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Poemas neste tema

Nuno Júdice

Nuno Júdice

Visão

Nas correntes frias onde morre a luz dos astros,
e entre os gritos rápidos dos condenados, encontrei o reflexo
de um amor antigo. Deixou-me um gosto de sangue nos dentes,
os lábios gretados num roxo de ânsia. Rasgou-me a alma
num seco crepitar de papel. Estava imóvel, encostado aos ventos
e às marés, e o seu corpo exalava o cheiro húmido dos litorais. Falava
baixo, num segredo de sombra, num horizonte de bocas sem alegria,
arrastando a voz num sussurro de litania. Fiquei de longe,
a olhar, enquanto o sol nascia.


Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 23 | Na Regra do Jogo, 1982
1 467
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Aparição num dia de inverno

Um dia, lendo este poema, lembrar-te-ás:
o amor falou através dele. Ouvirás no seu ritmo
a voz que tantas vezes desejaste; reconhecerás
nos seus versos o corpo que encheu
a tua vida; tocarás em cada uma das suas palavras
os dedos que te ensinaram a medir os dias
pelas suas contas de ternura. E o tempo
entrará por ti como esse rio que alagou os campos
do inverno. Olharás à tua volta, vendo a desolação
de uma paisagem inundada. Algures, porém,
uma árvore antiga sobressai; e os seus ramos
verdes dar-te-ão a esperança de uma nova
primavera, em que voltes a ouvir a voz
que o poema te trouxe com os seus dedos
de música.
1 311
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Morada

Sozinho na grande cama,

perdido nos seus frios corredores,

ouço, de quartos interiores,

a tua voz que me chama.


Do fundo da noite enorme

onde pouso a cabeça por fora

a tua voz de alguém acorda-me

como num sono insone.


Como se a tua voz agora

antigamente me chamasse

e tudo, menos a tua voz, faltasse

fora da minha memória.



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 143 | Assirio & Alvim, 2012

1 107
Al Berto

Al Berto

Cromo

andamos pelo mundo
experimentando a morte
dos brancos cabelos das palavras
atravessamos a vida com o nome do medo
e o consolo dalgum vinho que nos sustém
a urgência de escrever
não se sabe para quem

o fogo a seiva das plantas eivada de astros
a vida policopiada e distribuída assim
através da língua... gratuitamente
o amargo sabor deste país contaminado
as manchas de tinta na boca ferida dos tigres de papel

enquanto durmo à velocidade dos pipelines
esboço cromos para uma colecção de sonhos lunares
e ao acordar... a incoerente cidade odeia
quem deveria amar

o tempo escoa-se na música silente deste mar
ah meu amigo... como invejo essa tarde de fogo
em que apetecia morrer e voltar
1 407
Manuel António Pina

Manuel António Pina

[Tudo à minha volta ]

Tudo à minha volta cumpre
um destino silencioso e incompreensível
a que algum deus fugaz preside.
Fora de mim, nas costas da cadeira

o casaco, por exemplo, pertence
a uma ordem indistinta e inteira.
Dava bem todo o meu sentido prático
pela sua quieta permanência em si e na cadeira.

A realidade dos livros em cima da mesa
parece tão estritamente real!
As filhas falam, barulhentas e reais,
e eu próprio, em qualquer sítio, sou real.

Sob este rio real
o rio que me arrasta, de palavras,
como dentro de mim ou fora de mim?
O que pensa? Estou lá, ou está lá alguém,

como está neste lugar (qual?),
e como os livros na mesa?
O que fala falta-me
em que coração real?

É duro sonhar e ser o sonho,
falar e ser as palavras!
E, no entanto, alguém fala enquanto fujo,
e falo do que, em mim, foge.

Sem que palavras alguma coisa é real?
As filhas sabem-no não o sabendo
e falam alto fora de mim
sem falarem nem não falarem.

Em mim tudo é em alguém
em qualquer sítio escuro
como se houvesse um muro
entre o que fala (quem?)


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 136 e 137 | Assírio & Alvim, 2012
1 377
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Carta de outono

Pensarás que não te escrevi antes porque o verão
consome a energia da alma com um apetite solar; e
porque as tempestades do crepúsculo incendiaram as
palavras com o rápido fogo aéreo. No entanto, eu
ouço aquelas aves que gastaram as asas na travessia
do Espírito, cujos olhos viram o que havia de duvidoso
nas traseiras do invisível, onde um deus culpado
se esconde e se ouvem as vozes sem nexo dos
anjos enlouquecidos. Essas aves deixaram de saber voar;
agarram-se aos ramos dos arbustos e, ao fim da tarde,
gritam em direcção às nuvens com os olhos secos e
sem medo. Abri-lhes o peito: e encontrei as entranhas
verdes como as folhas perenes do norte. Então,
ouço-te bater por dentro de mim, embora estejas morto;
e os teus dedos tenham perdido a força antiga que
desafiava a sombra. Procuro uma entrada no átrio
desabrigado da página; avanço entre sílabas e versos
perdendo-me do silêncio na insistência dos passos.
O passado é todo o dia de ontem; a vida coube-me
neste bolso do infinito onde guardei os últimos cigarros;
o teu amor gastou-se com um breve brilho de
isqueiro. Saio sem desejo dos desertos de outubro
e novembro, arrastando o outono com os pés, nas planícies
provisórias de um esquecimento de estações.


Nuno Júdice | "A Condescendência do Ser", págs. 50 e 51 | Quetzal Editores, 1988

1 781
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Subitamente surge. Tem o teu rosto

O paraíso é uma flor verde.

As árvores abrem-se ao meio.

O que é sucessivo perde-se.

Se o tempo modifica os seres e os objectos

eu sinto a diferença e gasto-me.

O sol é um erro de gramática, a luz da madrugada

uma folha branca à transparência da lâmpada.

Soam então os barulhos. Soam

de dentro das janelas,

de dentro das caixas fechadas há mais tempo,

de dentro das chávenas meias de café.

É tarde e és tu,

acima de tudo,

entre a manhã e as árvores,

à luz dos olhos,

à luz só do límpido olhar.


Nuno Júdice | "Obra poética:1972-1985", pág. 168 | Quetzal Editores, 1999

989
Al Berto

Al Berto

Se um Dia a Juventude Voltasse

se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição

(in 'Rumor dos Fogos')
1 257
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Algumas coisas

A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.

Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.

Manuel António Pina | "Todas as palavras" | Poesia reunida; Ed. Assírio & Alvim, 2012
1 517
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Crença Outonal

No entanto, caídas as colunas de setembro com os
ventos que arrastam as insónias do levante e incendeiam
as planícies, erguem-se nas mãos de um deus morto
os mastros de mármore de um navio antigo. A que porto
se dirigia a sua viagem? Em que recifes projectou o seu
naufrágio? Nos seus lábios, que os vermes do absoluto
devoram, leio as contas do tempo que ele imaginou
para o seu percurso clandestino, como se um deus
coubesse no porão. «Dizei-me», murmurou no instante
da agonia, «que ave seguirá o rasto do barco até
onde irei chegar?» Mas os homens confundiram
a sua voz com um distante anúncio de tempestade,
e abrigaram-se do céu, fugindo ao seu grito.

De manhã, recolhi os vestígios da noite
nesse cais abandonado: tábuas apodrecidas
pelo sal, as mantas que enrolaram os moribundos
antes que a morte os recolhesse, gemidos
apanhados nos rochedos do molhe, no instante
em que a onda se retira. Mas que fazer
com os despojos do sagrado? Por vezes, era
como se o corpo divino aparecesse à minha frente;
de outras vezes, entoava o louvor do nada, e cada sílaba
me arranhava a boca na dicção ácida de um fardo
de maldições. E o mar crescia na minha memória,
corria pela minha pele como os insectos dos trópicos,
e devorava cada imagem como se, no seu furor,
quisesse apagar o passado e restituir aos olhos
o horizonte branco da origem.

Porém, também as fontes secaram no limite do estio,
e os peixes sufocaram sobre o lodo do fundo. Apanhei-os
no meu saco, para os distribuir pelos bairros do norte,
pelos pórticos de onde espreitam as mulheres pálidas
e os homens de cabelo húmido pela maresia, e
assisti à sua refeição de carne doce, enquanto os pedintes
se juntavam atrás de mim para recolher os restos, sem
que eu tivesse alguma coisa para lhes dar a não ser essa
palavra que deus me ensinara ao dizer-me: «Dá aos que
nada têm o Ser que eu inventei.» E eles respondiam: «De
que nos serve o Ser? Que faremos com ele, nós, os que nada
temos?» E empurrei-os para os armazéns vazios, onde
as suas palavras ecoariam de encontro à cúpula
metálica que as chuvas enferrujaram num inverno
da infância. Mas eles recusavam, e insultavam-me,
como se a dádiva de um deus fosse uma ofensa.

Então, disse-lhes, juntemo-nos na grande mesa da comunhão;
partilhemos o ódio, como se parte o pão; e bebamos
o vinho da ira, já azedo, ficando com a garganta
amarga para que os gritos se tornem roucos; e deixemos
de nos ouvir uns aos outros. Como cegos, partiremos,
um em cada direcção, levando como único troféu
o desespero. E quando chegarmos ao limite da praia,
ao oceano em que deveríamos embarcar, perguntaremos
onde está esse navio prometido, esse mapa que nos daria
a resposta, e o azul do céu que nos abriria o desejo
de beleza, e nos faria ver o corpo anunciado de deus sobre
as águas. Mas ficámos sem ter aonde regressar, e só
nos alimenta um pedaço do pão da desventura,
ressequido do sol, com a consistência da pedra,
doendo na boca como as palavras do poema.

Por fim, sem mais nada, resta-nos deus. Está morto
dentro de nós. Mas ainda o podemos tirar da cabeça
e estendê-lo na areia, como o corpo de uma baleia
que tivesse dado à costa. «Não lhe toquem com os pés»,
diz o guardião da costa. «Se estiver podre, a sua podridão
pega-se à nossa pele. «Mas já andei com ele dentro de mim»,
respondi ao homem. «Já me pegou a doença do sagrado,
a lepra de uma crença infinita, o desejo de um além
que nunca verei.» O guardião da costa riu-se. «Sei
muito bem onde vêm dar estas baleias. Os seus ossos
estendem-se ao longo do litoral, e ao seu lado sentam-se
os inúteis, repetindo com as suas bocas mórbidas
as frases que aprenderam no contacto com a sua carne
putrefacta. Alguns, abriram-lhes os ventres e entraram
neles, como se ainda os pudessem fecundar. E o seu
esperma foi devorado pelos caranguejos da ria.»

Deixei-o a falar sozinho, como se faz a todos os que
perderam a fé. E subi pelo dorso da baleia, até onde
acreditei que poderia tocar o céu, enterrando-me
na sua carne movediça até me confundir com
o corpo de deus.


in, "A Convergência dos Ventos" | Nuno Júdice | Publicações Dom Quixote, 1ª. Edição, pág. 14, 15 e 16 - Lisboa, Outubro 2015
1 692
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

V - Porque abrem as coisas alas para eu passar?

V

Porque abrem as coisas alas para eu passar?
Tenho medo de passar entre elas, tão paradas conscientes.
Tenho medo de as deixar atrás de mim a tirarem a Máscara.

Mas há sempre coisas atrás de mim.
Sinto a sua ausência de olhos fitar-me, e estremeço.
Sem se mexerem, as paredes vibram-me sentido.
Falam comigo sem voz de dizerem-me as cadeiras.
Os desenhos do pano da mesa têm vida, cada um é um abismo.

Luze a sorrir com visíveis lábios invisíveis
A porta abrindo-se conscientemente
Sem que a mão seja mais que o caminho para abrir-se.
De onde é que estão olhando para mim?
Que coisas incapazes de olhar estão olhando para mim?
Quem espreita de tudo?

As arestas fitam-me.
Sorriem realmente as paredes lisas.

Sensação de ser só a minha espinha.

As espadas.
1 335
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

EPITÁFIO - Aqui jaz Alexander Search - T

Aqui jaz Alexander Search
Que Deus e os homens deixaram só,
Que sofreu e chorou ser escárneo da natureza.
Recusou o Estado, recusou a igreja,
Recusou Deus, a mulher, o homem e o amor,
Recusou a terra em volta e o céu além.
Resumiu assim o seu saber:
(...)e amor não há
Nada no mundo existe de sincero
Salvo a dor, o ódio, a luxúria e o medo
E mesmo estes são ainda suplantados
Pelos males que causam.
Andava pelos vinte anos quando morreu
Estas foram as suas últimas palavras:
Deus, a Natureza e o Homem, malditos sejam!
1 267
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Diana através dos ramos

Diana através dos ramos
Espreita a vinda de Endymion
Endymion que nunca vem,
Endymion, Endymion,
Lá longe na floresta…
E a sua voz chamando
Exclama através dos ramos
Endymion, Endymion…

Assim choram os deuses…
1 046
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

D. PEDRO V

Quando Deus viu que o rei D. Pedro Quinto
Longe de má pessoa, com acinto
Ao bem e à verdade se cingia
Assobiou e resmungou «errei
Lá vai este destoar, por ser bom rei,
D'aquela estuporada dinastia
Que eu destinara a exempli[fi]car
Perante o mundo o mal da monarquia
Nada, volva a infâmia ao seu lugar
Se não com este era a obra desfeita
Da infâmia completa de governar
Que nos Bragança ia tão perfeita.»
Matou-o novo pois para não destoar.
1 289
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Definição

O amor: as têmporas de uma nuvem
roçando a cabeça do oceano.
1 396
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Chico

Talvez não fosses forte
para a felicidade,
nem para o medo.

Olha as pessoas felizes:
ocultam-se na felicidade
como em casa, erguem

muros, fecham as janelas,
o medo
é a sua fortaleza.

O que disputam à morte
é maior que elas,
a morte não lhes basta.
1 476
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não tenho sinceridade nenhuma que te dar.

Não tenho sinceridade nenhuma que te dar.
Se te falo, adapto instintivamente frases
A um sentido que me esqueço de ter.
1 007
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O sorriso triste do ante-dia que começou

O sorriso triste do ante-dia que começou
Platina fria no engaste de negro azulando-se escuramente.
913
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O burburinho da água

O burburinho da água
No regato que se espalha
É como a ilusão que é mágoa
Quando a verdade a baralha.
1 882
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Para adorar a beleza

Para adorar a beleza
E a liberdade amar
Fez Deus Portugal tão belo,
Pôs-nos Deus à beira-mar
(Só aprendemos a sonhar).

Sofra um só deve ser pública
Toda a dor (...) da opressão
Vamos, morte (?] ou república,
Suprimir [?] a revolução.
1 185
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ó curva do horizonte, quem te passa,

Ó curva do horizonte, quem te passa,
Passa da vista, não de ser ou estar.
Não chameis à alma, que da vida esvoaça,
Morta. Dizei: Sumiu-se além no mar.

Ó mar, sê símbolo da vida toda —
Incerto, o mesmo e mais que o nosso ver!
Finda a viagem da morte e a terra à roda,
Voltou a alma e a nau a aparecer.
1 320
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

É a espada, vejam bem

É a espada, vejam bem
Que ao mal e ao crime conduz;
A espada tem uma coroa
E a coroa tem uma cruz.
1 653
Nuno Júdice

Nuno Júdice

O movimento do mundo

Às vezes, um verso transforma o modo como
se olha para o mundo; as coisas revelam-se
naquilo que imaginação alguma a supôs; e
o centro desloca-se de onde estava, desde
a origem, obrigando o pensamento a rodar
noutra direção. O poema, no entanto, não
tem obrigatoriamente de dizer tudo. A sua
essência reside no fragmento de um absoluto
que algum deus levou consigo. Olho para
esse vestígio da totalidade sem ver mais
do que isso - o desperdício da antiga
perfeição - e deixo para trás o caminho
da ideia, a ambição teológica, o sonho do
infinito. De que eternidade me esqueço,
então, no fundo da estrofe?
1 863
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

EPITÁFIO A JOÃO FRANCO

(...)na tua campa
O epitáfio solene que mereces

«Foi melhorando, desde a vida à morte.
Pois será pó, é podridão, foi trampa.[»]
1 398