Forma a alma com que sinto...
Se vivo é que perdi...
Se amo é que não amei...
E o grande bom sol ri...
E a sombra está aqui
Onde eu sempre estarei...
21/08/1930
Meu meditar sem ser
Neste quieto recinto...
Quanto não pude ter
Forma a alma com que sinto...
Se vivo é que perdi...
Se amo é que não amei...
E o grande bom sol ri...
E a sombra está aqui
Onde eu sempre estarei...
21/08/1930
4 536
1
Fernando Pessoa
Porque sou tão triste ignoro
Porque sou tão triste ignoro
Nem porque sentir em mim
Lágrimas que eu choro assim;
Desde menino me choro
E ainda não me achei fim.
28/07/1932
Nem porque sentir em mim
Lágrimas que eu choro assim;
Desde menino me choro
E ainda não me achei fim.
28/07/1932
5 319
1
Fernando Pessoa
Durmo. Regresso ou espero?
Durmo. Regresso ou espero?
Não sei. Um outro flui
Entre o que sou e o que quero
Entre o que sou e o que fui.
19/10/1927
Não sei. Um outro flui
Entre o que sou e o que quero
Entre o que sou e o que fui.
19/10/1927
4 423
1
Fernando Pessoa
Repousa sobre o trigo
Repousa sobre o trigo
Que ondula um sol parado.
Não me entendo comigo.
Ando sempre enganado.
Tivesse eu conseguido
Nunca saber de mim,
Ter-me-ia esquecido
De ser esquecido assim.
O trigo mexe leve
Ao sol alheio e igual.
Como a alma aqui é breve
Com o seu bem e mal!
12/09/1933
Que ondula um sol parado.
Não me entendo comigo.
Ando sempre enganado.
Tivesse eu conseguido
Nunca saber de mim,
Ter-me-ia esquecido
De ser esquecido assim.
O trigo mexe leve
Ao sol alheio e igual.
Como a alma aqui é breve
Com o seu bem e mal!
12/09/1933
4 717
1
Fernando Pessoa
Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa
Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa
Se é para nós que cessa Aquele arbusto
Fenece, e vai com ele
Parte da minha vida.
Em tudo quanto olhei fiquei em parte.
Com tudo quanto vi, se passa, passo,
Nem distingue a memória
Do que vi do que fui.
07/06/1928
Se é para nós que cessa Aquele arbusto
Fenece, e vai com ele
Parte da minha vida.
Em tudo quanto olhei fiquei em parte.
Com tudo quanto vi, se passa, passo,
Nem distingue a memória
Do que vi do que fui.
07/06/1928
2 515
1
Fernando Pessoa
Se a cada coisa que há um deus compete,
Se a cada coisa que há um deus compete,
Porque não haverá de mim um deus?
Porque o não serei eu?
É em mim que o Deus anima
Porque eu sinto.
O mundo externo claramente vejo –
Coisas, homens, sem alma.
Dezembro de 1931
Porque não haverá de mim um deus?
Porque o não serei eu?
É em mim que o Deus anima
Porque eu sinto.
O mundo externo claramente vejo –
Coisas, homens, sem alma.
Dezembro de 1931
1 801
1
Fernando Pessoa
SCHEHERAZAD
SCHEHRAZAD
O que eu penso não sei e é alegria
Pensá-lo; nada sou, salvo a harmonia
Interior entre existir e ouvir
A música cantar-te e dissuadir
Da vida e desta inútil atenção
Ao útil dada, mortal sensação
Real, passada
E à minha mente inutilmente dada.
26/11/1916
O que eu penso não sei e é alegria
Pensá-lo; nada sou, salvo a harmonia
Interior entre existir e ouvir
A música cantar-te e dissuadir
Da vida e desta inútil atenção
Ao útil dada, mortal sensação
Real, passada
E à minha mente inutilmente dada.
26/11/1916
4 016
1
Português
English
Español