Tristeza e Melancolia

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

É uma brisa leve

É uma brisa leve
Que o ar um momento teve
E que passa sem ter
Quase por tudo ser.

Quem amo não existe.
Vivo indeciso e triste.
Quem quis ser já me esquece
Quem sou não me conhece.

E em meio disto o aroma
Que a brisa traz me assoma
Um momento à consciência
Como uma confidência.


18/05/1922
6 127 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Na quinta entre ciprestes

Na quinta entre ciprestes
Secaram todas as fontes,
As rosas brancas agrestes
Trazidas do fim dos montes
Vós mas tirastes, que as destes...

No rio ao pé de salgueiros
Passaram as águas em vão,
Com tristezas de estrangeiros
Passaram pelos salgueiros
As ondas, sem ter razão.
4 199 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

De onde é quase o horizonte

De onde é quase o horizonte
Sobe uma névoa ligeira
E afaga o pequeno monte
Que pára na dianteira.

E com braços de farrapo
Quase invisíveis e frios
Faz cair seu ser de trapo
Sobre os contornos macios.

Um pouco de alto medito
A névoa só com a ver.
A vida? Não acredito.
A crença? Não sei viver.


04/03/1931
4 345 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Solene passa sobre a fértil terra

Solene passa sobre a fértil terra
A branca, inútil nuvem fugidia,
Que um negro instante de entre os campos ergue
Um sopro arrefecido.

Tal me alta na alma a lenta ideia voa
E me enegrece a mente, mas já torno,
Como a si mesmo o mesmo campo, ao dia
Da imperfeita vida.


31/05/1927
3 287 1
Rui Costa

Rui Costa

breve ensaio sobre a potência 3

3
nenhum homem que atravesse
o eixo mais ao centro. a espuma
produz-se onde a saudade é uma
cabeça filtrada pela desgraça.
formam-se ideias na direção da
cor: os peixes acreditam que o
sal é uma excrescência da luz.

461
Amália Bautista

Amália Bautista

Ver o sol

Era tudo mentira e apercebo-me
no momento mais despropositado.
O amor não era amor. Eram os beijos
uma maneira de apagar a sede.
As carícias, o modo de nos guiarmos
no meio da noite. E escuto agora
a voz da tristeza: se tu pretendes
ver o sol, devias em contraluz
olhar um ovo passado por água.

706
Filipa Leal

Filipa Leal

SMS

Porto. 20h. Ninguém canta.

716
René Daumal

René Daumal

Vidinha triste

...

Noite sobre a noite, é festa, abafemos a miséria
sob o algodão duma alegria espessa;
noite sobre a noite, é a fraqueza
do coração partido.

...
787
Filipa Leal

Filipa Leal

Nesta brisa quase suave

Nesta brisa quase suave
de plantas já anoitecidas
quase te toco entre as regas,
e entristeço.
A tua ausência é tão real
como os vastos campos de girassóis
secos, envelhecidos, quase mortos.
Alugo a voz e a expressão
a par de todos os espaços
deste lugar que se inicia.
Tudo isto é simples:
tenho o coração desarrumado.
Vem.

280
Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Arabico-Andaluzes - Bolhas

Troca-me a prata peio oiro do vinho — digo eu ao copeiro. — Dá-me vinho
novo.

Vinho para a minha dor. E logo ao cimo sobrenadam, como espuma, as
bolhas:

brancos dedos de um bebedor petrificado, na mão retendo eternamente a sua
taça.
926
Herberto Helder

Herberto Helder

Canções de Camponeses do Japão - Arrozal de Madrugada

Às quatro da manhã, arranco
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?
1 124
Herberto Helder

Herberto Helder

Dos Trabalhos do Mundo Corrompida

dos trabalhos do mundo corrompida
que servidões carrega a minha vida
1 078
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Meus Olhos, Gram Coita D'amor

Meus olhos, gram coita d'amor
me dades vós, que sempr'assi
chorades; mais já des aqui,
meus olhos, por Nostro Senhor,
nom choredes, que vejades
a dona por que chorades.

[...]
262
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Trist'anda, Mia Madr[E], o Meu Amigo

Trist'anda, mia madr[e], o meu amigo,
e eu triste por el, bem vo-lo digo,
       e, se m'el morrer, morrer-vos-ei eu.

E morrerá por mi, tant'é coitado,
e vós perderedes meu gasalhado,
       e, se m'el morrer, morrer-vos-ei eu.
645
Paio Soares de Taveirós

Paio Soares de Taveirós

Meus Olhos, Gram Coita D'amor

Meus olhos, gram coita d'amor
me dades vós, que sempr'assi
chorades; mais já des aqui,
meus olhos, por Nostro Senhor,
nom choredes, que vejades
a dona por que chorades.

[...]
494
Bernal de Bonaval

Bernal de Bonaval

Senhor Fremosa, Tam Gram Coita Hei

Senhor fremosa, tam gram coita hei
por vós que bom conselho nom me sei,
       cuidand'em vós, mia senhor mui fremosa.

Por vós, que vi melhor doutras falar
e parecer, nom me sei conselhar,
       cuidand'em vós, mia senhor mui fremosa.

Nom mi queredes mia coita creer:
creer-mi-a-edes, pois que eu morrer
       cuidand'em vós, mia senhor mui fremosa.
719
Renato Rezende

Renato Rezende

N.S. de Guadalupe

Algo me entristece no México.
A grande cidade é um deserto.
Na Basílica, no alto do monte
onde a Diego apareceu a Virgem
eu ainda mais me entristeço.

(O sol se põe, distante e amarelo
como em Roma ou na velha Pérsia).

Há de ser a imagem singela
da Virgem entre pálidas rosas
estampada na tarde sem glória.


Cidade do México, novembro 1996
1 004
Renato Rezende

Renato Rezende

Nas Cidades

Chove friamente
na cidade.
O anjo com as asas encharcadas
caminha a esmo,
deprimido.
Falta-lhe algo!

O anjo se masturba
depois escuta Mozart,
esquecido.


Nova York, setembro 1996
1 138
Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

DIFERENÇA

meu amor ouve fado
não rodopia
apenas baila e espreita.

eu gosto de tango.

minha mãe sempre diz:
seus olhos são trágicos.
708
Alexandre Guarnieri

Alexandre Guarnieri

A lágrima

a glândula a carrega               cega
            (como na ostra    a pérola)
                   (como no arco a seta)
o sal na medida certa
(no escuro                algo coagula)
                                           pedra
até que a concha da pálpebra
                                            abra
é quando a gota vem à tona)
                           (fria e quente
                        (simultaneamente
624
Simone Brantes

Simone Brantes

Pastilhas brancas

Dormi calma por duas pastilhas brancas embalada,
como quem não tem ocupada a alma por tudo que dói.
Talvez, apartada de mim, minha dor tenha andado por aí perdida
ou tenha ficado o tempo todo aqui bem próxima
estendida sobre a cadeira
como essas roupas que se despem na véspera
e se vestem sem pudor no dia seguinte.
701
José Bento

José Bento

Das Quatro Estações - O Outono

Novembro apagou nas buganvílias
seus nomes brancos, roxos, escarlates.

É mais difícil regressar a casa:
o caminho disfarçou, emudeceu
seu rosto nos muros e nas grades.

— Por onde seguiremos
sem que o outono espesso nos trespasse?
588
Hélia Correia

Hélia Correia

23.

A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
1 134
Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

SOLSTÍCIO DE INVERNO

Um brilho azul
escorre da minha roupa.
Solstício de Inverno
Pandeiretas de gelos tilintantes.
É um mundo silencioso,
é uma fenda
ali os mortos são passados
clandestinamente pelas fronteiras.
824