Solidão

Poemas neste tema

Mariazinha Congílio

Mariazinha Congílio

Intermezzo

Ave aprisionada
Reconduzida a vôo
De um canto do mundo
Numa esquina do Universo
Sentado entre montanhas
Vivendo nas estradas, está
O andarilho de lembranças.
Trazendo bagagem e esperança
Sorrindo em arco-íris
Unindo extremos desarvorados
Num resto de grito
Suspenso na espera

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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Café de cais

Café de cais,
Onde se juntam,
Anónimos de iguais,
Os ratos dos porões,
Babel de todos os calões,
Rio de fumo e de incontido cio,
Sexuado rio
Que busca, único mar,
Mulheres de pernoitar,
Unge-te a nojo, não Anfritite,
Fina ficção marinha,
Mas nauseabundo
E tutelar,
O vulto familiar
Da Virgem Vício
Nossa Senhora do Baixo Mundo.

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Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Humanamente Desumanos

O que será de nós
Vozes roucas
Balbuciadas por bocas
De uma multidão a sós

O que se há de fazer
Senão cruzar o abismo
Fruto do eterno egoísmo
Entre eu e você

Pobres de nós, mortais,
E de nossas lutas banais.
O que somente nos faz
Humanamente desumanos

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Reynaldo Valinho Alvarez

Reynaldo Valinho Alvarez

Maracanã

A multidão arqueja. O sol adeja,
Asas de acácia sobre o mar de grama.
E a multidão regressa, ainda opressa,
Prenhe de estrelas, morta do vazio.

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Marly Vasconcelos

Marly Vasconcelos

Medusa

Estamos ligados pelo tédio.
O parentesco que pode mais que a sensibilidade dos felinos,
o vento, o grito das flores,
a engrenagem dos algarismos.
Estamos ligados pelo tédio.
A terrível e impiedosa epidemia que se apossa da alma,
encurva a sombra dos meninos,
cega os que bordam as palavras.

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Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Escurecer o Quarto

Quero fechar as janelas, estancar o vento,
esconder o sol em anéis de nuvens cinza
escurecer paredes onde mora o corpo.
Anoitecer a respiração dos móveis
guardar os relógios no mar.

- Meu espírito precisa de silêncio -

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Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Infância

Pés no chão
alma descalça . . .

A vida passa
os pés se calçam
a alma se veste

Os pés são os mesmos,
os caminhos segredos,
chega o medo . . .

A escuridão
ilusão . . .

Da infância resta
o chão
— e os pés a fugir
da solidão.

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Lisa Lago

Lisa Lago

Beijo

Uma batida rouca
na porta da noite escura
de bares fechados
e mesas vazias

As mesas falam, sabia?
As cadeiras dançam
e os copos se beijam
quando brindam

O seu olhar fala
mudo, discreto e sensível
dentro de minha boca fechada
por medo de sorrir

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Luciano Matheus Tamiozzo

Luciano Matheus Tamiozzo

Solidão

Solidã o é esperar um pouco mais
De alguém que nos oferece um pouco menos
Do que poderia oferecer...

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José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

Os Girassóis

Às vezes ouves-me chorar
não é fácil deixar a tua mão

De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém

As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens

Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos

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Emily Dickinson

Emily Dickinson

Im Nobody! Who are you?

Im Nobody! Who are you?

Im Nobody! Who are you?

Are you--Nobody--Too?

Then theres a pair of us?

Dont tell! theyd advertise--you know!

How dreary--to be--Somebody!

How public--like a Frog--

To tell ones name--the livelong June--

To an admiring Bog!

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David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

Blocos

É isto vivemos dentro

de grandes blocos de gelo

sem aquecermos ao menos

com os dedos outros dedos

No fundo de nós temendo

que um dia se quebre o gelo

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João de Jesus Paes Loureiro

João de Jesus Paes Loureiro

O Poeta

Debruçado no poço
salmodia
e a própria voz escuta.
Osso.
atirado a si mesmo
(espelho)
por um cão faminto.

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tudo quanto penso,

Tudo quanto penso,
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem eu estou.

Extensão parada
Sem nada a estar ali,
Areia peneirada
Vou dar-lhe a ferroada
Da vida que vivi.

(...)

11/03/1935
8 115 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Uma maior solidão

Uma maior solidão
Lentamente se aproxima
Do meu triste coração.

Enevoa-se-me o ser
Como um olhar a cegar.
A cegar, a escurecer.

Jazo-me sem nexo, ou fim...
Tanto nada quis de nada,
Que hoje nada o quer de mim.


23/10/1931
5 724 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O grande sol na eira

O grande sol na eira
Talvez seja o remédio...
Não quero quem me queira,
Amarem-me faz tédio.

Baste-me o beijo intacto
Que a luz dá a luzir
E o amor alheio e abstracto
De campos a florir.

O resto é gente e alma:
Complica, fala, vê.
Tira-me o sonho e a calma
E nunca é o que é.


21/08/1930
4 437 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nada que sou me interessa.

Nada que sou me interessa.
Se existe em meu coração
Qualquer coisa que tem pressa
Terá pressa em vão.

Nada que sou me pertence.
Se existo em quem me conheço
Qualquer coisa que me vence
Depressa a esqueço.

Nada que sou eu serei.
Sonho, e só existe em meu ser,
Um sonho do que terei.
Só que o não hei-de ter.


24/08/1932
4 478 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Há música. Tenho sono

Há música. Tenho sono.
Tenho sono com sonhar.
Estou num longínquo abandono
Sem me sentir nem pensar.

A música é pobre mas
Não será mais pobre a vida?
Que importa que eu durma? Faz
Sono sentir a descida.


25/03/1928
4 160 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Meu coração esteve sempre

Meu coração esteve sempre
Sozinho. Morri já...
Para que é preciso um nome?
Fui eu a minha sepultura.


1928
4 328 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

TÉDIO

TÉDIO

Não vivo, mal vegeto, duro apenas,
Vazio dos sentidos porque existo;
Não tenho infelizmente sequer penas
E o meu mal é ser (alheio Cristo)
Nestas horas doridas e serenas
Completamente consciente disto.


12/05/1910
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sereno aguarda o fim que pouco tarda.

Sereno aguarda o fim que pouco tarda.
Que é qualquer vida? Breves sóis e sono.
Quanto pensas emprega
Em não muito pensares.

Ao nauta o mar obscuro é a rota clara.
Tu, na confusa solidão da vida,
A ti mesmo te elege
(Não sabes de outro) o porto.


31/07/1932
2 706 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

É uma brisa leve

É uma brisa leve
Que o ar um momento teve
E que passa sem ter
Quase por tudo ser.

Quem amo não existe.
Vivo indeciso e triste.
Quem quis ser já me esquece
Quem sou não me conhece.

E em meio disto o aroma
Que a brisa traz me assoma
Um momento à consciência
Como uma confidência.


18/05/1922
6 127 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Eis-me em mim absorto

Eis-me em mim absorto
Sem o conhecer
Bóio no mar morto
Do meu próprio ser.

Sinto-me pesar
No meu sentir-me água...
Eis-me a balancear
Minha vida-mágoa.

Barco sem ter velas...
De quilha virada...
O céu com estrelas
É frio como espada.

E eu sou vento e céu...
Sou o barco e o mar...
Só que não sou eu...
Quero-o ignorar.


12/05/1913
4 735 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Mendigo do que não conhece,

Mendigo do que não conhece,
Meu ser na estrada sem lugar
Entre estragos amanhece...
Caminha só sem procurar.


1924
4 603 1