Sonhos e Imaginação

Poemas neste tema

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Orquestra

Foi o foxtrote que acordou
os peixinhos do lago, na sala de espera,
ou foram eles, os minúsculos, insones peixinhos,
que fizeram acordar Sweet Georgia Brown
entre Body and Soul, para o tea for two,
enquanto não se abrem, rascantes, as portas da segunda sessão?
1 043
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ninfas

Agora sei que existem ninfas
fora das estampas e dos contos.
São três.
Bebem água publicamente
servida por uma sereia,
pois que também existem as sereias
na composição de verde e mármore
e é tudo fantástico no jardim
em frente do Palácio do Governo.
1 165
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Conclusão

Que cerros mais altos,
vista mais calmante,
sítios mais benignos,
nuvens mais de sonho,
fontes mais pacíficas,
gente mais cordata,
bichos mais tranquilos,
noites mais sossego,
sempiternamente
vida mais redonda…
vida mais difícil.
1 059
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Flora Mágica Noturna

A casa de dr. Câmara é encantada.
No jardim cresce a árvore-de-moedas.
As pratinhas reluzem entre folhas.
O menino ergue o braço e fica rico
ao luar.
Dr. Câmara sorri sob os bigodes
de bom padrinho. Sente-se criador
de uma espécie botânica sem par.
A crença do menino agora é dele,
ao luar.
1 015
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Água-Cor

O país da cor é líquido e revela-se
na anilina dos vasos da farmácia.
Basta olhar, e flutuo sobre o verde
não verde-mata, o verde-além-do-verde.

E o azul é uma enseada na redoma.
Quisera nascer lá, estou nascendo.
Varo a laguna do ouro do amarelo.
A cor é o existente; o mais, falácia.
1 603
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Sonâmbula

Dançarina do sono,
a que raízes se ligam as pupilas
nocturnas? Obedece
à árvore dos seus passos.

Conduz os animais
minuciosos
do desejo errante.
Sua inocência

tem a forma do silêncio.
O vazio vibra na leveza
do andar.
Desenha o astro em que caminha.
989
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Desperta E É Um Reino Suave

O que desperta e é um reino suave
já sem máscaras vazio sombrio ainda
não há escolha para ser ali há a leveza
do que não existe a semelhança nasce.
1 073
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Percurso

Ela tem a cor de uma fábula e é um animal.

Não lhe chames lâmpada.

Tudo o que ela diz é uma ficção inesperada.

Ela caminha entre a parede e o espaço.
904
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Figura Na Profundidade

Uma figura na profundidade
no centro móvel foge
e deixa um intervalo de luz
uma obscura arcada para os dedos
na intensidade da luz ou do escuro
Parte-se a serpente    se
e são pedaços

vivos na noite que se agitam
1 009
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Que Aparece Nua

A que aparece nua
na trama variável
figura numa teia viva
entre rupturas
alta adormecida
ou sem pálpebras perante o monstro
e informe perde-se sonâmbula
mas não o traço nem as sílabas
nem os resíduos de frescura
no obstinado escuro trajecto
982
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dançam Mas Não Na Praia Dançam Apenas Não Se Sabe

Dançam mas não na praia Dançam apenas não se sabe
o quê numa orla nocturna móvel Deserto na praia A
terra perdeu todos os sinais As únicas referências
são as do jogo Um obscuro combate para quê?
O que roçam os dedos ou o que eles segregam é um
muro de névoa ou uma muralha de astros
975
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Tecto Respira Pelas Vértebras

O tecto respira pelas vértebras

e a madeira do sol

na fonte
1 037
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Toco Os Pés de Terra

Toco os pés de terra

e os ombros da parede

sobre as nuvens
1 023
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

As Raízes do Sono

As raízes do sono

e da terra

sob o vento do sono
1 152
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Era a Interrupção Dos Segmentos E Dos Limites Vivos

Era a interrupção dos segmentos e dos limites vivos

nos tentáculos do vento        ouvindo

o rumor de

uma água sombria na caverna

buscando a brancura de um volume

a figura sem rosto     proa branca     polpa

de visão aberta e nua
1 008
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

54. Os Aspectos da Figura Livre

54
Os aspectos da figura livre
nos quartos claros e sombrios
fragmentos flagrantes
da forma — incandescência breve.

Queda de conjuntos e do grito
no espelho — negação no vidro
água de outro copo e negação do copo.

Às apagadas pernas e às pedras
junta-se a terra dos nomes e sem nome
desce-se pela escadaria sobre as nuvens
brancas.
950
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

38. Tu Sabes o Sabor do Sono E a Pausa

38
Tu sabes o sabor do sono e a pausa
do sono sobre as pernas luminosas
e mais a secreta terra não vermelha.

Não ardente a escrita aqui: do campo
aranha inocente
de patas musicais
silenciosa deusa na verdura.

Condensando a cabeça e o tronco branco
decepado sobre o não sentir ou não viver
eis o braço o pedaço ardente e frio.
1 032
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

39. Esta É a Folha, E a Folha

39
Esta é a folha, e a folha
de terra, mas a água da lâmpada
breve.

Que ela me diga a não-palavra
de palavra, a terra
e o corpo renascendo sob a árvore
e o espaço que é o espaço
o espaço.

E a terra da terra, o corpo
da figura
soprando a nuvem sobre as pernas
da mulher descoberta na ilha do seu quarto.
530
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

40. o Cão Sem Sombra E a Face Oblíqua

40
O cão sem sombra e a face oblíqua
na infância azul da face
uma janela alta o vazio os astros.

Um gesto da matéria amorosa negra
a flecha do não ser na ferrugem do muro
a questão interrompida o sexo nu.

Quando no opaco a oblíqua ferida
rasga as paralelas do ser e a flecha fere
a outra flecha vermelha na ferrugem.
1 003
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

15. Animado o Poeta Desce

15
Animado o poeta desce
a horizontal escada
para o encontro da lâmpada animal.

Desce até à terra humedecida
buscando a pobreza de uma lâmpada
roxa
sobre uma perna soberba ali perdida.

Desce
até que desce na pobreza
da face de folhagem negra
aranha negra sobre aquela perna
do corpo glorioso.
1 054
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mas Se Ele Caminha Já

Mas se ele caminha já
(numa avenida a uma hora tal)
serei eu que o invento?

Se ele respira, se o sol o aquece já?

Eu olho-o aqui e vou com ele
no seu ténue percurso
quase intenso.
943
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Coexistência No Muro

A boca inerte na parede,
um sol,
um peixe,
uma estrela,
um dedo.

A boca escura
no chão levantado,
os olhos nas mãos.

Um sol,
um peixe
uma estrela,
um dedo.
981
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Terra Dos Silêncios Grandes

Terra dos silêncios grandes
e numerosos quartos
livros e homens dormem
e prolongam-se os arcos
nas memórias e nos sonhos
pastam cavalos nas
nuvens rente ao horizonte
cantam mulheres na branca
tranquilidade do mundo
e nos espelhos velhos
corpos novos resplendem
1 081
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Faço um castelo na areia

Faço um castelo na areia do futuro. Torres
de névoa, ameias de fumo, pontes levadiças
de indecisão. Vejo a areia escoar-se
na ampulheta dos séculos; e um exército
de ondas rompe as linhas do infinito,
derrubando os muros da manhã.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 28 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 812