Literatura e Palavras

Poemas neste tema

Marcial

Marcial

I, 34 - A FIDENTINO

O que recitas livro, ó Fidentino, é meu.
Mas mal quanto o recitas a ser teu começa.

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Julieta Lima

Julieta Lima

Ninguém vai saber

Ninguém vai saber
Do meu segredo.
Tenho um amante
Belo como Deus
E todo nu
Aqui deitado ao meu lado!
Seus beijos são azuis
E a sua voz vermelha como o lume!
Tenho um amante só meu
E ninguém vai saber,
Ninguém mo vai roubar,
Porque ele é meu, só meu:
É feito de poemas e de fumo...

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José Honório

José Honório

Xiri, prexeca, aranha

Glosa:

Vagina, papuda, greta,
xanha, lasca, racha e fruta,
tabaco, chibiu e gruta,
fenda, bainha e buceta,
desejada, cara-preta,
e bacurinha também
é vizinha do sedém
talho, pipiu e xiranha,
XIRI, PERERECA, ARANHA
QUANTO NOME A BRECHA TEM.
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José Honório

José Honório

João doido, cacete, rolatudo é nome do caralho

Glosa:

Peia, cipó, mandioca,
carabina, prego e talo,
estaca, pica, badalo,
sarrafo, pomba, biloca,
pinto, manjuba, piroca,
vergalhão, também mangalho,
lingüiça, cajado, malho,
nervo, trabuco, bilola,
JOÃO DOIDO, CACETE, ROLA...
TUDO É NOME DO CARALHO.

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José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

A voz solitária do homem

Há palavras que escrevemos mais depressa
o terror dessas palavras derruba
o passado dos homens
são tão pouco: vestígios, índices, poeira
mas nada lhes é desconhecido
as horas em que vigiamos o escuro
os sítios nenhuns das imagens
a ligeira mudança que resgataria
o abandono, todo o abandono
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José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

Os Versos

Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte
nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta

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Daniel Faria

Daniel Faria

Cruz,rosa

Cruz,rosa
Dos ventos sem direcção que não seja o centro.Coluna
Sustentada pelos braços como um amigo que chega.Rosa
De orvalho e sangue para o corpo trepassado de sede.Árvore
Que bebe do homem.Árvore
Em silêncio onde escutamos a palavra
Em carne viva.Verbo
Tão inteiro que se fez espelho

de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
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Jorge Melícias

Jorge Melícias

Na ponta dos dedosbatem as palavras

sísmicas.E a testa abre-se profusamenteà força do
nome.Digo:aquele que escreve infunde o prodígio,respira ao
cimo com a luz nos pulmões,atravessa como se
florisse nos abismos.

de A Luz nos Pulmões(2000)

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Alexandre O'Neill

Alexandre O'Neill

Poesia-Cão

Com que então,coração,
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.

Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,

meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.

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Daniel Faria

Daniel Faria

Voz no vento passando

Voz no vento passando entre poeira

Edifício

Árvore noutro poema

Fico à sombra da vide e do esteio no Outono

E enxerto a luz

Em tudo o que nomeio

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
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Alberto Marsicano Rodrigues

Alberto Marsicano Rodrigues

Haicai

Poema sem palavras
Harpa sem cordas
Portal sem portas.

Freme frágil folhas
fléxil flana flui
facho fléxil flutua

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Albano Dias Martins

Albano Dias Martins

Como um

Como um
livro
Folheei o
teu corpo como um livro
à procura da tua alma : encontrei-a no índice.

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Na paz da noite, cheia de tanto durar,

Na paz da noite, cheia de tanto durar
Dos livros que li,
Que os li a sonhar, a mal meditar,
Nem vendo que os vi,
Ergo a cabeça (...) estonteada
Do lido e do vão
Do ler e vazio que há e fiz por noite acabada –
Não no meu coração.


1934
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vinha elegante, depressa,

Vinha elegante, depressa,
Sem pressa e com um sorriso.
E eu, que sinto co a cabeça,
Fiz logo o poema preciso.

No poema não falo dela
Nem como, adulta menina,
Virava a esquina daquela
Rua que é a eterna esquina...

No poema falo do mar,
Descrevo a onda e a mágoa.
Relê-lo faz-me lembrar
Da esquina dura – ou da água.


14/08/1932
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Parece estar calor, mas nasce

Parece estar calor, mas nasce
Subitamente
Contra a minha face
Uma brisa fresca que se sente.

Assim também – poder comparar
É que é poesia –
A alma sente-se a esperar,
Mas não conhece em que confia.


31/08/1930
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VII - Ponho na altiva mente o fixo esforço

Ponho na altiva mente o fixo esforço
Da altura, e à sorte deixo,
E as suas leis, o verso;
Que, quando é alto e grégio o pensamento,
Súbdita a frase o busca
E o escravo ritmo o serve.


(Athena, nº 1, Outubro de 1924)
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Rui Costa

Rui Costa

Não são poemas

Não são poemas o que eu escrevo
São casas onde os pássaros esperam.
Nas suas janelas coincide o mundo.
Nos seus esteios resvalam gigantes.
Algumas vezes ódio.
Algumas vezes amor.
Não são mortalhas incondicionais do medo.
O HÓSPEDE DA CASA NÃO
TEM O DEVER DE SER FELIZ!
Não são poemas que eu escrevo
São espelhos onde os rostos principiam.

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Rui Costa

Rui Costa

breve ensaio sobre a potência 9

não há literatura. ainda não se
fala do que vai acontecer. há um
vento agora que lhe seca a pele
mas ele não concebe. este homem
é um fantasma calmo descansando
na margem. ainda não é o sonho,
é uma luz romba e baça fustigada.

487
Rui Costa

Rui Costa

breve ensaio sobre a potência 31

E assim ensaiamos o livro entre a
treva e a luz, o coração despedaçado
rasgando novos arquipélagos. São
colmeias brancas que nos coram as
palavras, pedras, constelações de risos
e de limos que transportamos na penumbra.

A poesia não sabe o quanto te devemos.

571
Rui Costa

Rui Costa

breve ensaio sobre a potência 29

Os anjos são recicláveis e a literatura
controla o tráfego aéreo. No porão do
pensamento acenamos à suavidade,
enquanto Deus é uma sala de fisioterapia.
Conservamos as fábricas de electricidade
em níveis aceitáveis de educação sentimental.
Somos homens negros paridores da luz.

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Amália Bautista

Amália Bautista

Xerazade

Levo já quase mil noites com fábulas
e a cabeça dói-me e tenho seca
a língua e esgotados os recursos,
a imaginação. E nem sequer
sei se me salvarei com as mentiras.

527
Marcelo Montenegro

Marcelo Montenegro

Desassossegos

García Lorca
olhando uma mariposa
afogada no tinteiro

Brian Wilson
sentando ao piano
depois de escutar Rubber Soul

Lucia Berlin
na enfermaria
da simplicidade

Cartier-Bresson
fotografando
a eternidade

Alejandra Pizarnik
terminando sozinha
o que ninguém começou

Murilo Mendes
vendo a cidade cair
das prateleiras do céu
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Filipa Leal

Filipa Leal

Apocalipse now

Minutos antes do fim do mundo, os poetas
retiraram as vírgulas aos textos e os títulos aos textos
e a roupa ao corpo e os anéis aos dedos
porque não havia tempo
para tanta ostentação.

Porém os amantes que, à mesma hora, entretidos
liam um ao outro poemas de amor
no barroco banco do jardim
não imaginavam
o trabalho que aquilo lhes dava.

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Isabel Mendes Ferreira

Isabel Mendes Ferreira

barco dos milagres

barco dos milagres. explícito nas perguntas. remos que à proa de mim não são farpas antes a hora da sombra. claríssimo brilho do passo certo.
a música é a planície a casa a fonte o mar a chegada.
chego.nos. devota de Joyce.
caligraficamente vazia.
na metade do dia. do amor.
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