Dor e Desespero
Poemas neste tema
Carlos Figueiredo
Sou Silva
De silvícola, de negro, de marrano.
Cada um a exigir sua vingança
em estigmas
cravados na memória.
Vivo como aqueles escravos
obrigados a ingerir,
como informa Cascudo
doses diárias de cachaça
para aturdimento.
Daniel Faria
Estranho é o sono
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde. Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
Fernando Pessoa
Um cansaço feliz, uma tristeza informe
O meu espírito intranquilamente dorme.
Combati, fui o gládio e o braço e a intenção
E dói-me a alma na alma e no gládio e na mão...
Meu gládio está caído aos meus pés... um torpor
Impregna de cansaço a minha própria dor...
Amália Bautista
A mulher de lot
Ainda ninguém nos esclareceu
se a mulher de Lot foi transformada
em estátua de sal como castigo
pela curiosidade irreprimível
e pela desobediência apenas,
ou se ela se voltou pois no meio
de todo aquele incêndio pavoroso
ardia o coração que mais amava.
Rui Costa
Medo
Furo-te os olhos com os dedos magoados
como-te
torpor de medo as luas verdes
mordem-me a boca
do teu peito sobe o halo nacarado
a essência fútil das flores mortas
e novamente o medo
de nunca mais voltar a ser perfeito
Amália Bautista
Conheci um dia um homem tão estranho
Conheci um dia um homem tão estranho
que continuo a recordá-lo. Disse
que estava condenado para sempre
a suportar o peso de uma enorme
pedra sobre os seus ombros, e que nunca
a levaria até ao seu destino.
Contive a vontade de lhe dizer
“que achas que faço eu com estes fios?”
Reynaldo Bessa
quando cai da rede
vi que eu existia mesmo
minha mae apareceu no umbral da porta
logo, meu pai, nu, nasceu de uma sombra e a puxou
ele queria terminar de foder com ela, e
parece que comigo também
os dois, silenciosamente, desapareceram na sombra
vi que eu nao existia mesmo
quando cai da rede.
Daniel Francoy
SABER ESCAVAR
escavavam.
Paul Celan
Saber escavar, escavar sempre
a terra podre e depois escavar
a sombra espessa. Respirar fundo
a noite escura, a noite sem vento,
sem vestígios argênteos do luar
(mesmo um luar imundo, encardido
de poeira e fumo, não se percebe)
e sem murmúrio de mar diluído
nas negras artérias da madrugada.
Herberto Helder
2G
saía a arder.
Aparecia em chaga de corpo inteiro.
Era agora uma estrela carbonizada, uma aterradora estrela
de grandeza principal,
quando se olhava da terra.
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Canção de Amor
toda a manhã.
Porém, o meu amor já havia partido:
— já tinha atravessado as grandes portas da aurora.
No monte Papago a presa na agonia
olhou-me
com os olhos da minha amada.
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Bolhas
novo.
Vinho para a minha dor. E logo ao cimo sobrenadam, como espuma, as
bolhas:
brancos dedos de um bebedor petrificado, na mão retendo eternamente a sua
taça.
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Rosas
ventos.
como se o rio fosse a couraça de um guerreiro rasgada pelas lanças, por
onde corresse o sangue das feridas.
Herberto Helder
Canções de Camponeses do Japão - Arrozal de Madrugada
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?
Herberto Helder
19
profunda:
noite erguida até à derradeira estrela
cravada entre os meus olhos cegos
Herberto Helder
— Oh Coração Escarpado
que lhe toquem através do sangue turvo,
nem o amor nem o cego idioma das mães hão-de salvá-lo nunca:
súbito cai o terrífico estio sobre o mundo,
mas só a ele o queimará por entre as searas que amadurecem,
invisíveis, implacáveis,
alta noite
Herberto Helder
A Força da Faca Ou É Um Jogo
ou despedaça os selos,
mas quando a luz encharca os sumagres da terra,
e as drupas sangram e embebedam,
e o odor do sangue mete medo
oh exercício da faca — exímio, exímio — que apura têmpera e talento!
golpe, dor da memória,
que tudo fulgura lá fora:
espaço de águas salgadas nos tempos de setembro
Herberto Helder
As Manhãs Começam Logo Com a Morte Das Mães
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente
Fernando Fitas
Tivemos os silêncios vigiados
e os passos proibidos,
o caminho encarcerado
antes de esboçarmos o caminhar
E cercado o murmúrio
e cercados os olhares
nos gélidos muros
a dor tamanha que carregámos.
Nuno Fernandes Torneol
Foi-S'um Dia Meu Amigo Daqui
e nom me viu, e porque o nom vi,
madre, ora morrerei.
Quando m'el viu, nom foi polo seu bem,
ca morre agora por mi e por en,
madre, ora morrerei.
Foi-s'el daqui e nom m'ousou falar
nem eu a el, e por en com pesar,
madre, ora morrerei.
Fernão Garcia Esgaravunha
Se Deus Me Leixe de Vós Bem Haver
senhor fremosa, nunca vi prazer
des quando m'eu de vós parti.
E fez-mi o voss'amor tam muito mal,
que nunca vi prazer de mim, nem d'al,
des quando m'eu de vós parti.
Houv'eu tal coita no meu coraçom
que nunca vi prazer, se ora nom,
des quando m'eu de vós parti.
Juião Bolseiro
Ai Madre, Nunca Mal Sentiu
nem soubi que x'era pesar,
a que seu amigo nom viu,
com'hoj'eu vi o meu, falar
com outra, mais poilo eu vi,
com pesar houvi a morrer i.
E, se molher houve d'haver
sabor d'amigo, u lho Deus deu,
sei eu que lho nom fez veer,
com'a mi fez vee'lo meu,
com outra, mais poilo eu vi,
com pesar houvi a morrer i.
D. Dinis
Amiga, Quem Vos [Ama
e por] vós é coitado
e se por vosso chama,
des que foi namorado
nom viu prazer, sei-o eu;
por en já morrerá
e por aquesto m'é greu.
Aquel que coita forte
houve des aquel dia
que vos el viu, que morte
lh'é, par Santa Maria,
nunca viu prazer, nem bem;
por en já morrerá
[e] a mim pesa muit'en.
Airas Nunes
Nostro Senhor! E Por Que Foi Veer
ũa dona que eu quero gram bem
e querrei sempre já mentr'eu viver,
e que me faz por si perder o sem?
Pero ela faça quanto quiser
contra mim, já, pero me bem nom quer,
nom leixarei de a servir por en.
[...]
Bernal de Bonaval
Senhor Fremosa, Tam Gram Coita Hei
por vós que bom conselho nom me sei,
cuidand'em vós, mia senhor mui fremosa.
Por vós, que vi melhor doutras falar
e parecer, nom me sei conselhar,
cuidand'em vós, mia senhor mui fremosa.
Nom mi queredes mia coita creer:
creer-mi-a-edes, pois que eu morrer
cuidand'em vós, mia senhor mui fremosa.
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