Noite e Lua

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No grande espaço de não haver nada

No grande espaço de não haver nada
Que a noite finge, brilham mal os astros.
        Não há lua, e ainda bem.
Neste momento, Lídia, considero
Tudo, e um frio que não há me entra
        Na alma. Não existes.
1 318
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,

Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.
1 385
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Linda noite a desta lua,

Linda noite a desta lua,
Lindo luar o que está
A fazer sombra na rua,
Por onde ela não virá.
1 602
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Toda a noite, toda a noite,

Toda a noite, toda a noite,
Toda a noite sem pensar...
Toda a noite sem dormir
E sem tudo isso acabar.
767
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tudo se funde no movimento

Tudo se funde no movimento
(...)
E cada arbusto fitado
Nem é o terceiro que está a seguir.

A bondade da chama nocturna em casas distantes,
Os lares dos outros meras estrelas humanas na noite
A indefinida felicidade para nós de ver outros a distância.
1 396
Florbela Espanca

Florbela Espanca

As Quadras D’Ele

Em noites calmas, serenas
Quando passeia o luar,
Para sempre á tua porta
E encosta-se a chorar...

E eu que passo também
Na minha dor a cismar,
Paro ao pé dele e ficamos
Abraçados a chorar!

1 727
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Num Postal

Luar! Lírio branco que se esfolha...
Neve, que do céu, anda perdida,
Asas leves d’anjo, que pairando,
Reza pela terra adormecida...
1 854
Pedro Xisto

Pedro Xisto

ao lado da lua

ao lado da lua
neste pinheiro vetusto
uma ave noturna
861
Sandro Penna

Sandro Penna

Noite: sonho de esparsas

Noite: sonho de esparsas
janelas iluminadas.
Ouvir a clara voz
do mar. De um livro amado
ver as palavras
sumirem ... – Oh estrelas fugidias
o amor da vida!
:
Notte : sogno di sparse
finestre illuminate.
Sentir la chiara voce
dal mare. Da un amato
libro veder parole
sparire... – Oh stelle in corsa
l'amore della vita !
dePoesie (1939)
664
Wallâda bint al-Mustakfî

Wallâda bint al-Mustakfî

Quando anoitecer espera pela minha visita

Quando anoitecer espera pela minha visita
pois a noite é quem mais guarda segredo.
O que sinto por ti é tal que se fosse o Sol, não nascia,
e a lua cheia não se erguia e as estrelas deixavam de girar.
(tradução de Nádia Bentahar e André Simões,
publicada originalmente naRevista Ítaca número 2)
713
Alice Ruiz

Alice Ruiz

boca da noite

boca da noite
na calada em silêncio
grandes lábios
se abrem em sim


In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. p.16. (Cantadas literárias, 24)
1 716
Paulo Leminski

Paulo Leminski

a noite - enorme

a noite - enorme
tudo dorme
menos teu nome

2 385
Felipe Vianna

Felipe Vianna

VIDA

Dança dourado luar
No reflexo espelhado do mar.
Este amor platônico
As ondas vêm à praia chorar.

Choras porque tens consciência
Que o que tens é só referência
Já que a verdadeira lua não podes abraçar
Deves contentar-te apenas com a luz do luar.

Mas o que é a vida
Se não apenas um espelho
De uma coisa já ida
Que nunca veio.

24/06/2001

854
Yeda Prates Bernis

Yeda Prates Bernis

Hai-kais

Lavadeiras de beira-rio.
Nas águas, boiando,
cores e cantos.

Na poça dágua
o gato lambe
a gota de lua.

Pássaros em silêncio.
Noturna chave
tranca o dia.

Noite no jasmineiro.
Sobre o muro,
estrelas perfumadas.

Inúltil. A gaiola
nunca aprisiona
as penas do canto.

No porta-retrato
um tempo respira,
morto.

996
Lúcia Villares

Lúcia Villares

Lua

Lua,
me ensina essa calma
branca,
sua.
Lua,
me beija a polpa da carne,
me inscreve
a maré.
(Iluminar areia
estender a onda,
é lua.)

Lua,
me ensina
essa tua cara aberta
descosida e nua.
Sua.
Lua,
me mostra
a estação das vindas,
os cestos de trigo,
a multidão dos bóias-frias.

1 049
Angela Santos

Angela Santos

Lua

Nocturna
silenciosamente vens
ò Lua
deitar-te sobre o meu corpo
límpida e nua

Banhada de luar, assim
Já de mim não sou
mas tua

Ò lua, longe, miragem
digo o quê quando te digo?…

A que há-de vir
viva latejante
ao compasso do coração
descompassado
que vibra em mim

1 092
Angela Santos

Angela Santos

Volúpia

Noite
mansamente me convidas…
e um instante mágico
te transforma num enlace
de mulher…

E por dentro de mim
oiço só o coração…
e agitada abandono-me
à volúpia do amor na noite.
na noite…

1 108
Angela Santos

Angela Santos

Lua Prateada

Lua
poderosa, prateada lua
como um diadema
sobre a minha fronte

Lua que eu amo e me quer também
e dançando nua a dança da lua
é luz que ilumina minha noite fria

E sobre os que a amam
aos cachos derrama branca a sua luz ,
Lua prateada onde vou beber
os últimos raios que ainda
emanam ao amanhecer

1 314
Angela Santos

Angela Santos

Noite

Do
fundo da noite
se erguem meus olhos
alucinados……
salto do sonho.. e vivo

meus braços estendem-se
à transparência azul
que se acerca e julgo-me
tocada pelo infinito

Néon rasgando os meus olhos,
metamorfose de luz em mim…

Noite, noite..
teu fogo sou meu cio extingues
noite, dentro de ti
o meu sonho vive.

1 028
Eduardo Valente da Fonseca

Eduardo Valente da Fonseca

Ó vagarosa noite

Ó vagarosa noite a vir de manso
profunda e densa pela cidade toda.
A estas horas onde em outros lados
floresce amoroso o sol por sobre terras?
Ó alegria de me ser em tudo.
ó humildes irmãos do grande mundo
deitados sobre o sonho como quem
aguarda o belo tempo de haver tudo!

962
Angela Santos

Angela Santos

Casual

É
noite
uma casa ao longe,
pequenos olhos acesos
favos de gesso suspensos
na vertical

Azulejo púrpura
telhado de uniforme
laranja

E aqui tão perto
o miar de um felino…
fome ou cio?

1 084
Almandrade

Almandrade

VI

Agora devo
dormir
e deixar
o apetite
dos morcegos
devorar
as lágrimas noturnas
indiferentes
aos meus afetos

935
Agostina Akemi Sasaoka

Agostina Akemi Sasaoka

Gênese

O
sol caiu
umbigo adentro.
Sob a teia partida,
a mosca pendente.
Do outro lado do espelho
corpos,
suor,
lágrimas...
Ante a bactéria faminta,
um trilho de sêmen seco.
Havia um sono
que boiava entre a poeira,
entre as estrelas,
entre pernas de gesso.
Na garganta da noite:
cama desfeita,
perfeita,
silêncio fetal.

839
Emídia Felipe

Emídia Felipe

A Noite

De noite,
quando as bocas calam
e as almas passeiam
tudo vira refúgio
todos os ruídos
viram suspeitos
e as sombras
cúmplices
Os cantos
de todos os lados
viram abrigo
De noite
livre do barulho do mundo
posso saber de mim
Tudo se afasta
e posso sair
cair
sorrir

O véu escuro lá fora
me faz lembrar
que de manhã
tudo volta

860