Memórias e Lembranças

Poemas neste tema

José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

Calle Principe, 25

Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
a conservar
mas levamos anos
a esquecer alguém
que nos olhou apenas
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Ossip Mandelstam

Ossip Mandelstam

Esquece o pássaro agreste,

A prisão,a velha triste-
A tudo o que viste,esquece,

Quando não serás possesso
-mal tua boca se abra-
Pelas agulhas trementes
De abertos ao romper dalba.

Lembrarás-a vespa e a quinta,
Lápis de cor e o silvestre
Mirtilo que em tua vida
Nunca no bosque colheste.

(tradução de Nina Guerra e Filipa Guerra)

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José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

Mercado velho, Machico

Uma paisagem muito ao longe
quando se regressa
continuamos a vê-la no escuro
fechamos os olhos,sentimo-nos vivos
na sucessão dos séculos
falamos de súbito
daquilo que nos assusta
um segredo demasiado intenso
o malogro dos códigos
qualquer ideia extrema
que destrói o mundo e não queríamos
mas estamos tão pouco
onde estamos
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Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Desde a aurora

Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,
entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:
vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:
é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago:vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.

Sou eu, desde a aurora,
eu-a terra-que te procuro.

de Obscuro Domínio
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Carlos Figueiredo

Carlos Figueiredo

Sou Silva

Polissêmico
De silvícola, de negro, de marrano.

Cada um a exigir sua vingança
em estigmas
cravados na memória.

Vivo como aqueles escravos
obrigados a ingerir,
como informa Cascudo
doses diárias de cachaça
para aturdimento.

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Ronaldo Cunha Lima

Ronaldo Cunha Lima

Imortal

Pode até meu amor já ter morrido.
Podes dizer que teu amor morreu.
Só não pode morrer, nem faz sentido,
aquele amor que nosso amor viveu.

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Dormi. Sonhei. No informe labirinto

Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
Com exacta memória não o sinto.

Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.
A vasta teia, estive-a e não a vi.
Obscuramente me desconcebi.


07/07/1930
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vinha elegante, depressa,

Vinha elegante, depressa,
Sem pressa e com um sorriso.
E eu, que sinto co a cabeça,
Fiz logo o poema preciso.

No poema não falo dela
Nem como, adulta menina,
Virava a esquina daquela
Rua que é a eterna esquina...

No poema falo do mar,
Descrevo a onda e a mágoa.
Relê-lo faz-me lembrar
Da esquina dura – ou da água.


14/08/1932
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vejo passar os barcos pelo mar,

Vejo passar os barcos pelo mar,
As velas, como asas do que vejo
Trazem-me um vago e íntimo desejo
De ser quem fui, sem eu saber que foi.
Por isso tudo lembra o meu ser lar,
E, porque o lembra, quanto sou me dói.


1932
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa

Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa
Se é para nós que cessa Aquele arbusto
Fenece, e vai com ele
Parte da minha vida.
Em tudo quanto olhei fiquei em parte.
Com tudo quanto vi, se passa, passo,
Nem distingue a memória
Do que vi do que fui.


07/06/1928
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Rui Costa

Rui Costa

Narciso

No rio a tua imagem parece menos tua:
A memória é uma líquida mensagem de aloendros
e o teu opaco ardor apenas o resultado disso:
Um coração já pasmado de algum travo
mordendo uma outra água com vértices ao fundo.
Não te iludas. O que tu vês és mesmo tu:
Restos de um homem às portas de outro homem
e o futuro de olhos baixos, o mar a ver.

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Rui Costa

Rui Costa

breve ensaio sobre a potência 27

E já não haver lugar para as imagens.
Eu sei que cabe tudo em disco externo,
mas foi aí que nós perdemos a cabeça.
Temos placas, rígidas plataformas, luz
com pouca treva nas costas da cidade.
Havemos de trocar as nossas memórias,
viver as outras vidas. Que sonho é agora?

431
Marcus Vinicius Quiroga

Marcus Vinicius Quiroga

IRREVERSÍVEL

desapareceu num quadro de Van Gogh
sem deixar vestígios

quem sabe o líquido que existia em sua taça?
talvez as palavras não tenham sido suficientemente tácitas

seria capturado num leilão tardio?

ou sob a forma de um trigo teria amadurecido

a paisagem e o desvario

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Reynaldo Bessa

Reynaldo Bessa

uma noite

uma noite
minha mãe
puxava-me pela mão
éramos quatro;
eu, ela, o medo e a pressa
disso lembro-me bem
enquanto os três conversavam
eu pregava os olhos nos olhos tristes das casas e
me dava uma tremenda vontade de perguntar
"mamãe, o que elas têm?"
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Reynaldo Bessa

Reynaldo Bessa

quando cai da rede

quando cai da rede
vi que eu existia mesmo
minha mae apareceu no umbral da porta
logo, meu pai, nu, nasceu de uma sombra e a puxou
ele queria terminar de foder com ela, e
parece que comigo também
os dois, silenciosamente, desapareceram na sombra
vi que eu nao existia mesmo
quando cai da rede.
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Reynaldo Bessa

Reynaldo Bessa

quando eu tinha oito anos

quando eu tinha oito anos
descobri o tempo.
ele estava numa plaqueta,
numa mercearia
dizia:" fiado só amanhã"
foi aí que percebi que o tempo
não posa para fotos
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Josely Vianna Baptista

Josely Vianna Baptista

RIVUS

A água mede o tempo em reflexos vítreos. Mudez
de clepsidras, no sobrecéu ascendem (como anjos suspensos
numa casa barroca), e em presença de ausências o tempo
se distende. Uns seios de perfil, sono embalando
a rede, campânula encurvada pelas águas da chuva. 

No horizonte invisível, dobras de anamorfoses;
sombras que se insinuam, a matéria mental.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Quatro Poemas Árabes - Divisa

Conhecem-me os cavalos e a noite e os desertos
traiçoeiros e a guerra e as feridas e o papel e a pena.
1 171
Herberto Helder

Herberto Helder

Ii I

Músculo, tendão, nervo, e o peso da veia que leva,
entre caos e mecânica,
o sangue da memória ao aparelho de mármore
fechado, contínuo, poderoso,
brilhando de tremor molecular por fora
e de sangue recôndito.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Os Capítulos Maiores da Minha Vida

os capítulos maiores da minha vida, suas músicas e palavras,
esqueci-os todos:
octagenário apenas, e a morte só de pensá-la calo,
é claro que a olhei de frente no capítulo vigésimo,
mas não nunca nem jamais agora:
agora sou olhado, e estremeço
do incrível natural de ser olhado assim por ela
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Herberto Helder

Herberto Helder

Nenhuma Linha É Menos do Que Outrora

nenhuma linha é menos do que outrora
azougue, e basta:
é tudo só memória inverosímil,
sem proporção alguma: e nenhuma
consolação da forma
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Herberto Helder

Herberto Helder

A Força da Faca Ou É Um Jogo

a força da faca ou é um jogo,
ou despedaça os selos,
mas quando a luz encharca os sumagres da terra,
e as drupas sangram e embebedam,
e o odor do sangue mete medo
oh exercício da faca — exímio, exímio — que apura têmpera e talento!
golpe, dor da memória,
que tudo fulgura lá fora:
espaço de águas salgadas nos tempos de setembro
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Herberto Helder

Herberto Helder

As Manhãs Começam Logo Com a Morte Das Mães

as manhãs começam logo com a morte das mães,
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente
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Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

Nada de muito óbvio

Nada de muito óbvio mas havia
qualquer coisa de refractário
no seu nomadismo.
Alguém um dia referiu

episódios escabrosos de antiquíssima
factura.
Sempre a espessura de um canalha
haverá de misturar urzes

com o delito oculto de algumas
quimeras. Vivia em paz quando
a desordem chegou
mas o plot mudara a personagem.
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