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Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ao dobrar o guardanapo

Ao dobrar o guardanapo
Para o meteres na argola
Fizeste-me conhecer
Como um coração se enrola.
1 258
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O teu lenço foi mal posto

O teu lenço foi mal posto
Pela pressa que to pôs.
Mais mal posto é o meu desgosto
Do que não há entre nós.
1 203
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

52 - SUMMERLAND

One day, Time having ceased,
        Our lives shall meet again,
From Place and Name released.
        Only that shall remain
Of each of us that may
Seem natural to that Day.

There we will newly love,
        Wondering at the old mood
With which love did us move,
        When pain and solitude
Were what each soul had got
For its contingent lot.

There, heaven being between us
        And touch a real thing,
The texture luminous
        Of our true lives will bring
God into our love like breath.
Nowhere will there be death.

The need to suffer and sigh,
        The inevitable cares,
The awaiting and the cry
        That goes from joy to tears -
These have no need to be
In love's eternity.

The hours shall make our love
        Grow younger, not more old.
Some trick of time shall move
        Wont even to truer gold,
Regret shall not be aught
Possible there to thought.

That region light‑suspended
        Under truer blue skies
Shall let our souls feel blended,
        Yet be true unities.
Nought shall have power to fret
Our hearts to tire of it.

A golden land where God
        Stayed a Day of His Time,
Not as the world, where not
        A moment did he abide,
And where His passing left
The sense of aught bereft.

My heart, that thinks of this,
        Pines, for it is nowhere,
And she that meets my bliss
        With her new old love there -
She is unreal as all
That to this verse I call.

Yet who knows? Perhaps this
        Is not wishing, but seeing.
Perhaps this love, this bliss,
        This conscious glad not‑being
Is some reality
Through fancy seen by me.

Perhaps it casts a spell
        From where it can be found.
What is impossible?
        Where is God's bourne and bound?
Why, if I dream this, may
Not this be mine one day?

Who knows what our dreams are?
        Who knows all that God makes?
Perhaps life doth but mar
        The immediate truth that takes
Its beauty from being dreamed.
Nothing eter merely seemed.

Somewhere where God is nearer
        These things are een now true.
Oh, let me be no fearer
        That this may not be so!
All is more strange than that
Small glimpse of it we get.

Mine eyes are wild with joy
        Because I have these thoughts.
They cannot tire nor cloy
        Because God ever allots
To each high thing the power
To weigh not on its hour.

My flower garden is
        Full of new flowers now.
My lips are kissed by bliss
        Because I know not how.
My heart fails and I swim
Within a luminous rim.

A halo of hope comes round
        My soul. I am that child
That cries: Lo! I have found
        This flower strange and wild.
The unknown flower I have
Grew on my dead dreams' grave.

A trembling sense of being
        More than my sense can hold,
A bird of feeling seeing
        The great, earth‑hidden gold
Of the approaching dawn,
A breath, a light, a swoon,

A presence interwoven
        With rays of other light,
A spell, a power untroven
        Of my more clear delight,
I faint, I fade, I seem
Myself to be my dream.

And if this be not so,
        Oh, God, make it now be!
Let me not find more woe
        Because I so dreamed Thee!
Let aught for which I pine
Merit being divine.

Let this resemble heaven
        And be my home for e'er,
Even if for e'er mean living
        But this hour really fair.
An hour in God shall be
Enough eternity.
1 385
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O manjerico e a bandeira

O manjerico e a bandeira
Que há no cravo de papel —
Tudo isso enche a noite inteira,
Ó boca de sangue e mel.
1 455
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Rezas porque outros rezaram,

Rezas porque outros rezaram,
E vestes à moda alheia...
Quando amares vê se amas
Sem teres o amor na ideia.
1 208
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O teu carrinho de linha

O teu carrinho de linha
Rolou pelo chão caído.
Apanhei-o e dei-o e tinha
Só em ti o meu sentido.
811
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aquela que mora ali

Aquela que mora ali
E que ali está à janela
Se um dia morar aqui
Se calhar não será ela.
1 605
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tu és Maria das Dores,

Tu és Maria das Dores,
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque deste as dores
A quem quer que em ti se fia.
1 481
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

CANÇÃO ABRUPTA

CANÇÃO ABRUPTA

O céu de todos os universos
Cobre em meu ser todo o verão...
Vai p'ra as profundas dos infernos
E deixa em paz meu coração!

Quê? Não me fica se te opões?
Pois leva-o, guarda-o, bem ou mal
Eu tenho muitos corações
É um privilégio intelectual

Madonna que vais comprar couves
Não te esqueças de me esquecer
O teu perfil dá-me trabalho
Quero (...)

Bem sei, o teu perfil persiste
Amo-te e é triste não poder
Deixar de amar-te sem estar triste...
Se és mulher que em verdade existe
Raios te parta! Vai morrer!
1 281
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quem te deu aquele anel

Quem te deu aquele anel
Que ainda ontem não tinhas?
Como tu foste infiel
A certas ideias minhas!
1 186
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ai, Margarida,

Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

Comunicado pelo Engenheiro Naval
       Sr. Álvaro de Campos em estado
                de inconsciência
                         alcoólica.
1 960
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No conflito escuro e besta

No conflito escuro e besta
Entre a luz e o lojame
Que ao menos luz se derrame
Sobre a verdade, que é esta:

Como é uso dos lojistas
Aumentar aos cem por cento,
Protestam contra um aumento
Que é reles às suas vistas.

E gritam que é enxovalho
Que os grandes, quando ladrões,
Nem guardem as tradições
Dos gatunos de retalho.

Lojistas, que vos ocorra
Roubar duzentos por cento!
E acaba logo o argumento
Entre a Máfia e a Camorra...
884
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Trazes a bilha à cabeça

Trazes a bilha à cabeça
Como se ela não houvesse.
Andas sem pressa depressa
Como se eu lá não estivesse.
1 389
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tenho ainda na lembrança

Tenho ainda na lembrança
Como uma coisa que vejo,
O quando inda eras criança.
Nunca mais me dás um beijo!
1 621
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Meu pobre amigo, não tenho compaixão que te dar.

Meu pobre amigo, não tenho compaixão que te dar.
A compaixão custa, sobretudo sincera, e em dias de chuva.
Quero dizer: custa sentir em dias de chuva.
Sintamos a chuva e deixemos a psicologia para outra espécie de céu.

Com que então problema sexual?
Mas isso depois dos quinze anos é uma indecência.
Preocupação com o sexo oposto (suponhamos) e a sua psicologia —
Mas isso é estúpido, filho.
O sexo oposto existe para ser procurado e não para ser compreendido.
O problema existe para estar resolvido e não para preocupar.
Compreender é ser impotente.
E você devia revelar-se menos.
"La Colére de Samson", conhece?
"La femme, enfant malade et [...]"
Mas não é nada disso.
Não me mace, nem me obrigue a ter pena!
Olhe: tudo é literatura.
Vem-nos tudo de fora, como a chuva.
A maneira? Se nós somos páginas aplicadas de romances?
Traduções, meu filho.
Você sabe porque está tão triste? É por causa de Platão,
Que você nunca leu.
E um soneto de Petrarca, que você desconhece, sobrou-lhe errado,
E assim é a vida.
Arregace as mangas da camisa civilizada
E cave terras exactas!
Mais vale isso que ter a alma dos outros.
Não somos senão fantasmas de fantasmas,
E a paisagem hoje ajuda muito pouco.
Tudo é geograficamente exterior.
A chuva cai por uma lei natural
E a humanidade ama porque ama falar no amor.
915
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Eu procurei primeiro o pensamento,

Eu procurei primeiro o pensamento,
Eu quis, depois, a imortalidade...
Um como o outro só deram ao meu ser
A sombra fria dos seus vultos negros
Na noite eterna longe dos meus braços...
Eu procurei depois o amor e a vida
P'ra ver se ali esqueceria a dor
Do pensamento e da ciência firme
Da certeza da morte. Mas o amor
É para quem guardou a alma inteira,
E não podia haver amor pr'a mim.
Depois na acção cega e violenta, onde eu
Afogasse de vez toda a consciência
Da vida, quis lançar meu frio ser...
Mas aquilo da alma condenada
Que me fizera em tudo um espectador,
De mim, do mundo, do que quer que fosse,
Proibiu-me outra cousa que assistir
Aos [...] dos outros e aos meus
Friamente de fora, sempre tendo
No fundo do meu ser o mesmo horror...
Ah, mas cansei a dor dentro de mim...
E hoje tenho sono do meu ser...
Dormir, dormir, de dentro d'alma, como
Um Deus que adormecesse e cujo sono
Fora um repouso de tamanho eterno
E feliz absorção em infinito
De inconsciência boa.
1 262
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

II - Deixo, deuses, atrás a dama antiga

II
Deixo, deuses, atrás a dama antiga
(Com uma letra diferente fixo
O absurdo, e rio, porque sofro). Digo:
Deixo atrás quem amei, como um prefixo...

Outrora eu, que era anónimo e prolixo
(Dois adjectivos que de há muito sigo)
Amei por ter um coração amigo.
Amo hoje o que amo só porque o persigo.

Dêem-me vinho que um Horácio cante!
Quero esquecer o que de meu é meu...
Quero, sem que me mexa, ir indo adiante.

Estou no Estoril e olho para o céu...
Ah que ainda é certo aquele azul ovante
Que esplendeu astros sobre o mar egeu.
1 170
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Temo a verdade.

Temo a verdade.
Ignorar é amar. Toda esta terra,
Estes montes (...) não os amara tanto
Se soubera o que são, e enfim os vira
Como os não vejo. Pudesse eu sem termo
Gozar, sofrendo embora a ilusão
Sem que a quebrasse. Como são tristes
Os sonhos meus, inda que lhes pese,
Só porque sonhos são, que não a vida,
Assim serem.  [?]
840
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando se amam, vívidos,

Quando se amam, vívidos,
Dois seres juvenis e naturais,
Parece que harmonias se derramam
Como perfumes pela terra em flor.
Mas eu, ao conceber-me amando, sinto
Como que um gargalhar hórrido e fundo
Da existência em mim, como ridículo
E desusado no que é natural.
Nunca, senão pensando no amor,
Me sinto tão longínquo e deslocado,
Tão cheio de ódios contra o meu destino
De raivas contra a essência do viver.
E nasce então em mim de tal sentir,
Um negrume de tédio e ódio imenso
Que torna os grandes crimes e os mais torpes
Inadequadas cousas ao que sinto
Em sua humilde e popular vileza.
1 184
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

FAUSTO: É isto amor? Só isto! Sinto como

FAUSTO: (vindo de casa [...])
É isto amor? Só isto! Sinto como
O cérebro oscilante, um gozo
Mas o coração pesado, frio, e mudo.
Sinto ânsias, desejos
Mas não com meu ser todo. Alguma cousa
No íntimo meu, alguma coisa ali,
Fria, pesada, muda permanece.

Para isto deixei eu a vida antiga
Que já bem não concebo, parecendo
Vaga já.
Já não sinto a agonia muda e funda
Mas uma menos funda e dolorosa
Mas mais terrível raiva e (...)
De movimentos íntimos, desejos
Que são como rancores.
Um cansaço violento e desmedido
De existir e sentir-me aqui e um ódio
Nascido disto vago e horroroso
A tudo e todos por não saber
A causa exacta de tudo.
813
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A Inocência Perdida

Tinha um campo alegre,
        Mas no ardor da febre
        Devastei-o, e então
        Semeei-lhe amores
        E nasceram flores
        De desilusão,

Tinha um barco lindo que pela água ia,
Como nuvem branda pelo brando céu
Carreguei-o d'oiro que o labor trazia
E soçobrou logo que vogar queria
E eu fiquei nas ondas sem o barco meu.

A jarra preciosa está partida
E nada valem os fragmentos seus;
A imagem do templo está caída;
Partiu-se. Era de barro. Os seus crentes,
perdeu-os.

Junta os fragmentos da jarra divina
E a jarra não fazem;
1 494
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Entreguei-te o coração,

Entreguei-te o coração,
E que tratos tu lhe deste!
É talvez por estar estragado
Que ainda não mo devolveste...
1 573
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Eu tenho um colar de pérolas

Eu tenho um colar de pérolas
Enfiado para te dar:
As pérolas são os meus beijos,
O fio é o meu penar.
2 925
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Se ontem à tua porta

Se ontem à tua porta
Mais triste o vento passou —
Olha: levava um suspiro...
Bem sabes quem to mandou...
1 488