Paixão

Poemas neste tema

Carlito Azevedo

Carlito Azevedo

BANHISTA

Apenas
em frente
ao mar
um dia de verão -
quando tua voz
acesa percorresse,
consumindo-o,
o pavio de um verso
até sua última
sílaba inflamável -
quando o súbito
atrito de um nome
em tua memória te
incendiasse os cabelos -
(e sobre tua pele
de fogo a
brisa fizesse
rasgaduras
de água)
738
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A Arnaldo Vasconcelos, Respondendo À Pergunta: "quanto Mede e Quanto Pesa o Seu Coração?"

Quanto mede e quanto pesa,
Arnaldo, o meu coração?
Depende da ocasião:
É às vezes bem pequenino
E pesa mais do que um sino,
Pesa como uma paixão.
1 097
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Teu Nome

Teu nome, voz das sereias,
Teu nome, o meu pensamento,
Escrevi-o nas areias,
Na água — escrevi-o no vento.
1 466
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Ao nosso

Sentir teu pau crescer
depois do beijo
por entre o pano da calça
do lençol
da minha saia
delicada membrana entre nós dois
tecido
como hímen complacente
que cede
e que consente ao teu desejo.
1 035
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A Fina, a Doce Ferida...

A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo
Deixou quebranto amoroso
Na cicatriz dolorida.

Pois que ardor pecaminoso
Ateou a esta alma perdida
A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo!

Como uma adaga partida
Punge o golpe voluptuoso...
Que no peito sem repouso
Me arderá por toda a vida
A fina, a doce ferida...
1 139
Marina Colasanti

Marina Colasanti

INSTRUMENTO SEM SOM

Tua nuca macha
cachos
e os músculos das costas
cordas
retesadas em curva 
que as unhas tangem,
calada música
vibrando
em minhas coxas.
1 174
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Coisas da Primavera

O que fazer contigo loira primavera
que me chegas entreabrindo o mel das coxas?
O equinócio de tuas ancas me ilumina
a corola de tua boca tem zumbidos
e a cabeleira luminosa aflora
enquanto tuas pupilas me devoram.
1 090
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Pedes Explicação

Pedes explicações, que não sei dar,
sobre meu jeito de amar.
Soubesse das razões porque te amo
deste modo
poderia também me apaziguar.
Sou assim:
um gato na poltrona aos teus pés
ou um tigre que, faminto,
carinhosamente
– vem te devorar.
953
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Amor

Oh amor, oh vitória de tua cabeleira agregando a minha vida
a velocidade da música que se eletrizou na tormenta
e fora do âmbito puro que se desenvolve queimando
aquelas raízes cobertas pela poeira do tempo
contigo, amorosa, viveram o dia de chuva remota
e meu coração recebeu teu palpitar palpitando.
958
José Saramago

José Saramago

Sarcasmo de D. João No Inferno

Contra mim, D. João, que pode o inferno,
Que pode o céu e todo o mais que houver?
Nem Deus nem o Diabo amaram nunca
Desse amor que junta homem a mulher:
De pura inveja premeiam ou castigam,
Acredite, no resto, quem quiser.
741
José Saramago

José Saramago

Lamento de D. João No Inferno

Das ameaças do céu me não temi
Quando da terra as leis desafiei:
O lugar dos castigos é aqui,
Do céu nada conheço, nada sei.
O cilício do Diabo não me cinge,
Nem a mercê de Deus aqui me segue:
A chama mais ardente é a que finge
Este cheiro de mulher que me persegue.
1 188
José Saramago

José Saramago

Aspa

Sobre o leito desmanchado te derrubo,
Onde atiças o desejo que acendi.
À glória do teu corpo, de mim, subo:
Não cantam anjos, mas do céu bem perto,
De um suor de agonia recoberto,
Tudo se cumpre na aspa que escolhi.
1 138
José Saramago

José Saramago

Branco o Teu Peito

Branco o teu peito, ou sob a pele doirado?
E os agudos cristais, ou rosas encrespadas
Como acesos sinais na fortuna do seio?
Que morangos macios, que sede inconformada,
Que vertigem nas dunas que se alteiam
Quando o vento do sangue dobra as águas
E em brancura vogamos, mortos de oiro.
1 030
José Saramago

José Saramago

Onde

Onde os olhos se fecham; onde o tempo
Faz ressoar o búzio do silêncio;
Onde o claro desmaio se dissolve
No aroma dos nardos e do sexo;
Onde os membros são laços, e as bocas
Não respiram, arquejam violentas;
Onde os dedos retraçam novas órbitas
Pelo espaço dos corpos e dos astros;
Onde a breve agonia; onde na pele
Se confunde o suor; onde o amor.
1 053
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Barcarola

Parti-me, trágico, ao meio
De mim mesmo, na paixão.
A amiga mostrou-me o seio
Como uma consolação.

Dormi-lhe no peito frio
De um sono sem sonhos, mas
A carne no desvario
Da manhã, roubou-me a paz.

Fugi, temeroso ao gesto
Do seu receio modesto
E cálido; enfim, depois

Pensando a vida adiante
Vi o remorso distante
Desse crime de nós dois.
970
Martha Medeiros

Martha Medeiros

se tocar James Brown e eu estiver de vermelho

se tocar James Brown e eu estiver de vermelho
se for madrugada e você meio bêbado
se não for o Brooklin mas parecido
me chame de baby
me rasgue o vestido
1 050
Martha Medeiros

Martha Medeiros

dois, quatro, seis, oito

dois, quatro, seis, oito
o par é tranquilizante


um, três, cinco, sete
o ímpar é o amante
978
Martha Medeiros

Martha Medeiros

gosto do jeito de amar a cavalo

gosto do jeito de amar a cavalo
solto as rédeas e me entrego
não nego nada a um puro-sangue
1 054
Martha Medeiros

Martha Medeiros

fica combinado assim

fica combinado assim
você louco por mim
eu louca até o fim
1 150
Martha Medeiros

Martha Medeiros

era uma vez uma foto em preto e branco

era uma vez uma foto em preto e branco
em que eu me via fumando um charo
com o olho vidrado em você
minhas mãos tinham algo de estátua
mas a cabeça vibrava que eu via


a boca entreaberta pedia
um beijo pra me tatuar
980
Martha Medeiros

Martha Medeiros

descubro meus vícios assim

descubro meus vícios assim
cheguei na cabana e pensei
sem tevê eu não fico
sem você eu não vivo
993
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Childe Harold — Canto Quarto

I

Era sombrio arrogante belo e coxo
Perseguido
Pela insondável paixão do mais vedado
E amava unicamente o mais perdido

Mulheres de longos cabelos negros
Ou leves finas etéreas loiras musas
Pasmavam ensombradas
Ante a palidez lendária do seu rosto

Ele porém buscava os olhos da gazela
Ou Estrela d’Alva da manhã antiga
Ou o clarão feroz da face proibida
II

Tinha vindo para o Sul
Em perfumados jardins
Em negras luminosas noites
Perseguindo como um tigre a própria fome
Rondava o silêncio
Arrebatado convocava
O poema escrito para habitar a vida

Entre colunas lagos e suspiros
Erguia o jogo e o canto das palavras:
«Das filhas da beleza nem só uma
Trouxe magia assim
És quem desliza e canta à flor da água
Música e água é tua voz para mim

Em beleza te moves como a noite
Deste país — escura e cintilante
E em teus gestos e teus olhos se combinam
O que é mais sombrio e mais brilhante»*
III

À beira da laguna onde se espelham
Narcísicos palácios cor-de-rosa
Alta noite a si próprio se inventava

D. Juan foi em Veneza sua máscara

— Escutando o dedilhar da laguna nos degraus
De pedra
Tecia intrincadas e teatrais
Conquistas
Que as cartas contavam aos amigos longínquos
Em calculada e ingénua exibição:
Vivia até ao ponto extremo
Seu modo particular d’ironia e paixão

Queria ser quem era
Gravar para sempre
A sua imagem em todos os espelhos
IV

Sonhava-se quem era:
— Lord que foi d’Escócias de outras eras
Werther fatal e não
O sensato pai de Werther
Príncipe da Aquitânia da abolida torre
Ou pirata sem pátria e sem regresso
* As estrofes entre aspas são glosas do poema de Byron «There be none of Beauty’s daughters».
1 167
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Morte

Que triângulo ou círculo poderá cercar-te
Para que te detenhas demorada e minha
Para que não desças toda pela escada
1 187
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iii. (Antinoos)

Noite diurna
Até à mais funda limpidez do instinto
Sob os teus cabelos em anel sombria vinha
Corpo terrestre e solene como o azul mais aceso da montanha
O quase imóvel fogo dos teus beiços
Pesa como o fruto pleno no rumor de brisa da árvore
Porta aberta para toda a natureza
É através de ti que os meus rios caminham como veias
Novilho de testa curta no secreto silêncio do bosque
Sobre os teus ombros poisa terrível o meio-dia
Do divino celebrado no terrestre
1 034