Nostalgia
Poemas neste tema
Olegario Schmitt
Imagens
Naquele prado verde
onde nunca estive
tem uma árvore, que nunca vi,
mais abaixo uma fonte
da qual quero beber
um riacho e o banho
o banho
o banho no riacho...
Que mais posso sentir
senão querer lá estar?
onde nunca estive
tem uma árvore, que nunca vi,
mais abaixo uma fonte
da qual quero beber
um riacho e o banho
o banho
o banho no riacho...
Que mais posso sentir
senão querer lá estar?
871
Teruko Oda
Outono
Volto a ser criança
Em cada trouxinha de palha
Que esconde a pamonha!
No céu cristalino
A lua cheia de outono
parece sorrir.
Em cada trouxinha de palha
Que esconde a pamonha!
No céu cristalino
A lua cheia de outono
parece sorrir.
1 175
Maria de Lourdes Hortas
Página de Diário
Assim que, aportando, a primavera
trouxe o rastro de rosas e andorinhas
à janela do quarto onde habito
trouxe também a pomba que, noturna
vigilante velou do parapeito
minha saudade da janela antiga
de um quarto onde dormia, bem-amada
enquanto as pombas lá fora iam ruflando
as asas que abriam a madrugada.
trouxe o rastro de rosas e andorinhas
à janela do quarto onde habito
trouxe também a pomba que, noturna
vigilante velou do parapeito
minha saudade da janela antiga
de um quarto onde dormia, bem-amada
enquanto as pombas lá fora iam ruflando
as asas que abriam a madrugada.
973
Micheliny Verunschk
Grindley
Os meninos
da rua velha
querem seda colorida
para povoar os azuis
da xícara clara
de pipas.
Também
balões multicores
e aladas traquinagens
querem os meninos tafuis
do pires
de bordas douradas
(Os meninos
da rua velha:
ladrões do tempo
— crianças —
senhores de prata e luz
gravados na porcelana).
da rua velha
querem seda colorida
para povoar os azuis
da xícara clara
de pipas.
Também
balões multicores
e aladas traquinagens
querem os meninos tafuis
do pires
de bordas douradas
(Os meninos
da rua velha:
ladrões do tempo
— crianças —
senhores de prata e luz
gravados na porcelana).
1 038
Marta Gonçalves
O Vento no Rosto
Descalços, andávamos no campo,
molhávamos os pés na relva verde.
Íamos atrás do vento.
Sentávamos, todas as tardes, no alpendre,
a olhar os passarinhos
apanhando migalhas.
- Esperando encontrar o que nos resta
do corpo.
molhávamos os pés na relva verde.
Íamos atrás do vento.
Sentávamos, todas as tardes, no alpendre,
a olhar os passarinhos
apanhando migalhas.
- Esperando encontrar o que nos resta
do corpo.
987
Marta Gonçalves
Meninas de Tamancos
Cirandas jogando tempo
em calçadas antigas
Meninas de tamancos
rodando pião
Alecrim crescendo na janela
O estafeta visitando
velhas casas
Maria das Dores fugindo no sol
O barulho da memória acorda a alma.
em calçadas antigas
Meninas de tamancos
rodando pião
Alecrim crescendo na janela
O estafeta visitando
velhas casas
Maria das Dores fugindo no sol
O barulho da memória acorda a alma.
1 094
Jorge Lescano
Verão
Estrelas cadentes?
Em torno do abajur
as mariposinhas.
Saudades da infância
nos longos dia de verão.
À noite, insônia.
Em torno do abajur
as mariposinhas.
Saudades da infância
nos longos dia de verão.
À noite, insônia.
906
Luiz Fernandes da Silva
Carrossel
Em cada rodada
o frio de lembrança
dos dias de infância.
Em cada cavalinho
as reminiscências da fantasia.
Em cada curva
novas ânsias e
enigma da sorte.
Em cada olhar
a liberdade e
o adeus aos sonhos.
Em cada salto,
o impacto, a queda
o frio de lembrança
dos dias de infância.
Em cada cavalinho
as reminiscências da fantasia.
Em cada curva
novas ânsias e
enigma da sorte.
Em cada olhar
a liberdade e
o adeus aos sonhos.
Em cada salto,
o impacto, a queda
1 115
Gláucia Lemos
Conta-se um Tempo
Conta-se que houve um tempo
breve tempo
em que para cada emoção se fez um poema.
Como tudo o que é belo é também frágil
conta-se também que esse tempo
foi um breve tempo.
breve tempo
em que para cada emoção se fez um poema.
Como tudo o que é belo é também frágil
conta-se também que esse tempo
foi um breve tempo.
1 046
J. Anderson
Invenção do Vento
No casarão vazio...
Uma canção triste
Esquecida numa vitrola,
Despertou a nostalgia.
E o vento...
Inventou de trazer lembranças.
Uma canção triste
Esquecida numa vitrola,
Despertou a nostalgia.
E o vento...
Inventou de trazer lembranças.
1 044
Fernanda Benevides
Afagando Sonhos
Meu coração afaga sonhos.
Sonhos despedaçados.
Coisas do passado
acariciam o presente.
Abraço ilusões vãs.
Lembranças fazem cócegas na
memória,
até quando, não sei...
Afagando sonhos, alimento a alma.
Sacio a sede das madrugadas...
Sonhos despedaçados.
Coisas do passado
acariciam o presente.
Abraço ilusões vãs.
Lembranças fazem cócegas na
memória,
até quando, não sei...
Afagando sonhos, alimento a alma.
Sacio a sede das madrugadas...
707
Castro Alves
Numa Página
(Do álbum de desenho do autor)
Horas de tédio ou de amorosa espr’ança,
— Meteoros da vida!... errantes astros!...
Fugi!... porém que fique uma lembrança!
Passai!... deixando os perfumosos rastros!...
Horas de tédio ou de amorosa espr’ança,
— Meteoros da vida!... errantes astros!...
Fugi!... porém que fique uma lembrança!
Passai!... deixando os perfumosos rastros!...
1 689
Adailton Medeiros
Cucu
(No maranhão: faz tanto tempo
— E como dói meu pensamento)
Com estria preta
tal debrum de fita
em redor do olho
lá vai voando —
no bico preto
se debate a lagarta
de jasmim ou de palmeira
( — Colorida?)
— a vela avezinha
que presente
guardo
na memória — hoje descontente
— E como dói meu pensamento)
Com estria preta
tal debrum de fita
em redor do olho
lá vai voando —
no bico preto
se debate a lagarta
de jasmim ou de palmeira
( — Colorida?)
— a vela avezinha
que presente
guardo
na memória — hoje descontente
1 126
José Honório
Foi-se a ilusão dessa vidaa minha pica morreu
Glosa:
Eu na minha mocidade
as madrugadas varava
e toda noite eu transava
nos cabarés da cidade
hoje só resta a saudade
do garanhão que fui eu
minha força se perdeu
na pica mole, encolhida
FOI-SE A ILUSÃO DESSA VIDA
A MINHA PICA MORREU.
Eu na minha mocidade
as madrugadas varava
e toda noite eu transava
nos cabarés da cidade
hoje só resta a saudade
do garanhão que fui eu
minha força se perdeu
na pica mole, encolhida
FOI-SE A ILUSÃO DESSA VIDA
A MINHA PICA MORREU.
1 288
Paul Verlaine
Chanson dautomne
Chanson dautomne
Les sanglots longs
Des violons
De lautomne
Blessent mon coeur
Dune langueur
Monotone.
Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne lheure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure
Et je men vais
Au vent mauvais
Qui memporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.
Les sanglots longs
Des violons
De lautomne
Blessent mon coeur
Dune langueur
Monotone.
Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne lheure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure
Et je men vais
Au vent mauvais
Qui memporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.
1 348
Juan-Eduardo
Te conozco
Eres aquella niña
que jugaba con vidrios y violetas,
mientras el horizonte enloquecido
se ponía muy pálido.
Eres aquella niña
que miraba conmigo en un estanque
la lenta aparición de los inviernos
celestemente blancos.
Eres aquella niña
que veñia por un camino muerto
cantando dulcemente,dulcemente,
debajo del ocaso.
que jugaba con vidrios y violetas,
mientras el horizonte enloquecido
se ponía muy pálido.
Eres aquella niña
que miraba conmigo en un estanque
la lenta aparición de los inviernos
celestemente blancos.
Eres aquella niña
que veñia por un camino muerto
cantando dulcemente,dulcemente,
debajo del ocaso.
804
Albano Dias Martins
Dêem-me
um arco e recriarei a infância,
os tordos sob a neve,
o rio sob as tábuas.
Dêem-me
a chuva e a gávea
duma figueira,
a flor dos eucaliptos,
um agapanto de água.
in:Vertical
o Desejo(1985)
os tordos sob a neve,
o rio sob as tábuas.
Dêem-me
a chuva e a gávea
duma figueira,
a flor dos eucaliptos,
um agapanto de água.
in:Vertical
o Desejo(1985)
1 145
Fernando Pessoa
Ah, quero as relvas e as crianças!
Ah, quero as relvas e as crianças!
Quero o coreto com a banda!
Quero os brinquedos e as danças –
A corda com que a alma anda.
Quero ver todas brincar
Num jardim onde se passa,
Para ver se posso achar
Onde está minha desgraça.
Ah, mas minha desgraça está
Em eu poder querer isto –
Poder desejar o que há.
(...)
22/08/1934
Quero o coreto com a banda!
Quero os brinquedos e as danças –
A corda com que a alma anda.
Quero ver todas brincar
Num jardim onde se passa,
Para ver se posso achar
Onde está minha desgraça.
Ah, mas minha desgraça está
Em eu poder querer isto –
Poder desejar o que há.
(...)
22/08/1934
4 389
Fernando Pessoa
Começa, no ar da antemanhã,
Começa, no ar da antemanhã,
A haver o que vai ser o dia.
É uma sombra entre as sombras vã.
Mais tarde, quanto é a manhã
Agora é nada, noite fria.
É nada, mas é diferente
Da sombra em que a noite está;
E há nela já a nostalgia
Não do passado, mas do dia
Que é afinal o que será.
12/09/1934
A haver o que vai ser o dia.
É uma sombra entre as sombras vã.
Mais tarde, quanto é a manhã
Agora é nada, noite fria.
É nada, mas é diferente
Da sombra em que a noite está;
E há nela já a nostalgia
Não do passado, mas do dia
Que é afinal o que será.
12/09/1934
3 663
Fernando Pessoa
Verdadeiramente
Verdadeiramente
Nada em mim sinto.
Há uma desolação
Em quanto eu sinto.
Se vivo, parece que minto.
Não sei do coração.
Outrora, outrora
Fui feliz, embora
Só hoje saiba que o fui.
E este que fui e sou,
Margens, tudo passou
Porque flui.
06/04/1934
Nada em mim sinto.
Há uma desolação
Em quanto eu sinto.
Se vivo, parece que minto.
Não sei do coração.
Outrora, outrora
Fui feliz, embora
Só hoje saiba que o fui.
E este que fui e sou,
Margens, tudo passou
Porque flui.
06/04/1934
4 484
Fernando Pessoa
Eram varões todos,
Eram varões todos,
Andavam na floresta
Sem motivo e sem modos
E a razão era esta.
E andando iam cantando
O que não pude ser,
Nesse tom mole e brando
Como um anoitecer.
Em querer cantar quanto
Não há nem é e dói
E que tem disso o encanto
De tudo quanto foi.
1934
Andavam na floresta
Sem motivo e sem modos
E a razão era esta.
E andando iam cantando
O que não pude ser,
Nesse tom mole e brando
Como um anoitecer.
Em querer cantar quanto
Não há nem é e dói
E que tem disso o encanto
De tudo quanto foi.
1934
4 057
Fernando Pessoa
Guardo ainda, como um pasmo
Guardo ainda, como um pasmo
Em que a infância sobrevive,
Metade do entusiasmo
Que tenho porque já tive.
Quase às vezes me envergonho
De crer tanto em que não creio.
É uma espécie de sonho
Com a realidade ao meio.
Girassol do falso agrado
Em torno do centro mudo
Fala, amarelo, pasmado
Do negro centro que é tudo.
18/04/1931
Em que a infância sobrevive,
Metade do entusiasmo
Que tenho porque já tive.
Quase às vezes me envergonho
De crer tanto em que não creio.
É uma espécie de sonho
Com a realidade ao meio.
Girassol do falso agrado
Em torno do centro mudo
Fala, amarelo, pasmado
Do negro centro que é tudo.
18/04/1931
3 585
Fernando Pessoa
Do meio da rua
Do meio da rua
(Que é, aliás, o infinito)
Um pregão flutua,
Música num grito...
Como se no braço
Me tocasse alguém
Viro-me num espaço
Que o espaço não tem.
Outrora em criança
O mesmo pregão...
Não lembres... Descansa,
Dorme, coração!...
07/10/1930
(Que é, aliás, o infinito)
Um pregão flutua,
Música num grito...
Como se no braço
Me tocasse alguém
Viro-me num espaço
Que o espaço não tem.
Outrora em criança
O mesmo pregão...
Não lembres... Descansa,
Dorme, coração!...
07/10/1930
5 417
Fernando Pessoa
Há um murmúrio na floresta,
Há um murmúrio na floresta,
Há uma nuvem e não há.
Há uma nuvem e nada resta
Do murmúrio que ainda está
No ar a parecer que há.
É que a saudade faz viver,
E faz ouvir, e ainda ver,
Tudo o que foi e acabará
Antes que tenha de o esquecer
Como a floresta esquece já.
08/03/1931
Há uma nuvem e não há.
Há uma nuvem e nada resta
Do murmúrio que ainda está
No ar a parecer que há.
É que a saudade faz viver,
E faz ouvir, e ainda ver,
Tudo o que foi e acabará
Antes que tenha de o esquecer
Como a floresta esquece já.
08/03/1931
4 915
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