Saudade e Ausência

Poemas neste tema

Luís Filipe de Castro Mendes

Luís Filipe de Castro Mendes

Música Calada

Dizias que nos sobram as palavras:
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar.

E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar.

Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar
452
Fernando Fitas

Fernando Fitas

Deitado foi teu corpo

Deitado foi teu corpo
sobre a cama
na comunhão efémera
dos corpos,
na generosa entrega acontecida

E dilatando-se um corpo
noutro corpo
foi mais intensa
e mais sublime a dádiva,
foi mais belo e verdadeiro o amor

Deitado foi teu corpo
sobre a cama
onde hoje jaz inerte
o pó do tempo.
648
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Foi-S'um Dia Meu Amigo Daqui

Foi-s'um dia meu amigo daqui
e nom me viu, e porque o nom vi,
       madre, ora morrerei.

Quando m'el viu, nom foi polo seu bem,
ca morre agora por mi e por en,
       madre, ora morrerei.

Foi-s'el daqui e nom m'ousou falar
nem eu a el, e por en com pesar,
       madre, ora morrerei.
445
Fernão Garcia Esgaravunha

Fernão Garcia Esgaravunha

Se Deus Me Leixe de Vós Bem Haver

Se Deus me leixe de vós bem haver,
senhor fremosa, nunca vi prazer
       des quando m'eu de vós parti.

E fez-mi o voss'amor tam muito mal,
que nunca vi prazer de mim, nem d'al,
       des quando m'eu de vós parti.

Houv'eu tal coita no meu coraçom
que nunca vi prazer, se ora nom,
       des quando m'eu de vós parti.
639
Paio Gomes Charinho

Paio Gomes Charinho

Ai Santiago, Padrom Sabido

Ai Santiago, padrom sabido,
vós mi adugades o meu amigo;
       sobre mar vem quem frores d'amor tem;
       mirarei, madre, as torres de Jeen.

Ai Santiago, padrom provado,
vós mi adugades o meu amado;
       sobre mar vem quem frores d'amor tem;
       mirarei, madre, as torres de Jeen.
587
Martim Codax

Martim Codax

Ai Ondas Que Eu Vim Veer

Ai ondas que eu vim veer,
se me saberedes dizer
       por que tarda meu amigo sem mim?

Ai ondas que eu vim mirar,
se me saberedes contar
       por que tarda meu amigo sem mim?
1 322
Juião Bolseiro

Juião Bolseiro

Nom Perdi Eu, Meu Amigo, Des Que Me de Vós Parti

Nom perdi eu, meu amigo, des que me de vós parti,
do meu coraçom gram coita, nem gram pesar, mais perdi
       quanto tempo, meu amigo,
       vós nom vivestes comigo.

Nem perderam os olhos meus chorar nunca, nem eu mal,
des que vos vós daqui fostes, mais vedes que perdi al:
       quanto tempo, meu amigo,
       vós nom vivestes comigo.
687
Juião Bolseiro

Juião Bolseiro

Nas Barcas Novas Foi-S'o Meu Amigo Daqui

Nas barcas novas foi-s'o meu amigo daqui,
e vej'eu viir barcas e tenho que vem i,
       mia madre, o meu amigo.

Atendamos, ai madr', e sempre vos querrei bem,
ca vejo viir barcas e tenho que i vem,
       mia madre, o meu amigo.

Nom faç'eu desguisado, mia madr', em o cuidar,
ca nom podia muito sem mi alhur morar,
       mia madre, o meu amigo.
625
João Soares Coelho

João Soares Coelho

Ai Deus, a Vó'lo Digo

Ai Deus, a vó'lo digo:
foi s'ora o meu amigo;
       e se o verei, velida?

Quem m'end'ora soubesse
verdad'e mi dissesse
       e se o verei, velida?

Foi-s'el mui sem meu grado
e nom sei eu mandado;
       e se o verei, velida?

Que fremosa que sejo,
morrendo com desejo;
       e se o verei, velida?
767
João Soares Coelho

João Soares Coelho

Ai Meu Amigo, Se [Vós] Vejades

Ai meu amigo, se [vós] vejades
prazer de quanto no mund'amades:
       levade-me vosc', amigo.

Por nom leixardes mi, bem talhada,
viver com'hoj'eu vivo coitada,
       levade-me vosc', amigo.

Por Deus, filhe-xi-vos de mim doo;
melhor iredes migo ca soo:
       levade-me vosc', amigo.
362
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Ir-Vos Queredes, Amigo

Ir-vos queredes, amigo,
daqui, por me fazer pesar,
e, pois vos queredes quitar
daqui, vedes que vos digo:
       quitade bem o coraçom
       de mim, e ide-vos entom.

E pois vos ides, sabiades
que nunca maior pesar vi,
e, pois vos queredes daqui
partir, vedes que façades:
       quitade bem o coraçom
       de mim, e ide-vos entom.
626
Bernal de Bonaval

Bernal de Bonaval

Diss'a Fremosa Em Bonaval Assi

Diss'a fremosa em Bonaval assi:
"Ai Deus, u é meu amigo daqui
       de Bonaval?

Cuid'eu, coitad'é no seu coraçom,
porque nom foi migo na sagraçom
       de Bonaval.

Pois eu migo seu mandado nom hei,
já m'eu leda partir nom poderei
       de Bonaval.

Pois m'aqui seu mandado nom chegou,
muito vim eu mais leda ca me vou
       de Bonaval".
603
Bernal de Bonaval

Bernal de Bonaval

A Bonaval Quer'eu, Mia Senhor, Ir

A Bonaval quer'eu, mia senhor, ir
e des quand'eu ora de vós partir
       os meus olhos nom dormirám.

Ir-m'-ei, pero m'é grave de fazer;
e des quand'eu ora de vós tolher
       os meus olhos nom dormirám.

Todavia bem será de provar
de m'ir; mais des quand'eu de vós quitar
       os meus olhos nom dormirám.
703
Afonso Mendes de Besteiros

Afonso Mendes de Besteiros

Que Sem Meu Grado Me Parti

Que sem meu grado me parti
de mia senhor e do meu bem,
que quero melhor doutra rem!
E em grave dia naci
por eu nunca poder veer,
poila nom vi, nẽum prazer!
[...]
529
Afonso X

Afonso X

Ai Eu Coitada, Como Vivo Em Gram Cuidado

Ai eu coitada, como vivo em gram cuidado
por meu amigo que hei alongado;
       muito me tarda
       o meu amigo na Guarda.

Ai eu coitada, como vivo em gram desejo
por meu amigo que tarda e nom vejo;
       muito me tarda
       o meu amigo na Guarda.
1 241
Virgílio Martinho

Virgílio Martinho

Estar Longe do Verde Prado

Estar longe do verde prado
onde as vacas ruminam ais.
Estar longe da égua ciosa
que corre veloz nos pinhais.

Estar longe, cada vez mais,
da laranja que verteu sumo.
Estar longe do por onde vais,
que tudo, mas tudo, acabou fumo.
864
Wenceslau de Morais

Wenceslau de Morais

A dor, minha constante companheira

A dor, minha constante companheira, 
Votei íntimos laços de amizade.
Se hoje encetasse a 'strada das venturas, 
Crede, talvez morresse de Saudade...
637
Renato Rezende

Renato Rezende

A Boca

Quando, deitada na cama, me inclino
para beijar
suspirando
minha almofada;
o quê, quem, que boca
(delicadamente
delicadamente beijada)
estou beijando?


Boston, novembro 1990
895
Luís Quintais

Luís Quintais

Passos

Escutaste os passos
no quarto
semi-escurecido
pela tua derrota?

Não eram teus,
mas do que amaste:

os passos
do que esqueces.
737
Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

TERCETO

Não há matéria para se fazer a tristeza
nessa manhã, manhã perfeita
se a mão que me deu maio fosse a tua.
739
Saúl Dias

Saúl Dias

Interrogação

Sim, preferi deixar-te,
abandonando
a dádiva de encontrar-te.

Quem eras afinal?
Qual a estrela que te guiava?
Qual a cor dos teus dias?
Qual o segredo que em ti eu tentei desvendar?

Abandonei-te.
No entanto,
na minha vida
talvez fosses o leite
capaz de me curar.
534
Saúl Dias

Saúl Dias

Sofro de não te ver

Sofro
de não te ver,
de perder
os teus gestos
leves, lestos,
a tua fala
que o sorriso embala,
a tua alma
límpida, tão calma…

Sofro
de te perder,
durante dias que parecem meses,
durante meses que parecem anos…

Quem vem regar o meu jardim de enganos,
tratar das árvores de tenrinhos ramos?
545
Saúl Dias

Saúl Dias

Sofro de não te Ver

Sofro
de não te ver,
de perder
os teus gestos
leves, lestos,
a tua fala
que o sorriso embala,
a tua alma
límpida, tão calma...

Sofro
de te perder,
durante dias que parecem meses,
durante meses que parecem anos...

Quem vem regar o meu jardim de enganos,
tratar das árvores de tenrinhos ramos?
567
Armando Cortes-Rodrigues

Armando Cortes-Rodrigues

Canção do Mar Aberto

Onde puseram teus olhos
A mágoa do teu olhar?
Na curva larga dos montes
Ou na planura do mar?

De dia vivi este anseio;
De noite vem o luar,
Deixa uma estrada de prata
Aberta para eu passar.

Caminho por sobre as ondas
Não paro de caminhar.
O longe é sempre mais longe…
Ai de mim se me cansar!...

Morre o meu sonho comigo,
Sem te poder encontrar
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