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Poemas neste tema

Jalāl ad-Dīn Muḥammad Balkhī, Rūmī

Jalāl ad-Dīn Muḥammad Balkhī, Rūmī

Vem ao pomar

Vem ao pomar, é chegada a primavera.
Há vinho, luz e namorados na romãzeira.
Se não vieres, estes não têm importância.
Se tu vieres, estes não têm importância.
1 280
H.C. Artmann

H.C. Artmann

querida idolatrada

querida idolatrada orquídeanil prima ballerina
de chemnitz a missiones poughkeepsie u.r.s.s. recommandé
à senhora eu envio esta carta de amor
para que possa encaixá-la em seu lac de cygne
como um pássaro sibilante a mais a migrar
na pejada concha do céu junino da ômegabóboda
no recém-restaurado átrio da sinfônica do estado aleluia
eu sou em verdade um sem-vergonha um sacropândego
um heitor vira-copos a patinar campinas
por ousar dirigir esta carta a seu pas
de deux
mas eu nada exijo não eu tão-só peço-lhe
que aceite as pérolas que lanço a seus corpos
todos os seus sonhos misericordiosa sra.! saúdo-a! sua bença!
minha filiforminha escrita à pena minha carta em claro
minha extraordinária orig. pat. insígniaficante
como nada mais peço-lhe que a aceite como
um homem de princípios um rolls royce 59 uma ferrari 60
polidactilocomotiva a engatinhar para las vegas tou-tou
tou-tou tou-tou
uma banheira sob-medida no maksoud em são paulo
um swing em pub& cócegas em núcleos ricos de novela
em alphaville em estilo casa-grande-e-bengala do eng. arq.
e urbanista komudyabusxamavaoblableblufu-
lanim
e caso tudo isso não lhe chegue aos pés pois seja
ainda
uma diva radiante em sua próxima performance
a 23 deste 19h30 em ponto horário de brasília
merda merda merda
e uma ovação entre 69 cortinas e chuva de
rosas champagne
deus sobre os montes! o que deveria nem tudo
e que por certo nem tudo será minha epistolazinha
minha clara-neve
minha belíssima
minha fofa
minha tu tu
minha toda toda papoulacreponizada
via aérea par avion luftpost u.a.m.
no trajeto entre aa& bee

(tradução de Ricardo Domeneck)
940
Luís Miguel Nava

Luís Miguel Nava

O corpo espacejado

Perdia-se-lhe o corpo no deserto, que dentro dele aos poucos conquistava um espaço cada vez maior, novos contornos, novas posições, e lhe envolvia os órgãos que, isolados nas areias, adquiriam uma reverberação particular. Ia-se de dia para dia espacejando. As várias partes de que só por abstracção se chegava à noção de um todo começavam a afastar-se umas das outras, de forma que entre elas não tardou que espumejassem as marés e a própria via-láctea principiasse a abrir caminho. A sua carne exercia aliás uma enigmática atracção sobre as estrelas, que em breve conseguiu assimilar, exibindo-as, aos olhos de quem o não soubesse, como luminosas cicatrizes cujo brilho, transmutado em sangue, lentamente se esvaía. Ele mais não era, nessas ocasiões, do que um morrão, nas cinzas do qual, quase imperceptível, se podia no entanto detectar ainda a palpitação das vísceras, que a mais pequena alteração na direcção do vento era capaz de pôr de novo a funcionar. Resolveu então plastificar-se. Principiou pelas extremidades, pelos dedos das mãos e pelos pés, mas passado pouco tempo eram já os pulmões, os intestinos e o coração o que minuciosamente ele embrulhava em celofane, contra o qual as ondas produziam um ruído aterrador.
1 394
Thomas Brasch

Thomas Brasch

Seis sentenças sobre Sofia

1.
Em Hamburgo vive a filha de um milionário em um quarto minúsculo e de seu ventre quente ainda me lembro.

2.
Ele era macio sob a blusa branca.

3.
Houvesse me casado com ela e com o dinheiro de seu pai, não escreveria poemas sobre ela, mas em vez disso estaria meditando sobre as formas poéticas do século XXI.

4.
Melhor: eu me lembro de seu ventre quente.

5.
Sofia, eu havia, Sofia, menina rica, Sofia, te imaginado mais fria.

6.
Em Hamburgo vive a filha de um milionário com um engenheiro de som em seu quarto minúsculo e de seu ventre e de sua conta bancária ainda me lembro.
1 033
Hilda Machado

Hilda Machado

Miscasting

"So you think salvation lies in pretending?"
Paul Bowles



estou entregando o cargo
onde é que assino
retorno outros pertences
um pavilhão em ruínas
o glorioso crepúsculo na praia
e a personagem de mulher
mais Julieta que Justine
adeus ardor
adeus afrontas
estou entregando o cargo
onde é que assino


há 77 dias deixei na portaria
o remo de cativo nas galés de Argélia
uma garrafa de vodka vazia
cinco meses de luxúria
despido o luto
na esquina
um ovo
feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri

mas o cavaleiro de espadas voltou a galope
armou a sua armadilha
cisco no olho da caolha
a sua vitória de Pirro
cidades fortificadas
mil torres
escaladas por memórias inimigas
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída


agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias

vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil

seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa

os joelhos ainda esfolados
lambendo os dedos
procuro por compressas frias
oh céu brilhante do exílio
que terra
que tribo
produziu o teatrinho Troll colado à minha boca
onde é que fica essa tomada
onde desliga
2 086
Bertran de Born

Bertran de Born

6

1
Perdão, senhora, por não merecer
mentiras de um bajulador qualquer.
Mercê te peço, p"ra ninguém causar
rixa entre o teu sincero, vero ser,
cortês, humilde e franco (um só prazer),
e o meu, senhora, só de caluniar.

2
Pois que o meu gavião quero perder,
ou que um falcão-borni o vá morder
para depois de morto o depenar,
se um dia eu já deixei de te querer
mais do que quis qualquer outra mulher
que me dê seu amor ao se deitar.


3
Outro perdão te peço, que é mister,
e não posso implorar por mais sofrer:
se contigo falhei, mesmo ao pensar,
quando um quarto ou jardim a nós couber,
que o meu poder me falte, sem sequer
que a companheira possa me ajudar.

4
Se à mesa eu for jogar ou me entreter,
não me emprestem vintém, nem um talher,
nem possa em mesa presa eu penetrar9;
mas que no dado eu venha a me abater,
se alguma outra dama me aprouver
como tu, que me fazes desejar.

5
Que o meu castelo se divida até
ter quatro donos com seu belveder,
sem que um sequer consiga ao outro amar,
num cerco de besteiros quanto houver,
doutores, mercenários, o que vier;
se eu tive coração para outra amar.

6
Co"escudo no pescoço hei de viver
na tempestade, co"elmo onde estiver,
e cinto firme, sem poder soltar,
no trote do corcel mais pangaré;
nem queira o albergueiro me acolher,
se ousei ter coração de outra flertar.

7
Que a minha amada de outro queira ser,
e que a mim reste um longo carecer;
que ventos eu não veja sobre o mar,
e na corte me cerquem pra bater;
seja eu na rixa o primeiro a correr,
se não mentiu quem veio te falar.

8
Senhora, e se um açor eu bem tiver,
belo e mudado, treinado em prender,
que a toda ave pode conquistar
(o cisne, o grou e a garça) em seu mester,
quero que cace frangos, para quê?
Se, gordo e velho, não puder voar?

9
Falso bajulador de um malmequer,
se quer entre os amantes se envolver:
mais nos bajula, se nos deixa estar.

415
André Pieyre de Mandiargues

André Pieyre de Mandiargues

Brulote

O rosto desafiando a borrasca
Os cabelos cordames loucos
A boca aberta aos quatro ventos
Os braços levados pelas vagas
Os pés as mãos dispersos
O peito roto de golpes
O coração exposto à bordagem
Em trovão de fogo São Telmo
De amor morro de rir
No brulote de nossas breves vidas
Onde você me pulveriza.
(tradução de William Zeytounlian)
:
Brûlot
La figure défiant l'orage
Les cheveux cordages fous
La bouche bée aux quatre vents
Les bras emportés par les vagues
Les pieds les mains éparpillés
La poitrine rompue de coups
Le coeur exposé au bordage
Dans un éclat de feu Saint-Elme
D'amour je meurs de rire
Sur le brûlot de nos vies brèves
Où tu me réduis en poudre.
713
Kenneth Koch

Kenneth Koch

Um trem pode esconder outro

Um trem pode esconder outro
(sinal num cruzamento de trem no Quênia)
Num poema uma linha pode esconder outra linha,
Como num cruzamento, um trem pode esconder outro trem
Isto é, se você está esperando para atravessar
Os trilhos, espere ao menos um momento depois que
O primeiro trem tiver partido. Também ao ler
Espere até você ter lido a linha seguinte –
Só então é seguro prosseguir a leitura.
Numa família uma irmã pode ocultar outra,
Então, quando você estiver paquerando uma delas, é melhor ter todas à vista
Caso contrário, ao descobrir uma você pode já estar amando outra
Se você é mulher, um pai ou um irmão podem esconder
O homem que você esperou para amar
Assim, sempre em frente a uma coisa, a outra
Como as palavras à frente dos objetos, sentimentos e idéias.
Um desejo pode esconder outro. E a reputação de alguém
Pode esconder a reputação de outro. Um cão pode ocultar
Outro num gramado, e se você consegue fugir do primeiro não necessariamente está a salvo
Um lilás pode esconder outro e então vários lilases e na Via Ápia uma sepultura
Pode esconder uma quantidade de outras sepulturas. No amor, uma censura pode esconder outra,
Uma pequena queixa pode esconder outra enorme.
Uma injustiça pode esconder outra – um colono pode esconder outro
Um uniforme vermelho gritante, outro e, outro, uma coluna inteira. Um banho pode apagar outro banho
Como quando depois de tomar banho você sai na chuva
Uma idéia pode esconder outra: A vida é simples
Esconder a vida é incrivelmente complexo, como na prosa de Gertrude Stein
Uma linha esconde outra e é outra ao mesmo tempo. E no laboratório
Uma invenção pode esconder outra invenção,
Uma noite pode esconder outra, uma sombra, um ninho de sombras
Um vermelho escuro, ou um azul, ou um púrpura – esta é uma pintura
Feita depois de Matisse. Alguém espera nos trilhos até que eles tenham passado,
Esses duplos escondidos ou, às vezes, parecidos. Um gêmeo idêntico
Pode esconder o outro. E pode mesmo haver mais ali! O obstetra
Olha para o Valley of the Var. Eu e minha mulher vivíamos ali, mas
Uma vida escondeu outra vida. Então ela se foi e eu fiquei.
Uma mãe agitada esconde a filha desengonçada. A filha por sua vez esconde
Sua própria filha agitada. Elas estão em
Uma estação de trem e a filha está carregando uma bolsa
Tão maior que a bolsa da mãe que acaba por escondê-la com êxito.
Ao se oferecer para carregar a bolsa da filha, vê-se confrontando pela mãe
E obrigado a carregar sua bolsa também. Alguém que pede carona
Pode esconder outra pessoa de propósito e uma xícara de café
Outra até que a pessoa fique ultra agitada. Um amor pode esconder outro amor ou o mesmo amor
Como quando “eu te amo” soa muito falso e encontra-se um
Amor melhor à espreita, como quando “estou cheio de dúvidas”
Esconde “tenho certeza de apenas uma coisa e é isso”
E também um sonho pode esconder outro como todos sabem, sempre. No Jardim do Éden
Adão e Eva podem esconder os verdadeiros Adão e Eva.
Jerusalém pode esconder outra Jerusalém.
Quando você chega a algo, pare para deixá-lo passar
Só então você poderá ver o que mais há ali. Em casa, não importa onde,
Caminhos internos apresentam perigo também; uma memória
Certamente esconde outra, de que fala aquela memória,
Como uma sucessão eterna para trás de entidades contempladas. Ao terminar de ler Uma viagem sentimental procure ao seu redor o Tristam Shandy, e veja se ele
Ainda está na estante, ele deve estar, e estará ainda mais forte
E mais denso e, conseqüentemente, tão escondido como Santa Maria Maggiore
Deve estar escondida por igrejas similares em Roma. Uma calçada
Pode esconder outra, como quando você adormece ali, e
Uma canção pode esconder outra canção: por exemplo “Stardust”
Esconde “What have they done to the Rain?” Ou vice-versa. Uma batida no andar de cima
Esconde o batuque da percussão. Um amigo pode esconder o outro, você se senta
[ao pé de uma árvore
Com um amigo e quando você se levanta para ir embora encontra outro
Com quem você teria preferido passar as horas conversando. Um professor,
Um médico, um êxtase, uma doença, uma mulher, um homem
Podem esconder outro. Pare para deixar o primeiro passar.
Você pensa Agora é seguro passar e então você é atropelado pelo seguinte.
Pode ser importante
Ter esperado pelo menos um momento para ver o que já estava ali.
(tradução de Marília Garcia,
publicada originalmente na revistaInimigo Rumor n. 20)
1 340
Frank O'Hara

Frank O'Hara

São Paulo e tudo mais

Totalmente sem graça e sorridente
eu entro
me sento e
encaro a geladeira
é abril
não maio
é maio
coisas tão pequenas precisam ser definidas pela manhã
depois das coisas grandes da noite
você quer que eu vá? quando
penso em tudo que tenho pensado fico maluco
apenas “viver em Birmingham é um inferno”
apenas “você vai sentir minha falta
mas isso é bom”
quando as lágrimas de toda uma geração forem reunidas
caberão todas numa xícara
e se elas evaporam
nem por isso a vida tem calor
“esse variado sonho, viver”
eu estou vivo com você
cheio de prazeres ansiosos e ansiedades prazerosas
dureza e maciez
ouvindo enquanto você fala e falando enquanto você lê
eu leio o que você lê
você não lê o que eu leio
e tudo bem, o curioso sou eu
você lê por alguma razão misteriosa
eu leio só porque sou escritor
o sol não necessariamente se põe, às vezes só desaparece
quando você não está aqui alguém entra e fala
“ei,
cadê o dançarino dessa cama?”
Ah os verões poloneses! aquelas brisas!
aqueles dentes pretos e brancos!
você nunca vem quando diz que vem por outro lado você vem sim
:
St.Paul and all that
Totally abashed and smiling
I walk in
sit down
face the frigidaire
it’s April
no May
it’s May
such little things have to be established in the morning
after the big things of night
do you want me to come? when
I think of all the things I’ve been thinking of I feel insane
simply “life in Birmingham is hell”
simply “you will miss me
but that’s good”
when the tears of a whole generation are assembled
they will only fill a coffee cup
just because they evaporate
doesn’t mean life has heat
“this various dream of living”
I am alive with you
full of anxious pleasures and pleasurable anxiety
hardness and softness
listening while you talk and talking while you read
I read what you read
you do not read what I read
which is right, I am the one with the curiosity
you read for some mysterious reason
I read simply because I am a writer
the sun doesn’t necessarily set, sometimes it just disappears
when you’re not here someone walks in says
“hey,
there’s no dancer in that bed”
O the Polish summers! those drafts!
those black and white teeth!
You never come when you say you’ll come but on the other hand you do come
2 001
Kenneth Koch

Kenneth Koch

Uma conversa com Patrícia

Patrícia não quer
Falar de amor ela
Diz que só
Quer fazer amor
Mas ela me fala
De amor quase sem parar.

É horrível é
A pior coisa do mundo
Diz Patrícia
Nada
Nem a morte ou a loucura
É tão ruim quanto o amor

Eu estou sempre
Apaixonada estou sempre
Sofrendo por amor
Diz Patrícia. Agora me
Acostumei mas
Continuo sofrendo do mesmo jeito

Você sabe o que eu fiz a ela
Uma vez? – falando de sua
Namorada – Eu a chutei
Literalmente chutei ela estava sentada no chão e eu lhe
Dei uns colpi di piedi assim uns
pontapés. Ela escorregou no chão.

Sabe o que ela fez
Comigo? Me prometeu que viajaríamos
Eu estava pronta esperando
Com as malas e os bilhetes
E ela vem e me diz que sua outra amiga achou que ela
não deveria ir, era o que ela achava. Eu a chutei

Sabe às vezes a gente ainda fica
Junto. Mas o amor é horrível. Eu achei
Que você seria a pessoa
Certa para ter esta conversa Patrícia já que
Você ama as mulheres e ao mesmo tempo
É uma mulher. Você deve ter razão Patrícia

Disse. Mas com essa mulher que te
Abandona eu acho que você deveria
Sumir do mapa. Embora talvez com ela
não vá adiantar
Não, sumir não adianta.
É difícil eu não a conheço

Se eu a conhecesse se eu pudesse vê-la
Por apenas dez minutos – Tenho medo disso
se você a vir você pode
Levá-la de mim. Patrícia
Ri. Não, não aconteceu comigo ainda
Graças a deus de gostar de mulheres jovens assim.

Por quê? Quando você tiver a minha
Idade – ainda jovem – ela terá
Trinta... e nove? Você convive bastante
Com pessoas bem jovens para
Saber como elas são horríveis
E você não gosta delas

Você não quer ter nada
A ver com elas! Hum
Hum, eu disse apoiando
As mãos sobre a mesa e depois tirando
Olhe para você desculpe-me mas eu tenho que rir
De você sentado neste horrível

Restaurante já de
Madrugada em uma
Cidade em que você não quer estar
E por quê? Por esta mulher
É horrível eu sei mas também
É engraçado

Eu sei eu disse. Ouça tenho
Uma idéia. Você tem o endereço dela? Você sabe onde
Ela mora? Você deveria ir até lá ir
E se esconder
Do lado de fora da casa dela
Atrás das árvores

Então quando ela sair
Você a afronta
Você a enfrenta. Você verá
Em seus olhos
Se há amor ou não. É algo que não se
Pode esconder. Você saberá não tem erro.

Funciona. Comigo sempre
Funcionou. Não vai funcionar comigo. Não posso
Ir e me esconder lá. É verdade
Disse Patrícia quando há amor tudo
Funciona quando não há, nada funciona. O amor
É um deus Eu não acredito em nada dessas coisas freudianas

Esse deus para quem você tem que fazer
O que ele quer que você faça você
Está com raiva mas tudo o que você realmente quer
É tê-la de volta. Então – vingança! Se
Essa mulher tivesse feito algo assim comigo
Eu simplesmente não iria mais gostar dela na verdade

Eu iria odiá-la Você deve levar em conta
Disse Patrícia que essa mulher pode estar
fazendo isso para testar você. Não,
eu disse. Eu sei que não é isso. Eu sei de algo. Eu me sinto
Cem anos mais velho. Você não
parece tão mal assim, Patrícia disse.

Procure outra mulher. Não posso. Eu
Sei Patrícia disse. Mas geralmente sempre achamos que
Esta é uma boa idéia. Mas se
Você não pode não pode. Eu
Não consigo nem comer
Isso aqui Patrícia eu disse.

Desculpe Patrícia eu disse por te
Chatear não consigo parar de falar Me
Perdoa. Você não está me chateando
Patrícia diz Este é meu assunto preferido
Não é todo dia que se vê alguém num estado desses,
Em que se pode ajudar dizendo para se manter vivo

Você sabe, disse Patrícia, se ela
Faz essas coisas com você agora
Ela fará de novo
E de novo então é melhor estar pronto
Talvez você possa se adiantar
E dizer que ela tem razão e que você

Não a ama Tchau Que você vai embora
Mas se você a quer mesmo
Você deveria ir para trás das árvores
E surpreendê-la quando eles o virem
Isso sempre faz diferença
Não posso ir me esconder lá Patrícia

É loucura. Eu fui mas sem
Me esconder e sem afrontá-la.
Patrícia: O que ela disse? Eu disse:
As mesmas coisas. Patrícia disse
Você viu amor nos olhos dela? Eu disse
Não, não vi. Eu vi

Alguma outra coisa. Em Florença está um dia nublado
Seu cabelo (relativamente) curto e
Seus olhos ao longo do Arno
Foi a última vez em que a veria outra vez
Como esta que estou vendo outra vez
Quando ver outra vez ainda faz algum sentido

Acabou Patrícia dizia
Por enquanto mas não se preocupe
Eu acho que você vai tê-la de volta
Mas então será tarde demais. Ai Patrícia deixei
Minhas costas e cabeça despencarem na
Cadeira Tarde não quer dizer nada!

(tradução de Marília Garcia)

872
Rose Ausländer

Rose Ausländer

Ainda estás aqui

Lança teu medo
aos ares
Em breve
acaba teu tempo
em breve
cresce o céu
sob a grama
despencam teus sonhos
nenhures
Ainda
cheira o cravo
canta o melro
ainda tens um amante
e palavras para doar
ainda estás aqui
Sê o que és
Dá o que tens
Noch bist du da
Wirf deine Angst
in die Luft
Bald
ist deine Zeit um
bald
wächst der Himmel
unter dem Gras
fallen deine Träume
ins Nirgends
Noch
duftet die Nelke
singt die Drossel
noch darfst du lieben
Worte verschenken
noch bist du da
Sei was du bist
Gib was du hast
793
Marguerite Duras

Marguerite Duras

As mãos negativas (excerto)

Chamam-se “mãos negativas” as pinturas de mãos encontradas nas grutas magdalenienses da Europa Sul-Atlântica. O contorno dessas mãos – espalmadas sobre a pedra – era recoberto de cor. O mais frequente de azul, de preto. Às vezes, de vermelho. Nenhuma explicação foi encontrada para esta prática.
Diante do oceano
sob a falésia
sobre a parede de granito
essas mãos
abertas
Azuis
E pretas
Do azul da água
Do preto da noite
O homem veio sozinho na gruta
de frente para o oceano
Todas as mãos têm o mesmo tamanho
ele estava sozinho
O homem sozinho na gruta olhou
no barulho
no barulho do mar
a imensidão das coisas
E ele gritou
Tu que tens um nome e uma identidade eu
te amo
Essas mãos
do azul da água
do preto do céu
Planas
Colocadas divididas sobre o granito cinza
Para que alguém as visse
Eu sou aquele que chama
Eu sou aquele que chamava que gritava há trinta
mil anos
Eu te amo
Eu grito que eu quero te amar, eu te amo
Eu amarei quem quer que escute o meu grito
Sobre a terra vazia ficarão essas mãos sobre a parede de
granito de frente para o fragor do oceano
Insustentável
Ninguém escutará mais
Ninguém verá
Trinta mil anos
Estas mãos, pretas
A refração da luz sobre o mar faz tremer
a parede da pedra
Eu sou alguém eu sou aquele que chamava que
gritava nessa luz branca
O desejo
a palavra ainda não foi inventada
Ele olhou a imensidão das coisas no fragor
das ondas, a imensidão de sua força
e depois gritou
Acima dele as florestas da Europa,
sem fim
Ele se segurou no centro da pedra
dos corredores
das vias de pedra
de todas as partes
Tu que tens um nome e uma identidade eu
te amo com um amor indefinido
Seria necessário descer a falésia
vencer o medo
O vento sopra do continente ele empurra
o oceano
As ondas lutam contra o vento
Elas avançam
abrandadas por sua força
e pacientemente alcançam
a parede
Tudo se esmaga
Eu te amo mais longe do que tu
Eu amarei quem quer que escutará que eu grito que eu
te amo
Trinta mil anos
Eu chamo
Eu chamo aquele que me responder
Eu quero te amar eu te amo
Há trinta mil anos eu grito em frente ao mar o
espectro branco
Eu sou aquele que gritava que te amava, tu
(tradução de Érica Zíngano e Marcela Vieira)
:
Les mains négatives(1979)
Margueirte Duras
On appelle mains négatives les peintures de mains trouvées dans les grottes magdaléniennes de l'Europe Sud-Atlantique. Le contour des ces mains – posées grandes ouvertes sur la pierre – était enduit de couleur. Le plus souvent de bleu, de noir. Parfois de rouge. Aucune explication n'a été trouvée à cette pratique.
Devant l'océan
sous la falaise
sur la paroi de granit
ces mains
ouvertes
Bleues
Et noires
Du bleu de l'eau
Du noir de la nuit
L'homme est venu seul dans la grotte
face à l'océan
Toutes les mains ont la même taille
il était seul
L'homme seul dans la grotte a regardé
dans le bruit
dans le bruit de la mer
l'immensité des choses
Et il a crié
Toi qui es nommée toi qui es douée d'identité je
t'aime
Ces mains
du bleu de l'eau
du noir du ciel
Plates
Posées écartelées sur le granit gris
Pour que quelqu'un les ait vues
Je suis celui qui appelle
Je suis celui qui apellait qui criait il y a trente
mille ans
Je t'aime
Je crie que je veux t'aimer, je t'aime
J'aimerai quiconque entrendra que je crie
Sur la terre vide resteront ces mains sur la paroi de
granit face au fracas de l'océan
Insoutenable
Personne n'entendra plus
Ne verra
Trente mille ans
Ces mains-là, noires
La réfraction de la lumière sur la mer fait frémir
la paroi de la pierre
Je suis quelqu'un je suis celui qui appelait qui
criait dans cette lumière blanche
Le désir
le mot n'est pas encore inventé
Il a regardé l'immensité des choses dans le fracas
des vagues, l'immensité de sa force
et puis il a crié
Au-dessus de lui les fôrets d'Europe,
sans fin
Il se tient au centre de la pierre
des couloirs
des voies de pierre
de toutes parts
Toi qui es nommée toi qui es douée d'identité je
t'aime d'un amour indéfini
Il fallait descendre la falaise
vaincre la peur
Le vent souffle du continent il repousse
l'océan
Les vagues luttent contre le vent
Elles avancent
ralenties par sa force
et patiemment parviennent
à la paroi
Tout s'écrase
Je t'aime plus loin que toi
J'amearai quiconque entendra que je crie que je
t'aime
Trente mille ans
J'appelle
J'appelle celui qui me répondra
Je veux t'aimer je t'aime
Depuis trente mille ans je crie devant la mer le
spectre blanc
Je suis celui qui criait qu'il t'aimait, toi
.
.
.
3 565
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de A.G., a Mulher da Penumbra

Eu, Amélia Garcia, aos dezessete anos
casei-me com um homem com sombra,
fugindo de pais que tinham sombra,

e de sombra em sombra cheguei à melhor de todas.

909
Barrie Phillip Nichol

Barrie Phillip Nichol

Poema do segundo livro deThe Martyrology

santo do sem-nome
santo de ósculos
teus lábios estão sobre mim
dentágil& gargolhada
vozes terminais na sala-de-estar
enfermo de cama na tristeza
saí porta afora aquela última vez& disse
esvaí-me em sangue por palavras pela boca
adiante:
tenta escrever o poema em que respiro
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
saint of no-names
saint of kisses
your lips are on me
sharp-tooth & giggle-eye
final voices in the living room
sick in bed with grief
walked out the door that last time & told you
bled my mouth dry for words
later:
try to write the poem i breathe in
(from Martyrology 2)
397
Blanca Varela

Blanca Varela

Monsieur Monod não sabe cantar

meu querido
me lembro de ti como a melhor canção
essa apoteose de galos e estrelas que já não és
que já não sou que já não seremos
e contudo sabemos muito bem ambos
que falo pela boca pintada do silêncio
com agonia de mosca
no final do verão
e por todas as portas mal fechadas
conjurando ou chamando esse vento aleivoso da memória
esse disco arranhado antes de usar
tingido segundo o humor do tempo
e suas velhas doenças
ou de vermelho
ou de preto
como um rei em desgraça na frente do espelho
na véspera
e amanhã e depois de amanhã e sempre

noite que te precipitas
(assim deveria dizer a canção)
carregada de presságios
cadela insaciável (un peu fort)
mãe esplêndida (plus doux)
parideira e descalça sempre
para não ser escutada pelo néscio que em ti crê
para melhor esmagar o coração
do desvelado
que se atreve a ouvir o passo arrastado
da vida
da morte
uma casca de mosquito uma torrente de plumas
uma tempestade num copo de vinho
um tango

a ordem altera o produto
erro do maquinista
podre técnica continuar vivendo tua história
ao contrário como no cinema
um sonho grosso
e misterioso que se adelgaça
the end is the beginning
uma luzinha vacilante como a esperança
cor de clara de ovo
com cheiro de peixe e más intenções
obscura boca-de-lobo que te leva
de Cluny ao Parque Salazar
esteira rolante tão veloz e tão negra
que já não sabes
se és ou te fazes de vivo
ou de morto
e sim uma flor de ferro
como um último bocado torto e sujo e lento
para melhor devorar-te

meu querido
adoro tudo o que não é meu
tu por exemplo
com tua pele de asno sobre a alma
e essas asas de cera que te dei
e que jamais te atreveste a usar
não sabes como me arrependo de minhas virtudes
já não sei o que fazer com a minha coleção de chaves falsas
e mentiras
com minha indecência de menino que deve terminar este conto
agora já é tarde
porque a recordação como as canções
a pior a que quiseres a única
não resiste a outra página em branco
e não tem sentido que eu esteja aqui
destruindo
o que não existe

meu querido
apesar disso
tudo continua igual
o arrepio filosófico depois do chuveiro
o café frio o cigarro amargo O Lodo Verde
no Montecarlo
continua livre para todos os públicos a vida perdurável
intacta a estupidez das nuvens
intacta a obscenidade dos gerânios
intacta a vergonha do alho
os pardaizinhos cagando divinamente em pleno céu
de abril
Mandrake criando coelhos em algum círculo
do inferno
e sempre a patinha de caranguejo presa
na trapaça do ser
ou do não ser
ou de não quero isto mas aquilo
tu sabes
essas coisas que nos acontecem
e que devem ser esquecidas para que existam
por exemplo a mão com asas
e sem mão
a história do canguru - aquela da bolsa ou a vida -
ou a do capitão preso na garrafa
para sempre vazia
e o ventre vazio mas com asas
e sem ventre
tu sabes
a paixão a obsessão
a poesia a prosa
o sexo o êxito
ou vice-versa
o vazio congênito
o ovinho pintado
entre milhões e milhões de ovinhos pintados
tu e eu
you and me
toi and moi
tea for two na imensidão do silêncio
no mar intemporal
no horizonte da história
porque ácido ribonucleico somos
mas ácido ribonucleico apaixonado sempre
866
Heiner Müller

Heiner Müller

Tristão 1993

Ontem vi em meu filho um olhar estranho
Que durou uma notícia trágica um comercial
Eu li nos olhos do meu filho
Que já viram coisas demais a pergunta
Se o mundo ainda vale o esforço que é a vida
Pelo instante que durou uma notícia trágica
Um comercial eu fiquei em dúvida
Se desejava a ele uma vida longa
Ou por amor uma morte prematura.
:
Tristan 1993
Gestern hatte mein Kind einen fremden Blick
Eine Schreckensnachricht einen Werbespot lang
In den Augen meines Kindes las ich
Der zu viel gesehen hat die Frage
Ob die Welt die Mühe des Lebens noch aufwiegt
Einen Augenblick eine Schreckensnachricht
Einen Werbespot lang war ich im Zweifel
Soll ich ihm ein langes Leben wünschen
Oder aus Liebe einen frühen Tod
820
Essex Hemphill

Essex Hemphill

Casamento americano

Na América,
eu ponho meu anel
no seu pau
que é o lugar dele.
Nenhum cavaleiro
trazendo o terror
ou soldado apocalíptico
há de chegar
e chagar nossa união.
Eles estão ocupados
demais pilhando
a terra para nos ver.
Eles não sabem
que nos precisamos
criticamente.
Esperam que tiremos licença médica,
fiquemos a noite toda perante a TV,
morramos por nossas próprias mãos.
Eles não sabem
que estamos reunindo forças.
A cada beijo
confirmamos o novo mundo.
O que a rosa sussurra
antes de abrir
prometo a você.
Eu dou a você meu coração,
uma casa segura.
Eu dou a você promessas outras que
leite, mel, liberdade.
Eu presumo que você sempre
será um homem livre com um sonho.
Na América,
eu coloco o seu anel
no meu pau
que é o lugar dele.
Que vivamos muito
para libertar este sonho.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
American Wedding
Essex Hemphill
In America,
I place my ring
on your cock
where it belongs.
No horsemen
bearing terror,
no soldiers of doom
will swoop in
and sweep us apart.
They’re too busy
looting the land
to watch us.
They don’t know
we need each other
critically.
They expect us to call in sick,
watch television all night,
die by our own hands.
They don’t know
we are becoming powerful.
Every time we kiss
we confirm the new world coming.
What the rose whispers
before blooming
I vow to you.
I give you my heart,
a safe house.
I give you promises other than
milk, honey, liberty.
I assume you will always
be a free man with a dream.
In America,
place your ring
on my cock
where it belongs.
Long may we live
to free this dream.
.
.
.
776
Tite de Lemos

Tite de Lemos

áspera Prisma lápice cria'anza

áspera Prisma lápice cria'anza
la flecsa sena pied ah! senz' aPap
a imagignota iu velo, cino, manza
lar a mañan lefeu los fus deh lap

? ah , ssim, Uz prism a sphera vossos olhos
des fhh' olhamsse çus brutos vanall'ar
y oyo loero siam lahor come si molhan
as cquerras infinitamente du vagar

os músculos extrêmeros a musa
quem trouxe o ver a nua nau a única
rainha do oceano acolhedor e fundo

nozes loslazos vozla te enlaçassem
eu sou teu caçador e eu sou a tua casa
e si un undécimo varvar das Portas

: prisma. Ver



764
Vasko Popa

Vasko Popa

- Sob a lua

O que é isso agora
É como se uma carne uma carne de neve
Me envolvesse
Não sei o que é
É como se essa medula me varasse
Essa medula gelada
Nem eu sei o que é
Como se tudo recomeçasse
Com um começo mais terrível
Sabes o quê?
Será que ousas ladrar
626
Amiri Baraka

Amiri Baraka

Em memória do rádio

Quem já parou pra pensar na divindade de Lamont Cranston?
(Só Jack Kerouac, que eu saiba: & eu.
Já vocês é provável estavam na WCBS ou na Kate Smith,
Ou em algo igualmente sem graça.)
Que posso dizer?
É melhor se apaixonar e perder
Que passar linóleo nas suas salas de estar?
Sou um sábio ou algo do tipo?
Mandrake e o truque hipnótico da semana?
(Lembrem, não tenho os poderes de cura de Oral Roberts …..
Não posso, como F.J. Sheen, te dar salvação & dinheiro!
Não posso sequer te mandar prum satori na câmara de gás
[como Hitler ou Goody Knight
& Amor é quase a morte
Mais duas letras/ e o que dá?
A morte, além do mais
Quem entende isso?
Eu é que não ia querer andar nessa corda bamba.
Sábado de manhã a gente ouvia o Lanterna Vermelha e sua turma
[submarina.
Às 11, Faz de Conta/ & a gente fazia/& eu, o poeta, ainda faço,
[Graças a Deus!
O que ele dizia mesmo (já transformado, seguro & invisível & os
[descrentes não podiam tacar pedras?) “Heh, heh, heh,
Quem sabe o mal que se esconde no coração dos homens?
[O Sombra sabe.”
(tradução de Dirceu Villa)
Nota do tradutor:
Lamont Cranston era a identidade secreta do Sombra, herói das HQs e do rádio na década de 1940.
WCBS: Rádio nova-iorquina.
Kate Smith (1907 – 1986) foi uma cantora típica da era do rádio, veiculada pela rede CBS na década de 1940.
Oral Roberts: Evangelista televisivo dos EUA.
F.J. Sheen: Bispo norte-americano. O primeiro pregador televisivo a se tornar famoso.
Satori: “Iluminação”, termo do zen budismo.
Goodwin Knight (1896 – 1970), do Partido Republicano, foi governador da Califórnia na década de 1960, e praticou, como uma porção de outros, a pena de morte em câmara de gás, incluindo um episódio famoso, em que tentou deter uma execução: seu telefonema chegou dois minutos atrasado. Baraka pode estar jogando com o trocadilho sonoro do nome do governador, que poderia ser ouvido como good night, ou seja, “boa noite”.
Red Lantern, programa de rádio da década de 1940 que contava aventuras marinhas.
Let’s Pretend, programa de rádio da CBS, década de 1940.
"(...) o Sombra sabe": essa era a frase inicial do programa, e a frase que diziam sobre o Sombra nas HQs.
:
In Memory of Radio
Amiri Baraka
Who has ever stopped to think of the divinity of Lamont Cranston?
(Only jack Kerouac, that I know of: & me.
The rest of you probably had on WCBS and Kate Smith,
Or something equally unattractive.)
What can I say?
It is better to haved loved and lost
Than to put linoleum in your living rooms?
Am I a sage or something?
Mandrake's hypnotic gesture of the week?
(Remember, I do not have the healing powers of Oral Roberts...
I cannot, like F. J. Sheen, tell you how to get saved & rich!
I cannot even order you to the gaschamber satori like Hitler or Goddy Knight)
& love is an evil word.
Turn it backwards/see, see what I mean?
An evol word. & besides
who understands it?
I certainly wouldn't like to go out on that kind of limb.
Saturday mornings we listened to the Red Lantern & his undersea folk.
At 11, Let's Pretend
& we did
& I, the poet, still do. Thank God!
What was it he used to say (after the transformation when he was safe
& invisible & the unbelievers couldn't throw stones?) "Heh, heh, heh.
Who knows what evil lurks in the hearts of men? The Shadow knows."
O, yes he does
O, yes he does
An evil word it is,
This Love.
710
Haroldo Maranhão

Haroldo Maranhão

Cortininha de filó

Para mim prima é mesmo que irmã, a gente respeita, mas Bela, sei lá!, tinha uns rompantes que até me assustavam. Naquela noite, por exemplo. Eu me embalava distraidíssimo na rede. Desde menino que durmo pouco, a Bela estava careca de saber e quando menos espero quem é vejo diante de mim? A Bela. A Bela dormia de pijama, minha tia achava camisão indecente, que pijama protege, a menina pode se mexer à vontade, frioleiras de velha. Pois a Bela me aparece apenasmente de blusa de pijama! Não entendi, francamente. e se não estivesse como estava acordado, poderia até imaginar que sonhava: a Bela ali de pijama decepado. Só para provocar como me provocou, que logo fiquei agitadíssimo, me virando e revirando na rede, e a Bela feita uma estátua, nem uma palavra dizia, à espera eu acho de atitude minha, mas cadê coragem?, que conforme disse prima é irmã, e de irmã não se olha coxa, não se olha bunda, irmã pode ficar pelada que a gente nem enxerga peitinho, cabelinho, nada. A danada da Bela sabia muitíssimo bem o que estava fazendo, que chegou um ponto que não suportei semelhante sofrimento, a dois metros da dona de um corpo fantástico. Me levantei da rede e me senti empurrado para os braços da Bela, que sem mais aquela me estrangulou que nem apuizeiro, e hoje penso que ela só esperava mesmo que me levantasse da rede, porque tudo o mais foi com ela, começando por me levar pelo escuro como guia de cego e sem nenhuma-nenhuma cerimônia deitou-se comigo na cama, que depois é que eu soube que os titios tinham saído, a gente estava só em casa e eu bestando na rede, quando bem podia estar há tempos naquele céu. A única coisa que fiz mesmo foi tirar a blusa do pijama dela e mais nada, que ela cuidou do resto, professora ,mais que escolada, e para começar espetou-me com os peitinhos num abraço que quase me mata. A Bela tinha prática, um fogo tremendo. E começou a maior das confusões, eu nuínho também, que nem sabia o que era minha perna e perna da Bela, as mãos da Bela me amassando a ponto de deixar em carne viva o meu bilu-bilu, que parece que ela estava com raiva do meu bilu-bilu, mas não era raiva e sim uma aflição que deu de repente na diaba da minha prima, que queria fazer tudo ao mesmo tempo, mas tinha só duas mãos, pegava no meu troço, largava, pegava de novo, se esfregava e parava de se esfregar. Agora vejo que não era prática coisíssima nenhuma da Bela, mas uma comichão que se alastrava lá nela. De repente parou, a respiração cortada em miudinhos, dando a impressão de que tinha brincado a tarde toda de juju. E eu, lógico, parei também e ficamos feitos dois patetas, olhando o teto, quer dizer, a Bela é que olhava o teto, que eu não sabia se tínhamos terminado, se me vestia e ia embora para a rede. Nós estávamos colados, braços, coxas e pernas, de alto a baixo, parece que eu estava com uma febre de quarenta graus ou mais. Me sentia ótimo, ela podia olhar o teto o resto da vida e aí eu fechei os olhos e flutuava lele-leve, não sentia nada por baixo de mim, é como se estivesse voando, fora da cama, como se por baixo não houvesse coisa sólida, só ar. Foi quando a Bela virou-se para mim e começou a passar as unhas pela barriga me causando uma friagem e umas cócegas e pegou desta vez com uma delicadeza que até me espantou, o meu negócio inchadíssimo, parecendo que tinha sido picado por um enxame de cabas. Ela olhava para ele de muito perto, virava e revirava o cartuchinho de carne, um picolé quente, que não derretia. Percebi indecisão na Bela. E então falou a única palavra naquela noite, uma palavra só, palavra de três letras, que eu morro e não esqueço essa palavra:

“Vem!”

Ora, a Bela tinha cada uma! "Vem." Ir aonde se eu estava ali? Ela falou "vem" muito, muito delicadamente, me puxou e eu tudo deixava, deixei, fui deixando, a Bela pelo visto sabia muito bem o que estava querendo. “Vem." Ela me guiou que eu não sabia nem a décima parte da missa, às vezes se .impacientava com a minha santa burrice e para a Bela deve ter sido um trabalho dos seiscentos, mas ela insistia e insistia, acabou me botando de bruços por cima dela. Aí abriu as pernas e eu fiquei feito um bobo naquele espação sem saber o que fazer. A Bela fez tudo, tudo,.e gemia como se doesse e devia doer. Foi quando percebi que uma cortina de papel se rasgava e eu entrei por um corredorzinho ensopado. Aí deu nela um nervoso, sei lá o que foi!, ela me empurrou, me expulsando com raiva, eu mais que depressa saí, que não era nada besta de contrariar a Bela. Então percebi uma bruta mancha no lençol. O lençol tinha bem no centro um laguinho de sangue.

.
.
.


1 624
Itamar Assumpção

Itamar Assumpção

Prezadíssimos Ouvintes

Muito prazer
Prezadíssimos ouvintes
Pra chegar até aqui tive que ficar na fila
Agüentar tranco na esquina e por cima lotação
Noite e aqui tô eu novo de novo
Com vinte e quatro costelas
O jogo baixo, guitarras, violão e percussão e vozes
Ligadas numas tomadas elétricas e pulmão
Já cantei num galinheiro
Cantei numa procissão
Cantei ponto de terreiro
Agora quero cantar na televisão
Meu irmão o negócio é o seguinte
É pura briga de foice
Um jogo de empurra empurra
Facão tiro chute murro
Chamam mãe de palavrão
Sorte não haver o que segure
Som senhores e senhores
Mas quem é que me garante
Que mesmo esses microfones
Sempre funcionarão?
Cantei tal qual seresteiro
Cantei paixão, solidão
Cantei canto de guerreiro
Agora quero cantar na televisão
.
.
.
732
Jean-Joseph Rabearivelo

Jean-Joseph Rabearivelo

Ler

Não faças ruído, não fales:
vão explorar uma floresta os olhos, o coração
o espírito, os sonhos...
Floresta secreta, porém palpável:
floresta.
Floresta de rumoroso silêncio,
floresta onde se refugiou o pássaro que se prende à laço,
o pássaro que se prende à laço, que faremos cantar
ou que faremos chorar.
Que faremos cantar, que faremos chorar
o lugar de seu nascimento.
Floresta. Pássaro.
Floresta secreta, pássaro oculto
em vossas mãos.
Lire
Ne faites pas de bruit, ne parlez pas:
vont explorer une forêt les yeux, le coeur,
l’espirit, les songes...
Forêt secrète bien que palpable:
forêt.
Forêt bruissant de silence,
forêt où s’est évadé l’oiseau à prendre au piège,
l’oiseau à prendre au piège qu’on fera chanter
ou qu’on fera pleurer.
A qui l’on fera chanter, à qui l’on fera pleurer
le lieu de son éclosion.
Forêt. Oiseau.
Forêt secrète, oiseau caché
dans vos mains.
tradução de Antônio Moura e originais em francês
(incluídos no volumeQuase Sonhos, publicado pela Lumme Editor)
1 174
Itamar Assumpção

Itamar Assumpção

Abobrinhas não

Cansei de ouvir abobrinhas
vou consultar escarolas
prefiro escutar salsinhas
pedir consolo às papoulas
e às carambolas
pedir um help ao repolho
indagar umas espigas
aprender com pés de alho
sobre bugalhos
ouvir dicas das urtigas
e dessas tulipas
um toque pro miosótis
um palpite pro alpiste
uma luz da flor de lótus
pedir alento ao cipreste
e pra dama da noite
pedir conselho à serralha
sugestão pro almeirão
idéias para azaléias
opinião para o limão, pimentão
abobrinhas não
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