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Poemas neste tema

Carlos Frydman

Carlos Frydman

Cascata

O chiado das águas
compõe cantigas
ancestralmente perenes.
Parece um segredar sem mágoas
num renascer insistente.
A correnteza reabilita-se
brincando em cada queda
e um frescor salpica,
inebria e recompõe,
o que perdemos
nas encruzilhadas.

Murmúrios espontâneos,
cantam alegrias em cada pedra
e despontamos em sonhos perdidos.

O tempo é retomado
num frescor,
inebriando securas.

Todo passado é presente,
no gorjeio das águas inspiradas,
reabilitando nossas vidas jogadas...


In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
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Felipe d’Oliveira

Felipe d’Oliveira

História Leal dos Meus Amores

Eu tive a iniciação para a alegria
num tempo primitivo de paisagem,
em que, num fundo aberto de baía,
da argila das montanhas, emergia
a forma azul de um ídolo selvagem.

Entrei na imensidade dessas águas,
de alma feliz, cantando em tons de trova...
E ao batismo de um sol chispando fráguas
eu jurei esquecer antigas mágoas
numa esperança ideal de vida nova...

A vida, então, logo me deu meu fado,
— meus maus desígnios e meus bons misteres —
e, no decurso desse tempo andado,
os homens quase todos tenho odiado
e tenho amado todas as mulheres.

Foste a primeira que amei, perdida...
E desse amor de insânias e segredos,
conservo ainda na boca ressequida
a saciedade farta e umedecida
dos teus beijos acídulos e azedos.

Depois, glorifiquei, como um profano,
a luxúria pagã do meu instinto,
ritmando, num delírio parnasiano,
os meus beijos lascivos de Romano
numa boca de Vênus de Corinto.

...Meu alabastro engrinaldado de ouro,
não peço mais que tu não me abandones...
Foste, no meu destino, um mau-agouro:
endoudeceu-me o teu cabelo louro,
nessa linda cabeça à Burne Jones...

E ao fim de tanto anseio, ao fim de tanto
intenso desvairar, de intensa febre,
tu me mandaste esse teu vulto santo,
que eu não celebro em versos neste canto,
por não haver um ritmo que o celebre.

A curva não modela, a linha, esquiva,
não esboça, e não canta o plectro raro
teu nervoso perfil de sensitiva,
como apanhar não pode uma objetiva
o infinito de um céu lúcido e claro...


Publicado no livro Vida extinta (1911).

In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.39-4
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Marcus Accioly

Marcus Accioly

VII - Do Caminhão no Caminho-Grande

Caminhão de tábua
de descer ladeira
desço numa prise
subo na primeira
passo a reduzida
meto o pé no freio
caminhão de tábua
carro-de-passeio.

— Chevrolet ou Ford?
— Não tem marca assim.
— Tem muita ferrugem?
— Tem muito cupim.
— Tem boa buzina?
— Tem o seu au-au.
— Tem os pneus novos?
— Tem rodas de pau.

Caminhão de tábua
muito corredor
pois qualquer descida
serve de motor

sua gasolina
não precisa não
pois ele é de tábua
mas é caminhão.


In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. Il. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.27-28. (Série biblioteca juvenil
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Marcus Accioly

Marcus Accioly

XVIII - Do Improviso

— Vamos rimar pé quebrado?
— Rima o pé que eu rimo a mão.
— Começa a dar seu recado.

— Eu comprei um caminhão
de lata e outro de flandre,
era um pequeno e outro grande,
mas depois...

— Eu vim e comprei os dois,
tirei as latas de doce
cortei o arame e acabou-se
tal estória...

— Nasceu outra da memória:
meu canário de gaiola
negociei numa bola
de jogar...

— E quando ela se furar,
corto da bola a borracha
faço um badoque de caça
e com um seixo...

— Ele se parte em teu queixo,
tu ficas de cara inchada
sem mais badoque nem nada.
Ainda rimas?

— Rimo rimas com meninas,
meninas feias com belas.
Vamos brincar nas janelas
de mangar?


In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. Il. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.43-44. (Série biblioteca juvenil
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Carlos Frydman

Carlos Frydman

Chuvisco Espanhol

Para Priscila Marie Netto Soares

Há chuviscos
em obliquidade precisa,
brincando, variando
na gravidade das tardes.

Há chuviscos
sem pressa,
indiferentes ao tempo
que nos levam
sem percebermos.

Sendo véus diáfanos, os chuviscos
clareiam anseios abandonados.

Sendo lantejoulas cristalinas,
projetam recordações nubladas.

Sendo tules de odaliscas
de natureza amainada,
casam com meu amor circunspecto
em meus ímpetos serenados.

Tomado pelo chuvisco
penso numa tarde flamenca
e vislumbro uma triste espanhola.
Seu olhar é envolvente e aguçado
e seu corpo esguio é enlaçado
num atávico chale rendado.

Ela ignora meu amor silente
mas me envolve num sonho realista
porque me conformo em sonhá-la
perdido num chuvisco,
afogado
em meus desejos contidos.


In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
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Eduardo Alves da Costa

Eduardo Alves da Costa

Poema da Cartomante

Estendo minha mão
e a velha me fala
de um futuro tão remoto
que chego quase a descrer da Bomba.
Ah, deliciosa visão,
promessas de vida longa,
um lar feliz
e até mesmo um nome
para ser honrado.
Lê, mulher; procura
em minha mão
a certeza que me falta.
Aprendeste a profissão
nos tempos de paz
e o futuro que me dás
é o dos meus avós.
Falas-me de um lar
e eu procuro concebê-lo
ao abrigo da guerra que virá
e que eu vejo crescer nas declarações de paz.
E contudo eu gostaria
de que tuas profecias se cumprissem;
que estas coisas não fossem para mim,
mas pudessem acontecer
ao homem simples,
a esse que vai para a fábrica, de manhã,
e não sabe do mundo
para além do próprio quintal.
Segues com o dedo
a linha da vida
e vês tão claro
que por um instante me aborreço
e penso em me levantar.
Mas não quero te ferir.
Afagas minha mão
num gesto maternal
e me devolves ao mundo,
na certeza de que estou mais forte.
Não, eu não te direi nenhuma destas coisas,
porque lá fora os teus netos brincam
e a tarde, vista de tua janela,
promete não ser a última,
não pode ser a última.
E porque teus olhos
me pedem que acredite.


In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
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Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo

Aves de Rapina

Há muitos anos que os caminhos se arrastavam
Subindo para as montanhas.
Percorriam as florestas perseguindo a distância,
Lentos e longos deslizavam nas planícies.

Passaram chuvas, passaram ventos,
Passaram sombras aladas...

Um dia os aviões surgiram e libertaram a distância,
Os aviões desceram e levaram os caminhos.


Publicado no livro Poemas (1947).

In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.1
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Alberto da Costa e Silva

Alberto da Costa e Silva

Triste Vida Corporal

Se houvesse o eterno instante e a ave
ficasse em cada bater d'asas para sempre,
se cada som de flauta, sussurro de samambaia,
mover, sopro e sombra das menores cousas
não fossem a intuição da morte,
salsa que se parte... Os grilos devorados
não fossem, no riso da relva, a mesma certeza
de que é leve a nossa carne e triste a nossa vida
corporal, faríamos do sonho e do amor
não apenas esta renda serena de espera,
mas um sol sobre dunas e limpo mar, imóvel,
alto, completo, eterno,
e não o pranto humano.


Publicado no livro Alberto da Costa e Silva carda, fia, doba e tece (1962).

In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.7
1 447
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

Em Minhas Mãos

Em minhas mãos
estas paredes ardem.
Não são retratos
nas paredes
não são remorsos
em minhas mãos
estas paredes ardem.

A mesma casa? O corredor
vazio, o quarto imenso
em minhas mãos?
Estas paredes ardem.

Não o desejo impuro
o amor saciado
(sequer desejado)
em minhas mãos
agora esvaído
ardendo no alto de um muro
mas o vício lento
implacável da memória,
óleo espesso a descer
das paredes
do sono
que o fogo devora
em minhas mãos.

Vitória e cansaço,
a lembrança impossível
e o medo extinto,
as paredes
a casa
estas palavras —
tudo a mesma combustão
em minhas mãos.

Estas palavras ardem em minhas mãos.

(São Paulo 1976)


Poema integrante da série II. Sentimental.

In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
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Alcides Villaça

Alcides Villaça

A Língua Num Canto da Boca

Onde aprendi a ler foi Toddy
— com seus DD, com seu Y.
Quem me ensinou a ler foi ela,
seu papel de pão, seu lápis,
seu reino de mantimentos.

Muito mais tarde soube de multinacionais,
de Édipo, de poesia
que mancha o pardo simples do papel
com beabás.


In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988 (Claro enigma). Poema integrante da série Sala de Espera
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Lila Ripoll

Lila Ripoll

Retrato

Clara manhã de inverno.
Na rua longa e fria
procuro ansiosamente
um número, uma casa.

(...)

Aguardo a professora,
aguardo e penso,
no agasalho do ambiente de silêncio.
E detenho meus olhos surpreendidos
no retrato maior que a sala guarda.

Reconheço a figura, a fronte ampla,
o olhar audaz e manso ao mesmo tempo.
É ele sim, é o grande Cavaleiro,
Cavaleiro de muitas esperanças.

Que faz ali? Que faz ali? pergunto.
Por que naquela casa silenciosa
tranquilamente antiga e acolhedora,
o retrato de Prestes na parede
sobressai e ilumina a sala inteira?

(...)

"É meu neto, menina. Gosta dele?
É o Luís Carlos, meu neto, não sabia?"

E vejo à minha frente, nobre e simples,
a vovó Ermelinda, de Luís Carlos,
para mim Cavaleiro da Esperança

E a voz continuou serena e mansa:
"Um menino tão terno, tão sensível,
quem diria pudesse ser um dia
um revolucionário?"

(...)

Anda longe o Luís Carlos, de seus dias.
Anda longe e está próximo e presente:

nas palavras apenas murmuradas
— afetivos suspiros e lembranças —
e nas outras que brotam impetuosas
dominando planícies e cidades.

(...)

Seu passo um dia cantará nas pedras
e humildes casas se iluminarão.
E à sua voz, de chama e tempestade,
as vozes triunfais responderão.


Publicado no livro Novos Poemas (1951).

In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.106-10
1 333
Alcides Villaça

Alcides Villaça

Rumo Oeste

O rádio no carro canta pelas cidades.
Já sei onde está a melhor garapa
de Araras, o melhor algodão em Leme.
Em Pirassununga o hábito do Angelus
ainda veste de santa qualquer tarde.
O locutor e seu melhor emplastro
para curar no peito aquela velha aflição.
Todas as rádios abrem para o mundo
o coração do largo e um recado de Ester:
esta canção vai para W.J.
que ainda não esqueci.
O céu de todas as rádios
se estende para a capital: o que se dança
em New York direto para São Simão.
Para você, Lucinha, mexer o que Deus lhe deu.

A velha teia das cidades
enleia agora as estrelas.
Ao som da sétima badalada
do coração da Matriz
desligue o rádio! e respire
de passagem tudo o que fica:
são ondas soltas no ar.


In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988 (Claro enigma). Poema integrante da série No Desvio
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Alcides Villaça

Alcides Villaça

Horizontal

A Margot

I Tua falta é toda
horizontal. Como teus braços
que não cabiam entre estátuas
requisitando espaços
desconhecidos.

Teus amigos nunca marcaram
teu limite ilimitável. Eras de todos
e de ninguém, como também sabias
te ausentar, presente,
e longe, nos saudar.
Não perdestes a mania.

Ficou nuns versos que leste
para mim, sem exclusividade,
a marca de uns lábios eternamente fantasmas
que reclamarão eternamente por vida.
Querias vida, ela te queria,
como irmãos que se entendem.

II Tua falta é toda
horizontal. Teu corpo se ressentia
de ar em pleno campo, e o suprias
no leque dos gestos largos
empinadores de nuvens,
Tudo em volta contaminação.

Gostaste das palavras. Pegaste
em minha mão para a cartilha imensa
de ti mesma, e enfileiraste amigos entre
dedos e anéis mágicos, dentes
dolorosos, marcas.

Prevenias, vingativamente, uma ausência
súbita: vivas pelo tempo que sempre
te faltaria, fosse em ti incontável,
em ti se reduzindo.

III Tua falta é toda
horizontal. Não atinge de vez,
de sempre fantasma que reclama a colheita.
Por isso te censuras, sorrindo,
o que de teu sorriso não frutificou.

Não frutificou o grito agudo de morte.
Não frutificou um abandono a todos os desesperos.
Não frutificou a inocência entre as relatividades.

Teu fruto único é o horizonte, a suavidade
de tua falta, o conforto de tua falta.
Pois já existiu quem faltava
e, sem dor, nos faz companhia.


In: VILLAÇA, Alcides. O tempo e outros remorsos. Pref. Alfredo Bosi. Il. Edgard Rodrigues de Souza. São Paulo: Ática, 1975. Poema integrante da série Os Amigos
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Lila Ripoll

Lila Ripoll

Cantiga de Roda

"Bota terra no meu lenço,
pra plantá manjericão."
— Ai! versos da minha infância,
meus anos não volverão.

"Atirei um limão verde
por cima da sacristia."
— Ai! vozes que me prenderam
a um passado de alegria!

"Menina, minha menina,
cinturinha de retrós."
— Ai! balcão de nossa loja,
onde andarão meus avós?

"O cravo brigou com a rosa
defronte de uma sacada."
— Ai! cantigas esquecidas,
crianças de mãos trançadas.

"Roda, roda cirandinha,
vamos todos cirandar."
— Ai! prendas da minha infância,
deixem meus olhos chorar!

"Lá vem o sol, vem chegando
redondo como um botão."
— Ai! joguem terra em meu corpo
mas deixem meu coração.

Ai! joguem terra em meu corpo
mas poupem meu coração.

Botem terra no meu corpo
mas plantem manjericão!


Publicado no livro O Coração Descoberto (1961).

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.78-7
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Alcides Villaça

Alcides Villaça

Viagem Antiga

Havia vezes eu me via
como um menino não se vê.
A água na nuvem se adivinha,
a sede vem antes de sua vez.

Havia vezes eu me renascia
sem nunca ter saído além de mim:
emprestava-me espelhos e outras vias
de ver tocar sentir o fundo o si.

Era um segundo inteiro ou todo um dia
quando lançava o olhar além de mim
e me via em tudo o que não via?
Que trem cortava o tempo desse abril?

Em que viagem eu era o meu caminho?
Às vezes os meninos pousam olhos
no fim das paralelas, e descansam
o corpo de seus pesos e medidas.

Se nesta noite fixo a luz da esquina
e torno lento o sangue em seu caminho,
nem sombra apanho da viagem antiga
que, quando eu não queria, me fazia.


In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Estação Anterior
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Lila Ripoll

Lila Ripoll

Canção de Agora

Ontem meu peito chorava.
Hoje, não.
Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.

Estava ontem sozinha,
tendo a meu lado, sombria,
minha própria companhia.
Hoje, não.

Morreu de tanto morrer
a pena que em mim vivia.
Morreu de tanto esperar.
Eu não.

Relógios do tempo andaram
marcando o tempo em meu rosto.
A vida perdeu seu tempo.
Eu não.

Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.


Publicado no livro O Coração Descoberto (1961).

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.91-9
2 268
Alcides Villaça

Alcides Villaça

Matinê

madalena era tão grave com duas tranças

recusou minha mão no cinema embora o combinado
e seu vestido branco fosse para mim

há quem ache melosas as fotos amarelas.
não são, proustianas madalenas
guerrilham e sangram sob o leve organdi


In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Estação Anterior
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Alcides Villaça

Alcides Villaça

Aprendendo a Ler

para Mariana e André

As coisas voam menos,
surpresas no papel:
"— Mar é tão pequeno,
andorinha tão grande...
Sol prendo na noite,
lua na manhã...
Essa bola não rola,
este azul não ficou..."

Por cima do ombro,
na idade das cores,
o irmão pequeno estranha
mentiras tamanhas.


In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988 (Claro enigma). Poema integrante da série Acenos
1 196
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

O Sol Quando

O sol quando amanhece
lembra o dia quando esquece
a noite dentro do dia

quando anoitece
brilho errante quando a noite
dentro da noite adormece

o sol quando escurece
a noite devora o dia que
devora a noite que

um dia tudo será repouso
no horizonte guardado
pelo sol que não aquece.

(São Paulo 1976)


Poema integrante da série I. Natural.

In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
1 032
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

A Noite Flutua no Ar

Por saber-te distante,
a noite se fez mais densa
sobre as casas e o desassossego
Parou diante
(por que não defronte?)
diante de mim,
o rosto escondido na bruma.
Agora caminha.
Percorre-me bolsos e alma
por saber-te ausente,
não mais distante
que a sombra que apalpo
no recesso da vida que é minha.
Noite!
Por que não o dia?
Dia pleno de avisos e medo
oculto na roupa que despi.
A noite, flutua no ar sozinha
por saber-te distante
(e fez-se o quê? lembrança?),
nuvem perdida, lentidão, rainha.


Poema integrante da série Urna Diurna, 1965/1973.

In: MOISÉS, Carlos Felipe. Poemas reunidos, 1956/1973. São Paulo: Cultrix, 197
812
Alberto da Costa e Silva

Alberto da Costa e Silva

Hoje: Gaiola sem Paisagem

Nada quis ser, senão menino. Por dentro e por fora, menino.
Por isso, venho de minha vida adulta como quem esfregasse na
pureza e na graça o pano sujo dos atos nem sequer vazios, apenas
mesquinhos e com frutos sem rumo.
Como se escovar os dentes fosse montar num cavalo e levá-lo a
beber água ao riacho! Como se importasse à causa humana ler os
jornais do dia!
Era melhor, talvez, ficar olhando, completo, perfeito, os calangos
a tomar sol no muro, sem trair o silêncio, sentindo o dia, para
conhecer o mundo, para saber que estou vivo.
Se não se têm esses olhos de infantil verdade, todas as cousas nos
enganam, tornam-se as palavras sem carne com que construímos a
árida abstração que é o curral dos adultos.
Depois dos quinze anos, quase nada aprendemos: a dar laço em
gravatas, por exemplo.


Publicado no livro Alberto da Costa e Silva carda, fia, doba e tece (1962).

In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.8
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Álvaro Moreyra

Álvaro Moreyra

Pena

Dona Domitila, marquesa de Santos, eu gosto
muito da senhora.
O seu vestido foi o vestido mais bonito da
nossa terra.
Dona Domitila, marquesa de Santos, a senhora
se vestiu de amor...
Que pena não ter morrido moça, de cachos pretos,
de olhos alegres.
Que pena ter teimado em ficar velha, de vista
cansada, de cabelos brancos, dona Domitila, marquesa
de Santos...


In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
2 050
José Bonifácio de Andrada e Silva

José Bonifácio de Andrada e Silva

Ausência

Em Paris, no ano de 1790.

Pode o Fado cruel com mão ferrenha,
Eulina amada, meu encanto e vida,
Abafar este peito e sufocar-me!
Que pretende o Destino? em vão presume
Rasgar do meu o coração de Eulina,
Pois fazem sós um coração inteiro!
alma impressa,
Tu desafias, tu te ris do Fado.
Embora contra nós ausência fera,
Solitárias campinas estendidas,
Serras alpinas, áridos desertos,
Largos campos da cérula Amphitrite
Dois corpos enlaçados separando,
Conspirem-se até mesmo os Céus Tiranos.
Sim, os Céus! Ah! parece que nem sempre
Neles mora a bondade! Escuro Fado
Os homens bandeando, como o vento
Os grãos de areia sobre a praia infinda
Dos míseros mortais brinca e os males
Se tudo pode, isto não pode o Fado!
Sim, adorada, angelical Eulina.
Eterna viverás a esta alma unida,
Eterna! pois as almas nunca morrem.
Quando os corpos não possam atraídos
Ligarem-se em recíprocos abraços,
(Que prazer, minha amada! O Deus Supremo,
Quando fez com a voz grávido o Nada,
Maior não teve) podem nossas almas,
A despeito de mil milhões de males,
Da mesma morte. E contra nós que vale?
Do sangrento punhal, que o Fado vibre,
Quebrar a ponta; podem ver os Mundos
Errar sem ordem pelo espaço imenso;
Toda a Matéria reduzir-se em nada,
E podem ainda nossas almas juntas,
Em amores nadar de eterno gozo!


Publicado no livro Poesias Avulsas de Américo Elísio (1825).

In: BONIFÁCIO, José. Poesias. Edição fac-similiar da principe, de 1825, extremamente rara; com as poesias ajuntadas na edição de 1861, muito rara; com uma contribuição inédita. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1942. p.63-64. (Coleção Afrânio Peixoto
1 155
Sílvio Romero

Sílvio Romero

ABC do Lavrador

(Ceará)

Agora quero tratar,
Segundo tenho patente,
A vida de lavrador
No passado e no presente.

Bem queria ter ciência,
Dizer por linhas direitas,
Para agora explicar
Uma idéia bem perfeita.

Cuidados tenho da noite,
De madrugada levanto,
De manhã vou para a roça
A correr todos os cantos.

Domingos e dias santos
Todos vão espairecer,
Eu me acho tão moído,
Que não me posso mexer.

Estando desta sorte
Não é possível calçar,
Os pés inchados de espinhos,
E de todo o dia andar.

Feliz de quem não tem
Esta vida laboriosa,
Não vive tão fatigado,
Como eu me acho agora.

Grande tristeza padece
Todo aquele lavrador,
Quando perde o legume todo
Porque o inverno escasseou.

He possível aturar
Até a idade de cinquenta,
Quando se chega aos quarenta,
Já parece ter oitenta.

Lavradores briosos
Consideram no futuro,
Não tomam dinheiro sem ver
Os seus legumes seguros.

Muitos não têm recursos,
Não sabem o que hão de fazer,
Não temem a percentage,
Querem achar quem dê.

Não queira ser lavrador
Quem tiver outra profissão,
É a vida mais amarga
Deus deixou aos filhos de Adão.

Pois quando se colhe
Os legumes de um ano,
Ainda se não acaba,
Nova roça começando.

Quase sempre os lavradores
De cana, café, cacau,
Têm feitores de campo
Para não passar tão mal.

Razão eles têm
Para ter contentamento,
Quem trabalha no campo
É quem padece o tormento.

Souberam as câmaras criar
Ministros pra proteger,
Nesta terra não tem um banco
Que a ela possa favorecer.

Terra pobre como esta
Ninguém pode dar impulso,
Sem banco, sem proteção,
Fora de todo o recurso!

Vive sempre isolado
Metido nas espessuras
Com a memória no passado,
O futuro sem venturas.

Xoram todos a sua sorte,
Faz pena ver os lamentos,
De pedir dinheiro a rebate,
Por não acharem por centos.

Zombem, façam caçoada
Da vida do lavrador,
Considerem no futuro,
A sorte a Parca cortou.

O til por ser do fim,
Sempre dá uma esperança,
Na consolação dos afetos
Até chegar a bonança.


In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.105-106. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
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