Sabedoria

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Toda a noite ouvi os cães

Toda a noite ouvi os cães
P’ra manhã ouvi os galos.
Tristeza — vem ter connosco.
Prazeres — é ir achá-los.
1 286
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

I - We pass and dream. Earth smiles. Virtue is rare.

I

We pass and dream. Earth smiles. Virtue is rare.
Age, duty, gods weigh on our conscious bliss.
Hope for the best and for the worst prepare.
The sum of purposed wisdom speaks in this.
1 223
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

THE GIANT’S REPLY

I met a giant upon my way;
        He looked more wise than Nature.
«Tell me some truth», thus my tongue did betray
        My soul so that more than creature.
- «There is but one's, in an old voice strange
        He cried: «things are more, I say,
Than Time in which they seem to change
And than Space that seems more than they».
1 237
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quisera ter

Quisera ter
Isso que escuramente em mim aspiro:
O pensamento abrangedor de tudo
Numa compreensão única e funda.
Todo o contido em artes, letras, todas
As leis no fundo do universo nadas
Que regem       (...)       até a história
Em modalizações(...)

Era isto que eu, num pensamento único,
Abrangedor, quisera compreender.
912
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quanto mais fundamente penso, mais

Quanto mais fundamente penso, mais
Profundamente me descompreendo.
O saber é a inconsciência de ignorar,
Mesmo quem sabe muito nada sabe.

Quanto mais fundamente penso, sim,
Mais fundamente me sinto ignorar,
Mais fundamente sinto alguma coisa
Além do que profundamente penso.
E é isto que dizer me faz: eu penso
Profundamente.
1 702
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ver as coisas até ao fundo...

Ver as coisas até ao fundo...
E se as coisas não tiverem fundo?

Ah, que bela a superfície!
Talvez a superfície seja a essência
E o mais que a superfície seja o mais que tudo
E o mais que tudo não é nada.

Ó face do mundo, só tu, de todas as faces,
És a própria alma que reflectes
1 370
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

15a Estas quatro canções, escrevi-as estando doente.

[XVa]

Estas quatro canções, escrevi-as estando doente.
Agora ficaram escritas e não penso mais nelas.
Gozemos, se pudermos, a nossa doença,
Mas nunca a achemos saúde,
Como os homens fazem.

O defeito dos homens não é serem doentes:
É chamarem saúde à sua doença,
E por isso não buscarem a cura
Nem realmente saberem o que é saúde e doença.
1 329
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aceita o universo

Aceita o universo
Como to deram os deuses.
Se os deuses te quisessem dar outro
Ter-to-iam dado.

Se há outras matérias e outros mundos
Haja.
1 859
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vale a pena ser discreto?

Vale a pena ser discreto?
Não sei bem se vale a pena.
O melhor é estar quieto
E ter a cara serena.
3 978
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Luis Calvo

vulgo O Suficiente

Aqui se encontra sob a terra um sábio
cuja esterilidade produziu muito.

508
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Tomás Elías, vulgo O Doutor

Aqui jaz um acadêmico cuja saberdoria
o levou a cultivar a ignorância
baseando-se no conhecimento.
Passante, não ponhas flores em seu túmulo,
ele não as entenderia.

696
Abul ʿAla Al-Maʿarri

Abul ʿAla Al-Maʿarri

Erram todos – judeus, cristãos,

Erram todos – judeus, cristãos,
muçulmanos e masdeístas:
A humanidade segue duas seitas:
Uma: pensadores sem religião,
Outra: religiosos sem cabeça.
680
Abul ʿAla Al-Maʿarri

Abul ʿAla Al-Maʿarri

Abandona a mesquita e evita louvor

Abandona a mesquita e evita louvor,
Preces inúteis, sacrifício de ovelhas,
Pois o Destino trará cálice de sono
Ou cálice de insônia. O que vier, beba.

682
Isabel Câmara

Isabel Câmara

Ilógica

Só quem sabe a Idade do Ferro
é a Bigorna que o modifica


908
Emily Dickinson

Emily Dickinson

543

Temo o Homem de pouca Fala –
Temo o Homem que Cala –
Ao Orador – posso aturar –
Ao Tagarela – entreter –
Mas O que pondera – Enquanto o Restante –
Esbanja até o derradeiro tostão –
Desse Homem – desconfio –
E temo que seja Grande –
948
Ada Ciocci

Ada Ciocci

Ode à palavra

O tempo jamais conseguirá desfazer
a essência de tua fortaleza,
já que és do cosmo absoluto

e
da troca de idéias entre os homens,
o fundamento.
E, ainda que,
bastando-se,
e,
infinitamente sendo tu,
realidade,
verdade,
ciência,
alma,
corpo,
dogma,
mito,
e,
não tendo infinito,
ocupas lugar primeiro,
na VIDA
971
Paulo Bomfim

Paulo Bomfim

XXIII [A linguagem do eterno

A linguagem do eterno
Principia no efêmero.
Em nosso mar
A intuição é pérola.


Poema integrante da série Prelúdios de Inverno.

In: BOMFIM, Paulo. Sinfonia branca. São Paulo: Martins, 1955
1 451
Paulo Leminski

Paulo Leminski

saber é pouco

saber é pouco
como é que a água do mar
entra dentro do coco?

2 616
Paulo Leminski

Paulo Leminski

MALLARMÉ BASHÔ

um salto de sapo
jamais abolirá
o velho poço

3 063
Paulo Leminski

Paulo Leminski

Aço e Flor

Quem nunca viu
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz.

4 173
Felipe Vianna

Felipe Vianna

VIDA E DEUS


A melhor maneira de ver a vida é
Fechar os olhos.
A melhor maneira de ver Deus é
Fazendo algo.

24/10/2000

548
Fernando Fabião

Fernando Fabião

Em Louvor do Silêncio

Em louvor
do silencio
Lembro os peixes mudos percorrendo o sono
Um fruto que cai grave
No corpo da terra

Lembro o aroma das glicínias
O murmúrio dos mortos povoando as casas
Os versos obscuros onde habita a delicadeza do amor.
É nos estilhaços do mundo
Que o indizível se escreve
Invade as folhas, as mãos pousadas na orla do mar.

885
Angela Santos

Angela Santos

Asas

Do
cimo de uma falésia
olhou com olhos despidos de mágoa
dentro do sonho suspenso no tempo

e fez dos gestos um grito
de encontro ao silencio
dos que o olhavam.

Olhos abertos ao devir
e ao sonho,
esfinge resistindo ao tempo
afrontando o vago de almas
e o olhar sem deslumbre,
ao chão da evidência preso.

697
Almandrade

Almandrade

V

O universo é incerto
sob meus pés
infinito como a língua
rebelde
uma cidade
na inmensidão da fala
sábios em silêncio
escutando a melodia
de um inseto
e o sopro do mar.

902