Emoções
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
Tem a filha da caseira
Tem a filha da caseira
Rosas na caixa que tem.
Toda ela é uma rosa inteira
Mas não a cheira ninguém.
Rosas na caixa que tem.
Toda ela é uma rosa inteira
Mas não a cheira ninguém.
1 523
Fernando Pessoa
No grande espaço de não haver nada
No grande espaço de não haver nada
Que a noite finge, brilham mal os astros.
Não há lua, e ainda bem.
Neste momento, Lídia, considero
Tudo, e um frio que não há me entra
Na alma. Não existes.
Que a noite finge, brilham mal os astros.
Não há lua, e ainda bem.
Neste momento, Lídia, considero
Tudo, e um frio que não há me entra
Na alma. Não existes.
1 310
Fernando Pessoa
Quando passas pela rua
Quando passas pela rua
Sem reparar em quem passa,
A alegria é toda tua
E minha toda a desgraça.
Sem reparar em quem passa,
A alegria é toda tua
E minha toda a desgraça.
2 159
Fernando Pessoa
49 - MOOD
My thoughts are something my soul fears.
I tremble at my very glee.
Sometimes I feel arrive in me
A dim, a cold. a sad, a fierce
A lust‑like spirituality.
It makes me one with all the grass.
My life takes colour at all flowers.
The breeze that seemeth loth to pass
Shakes off red petals from my hours
And my heart sulters without showers.
Then God becomes a vice of mine
And divine feelings an embrace
That sinks my senses in its wine
And leaves no outline in my ways
Of seeing God flower, grow and shine.
My thoughts and feelings mingle and form
A vague and hot soul‑unity.
Like a sea that expects a storm,
A lazy ache and fret make me
A murmur like a coming swarm.
My parched thoughts mix and occupy
Their interpresences and swell
To each others' places. I descry
Nought in me save impossible
Mixtures of many things all I.
I am a drunkard of my thoughts.
My feelings' juice o'erruns my soul.
My will becomes soaked in them all.
Then life stagnates a dream and rots
To beauty in my verses' dole.
I tremble at my very glee.
Sometimes I feel arrive in me
A dim, a cold. a sad, a fierce
A lust‑like spirituality.
It makes me one with all the grass.
My life takes colour at all flowers.
The breeze that seemeth loth to pass
Shakes off red petals from my hours
And my heart sulters without showers.
Then God becomes a vice of mine
And divine feelings an embrace
That sinks my senses in its wine
And leaves no outline in my ways
Of seeing God flower, grow and shine.
My thoughts and feelings mingle and form
A vague and hot soul‑unity.
Like a sea that expects a storm,
A lazy ache and fret make me
A murmur like a coming swarm.
My parched thoughts mix and occupy
Their interpresences and swell
To each others' places. I descry
Nought in me save impossible
Mixtures of many things all I.
I am a drunkard of my thoughts.
My feelings' juice o'erruns my soul.
My will becomes soaked in them all.
Then life stagnates a dream and rots
To beauty in my verses' dole.
1 468
Fernando Pessoa
29 - ENNUI
Under a low and sullen sky,
Frowned on by lone winds that moan by
And palely sick for light from high
Till the landscape's soul doth sigh forever,
Forever sigh,
A black and calmness‑haunted river,
That doth a town from itself sever,
Runs with an inner fear and shiver
Like a dim fate forever nigh,
Nigher forever.
Ay, through that landscape lapsed from dream
Into a horrid truth doth gleam
That self‑absorbed, self‑empty stream
That bears a dream of dreams' emotion
To emotion's dream!
Runs from a land whence is no motion
Towards a possible far ocean;
And they, whose eyes anguished sans motion
Bathe in it, take emotion's dream
For dreams' emotion.
Frowned on by lone winds that moan by
And palely sick for light from high
Till the landscape's soul doth sigh forever,
Forever sigh,
A black and calmness‑haunted river,
That doth a town from itself sever,
Runs with an inner fear and shiver
Like a dim fate forever nigh,
Nigher forever.
Ay, through that landscape lapsed from dream
Into a horrid truth doth gleam
That self‑absorbed, self‑empty stream
That bears a dream of dreams' emotion
To emotion's dream!
Runs from a land whence is no motion
Towards a possible far ocean;
And they, whose eyes anguished sans motion
Bathe in it, take emotion's dream
For dreams' emotion.
1 327
Fernando Pessoa
Há uma cor que me persegue e que eu odeio,
Há uma cor que me persegue e que eu odeio,
Há uma cor que se insinua no meu medo.
Porque é que as cores têm força
De persistir na nossa alma,
Como fantasmas?
Há uma cor que me persegue e hora a hora
A sua cor se torna a cor que é a minha alma.
Há uma cor que se insinua no meu medo.
Porque é que as cores têm força
De persistir na nossa alma,
Como fantasmas?
Há uma cor que me persegue e hora a hora
A sua cor se torna a cor que é a minha alma.
1 597
Fernando Pessoa
A Senhora da Agonia
A Senhora da Agonia
Tem um nicho na Igreja.
Mas a dor que me agonia
Não tem ninguém quem a veja.
Tem um nicho na Igreja.
Mas a dor que me agonia
Não tem ninguém quem a veja.
1 539
Fernando Pessoa
Os ranchos das raparigas
Os ranchos das raparigas
Vão a cantar pela estrada...
Não oiço as suas cantigas
Só tenho pena de nada.
Vão a cantar pela estrada...
Não oiço as suas cantigas
Só tenho pena de nada.
1 184
Fernando Pessoa
O pescador do mar alto
O pescador do mar alto
Vem contente de pescar.
Se prometo, sempre falto:
Receio não agradar.
Vem contente de pescar.
Se prometo, sempre falto:
Receio não agradar.
2 361
Fernando Pessoa
O ribeiro bate, bate
O ribeiro bate, bate
Nas pedras que nele estão,
Mas nem há nada em que bata
O meu pobre coração.
Nas pedras que nele estão,
Mas nem há nada em que bata
O meu pobre coração.
1 347
Fernando Pessoa
O moinho que mói trigo
O moinho que mói trigo
Mexe-o o vento ou a água,
Mas o que tenho comigo
Mexe-o apenas a mágoa.
Mexe-o o vento ou a água,
Mas o que tenho comigo
Mexe-o apenas a mágoa.
2 264
Fernando Pessoa
Quase sem querer
Quase sem querer (se o soubéssemos!) os grandes homens saindo dos homens vulgares
O sargento acaba imperador por transições imperceptíveis
Em que se vai misturando
O conseguimento com o sonho do que se consegue a seguir
E o caminho vai por degraus visíveis, depressa.
Ai dos que desde o principio vêem o fim!
Ai dos que aspiram a saltar a escada!
O conquistador de todos os impérios foi sempre ajudante de guarda-livros
A amante de todos os reis — mesmo dos já mortos — é mãe séria e carinhosa,
Se assim como vejo os corpos por fora, visse as almas por dentro.
Ah, que penitenciaria os Anjos!
Que manicómio o sentido da vida!
O sargento acaba imperador por transições imperceptíveis
Em que se vai misturando
O conseguimento com o sonho do que se consegue a seguir
E o caminho vai por degraus visíveis, depressa.
Ai dos que desde o principio vêem o fim!
Ai dos que aspiram a saltar a escada!
O conquistador de todos os impérios foi sempre ajudante de guarda-livros
A amante de todos os reis — mesmo dos já mortos — é mãe séria e carinhosa,
Se assim como vejo os corpos por fora, visse as almas por dentro.
Ah, que penitenciaria os Anjos!
Que manicómio o sentido da vida!
805
Fernando Pessoa
Tu és Maria das Dores,
Tu és Maria das Dores,
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque deste as dores
A quem quer que em ti se fia.
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque deste as dores
A quem quer que em ti se fia.
1 481
Fernando Pessoa
Se vais de vestido novo
Se vais de vestido novo
O teu próprio andar o diz,
E ao passar por entre o povo
Até teu corpo é feliz.
O teu próprio andar o diz,
E ao passar por entre o povo
Até teu corpo é feliz.
1 113
Fernando Pessoa
Perdi a esperança como uma carteira vazia...
Perdi a esperança como uma carteira vazia...
Troçou de mim o Destino; fiz figas para o outro lado,
E a revolta bem podia ser bordada a missanga por minha avó
E ser relíquia da sala da casa velha que não tenho.
(Jantávamos cedo, num outrora que já me parece de outra incarnação,
E depois tomava-se chá nas noites sossegadas que não voltam.
Minha infância, meu passado sem adolescência, passaram ,
Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita,
Mas nunca mais pude sentir verdade nenhuma excepto sentir o passado)
Troçou de mim o Destino; fiz figas para o outro lado,
E a revolta bem podia ser bordada a missanga por minha avó
E ser relíquia da sala da casa velha que não tenho.
(Jantávamos cedo, num outrora que já me parece de outra incarnação,
E depois tomava-se chá nas noites sossegadas que não voltam.
Minha infância, meu passado sem adolescência, passaram ,
Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita,
Mas nunca mais pude sentir verdade nenhuma excepto sentir o passado)
1 041
Fernando Pessoa
Dizes-me que nunca sonhas
Dizes-me que nunca sonhas
E que dormes sempre a fio.
Quais são as coisas risonhas
Que sonhas por desfastio?
E que dormes sempre a fio.
Quais são as coisas risonhas
Que sonhas por desfastio?
1 260
Fernando Pessoa
Houve um momento entre nós
Houve um momento entre nós
Em que a gente não falou.
Juntos, estávamos sós.
Que bom é assim estar só!
Em que a gente não falou.
Juntos, estávamos sós.
Que bom é assim estar só!
1 376
Fernando Pessoa
When slattern Time, worn out with toil of wearing,
When slattern Time, worn out with toil of wearing,
With loose‑tied pack shall trudge upon my years,
And I shall feel that forced occasion nearing
That despair's self (that must live to be) fears,
I, being beggared of all wealth of hope -
So prodigal have I to wishes been -
Shall with known uselessness for the coin grope
To pay that the hour’s ending be serene.
I shall not enter the great silent cave
With curious ardour, or ease out of sun,
But all that with me I shall then still have
Will be a coward rage that all is done.
No hope the cave's a passage shall control
Fear of the immediate night of the shown hole.
With loose‑tied pack shall trudge upon my years,
And I shall feel that forced occasion nearing
That despair's self (that must live to be) fears,
I, being beggared of all wealth of hope -
So prodigal have I to wishes been -
Shall with known uselessness for the coin grope
To pay that the hour’s ending be serene.
I shall not enter the great silent cave
With curious ardour, or ease out of sun,
But all that with me I shall then still have
Will be a coward rage that all is done.
No hope the cave's a passage shall control
Fear of the immediate night of the shown hole.
1 316
Fernando Pessoa
Do eterno erro na eterna viagem,
Do eterno erro na eterna viagem,
O mais que saibas na alma que ousa,
É sempre nome, sempre linguagem
O véu e a capa de uma outra cousa.
Nem que conheças de frente o Deus,
Nem que o eterno te dê a mão,
Vês a verdade, rompes os véus,
Tens mais caminho que a solidão.
Todos os astros, inda os que brilham
No céu sem fundo do mundo interno,
São só caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.
Volta a meu seio, que não conhece
Enigma ou deuses porque os não vê,
Volta a meus braços, neles esquece
Isso que tudo só finge que é.
Meus ramos tecem doceis de sono,
Meus frutos ornam o arvoredo;
Vem a meus braços em abandono
Todos os Deuses fazem só medo.
Não há verdade que consigamos,
Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver...
Doceis de sono tecem meus ramos.
Dorme sob eles como qualquer.
O mais que saibas na alma que ousa,
É sempre nome, sempre linguagem
O véu e a capa de uma outra cousa.
Nem que conheças de frente o Deus,
Nem que o eterno te dê a mão,
Vês a verdade, rompes os véus,
Tens mais caminho que a solidão.
Todos os astros, inda os que brilham
No céu sem fundo do mundo interno,
São só caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.
Volta a meu seio, que não conhece
Enigma ou deuses porque os não vê,
Volta a meus braços, neles esquece
Isso que tudo só finge que é.
Meus ramos tecem doceis de sono,
Meus frutos ornam o arvoredo;
Vem a meus braços em abandono
Todos os Deuses fazem só medo.
Não há verdade que consigamos,
Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver...
Doceis de sono tecem meus ramos.
Dorme sob eles como qualquer.
845
Fernando Pessoa
Já sei: alguém disse a verdade.
Já sei: alguém disse a verdade.
Até os cordéis parecem aflitos,
Entra neste lar o objectivo.
E cada um ficou de fora, como um pano na corda
Que a chuva apanha esquecido na noite de janelas fechadas.
Até os cordéis parecem aflitos,
Entra neste lar o objectivo.
E cada um ficou de fora, como um pano na corda
Que a chuva apanha esquecido na noite de janelas fechadas.
1 110
Fernando Pessoa
Onde é que os mortos dormem? Dorme alguém
Onde é que os mortos dormem? Dorme alguém
Neste universo atomicamente falso?
Neste universo atomicamente falso?
1 465
Fernando Pessoa
Estou escrevendo sonetos regulares
Estou escrevendo sonetos regulares
(Ou quase regulares) como um poeta...
Mas se eu dissesse a alguém a dor completa
Que me faz ter tais gestos e tais ares,
(...)
Ninguém acreditava. Ó grandes mares
Da emoção subindo em névoa preta
Até a mágoa ser como a do asceta.
(...)
Com um estalido de "mola de pressão"
Fecho a carteira dos apontamentos
Onde fixei a minha indecisão,
Não sou meu ser, nem sou meus pensamentos,
A minha vida é um príncipe ao balcão
(Ou quase regulares) como um poeta...
Mas se eu dissesse a alguém a dor completa
Que me faz ter tais gestos e tais ares,
(...)
Ninguém acreditava. Ó grandes mares
Da emoção subindo em névoa preta
Até a mágoa ser como a do asceta.
(...)
Com um estalido de "mola de pressão"
Fecho a carteira dos apontamentos
Onde fixei a minha indecisão,
Não sou meu ser, nem sou meus pensamentos,
A minha vida é um príncipe ao balcão
1 299
Fernando Pessoa
Ah, no terrível silêncio do quarto
Ah, no terrível silêncio do quarto
O relógio com o seu som de silêncio!
Monotonia!
Quem me dará outra vez a minha infância perdida?
Quem ma encontrará no meio da estrada de Deus —
Perdida definitivamente, como um lenço no comboio.
O relógio com o seu som de silêncio!
Monotonia!
Quem me dará outra vez a minha infância perdida?
Quem ma encontrará no meio da estrada de Deus —
Perdida definitivamente, como um lenço no comboio.
1 374
Fernando Pessoa
Quero, Neera, que os teus lábios laves
Quero, Neera, que os teus lábios laves
Na nascente tranquila
Para que contra a tua febre e a triste
Dor que pões em viver,
Sintas a fresca e calma natureza
Da água, e reconheças
Que não têm penas nem desassossegos
As ninfas das nascentes
Nem mais soluços do que o som da água
Alegre e natural.
As nossas dores, não, Neera, vêm
Das causas naturais
Datam da alma e do infeliz fruir
Da vida com os homens.
Aprende pois, ó aprendiza jovem
Das clássicas delícias,
A não pôr mais tristeza que um suspiro
No modo como vives.
Nasceste pálida, deitando a regra
Da tua vã beleza
Sob a estólida fé das nossas mãos
Medrosas de ter gozo
Demasiado preso à desconfiança
Que vem de teu saber,
Não para essa vã mnemónica
Do futuro fatal.
Façamos vívidas grinaldas várias
De sol, flores e risos
Para ocultar o fundo fiel à Noite
Do nosso pensamento
Curvado já em vida sob a ideia
Do plutónico jugo
Cônscia já da lívida aguardança
Do caos redivivo.
Na nascente tranquila
Para que contra a tua febre e a triste
Dor que pões em viver,
Sintas a fresca e calma natureza
Da água, e reconheças
Que não têm penas nem desassossegos
As ninfas das nascentes
Nem mais soluços do que o som da água
Alegre e natural.
As nossas dores, não, Neera, vêm
Das causas naturais
Datam da alma e do infeliz fruir
Da vida com os homens.
Aprende pois, ó aprendiza jovem
Das clássicas delícias,
A não pôr mais tristeza que um suspiro
No modo como vives.
Nasceste pálida, deitando a regra
Da tua vã beleza
Sob a estólida fé das nossas mãos
Medrosas de ter gozo
Demasiado preso à desconfiança
Que vem de teu saber,
Não para essa vã mnemónica
Do futuro fatal.
Façamos vívidas grinaldas várias
De sol, flores e risos
Para ocultar o fundo fiel à Noite
Do nosso pensamento
Curvado já em vida sob a ideia
Do plutónico jugo
Cônscia já da lívida aguardança
Do caos redivivo.
799
Português
English
Español