Infância

Poemas neste tema

Clicie Pontes

Clicie Pontes

Verão

Vestida de azul
Desaparece a menina...
Um jardim de hortênsias

1 035
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Meu Presépio

Ponho o Menino
que é o principal.
Faço estradinhas,
levanto montinhos,
coloco as pedras
e muitas plantas,
o poço dágua
em bom lugar.
O galo bem no alto
para cantar Cocoricó!
Espalho os carneirinhos
e paro pensando:
— Eu queria ser o pastor
para conversar com eles.

1 072
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

As Tias

Tenho mais tias
que as titias,
irmãs da mãe e do pai.

Vejam só:
uma tia me ensina
a dançar,
outra me ensina
a rezar,
uma senta comigo
para historinhas
contar,
outra me olha
a brincar,
uma...
outra...

Mas, a tia
de quem mais gosto...
— Posso falar?
É a que mostra
as sementinhas das letras
e me faz ler e estudar.

1 310
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

O Sorvete

Colorido, gostoso
este meu sorvete!
Seguro a casquinha
e bebo a doçura
que desce de leve
para dentro de mim.

Meu estômago está alegre
como meu coração:
— dois lindos morangos.

1 158
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Brinquedo

O dado no dedo,
o dedo no dado.

Conto os pontos:
um-dois-três-
quatro-cinco-seis.

As bolinhas
bem redondinhas
em cada lado.
Atiro um punhado
de cada vez.

O branco no preto,
o preto no branco
do quadradinho.

Não sei se de osso,
madeira ou marfim,
os dados deste saquinho
que mamãe comprou pra mim.

1 116
Claudia Moraes Rego

Claudia Moraes Rego

No seu colo

Cabeça no seu colo
orelha colada em sua perna
ouvindo
palavras fiadas em conversa
conduzidas, transmitidas
através
de carnes e ossos
com ecos e reverberações
intrigantes:
orelha colada na pele
friinha (mistério!)
macia e perambulante.

Hoje
minha mãe
é a lembrança de um corpo
--- auscultado ---
ontem.

989
Chacal

Chacal

Na porta lá de casa

Na porta lá de casa
tem dizendo lar romi lar
uma bandeira de papel
na porta lá de casa
as crianças passam
e se atiram no chão
e se olham por dentro
das bocas das palavras
na falta de qualquer espelho
na porta lá de casa
passa o amor o calor
de cada um que passa
na porta lá de casa.

4 528
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Dúvida

Pelo alegre bosque,
como Chapeuzinho Vermelho,
vou seguindo...
embora meus cabelos soltos
esvoacem à brisa da manhã.

Estou feliz:
passarinhos cantam,
zumbem insetos,
florezinhas exalam
doces perfumes.

Não sei como o lobo mau
pôde aparecer num lugar assim.

1 041
Amir Calixto Sabbag

Amir Calixto Sabbag

Reminiscências

Vento que vem do Sul,
veloz e cantante,
para fazer as nuvens negras
do meu céu cantarem.
Relâmpagos covardes
penetram nas nuvens
e desmancham o espetáculo
da dança no espaço.
Chuvas caem,
formam enxurradas.
Minha mente retrocede:
Lembro-me da infância,
quando soltava
barquinhos de papel.

990
Luís Miguel Nava

Luís Miguel Nava

Sem outro intuito

Atirávamos pedras

à água para o silêncio vir à tona.

O mundo, que os sentidos tonificam,

surgia-nos então todo enterrado

na nossa própria carne, envolto

por vezes em ferozes transparências

que as pedras acirravam

sem outro intuito além do de extraírem

às águas o silêncio que as unia.

1 697
Juan-Eduardo

Juan-Eduardo

Te conozco

Eres aquella niña
que jugaba con vidrios y violetas,
mientras el horizonte enloquecido
se ponía muy pálido.

Eres aquella niña
que miraba conmigo en un estanque
la lenta aparición de los inviernos
celestemente blancos.

Eres aquella niña
que veñia por un camino muerto
cantando dulcemente,dulcemente,
debajo del ocaso.

804
Daniel Faria

Daniel Faria

Chamavas os bois com a mão

Chamavas os bois com a mão

Mais mansa. A mão

Com que adubavas a terra

Com que puxavas o banco

Para a frente da lareira

Com que me mediste

Palmo a palmo na infância.

de Dos Líquidos (2000)
1 592
Albano Dias Martins

Albano Dias Martins

Dêem-me

um arco e recriarei a infância,
os tordos sob a neve,
o rio sob as tábuas.
Dêem-me
a chuva e a gávea
duma figueira,
a flor dos eucaliptos,
um agapanto de água.

in:Vertical
o Desejo(1985)
1 145
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah, quero as relvas e as crianças!

Ah, quero as relvas e as crianças!
Quero o coreto com a banda!
Quero os brinquedos e as danças –
A corda com que a alma anda.

Quero ver todas brincar
Num jardim onde se passa,
Para ver se posso achar
Onde está minha desgraça.

Ah, mas minha desgraça está
Em eu poder querer isto –
Poder desejar o que há.

(...)

22/08/1934
4 389
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Porque esqueci quem fui quando criança?

Porque esqueci quem fui quando criança?
Porque deslembro quem então era eu?
Porque não há nenhuma semelhança
Entre quem sou e fui?
A criança que fui vive ou morreu?
Sou outro? Veio um outro em mim viver?
A vida, que em mim flui, em que é que flui?
Houve em mim várias almas sucessivas
Ou sou um só inconsciente ser?


1932
5 221
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Guardo ainda, como um pasmo

Guardo ainda, como um pasmo
Em que a infância sobrevive,
Metade do entusiasmo
Que tenho porque já tive.

Quase às vezes me envergonho
De crer tanto em que não creio.
É uma espécie de sonho
Com a realidade ao meio.

Girassol do falso agrado
Em torno do centro mudo
Fala, amarelo, pasmado
Do negro centro que é tudo.


18/04/1931
3 585
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Do meio da rua

Do meio da rua
(Que é, aliás, o infinito)
Um pregão flutua,
Música num grito...

Como se no braço
Me tocasse alguém
Viro-me num espaço
Que o espaço não tem.

Outrora em criança
O mesmo pregão...
Não lembres... Descansa,
Dorme, coração!...


07/10/1930
5 417
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Depus a máscara e vi-me ao espelho. —

Depus a máscara e vi-me ao espelho. –
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.


18/08/1934
3 426
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

19 - O luar quando bate na relva

O luar quando bate na relva
Não sei que coisa me lembra...
Lembra-me a voz da criada velha
Contando-me contos de fadas.
E de como Nossa Senhora vestida de mendiga
Andava à noite nas estradas
Socorrendo as crianças maltratadas...

Se eu já não posso crer que isso é verdade
Para que bate o luar na relva?


04/03/1914
2 487
Anterior Página 6