Mudança e Transformação

Poemas neste tema

Manuel António Pina

Manuel António Pina

Agora é diferente

Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro
Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor
Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora
1 950
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sometimes in the middle of life a change

Sometimes in the middle of life a change
Suddenly comes like an alienation
A sense of voidness enormous, strange
And a void, deep desolation.

A sense of being left alone
And more and more than abandoned
(…)
'Tis a sense half as if I were dead.
1 303
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quem és, não o serás, que o tempo e a sorte

Quem és, não o serás, que o tempo e a sorte
        Te mudarão em outro.
Para quê pois em seres te empenhares
        O que não serás tu?
Teu é o que és, teu o que tens, de quem
        E o que outro tiveres?
1 226
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Criança, era outro...

Criança, era outro...
Naquele em que me tornei
Cresci e esqueci.
Tenho de meu, agora, um silêncio, uma lei.
Ganhei ou perdi?
1 920
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Matei a ilusão

Matei a ilusão dentro de mira
Toda a quimera em mim despedacei
Rosas e lírios tudo arranquei
Do meu tranquilo e plácido jardim
1 533
Vasko Popa

Vasko Popa

- No começo

Agora ficou fácil
Salvamo-nos da carne
O que faremos agora
Diz algo
Talvez queiras ser
A espinha do raio
Diz algo mais
O que direi
O osso pélvico da tempestade
Diz outra coisa
Nada mais sei
Costela celeste
Não somos os ossos de ninguém
Diz uma terceira coisa
600
Vasko Popa

Vasko Popa

- Sob a lua

O que é isso agora
É como se uma carne uma carne de neve
Me envolvesse
Não sei o que é
É como se essa medula me varasse
Essa medula gelada
Nem eu sei o que é
Como se tudo recomeçasse
Com um começo mais terrível
Sabes o quê?
Será que ousas ladrar
631
Isabel Câmara

Isabel Câmara

Ilógica

Só quem sabe a Idade do Ferro
é a Bigorna que o modifica


908
Jaime Gil de Biedma

Jaime Gil de Biedma

Voltar

Minha lembrança eram imagens,
no instante, de ti:
essa expressão e um matiz
dos olhos, um pouco suave

na inflexão de tua voz,
e teus bocejos furtivos
de lebréu que dormiu mal
toda a noite em meu quarto.

Voltar, passados os anos,
rumo à felicidade
— para ver-se e recordar
que estou também mudado.

(de Moralidades)

786
Ana Paula Ribeiro Tavares

Ana Paula Ribeiro Tavares

Cerimónia de Passagem

"a zebra feiu-se na pedra
a pedra produziu lume"
a rapariga provou o sangue
o sangue deu fruto

a mulher semeou o campo
o campo amadureceu o vinho

o homem bebeu o vinho
o vinho cresceu o canto

o velho começou o círculo
o círculo fechou o princípio

"a zebra feriu-se na pedra
a pedra produziu lume"
1 642
João Maimona

João Maimona

Arte poética

Que erosão
no choque genésico das marés
de encontro às pedras habitadas.

Cai areia na areia.

Assim o gasto da palavra
limando os duros conformismos
libertando as verdades mais remotas
tão necessárias ao fruir dos gestos.
1 399
Pedro Corsino Azevedo

Pedro Corsino Azevedo

Conquista

Trás!...
Explodiu a Verdade,


Agora sou capaz
De tudo
Indiferente e quedo e mudo
Deixarei escangalhar o brinquedo
Que temi na Infância,
Rasgou-se o céu em mil fatias lindas,


Ricos
Fanicos
Que recolhi na mão.

Desilusão!
Cristal, cristal, cristal!

E eu a namorar o mal...
1 284
Alice Ruiz

Alice Ruiz

na esquina da consolação

na esquina da consolação
com a paulista
me perdi de vista
virei artista
equilibrista
meio mãe
meio menina
meio meia-noite
meio inteira
inteiramente alheia
toda lua cheia


In: RUIZ, Alice. Vice-versos. São Paulo: Brasiliense, 1988. (Cantadas literárias
2 091
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Predição

Fazer da
busca o
ideal

Rasgar o ventre de
todas as noites
para encontrar
aurora

O que não somos hoje
é o que há de nos
esmagar
amanhã


In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
968
Eudoro Augusto

Eudoro Augusto

78 [a uva da luxúria depois de seca

a uva da luxúria depois de seca
dá uma passa deliciosa

dizem


In: AUGUSTO, Eudoro. Cabeças: 88 poemas. Rio de Janeiro: s.n., 1981. (Capricho)
876
Max Martins

Max Martins

Revide

A cada fim
seu recomeço: Um broto
no galho morto

Marahu, jun. 1988


In: MARTINS, Max. Para ter onde ir. Fotos de Béla Borsodi. São Paulo: Massao Ohno: A. Massi, 199
1 750
Afrânio Peixoto

Afrânio Peixoto

Arte de Resumir

O ipê florido,
Perdendo todas as folhas,
Fez-se uma flor só.


In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
1 715
Paulo Leminski

Paulo Leminski

apagar-me

apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme


Publicado no livro Não Fosse Isso e Era Menos. Não Fosse Tanto e Era Quase (1980).

In: LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. Prefácio de Haroldo de Campos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 198
1 836
Eudoro Augusto

Eudoro Augusto

Meu Brasil Brasileiro

Que uma lua mais verde
venha libertar nossos olhos enredados
da indiferença amarela
que ora habitamos.


In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera.

NOTA: O título do poema é um verso da canção "Aquarela do Brasil", de Ary Barros
1 331
Paulo Leminski

Paulo Leminski

Apagar-me

Apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme.

2 863
Paulo Leminski

Paulo Leminski

Se

se
nem
for
terra

se
trans
for
mar

4 428
Paulo Leminski

Paulo Leminski

HAI

Eis que nasce completo
e, ao morrer, morre germe,
o desejo, analfabeto,
de saber como reger-me,
ah, saber como me ajeito
para que eu seja quem fui,
eis o que nasce perfeito
e, ao crescer, diminui.

1 543
Felipe Vianna

Felipe Vianna

RIO CORRENTE

Marília, Marília,
Meu primeiro amor,
Wagner assim me questionou:
- Por que deixaste o teu amor?
Se eu fosse tu,
Casava com ela.
Respondi-lhe sem pestanejo:
- Se eu fosse eu,
Também casaria com ela, mas,
Ela não é mais ela.

25/05/2001

622
Felipe Vianna

Felipe Vianna

DEUS

Deus a pedra criou.
Para cortá-la,
A chuva e o vento
Formou.

24/10/2000

769