Cidade e Cotidiano

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

P. DAS HORAS — Parte II

P. DAS HORAS — Parte II —

Grandes estandartes de fumo das chaminés das fábricas
Sobre os telhados (...)
Ó poderosamente gritos de combate!
Vago rumor silencioso e comercial das ruas...
E a ordem inconsciente dos que vão e vêm
Pelas fitas dos passeios...
À hora de sol em que as lojas descem os toldos
1 231
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Com bandas militares

Com bandas militares à frente, compostas de volantes e hélices,
Com uma vanguarda sonora de sereia de automóvel e de barco
Com um estardalhaço longínquo, com saltos e alardes
De bombos e pratos, com (...)
Desencadeio-me a saudar-te. Pum!
Pum, pum, pum...
Pu-u-u-u-u-m!
1 005
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Cidades, com seus comércios (...)

Cidades, com seus comércios (...)
Tudo é mesmamente estranho, mesmamente
Descomunal ao pensamento fundo
Estranhamente incompreendido.
Tudo é mistério, tudo é transcendente
Na sua complexidade enorme,
Um raciocínio visionado e exterior;
Uma ordeira misteriosidade,
Silêncio interior cheio de som.
899
Sandro Penna

Sandro Penna

Existe ainda no mundo a beleza?

Existe ainda no mundo a beleza?
Não estou falando de feições divinas.
Mas do ébrio jovem que esperando o trem
com os olhos no infinito devaneia


:

Esiste ancora al mondo la bellezza?
Oh non intendo i lineamenti fini.
Ma alla stazione carico di ebbrezza
il giovane con gli occhi ai suoi lontani lidi.



de Il viaggiatore insonne (1977)


917
Akiko Yosano

Akiko Yosano

Tanka VII

Na ponte Shijô
a dançarina
de rosto maquilado
golpeada em sua testa estreita
pelo granizo miúdo do entardecer
 

912
Juan Gelman

Juan Gelman

O cão

O poema não pede para comer. Come
os pobres pratos que
gente sem vergonha ou pudor
lhe serve no meio da noite.
A palavra divina já não existe. Que pode
fazer o poema, senão
contentar-se com o que lhe dão?
Depois uivará por aí
sem resposta, será
outro cão perdido
na cidade impiedosa.
1 778
João Melo

João Melo

Sol no muceque

Redonda lâmpada acesa
a amarela luz alastrando-se
por sobre o zinco das cubatas
Os fartos cabelos
das mulembeiras
raparigas cartando água
no chafariz
Meninos de barriga inchada
brincando com bola ou
tampas de garrafa
1 784
José Luis Mendonça

José Luis Mendonça

De asas sob a terra

Ergue-te cidade
malar vigília
de pássaros
estrangulados

cheiras a crepúsculos e
água, cidade
onde o vinho abre o sexo
ao gume dos astros

ó tambor de sangue
espuma de um
tempo e metal à proa

que mãos
te alijam o som
de asa sob a terra.
988
Sebastião Uchoa Leite

Sebastião Uchoa Leite

Numa Incerta Noite

Calculo as ruas que atravesso
Vendo a copa das árvores
Guiado pelas folhagens
Profusamente imerso
Na vertigem inversa
Da hemorragia verde
Do ciclópico olho vegetal
Que me contempla

1991


Poema integrante da série Incertezas.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A ficção vida. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993
1 236
Alice Ruiz

Alice Ruiz

na esquina da consolação

na esquina da consolação
com a paulista
me perdi de vista
virei artista
equilibrista
meio mãe
meio menina
meio meia-noite
meio inteira
inteiramente alheia
toda lua cheia


In: RUIZ, Alice. Vice-versos. São Paulo: Brasiliense, 1988. (Cantadas literárias
2 091
Eudoro Augusto

Eudoro Augusto

Bandeira Pós-Moderno (Take 1)

Vou-me embora pra Manhattan,
lá sou amigo do Ray.
Tenho a trombonista ruiva
e uma terapeuta gay.


In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera.

NOTA: Referência ao poema "Vou-me Embora pra Pasárgada", de Manuel Bandeir
1 029
Nelson Ascher

Nelson Ascher

No Centenário da Av Paulista

Enquanto após o rush,
na happy hour, o stress
das horas de brain storming
dissolve-se on the rocks,
estende-se, através
das fendas da camada
de ozônio, a contra-céu,
um arco-íris negro.


In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p. 33
996
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

O Rio

ou relação da viagem
que faz o Capibaribe
de sua nascente
à cidade do Recife
(1953)
2 823
Rafael Alberti

Rafael Alberti

O mar, o mar

O mar. O mar.
O mar. Só o mar!

Por que me trouxeste, pai
a cidade?

Em sonhos, a marejada
me tira do coração.
Se o quisesses levar.

Pai, por que me trouxeste
aqui?

1 301
Paula Taitelbaum

Paula Taitelbaum

Tenho um plano

Tenho um plano
Para cada dia da semana
Para disfarçar cada engano
Cada enguiço
Preguiça
Premissa
Percalço
Que por acaso
Me assalte
Te asfalte
Feito esmalte
Que fixa
Asfixia
Durante estes sete dias
Que se repetem por covardia

1 107
Leila Mícollis

Leila Mícollis

Engorda

Ilusões para os aflitos
para a mulher, segurança,
para a casa, samambaias;
consolo para os doentes,
conselhos aos desgarrados,
aos leitos de amor, cambraias.
Sorvete para as crianças,
esmolas para os famintos,
para os turistas as praias;
para os homens, futebol,
televisão para todos
e alface para as cobaias.

946
Eduardo Valente da Fonseca

Eduardo Valente da Fonseca

Poeta citadino

Talvez vocês não saibam quem foi o Alberto Caeiro,
mas eu vou dizer-vos o que se passa.
Ele era um grande poeta que não tem nada a ver comigo
porque guardava rebanhos e fazia os possíveis para ser simples,
enquanto eu sou um sindicalizado
e faço os possíveis para não morrer atropelado na cidade.

1 132
Miriam Paglia Costa

Miriam Paglia Costa

A Canção dos Insetos

brilha
a redação
eternidade de néon
aprisionados entre cimento e vidro
escrevemos sobre o mundo que anoitece
nada se vê pelas janelas
só reflexo de nossas caras amarelas
jornalistas no aquário
lá longe, tão depressa
nas escadas do teatro
um mendigo troca andrajos
encerra o ato
sem vaia nem aplauso pega o troco
exit
770
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Tractor, Deus desta Idade

Tractor, Deus desta Idade,
Não poupa as rosas inúteis.
E esmaga nelas, tão fúteis,
A outra finalidade
Das coisas, desde o início
Criadas para que houvesse
Horas de paz no bulício
Em que a existência acontece.

1 732
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Oh! tarde de sábado britânica

Oh! tarde de sábado britânica,
Poema da rotina,
Prodígio do bem-estar...
Eu, que donde vou, latino e desgrenhado,
Intenso, irregular,
Apenas sei a vibração e o desânimo
(O sol excessivo e a sombra opaca),
Olho-te no deslumbramento
De quem se banha
E se deslumbra
Em penumbra.

1 865
Edigar de Alencar

Edigar de Alencar

Cidade-Sol

Cidade pequena, lavada de sol,
de ruas que não têm fim,
alinhadas como os versos de um soneto.

Para tua iluminação diurna
devem trabalhar
todas as usinas do universo.

Fortaleza,
espelho fiel de nossa gente:
esbanjas tanta luz durante o dia
que à noite ficas no escuro...

1 018
Yolandino Maia

Yolandino Maia

Haicai

Simplicidade

Sim... fechei o livro
e li durante a viagem
anúncios no bonde.

No teatro

Na platéia escura
nossa vida adormeceu.
No palco, ela sonha

762
Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Fim, de Noite

Copos cheios.
Garrafas nem tanto
Mesas?
Por todos os cantos.
Não faz sentido
O seu espanto...

É noite
O tempo passa
A fumaça sobe
Pessoas falam
Outras escutam
A música

Não há nada
De mal nisso
Escolha a sua dose
A vida continua assim
Começo, meio
E fim.

950
Vani Rezende

Vani Rezende

Haicai

A ventania tumultua.
Bandos de pássaros
esticam suas asas.

No silêncio da cidade
a noite, gaiola negra,
envolve a luz do meu quarto.

1 079