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Poemas neste tema

Manuel António Pina

Manuel António Pina

Os lugares


Os lugares são
a geografia da solidão.
São lugares comuns a casa a cama.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 43 | Assírio & Alvim, 2012
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Variação celeste

Colhi a flor de um relâmpago
de entre os teus seios juntos, e quando
estremeceste foi como se uma estrela
tivesse vacilado nos ombros
da manhã.

Pus essa flor no negro
lago dos teus olhos, e as suas
raízes estenderam-se pelo fundo
da tua memória até esse dia em que
a lava do início te inundou.

E percorri com o tempo
de uma vela de moinho o arco
das tuas sobrancelhas, procurando
na sua margem o pórtico
dos teus lábios.


Nuno Júdice | "A Convergência dos Ventos", pág. 40 | Publicações Dom Quixote, 2015
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Gesto

Eu em tudo Te vi amanhecer
Mas nenhuma presença Te cumpriu,
Só me ficou o gesto que subiu
Às mais longínquas fontes do meu ser.
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Susana Thénon

Susana Thénon

Onde

"Só o mistério
Nos faz viver.
Só o mistério."
F. García Lorca

Abaixo a teoria da gestalt
as estatísticas anuais
o observador no pólo
os conselhos de controle.
Abaixo o sol meteorológico
o tetranitrato de pentaeritritol
a força motriz aproveitável
e o robô eletrônico.
Abaixo o predicado nominal
a glossemática de Hjelmslev
o catálogo de códigos e documentos
a patogenia do coma hepático.
Abaixo as categorias dimensionais
a soma dos ângulos interiores de um sonho
a cosmovisão do eu
os graus do amor cibernético
como seguir
o que ser
onde morrer
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Manhã

Estar contigo ao acordar, ver como
se abrem as tuas pálpebras, cortinas
corridas sobre o sonho, sacudir dos
teus lábios o silêncio da noite para
que um primeiro riso me traga o dia:
assim, amor, reconheço a vida que
entra contigo pela casa, escancara
janelas e portas, deixa ouvir os pássaros
e o vento fresco da manhã, até que voltas
para junto de mim, e tudo recomeça.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 33 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Madrugada

Um leve tremor precede a madrugada
Quando mar e céu na mesma cor se azulam
E são mais claras as luzes dos barcos pescadores
E para além de insânias e rumores
A nossa vida se vê extasiada
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Susana Thénon

Susana Thénon

Carrasco

Uma voz próxima
me repete: descansa,
e eu
descansar não poderia
senão como em sonho
latente,
como flecha que repousa
em sua aljava.
Cada dia
minhas horas
se tornam mais agudas,
mais ásperas,
desde que estou sufocada
e o sol me arde.
Conheço as palavras
cujo som
as portas voam como plumas
e o céu é uma almofada para os pés.
Conheço o castigo.
Conheço todos os castigos.
Mas hoje amanheci carrasco.
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Manuel António Pina

Manuel António Pina

Relatório

É um mundo pequeno,
habitado por animais pequenos
- a dúvida, a possibilidade da morte -
e iluminado pela luz hesitante de

pequenos astros - o rumor dos livros,
os teus passos subindo as escadas,
o gato perseguindo pela sala
o último raio de sol da tarde.

Dir-se-ia antes uma casa,
um pouco mais alta que um império
e um pouco mais indecifrável
que a palavra casa; não fulge.

Em certas noites, porém
sai de si e de mim
e fica suspensa lá fora
entre a memória e o remorso de outra vida.

Então, com as luzes apagadas,
ouço vozes chamando,
palavras mortas nunca pronunciadas
e a agonia interminável das coisas acabadas.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 352 | Assírio & Alvim, 2012
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Manuel António Pina

Manuel António Pina

Palavras não

Palavras não me faltam (quem diria o quê?),
faltas-me tu poesia cheia de truques.
De modo que te amo em prosa, eis o
lugar onde guardarei a vida e a morte.

De que outra maneira poderei
assim te percorrer até à perdição?
Porque te perderei para sempre como
o viajante perde o caminho de casa.

E tendo-te perdido, te perderei para sempre.
Nunca estive tão longe e tão perto de tudo.
Só me faltavas tu para me faltar tudo,
as palavras e o silêncio, sobretudo este.



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 13 | Assírio & Alvim, 2012

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Manuel António Pina

Manuel António Pina

Pura coincidência

[...]
Estares; ou seres;
a palavra ou a frase,
a dúvida ou o sentido,
para isso terias, no entanto, que reaprender tudo,
reaprender a chorar, a perceber,
reaprender a reaprender;
porque talvez, afinal, seja tudo simples,
o efeito suceda à causa e a vida
encare apenas a sua própria face
(embora verdadeiramente isso não tenha
[demasiada importância);
terias que saber (e não o saber)
que dias e esperança,
incredulidade e medo,
tempo e lugar, carne e espírito
são sombras que nenhum
corpo e nenhuma luz consomem;
reaprender a ironia;
por fim, como uma imagem desfocada
recentrando-se, estarias tão perto ou tão longe
que a tua existência coincidiria,
transparente e pura coincidência



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 285 | Assírio & Alvim, 2012

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Raquel Nobre Guerra

Raquel Nobre Guerra

O fim do mundo

O fim do mundo começa sempre no café do bairro.

O vietnamita eleva uma maçã acima da cabeça
como se me atravessasse nesse seu gesto corso.
Gente que está viva, diria, pasto para as sensações
e isto não quer dizer nada senão que sigo a forma
dos objectos mortos para que as coisas passem.
Que me esforço por um certo sossego.

Ainda sou essa criança predadora
que empurra a noite para o lado com os dentes.
Acordo no lado mais duro da terra
faço contas ao corpo antes de ser bicho.
Penso, esta obsessão não é verdade
estou morta, sou infinita
e a manhã despenca como uma grua.

Agora vou ao café todos os dias
para que o mundo que me percorre
entre pela ordem exacta dos punhos.
Respiro com as raparigas da cidade
digo, como é quente e pesado este fato preto
que vai doendo menos abrir os olhos debaixo de água
que se canta melhor na Praça das Flores
de frente como estás para mim.
Que eu só queria existir um pouco
na de definitiva passagem do fogo
e suster a passo veloz os estragos
a força de um corpo resumido ao vento.

Agora escrevo diários íntimos
para cumprir o instinto canalha
de quem rouba para ser apanhado
de quem mata pela beleza de um corpo
por onde se enfiou um dos braços
até não saber a que altura se pôs a noite.

Depois nada, a minha vida é só a minha vida
um olhar bovino treinado para devolver ao mundo
o mínimo insulto sem me mexer um milímetro.

E eu já não sei a que altura se pôs a noite
nem da fraqueza do sol que cai de borco.
O café ilumina-se de todos os anjos filhos da puta.
Daqui a pouco sairei de casa
estou certa que daqui sairá o poema mais triste.
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Projecto

Desta vez vou escrever-te um poema que vai ser
um poema de amor, mas que não é apenas um poema de amor. O
amor, com efeito, é algo que não cabe num poema; pelo contrário,
o poema é que pode caber no amor, sobretudo quando te abraço, e
sinto os teus cabelos na boca, agora que a tua voz me corre pelos
ouvidos como, num dia de verão, a água fresca corre pela
garganta. A isto, em retórica, chama-se uma comparação; e pergunto
o que é que o amor tem a ver com a retórica, ou por que é
que o teu corpo se teme de transformar numa metáfora - rosa,
lírio, taça, qualquer objecto que tenha, na sua essência, um
elemento que me possa levar até ele, como se fosse preciso, para te tocar,
substituir-te por uma outra imagem, ver em ti o que não és,
nem tens de ser, ou ainda transformar-te num lugar-comum, que
é aquilo em que, quase sempre, acabam os poemas de amor. Assim,
este poema de amor é, mais do que um poema de amor, um
exercício para escrever um poema de amor - mas um poema de amor
a sério, sem comparações nem metáforas, só contigo, com o
teu corpo, com a tua voz, com os teus cabelos, com aquilo que é
real, e não precisa de sair da realidade para se tornar objecto de
um poema de amor em que o amor, finalmente, deixa de ser
o objecto único do poema, que se preocupa acima de tudo com
a retórica, as imagens, o equilíbrio das formas. Mas, pergunto, não
é o teu corpo uma flor? Não é a tua boca uma rosa? Não são lírios os teus
seios? Tudo, então, se transforma: e o que tenho nas mãos é uma imagem,
a pura metáfora da vida, a abstracta metamorfose das emoções. O
resto, meu amor, és tu - e é por isso que o poema de amor que te
escrevo não é, finalmente, um poema de amor.
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Manuel António Pina

Manuel António Pina

Outras coisas


Outras coisas no entanto

o amor e o desamor e também a

morte que nas coisas morre subitamente

o lugar onde vais de súbito


De súbito faltas-me debaixo dos pés

e noutros lugares De ti é possível dizer

que te ausentaste para parte incerta

deixando tudo no teu lugar


Está tudo na mesma Também a mim

tempo não me falta lugar sim

Onde cairás morta, flor da infância?

De súbito faltam-me as palavras



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 18 | Assírio & Alvim, 2012

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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Para escrever o poema

O poeta quer escrever sobre um pássaro:
e o pássaro foge-lhe do verso.

O poeta quer escrever sobre a maçã:
e a maçã cai-lhe do ramo onde a pousou.

O poeta quer escrever sobre uma flor:
e a flor murcha no jarro da estrofe.

Então, o poeta faz uma gaiola de palavras
para o pássaro não fugir.

Então, o poeta chama pela serpente
para que ela convença Eva a morder a maçã.

Então, o poeta põe água na estrofe
para que a flor não murche.

Mas um pássaro não canta
quando o fecham na gaiola.

A serpente não sai da terra
porque Eva tem medo de serpentes.

E a água que devia manter viva a flor
escorre por entre os versos.

E quando o poeta pousou a caneta,
o pássaro começou a voar,
Eva correu por entre as macieiras
e todas as flores nasceram da terra.

O poeta voltou a pegar na caneta,
escreveu o que tinha visto,
e o poema ficou feito.


Nuno Júdice | "A Matéria do Poema" | Publicações Dom Quixote, 2008
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sua Beleza

Sua beleza é total
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual

Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser
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José Miguel Silva

José Miguel Silva

Ladrões de Bicicletas — Vittorio de Sica (1948)

Mil quilómetros por dia pedalava meu pai, desde
a cama junto ao Douro até à próspera Cerâmica
de Valadares. Se qualquer homem recebe,
à nascença, uns sessenta inimigos por hora,
imaginem a jornada de um operário ciclista.
Tudo são despesas para ele: o rosário de geada
nas giestas, o jornal atropelado pelo vento, o verdor
da Primavera, a poalha do suor em cada mão.

Meu pai, é claro, não se queixa, ganha um conto
de réis, tem uma casa portuguesa e grandes sonhos
de amanhãs a gasolina. Pelo menos não trabalho
em nenhum matadouro, pensa ele, e com razão,
erguido nos pedais do seu veículo de sombra,
solitário trepador pela encosta de Avintes. Não
trabalha em nenhum matadouro. E nesse reconforto
passa à Quinta dos Frades, alcança o Freixieiro,
sente já o rumor de fumacentos camiões na nacional,
onde tudo, depois, será muito mais plano.
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Manuel António Pina

Manuel António Pina

O intruso

Se me voltar fico
diante do meu rosto,
não suportarei
o meu puro olhar.

Quem me procurará
entre os homens?
Um intruso grita
dentro de mim, oiço-o no coração

como um irmão medonho
sonhando a minha vida
por outro vivida
em mim, também um sonho.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 109 | Assirio & Alvim, 2012
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Raquel Nobre Guerra

Raquel Nobre Guerra

Trapézio

subir por aquele rapaz acima
e chamar deus à vontade
de subir
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aquela falsa e triste semelhança

Aquela falsa e triste semelhança
Entre quem julgo ser e quem eu sou.
Sou a máscara que volve a ser criança,
Mas reconheço, adulto, aonde estou,

Isto não é o Carnaval, nem eu.
Tenho vontade de dormir, e ando.
O que passa, ondeando, em torno meu,
Passa (...)

Dormir, despir-me deste mundo ultraje,
Como quem despe um dominó roubado.
Despir a alma postiça como a um traje.

Tenho náusea carnal do meu destino.
Quase me cansa me cansar. E vou,
Anónimo, (...) menino,
Por meu ser fora à busca de quem sou.
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Poema de amor para uso tópico

Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.


Nuno Júdice, in "Poesia Reunida"

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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Poema (arredores)

A brancura

dos ossos, em contraste com a terra argilosa,

com a erva, com a parede arruinada, faz-me lembrar

leite, papel, cal,

e também as tuas mãos - frias. Bebo o seu brilho

numa nocturna memória. Uma contaminação de corpos

não reduz a minha solidão; nem a música,

nem o riso, nem o vinho. Lágrimas

numa plenitude de idade. O amor era uma paisagem. A voz

fundia-se numa perspectiva de vento. Palavras perdidas

como coisas, a travessia da tua pele num barco de lábios,

o traçado obscuro dos epitáfios da alma. Caminho

para te dizer uma determinação de sentido,

um destino ignorante dos fragmentos passados em que surges,

de pé, contra a janela, recebendo no rosto a luz

da primavera - imagem

póstuma em que te encontro triste,

e o teu sorriso me faz desejar a morte.

Nuno Júdice | "Obra Poética 1972-1985", pag. 252 | Quetzal Editores, 1999

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Bruno Kampel

Bruno Kampel

Poema de amor

Sempre soube terminar os poemas
que falam de saudade, de amores
finitos, mas nunca começá-los,
pois o início tem gosto de ausência,
tem cheiro de perda, tem peso de outrora.

Amores passados, perdidos, partidos,
apenas convidam ao silêncio,
e a confissão, e a solidão, florescem
implacáveis na ponta da língua,
como brados, como adagas,
e então, ao pretender o afago,
apenas desenho um lamento profundo,
e ao tentar esquecer o inesquecível
implanto as lembranças na retina da memória,
que dói como se fosse o dia da partida
e não a hora das reminiscências.

Mas, sim: aprendi a dizer
que não te esqueço; que o eco dos teus pés
- que já foram o meu chão - retumba
a cada passo que caminho
nesta doce amargura escandinava,
escondido entre loiríssimos cabelos
e branquíssimas mentiras.

Revejo os instantes
e vejo que o tempo, a destempo,
ensina a dizer que te amo,
que te lembro quando é tarde,
quando a noite do tempo deitou-se
para sempre entre nós, como água
sem barco, como margens sem rio
como um dia sem horas.

Difícil começar a dizer
da saudade que sofro,
da angústia que vivo,
da dor que me ataca,
da culpa que sinto,
que não é vã, mas justa:
mea culpa, mea máxima culpa.

E os minutos, esses que teimam
em ficar horas a lembrar-te;
e as horas, que ficam dias teimando
em reviver os instantes que não voltam,
apenas desamarram as palavras
que impunes e sem medo
se escrevem letra a letra
lapidando um pedido de socorro,
rabiscando um retorno ao passado,
esculpindo um desejo de futuro,
conquistando uma chance de ventura.

Sim, não nego:
quis construir uma ponte de amor,
um dizer de saudade,
um grito de esperança,
um pedido de clemência.

Nem mais, nem menos,
nem muito ou pouco,
nem tarde ou nunca:
um tudo ou nada.

Sim,
um poema de amor
manchado de saudade,
pintado em cor remorso,
é o que tento iniciar
e não consigo,
pois dizendo que sim,
que te amo
e não te esqueço,
não começo, mas termino.

E isso faço, começo terminando
com um resto de esperança,
que é o fim de todos os princípios,
e repito, como um disco,
que te amo, que te amo,
e que deixar-te foi tão duro
como te saber distante.

E termino começando,
pronunciando o teu nome,
o que até agora apenas me atrevia:
vivendo de amor, e não morrendo,
suando de ternura e não de angústia
gritando de esperança e não de raiva,
é como digo que te amo,
meu Brasil nunca esquecido.
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Gosto das palavras exactas

Gosto das palavras exactas, as que acertam
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas.

Essas palavras são duras como os objectos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde.

Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de sílabas.

Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a voz
não fique queimada nesta paisagem negra.

Recolho os restos, os adjectivos, os advérbios,
artigos, preposições, para que só as palavras que indicam
as coisas fiquem no lugar que já tinham.

Pouco importa que as frases percam o sentido. O
que fica são os nomes das coisas, para que as coisas saiam
de dentro deles e as possamos ver nos seus lugares.
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Quotidiano

Por exemplo, as coisas que faltam neste lugar:
uma enxada para que as mãos não toquem na terra,
um ninho de pardais no canto da relha,
para que um ruído de asas se possa abrigar,
um pedaço de verde no monte que ainda vejo,
por detrás dos prédios que invadem tudo.

Mas se estas coisas estivessem aqui,
também faria falta um copo de água para ver,
através do vidro, um horizonte desfocado;
e ainda os restos de madeira com que,
no inverno, é costume atiçar o fogo
e a imaginação que ele consome.

Como se tudo estivesse no lugar,
pronto para ser usado na data prevista,
sento-me à janela, e fixo a única coisa
que não se move:
o gato, hipnotizado por um olhar
que só ele pressente.

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