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Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

É Carnaval, e estão as ruas cheias

É Carnaval, e estão as ruas cheias
De gente que conserva a sensação,
Tenho intenções, pensamento, ideias,
Mas não posso ter máscara nem pão.

Esta gente é igual, eu sou diverso —
Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
E o que digo, eles nunca assim diriam.

Que pouca gente a muita gente aqui!
Estou cansado, com cérebro e cansaço.
Vejo isto, e fico, extremamente aqui
Sozinho com o tempo e com o espaço.

Detrás de máscaras nosso ser espreita,
Detrás de bocas um mistério acode
Que meus versos anódinos enjeita.

Sou maior ou menor? Com mãos e pés
E boca falo e mexo-me no mundo.
Hoje, que todos são máscaras, és
Um ser máscara-gestos, em tão fundo...
1 132
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Era já de madrugada

Era já de madrugada
E eu acordei sem razão.
Senti a vida pesada,
Pesado era o coração.
4 768
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A vida é pouco aos bocados.

A vida é pouco aos bocados.
O amor é vida a sonhar.
Olho para ambos os lados
E ninguém me vem falar.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VI - Ó sono — Oh! ilusão! — o sono?

VI

O sono — Oh, ilusão! — o sono? quem
Logrará esse vácuo ao qual aspira
A alma que, de aspirar em vão, delira,
E já nem força para querer tem?

Que sono apetecemos? O d'alguém
Adormecido na feliz mentira
Da sonolência vaga que nos tira
Todo o sentir no qual a dor nos vem?

Ilusão tudo! Querer um sono eterno,
Um descanso, uma paz, não é senão
O último anseio desesperado e vão.

Perdido, resta o derradeiro inferno
Do tédio intérmino, esse de já não
Nem aspirar a ter aspiração.
1 515
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tome lá, minha menina,

Tome lá, minha menina,
O ramalhete que fiz.
Cada flor é pequenina,
Mas tudo junto é feliz.
3 619
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VISÃO

Há um país imenso mais real
Do que a vida que o mundo mostra ter
Mais do que a Natureza natural
À verdade tremendo de viver.

Sob um céu uno e plácido e normal
Onde nada se mostra haver ou ser
Onde nem vento geme, nem fatal
A ideia de uma nuvem se faz crer,

Jaz — uma terra não — não um solo
Mas estranha, gelando em desconsolo
A alma que vê esse pais sem véu,

Hirtamente silente nos espaços
Uma floresta de escarnados braços
Inutilmente erguidos para o céu.
2 930
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

My soul is like a painted boat

My soul is like a painted boat
That like a sleeping swan doth float
Upon the silver waves of thy sweet
                                singing.
1 181
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Dá-me um sorriso a brincar,

Dá-me um sorriso a brincar,
Dá-me uma palavra a rir,
Eu me tenho por feliz
Só de te ver e te ouvir.
2 335
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Do alto da torre da igreja

Do alto da torre da igreja
Vê-se o campo todo em roda.
Só do alto da esperança
Vemos nós a vida toda.
2 856
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

I - Soam vãos, dolorido epicurista,

I

Soam vãos, dolorido epicurista,
Os versos teus, que a minha dor despreza;
Já tive a alma sem descrença presa
Desse teu sonho, que perturba a vista.

Da Perfeição segui em vã conquista,
Mas vi depressa, já sem a alma acesa,
Que a própria ideia em nós dessa beleza
Um infinito de nós mesmos dista.

Nem à nossa alma definir podemos
A Perfeição em cuja estrada a vida,
Achando-a intérmina, a chorar perdemos.

O mar tem fim, o céu talvez o tenha,
Mas não a ânsia de Coisa indefinida
Que o ser indefinida faz tamanha.
1 448
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Traz-me um copo com água

Traze-me um copo com água
E a maneira de o trazer.
Quero ter a minha mágoa
Sem mostrar que a estou a ter.
1 722
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O anel dado ao mendigo é injúria, e a sorte

O anel dado ao mendigo é injúria, e a sorte
Dada a quem pensa é infâmia, que quem pensa —
        Quer verdade, e não sorte.

Como um mendigo a quem é dado o nome
De rei, não come dele, mas do prato
        Do rei, minha esperança
Da razão que lia em tê-la se alimenta
        E não do que deseja.
1 507
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

São já onze horas da noite.

São já onze horas da noite.
Porque te não vais deitar?
Se de nada serve ver-te,
Mais vale não te fitar.
1 531
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Lavadeira a bater roupa

Lavadeira a bater roupa
Na pedra que está na água,
Achas a minha mágoa pouca?
É muito tudo o que é mágoa.
1 434
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

The day is sad as I am sad,

The day is sad as I am sad,
But that no moment can abate
That pang that is all I have had
To take with me and see and feel
While life goes by like a mere wheel.

No. Deeper things than skies and plains
Are dark and lower'd o'er in me.
My sorrows are more empty pains
Than of which plains landscapes can symbols be.
And my own [?] weight of life and self
Resembles nothing but itself.
1 306
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Bailaste de noite ao som

Bailaste de noite ao som
De uma música estragada.
Bailar assim só é bom
Quando a alegria é de nada.
837
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Seldom have I so inly comprehended

Seldom have I so inly comprehended
With a deep sense so awful and so rude
My complete being's complete solitude
In all its arid loneliness extended

So wholly solitude, so much unblended
With aught else, good or ill, that might intrude
Upon its horror limitless and nude
Whereat my reason reels, not by (...) defended.
And save it from itself (…)
1 081
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Se hás-de ser o que choras

Se hás-de ser o que choras
Ter que ser, não o chores.
Se toda a mole imensa
Do mundo ser-te-á noite,
Aproveita este breve
Dia, e sem choro ou cura
Goza-o, contente por viveres
O pouco que te é dado.
1 279
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

WHEN THE LAMP IS BROKEN...

When the lamp is broken and the shaking
        Light is for ever fled,
There is more memory of its breaking
        Than of the light it shed.
This may common be, but 'tis not glad;
It means many things and all are sad.
1 174
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sometimes in the middle of life a change

Sometimes in the middle of life a change
Suddenly comes like an alienation
A sense of voidness enormous, strange
And a void, deep desolation.

A sense of being left alone
And more and more than abandoned
(…)
'Tis a sense half as if I were dead.
1 291
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sorrow sits by my side

Sorrow sits by my side
Fondling my careless hair.
She is the lady of golden
Gestures to silence beholden.
Only she does not deride
My dreams and what makes them fair.

Now she doth cease and whisper
The use of dreams to my soul.
She tells me they mean God's blessing
The spirit's shining releasing
From the world's weight and sister
To life's unchanging whole.
1 119
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

29 - ENNUI

Under a low and sullen sky,
Frowned on by lone winds that moan by
And palely sick for light from high
Till the landscape's soul doth sigh forever,
        Forever sigh,
A black and calmness‑haunted river,
That doth a town from itself sever,
Runs with an inner fear and shiver
Like a dim fate forever nigh,
        Nigher forever.

Ay, through that landscape lapsed from dream
Into a horrid truth doth gleam
That self‑absorbed, self‑empty stream
That bears a dream of dreams' emotion
        To emotion's dream!
Runs from a land whence is no motion
Towards a possible far ocean;
And they, whose eyes anguished sans motion
Bathe in it, take emotion's dream
        For dreams' emotion.
1 327
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Lenço preto de orla branca —

Lenço preto de orla branca —
Ataste-o mal a valer
À roda desse pescoço
Que tem que se lhe dizer.
983
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Os ranchos das raparigas

Os ranchos das raparigas
Vão a cantar pela estrada...
Não oiço as suas cantigas
Só tenho pena de nada.
1 183