Solidão
Poemas neste tema
Mariazinha Congílio
Intermezzo
Ave aprisionada
Reconduzida a vôo
De um canto do mundo
Numa esquina do Universo
Sentado entre montanhas
Vivendo nas estradas, está
O andarilho de lembranças.
Trazendo bagagem e esperança
Sorrindo em arco-íris
Unindo extremos desarvorados
Num resto de grito
Suspenso na espera
Reconduzida a vôo
De um canto do mundo
Numa esquina do Universo
Sentado entre montanhas
Vivendo nas estradas, está
O andarilho de lembranças.
Trazendo bagagem e esperança
Sorrindo em arco-íris
Unindo extremos desarvorados
Num resto de grito
Suspenso na espera
978
1
Reinaldo Ferreira
Café de cais
Café de cais,
Onde se juntam,
Anónimos de iguais,
Os ratos dos porões,
Babel de todos os calões,
Rio de fumo e de incontido cio,
Sexuado rio
Que busca, único mar,
Mulheres de pernoitar,
Unge-te a nojo, não Anfritite,
Fina ficção marinha,
Mas nauseabundo
E tutelar,
O vulto familiar
Da Virgem Vício
Nossa Senhora do Baixo Mundo.
Onde se juntam,
Anónimos de iguais,
Os ratos dos porões,
Babel de todos os calões,
Rio de fumo e de incontido cio,
Sexuado rio
Que busca, único mar,
Mulheres de pernoitar,
Unge-te a nojo, não Anfritite,
Fina ficção marinha,
Mas nauseabundo
E tutelar,
O vulto familiar
Da Virgem Vício
Nossa Senhora do Baixo Mundo.
1 484
1
Vitor Casimiro
Humanamente Desumanos
O que será de nós
Vozes roucas
Balbuciadas por bocas
De uma multidão a sós
O que se há de fazer
Senão cruzar o abismo
Fruto do eterno egoísmo
Entre eu e você
Pobres de nós, mortais,
E de nossas lutas banais.
O que somente nos faz
Humanamente desumanos
Vozes roucas
Balbuciadas por bocas
De uma multidão a sós
O que se há de fazer
Senão cruzar o abismo
Fruto do eterno egoísmo
Entre eu e você
Pobres de nós, mortais,
E de nossas lutas banais.
O que somente nos faz
Humanamente desumanos
957
1
Reynaldo Valinho Alvarez
Maracanã
A multidão arqueja. O sol adeja,
Asas de acácia sobre o mar de grama.
E a multidão regressa, ainda opressa,
Prenhe de estrelas, morta do vazio.
Asas de acácia sobre o mar de grama.
E a multidão regressa, ainda opressa,
Prenhe de estrelas, morta do vazio.
1 305
1
Marly Vasconcelos
Medusa
Estamos ligados pelo tédio.
O parentesco que pode mais que a sensibilidade dos felinos,
o vento, o grito das flores,
a engrenagem dos algarismos.
Estamos ligados pelo tédio.
A terrível e impiedosa epidemia que se apossa da alma,
encurva a sombra dos meninos,
cega os que bordam as palavras.
O parentesco que pode mais que a sensibilidade dos felinos,
o vento, o grito das flores,
a engrenagem dos algarismos.
Estamos ligados pelo tédio.
A terrível e impiedosa epidemia que se apossa da alma,
encurva a sombra dos meninos,
cega os que bordam as palavras.
1 125
1
Marta Gonçalves
Escurecer o Quarto
Quero fechar as janelas, estancar o vento,
esconder o sol em anéis de nuvens cinza
escurecer paredes onde mora o corpo.
Anoitecer a respiração dos móveis
guardar os relógios no mar.
- Meu espírito precisa de silêncio -
esconder o sol em anéis de nuvens cinza
escurecer paredes onde mora o corpo.
Anoitecer a respiração dos móveis
guardar os relógios no mar.
- Meu espírito precisa de silêncio -
1 099
1
Mário Donizete Massari
Infância
Pés no chão
alma descalça . . .
A vida passa
os pés se calçam
a alma se veste
Os pés são os mesmos,
os caminhos segredos,
chega o medo . . .
A escuridão
ilusão . . .
Da infância resta
o chão
— e os pés a fugir
da solidão.
alma descalça . . .
A vida passa
os pés se calçam
a alma se veste
Os pés são os mesmos,
os caminhos segredos,
chega o medo . . .
A escuridão
ilusão . . .
Da infância resta
o chão
— e os pés a fugir
da solidão.
900
1
Lisa Lago
Beijo
Uma batida rouca
na porta da noite escura
de bares fechados
e mesas vazias
As mesas falam, sabia?
As cadeiras dançam
e os copos se beijam
quando brindam
O seu olhar fala
mudo, discreto e sensível
dentro de minha boca fechada
por medo de sorrir
na porta da noite escura
de bares fechados
e mesas vazias
As mesas falam, sabia?
As cadeiras dançam
e os copos se beijam
quando brindam
O seu olhar fala
mudo, discreto e sensível
dentro de minha boca fechada
por medo de sorrir
844
1
Luciano Matheus Tamiozzo
Solidão
Solidã o é esperar um pouco mais
De alguém que nos oferece um pouco menos
Do que poderia oferecer...
De alguém que nos oferece um pouco menos
Do que poderia oferecer...
829
1
José Tolentino Mendonça
Os Girassóis
Às vezes ouves-me chorar
não é fácil deixar a tua mão
De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém
As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens
Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos
não é fácil deixar a tua mão
De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém
As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens
Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos
2 577
1
Emily Dickinson
Im Nobody! Who are you?
Im Nobody! Who are you?
Im Nobody! Who are you?
Are you--Nobody--Too?
Then theres a pair of us?
Dont tell! theyd advertise--you know!
How dreary--to be--Somebody!
How public--like a Frog--
To tell ones name--the livelong June--
To an admiring Bog!
Im Nobody! Who are you?
Are you--Nobody--Too?
Then theres a pair of us?
Dont tell! theyd advertise--you know!
How dreary--to be--Somebody!
How public--like a Frog--
To tell ones name--the livelong June--
To an admiring Bog!
1 303
1
David Mourão-Ferreira
Blocos
É isto vivemos dentro
de grandes blocos de gelo
sem aquecermos ao menos
com os dedos outros dedos
No fundo de nós temendo
que um dia se quebre o gelo
de grandes blocos de gelo
sem aquecermos ao menos
com os dedos outros dedos
No fundo de nós temendo
que um dia se quebre o gelo
3 779
1
João de Jesus Paes Loureiro
O Poeta
Debruçado no poço
salmodia
e a própria voz escuta.
Osso.
atirado a si mesmo
(espelho)
por um cão faminto.
salmodia
e a própria voz escuta.
Osso.
atirado a si mesmo
(espelho)
por um cão faminto.
1 073
1
Fernando Pessoa
Tudo quanto penso,
Tudo quanto penso,
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem eu estou.
Extensão parada
Sem nada a estar ali,
Areia peneirada
Vou dar-lhe a ferroada
Da vida que vivi.
(...)
11/03/1935
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem eu estou.
Extensão parada
Sem nada a estar ali,
Areia peneirada
Vou dar-lhe a ferroada
Da vida que vivi.
(...)
11/03/1935
8 115
1
Fernando Pessoa
Uma maior solidão
Uma maior solidão
Lentamente se aproxima
Do meu triste coração.
Enevoa-se-me o ser
Como um olhar a cegar.
A cegar, a escurecer.
Jazo-me sem nexo, ou fim...
Tanto nada quis de nada,
Que hoje nada o quer de mim.
23/10/1931
Lentamente se aproxima
Do meu triste coração.
Enevoa-se-me o ser
Como um olhar a cegar.
A cegar, a escurecer.
Jazo-me sem nexo, ou fim...
Tanto nada quis de nada,
Que hoje nada o quer de mim.
23/10/1931
5 724
1
Fernando Pessoa
O grande sol na eira
O grande sol na eira
Talvez seja o remédio...
Não quero quem me queira,
Amarem-me faz tédio.
Baste-me o beijo intacto
Que a luz dá a luzir
E o amor alheio e abstracto
De campos a florir.
O resto é gente e alma:
Complica, fala, vê.
Tira-me o sonho e a calma
E nunca é o que é.
21/08/1930
Talvez seja o remédio...
Não quero quem me queira,
Amarem-me faz tédio.
Baste-me o beijo intacto
Que a luz dá a luzir
E o amor alheio e abstracto
De campos a florir.
O resto é gente e alma:
Complica, fala, vê.
Tira-me o sonho e a calma
E nunca é o que é.
21/08/1930
4 437
1
Fernando Pessoa
Nada que sou me interessa.
Nada que sou me interessa.
Se existe em meu coração
Qualquer coisa que tem pressa
Terá pressa em vão.
Nada que sou me pertence.
Se existo em quem me conheço
Qualquer coisa que me vence
Depressa a esqueço.
Nada que sou eu serei.
Sonho, e só existe em meu ser,
Um sonho do que terei.
Só que o não hei-de ter.
24/08/1932
Se existe em meu coração
Qualquer coisa que tem pressa
Terá pressa em vão.
Nada que sou me pertence.
Se existo em quem me conheço
Qualquer coisa que me vence
Depressa a esqueço.
Nada que sou eu serei.
Sonho, e só existe em meu ser,
Um sonho do que terei.
Só que o não hei-de ter.
24/08/1932
4 478
1
Fernando Pessoa
Há música. Tenho sono
Há música. Tenho sono.
Tenho sono com sonhar.
Estou num longínquo abandono
Sem me sentir nem pensar.
A música é pobre mas
Não será mais pobre a vida?
Que importa que eu durma? Faz
Sono sentir a descida.
25/03/1928
Tenho sono com sonhar.
Estou num longínquo abandono
Sem me sentir nem pensar.
A música é pobre mas
Não será mais pobre a vida?
Que importa que eu durma? Faz
Sono sentir a descida.
25/03/1928
4 160
1
Fernando Pessoa
Meu coração esteve sempre
Meu coração esteve sempre
Sozinho. Morri já...
Para que é preciso um nome?
Fui eu a minha sepultura.
1928
Sozinho. Morri já...
Para que é preciso um nome?
Fui eu a minha sepultura.
1928
4 328
1
Fernando Pessoa
TÉDIO
TÉDIO
Não vivo, mal vegeto, duro apenas,
Vazio dos sentidos porque existo;
Não tenho infelizmente sequer penas
E o meu mal é ser (alheio Cristo)
Nestas horas doridas e serenas
Completamente consciente disto.
12/05/1910
Não vivo, mal vegeto, duro apenas,
Vazio dos sentidos porque existo;
Não tenho infelizmente sequer penas
E o meu mal é ser (alheio Cristo)
Nestas horas doridas e serenas
Completamente consciente disto.
12/05/1910
7 354
1
Fernando Pessoa
Sereno aguarda o fim que pouco tarda.
Sereno aguarda o fim que pouco tarda.
Que é qualquer vida? Breves sóis e sono.
Quanto pensas emprega
Em não muito pensares.
Ao nauta o mar obscuro é a rota clara.
Tu, na confusa solidão da vida,
A ti mesmo te elege
(Não sabes de outro) o porto.
31/07/1932
Que é qualquer vida? Breves sóis e sono.
Quanto pensas emprega
Em não muito pensares.
Ao nauta o mar obscuro é a rota clara.
Tu, na confusa solidão da vida,
A ti mesmo te elege
(Não sabes de outro) o porto.
31/07/1932
2 706
1
Fernando Pessoa
É uma brisa leve
É uma brisa leve
Que o ar um momento teve
E que passa sem ter
Quase por tudo ser.
Quem amo não existe.
Vivo indeciso e triste.
Quem quis ser já me esquece
Quem sou não me conhece.
E em meio disto o aroma
Que a brisa traz me assoma
Um momento à consciência
Como uma confidência.
18/05/1922
Que o ar um momento teve
E que passa sem ter
Quase por tudo ser.
Quem amo não existe.
Vivo indeciso e triste.
Quem quis ser já me esquece
Quem sou não me conhece.
E em meio disto o aroma
Que a brisa traz me assoma
Um momento à consciência
Como uma confidência.
18/05/1922
6 127
1
Fernando Pessoa
Eis-me em mim absorto
Eis-me em mim absorto
Sem o conhecer
Bóio no mar morto
Do meu próprio ser.
Sinto-me pesar
No meu sentir-me água...
Eis-me a balancear
Minha vida-mágoa.
Barco sem ter velas...
De quilha virada...
O céu com estrelas
É frio como espada.
E eu sou vento e céu...
Sou o barco e o mar...
Só que não sou eu...
Quero-o ignorar.
12/05/1913
Sem o conhecer
Bóio no mar morto
Do meu próprio ser.
Sinto-me pesar
No meu sentir-me água...
Eis-me a balancear
Minha vida-mágoa.
Barco sem ter velas...
De quilha virada...
O céu com estrelas
É frio como espada.
E eu sou vento e céu...
Sou o barco e o mar...
Só que não sou eu...
Quero-o ignorar.
12/05/1913
4 735
1
Fernando Pessoa
Mendigo do que não conhece,
Mendigo do que não conhece,
Meu ser na estrada sem lugar
Entre estragos amanhece...
Caminha só sem procurar.
1924
Meu ser na estrada sem lugar
Entre estragos amanhece...
Caminha só sem procurar.
1924
4 603
1
Português
English
Español