Destino e Superação

Poemas neste tema

Marcelo Tápia

Marcelo Tápia

veículos da cidade

nas ruas cada um vai
ou vem traçando
seu roteiro
único
em meio
a tantos trajetos
cruzados cruzados cruzados
fios que se torcem se desenlaçam
se anovelam se anulam dão-se nó
cada um no seu curso
cada qual no seu leito, seu sulco, seu trilho
seu caminho, seu destino
suas vidas atadas desatadas
seus emaranhados de nadas

885
Ona Gaia

Ona Gaia

Evolução

As armas sangram açaí
de risos ariscos e roxos
mas na décima parte
de toda a vida
a ida não encontrará fim
porque se num dia foram muitos
na eterna abóbada celeste sim
pras estrelas só haverá um
mais poderoso que todos eles
quando tudo parecer perdido
quando tudo parecer nenhum.

804
Maria de Lourdes Hortas

Maria de Lourdes Hortas

Ardósia

A palma da tua mão é a ardósia
papel onde inscrevi
os versos do meu destino.

959
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

A voz do louco II

Não sou louco não,
mas assumo
o gosto amargo da vida.

Não sou louco não,
mas do dia a dia
construo versos,
venço a fadiga,
e faço do cais
sempre um porto
seguro,
um ponto de partida
para galgar muros.

Não sou louco não,
ou melhor,
sou louco pela vida.

847
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Jogada

João rola a bola
que mais se embola

Num rolo a bola rola
enrolando João

Que já não tem como sair
do rolo, do bolo
que enrolou sua vida

(numa mesa de bilhar)

968
Luiz Nogueira Barros

Luiz Nogueira Barros

Infortunística

A tragédia dos vôos
dos Dédalos e Ícaros improvisados
sob a fria fantasia das estrelas
para a soalheira dos dias causticantes...

860
José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Ouça

Quem silenciosamente
Provou o fel da dúvida,
Derramou lágrimas de tristeza,
Amargou longas esperas,
Sentiu-se só e abandonado,
Teve o descrédito de quase todos
E a tudo superou,
Hoje, nada assombra,
Tudo encanta,
Até mesmo os desencantos.

904
João Gulart de Souza Gomos

João Gulart de Souza Gomos

semi-ótica

esteiras de linho
tenho cruzado adagas
e cegado meus caminhos

o vento toca seu alaúde
estão trancados nossos sonhos
bem guardados no escuro

vermelhidão de mar
mortovivo, plasma de segredos
e os medos nossos

não sei bem se posso seguir
estes desígnios ou
minguar à fome

destes signos.

Goulart Gomes, Salvador, BA

732
Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Aclive

A montanha
é um convite obstinado
da consciência.
A antevisão da posse
compensa os sobressaltos
da escalada.
Oh, a vertigem do inusitado.
Os pés se ferem
na ferrugem de agulhas
regeladas.
Avalanchas de pranto
rolando estrepitosamente
entulham gargantas
escancaradas.

806
Francisco Carvalho

Francisco Carvalho

Lição de Espaço

O homem no espaço
é a sombra de Sísifo.

O espectro da esfinge
O vertigem do tísico.

O homem no espaço
é a pedra no vértice.

A folha que tomba
1no vórtice.

1 037
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A cada qual, como a estatura, é dada

A cada qual, como a statura, é dada
A justiça: uns faz altos
O fado, outros felizes.
Nada é prêmio: sucede o que acontece.
Nada, Lídia, devemos
Ao fado, senão tê-lo.

2 931
Fanny Luíza Dupré

Fanny Luíza Dupré

Verão

Sobe a piracema
desafiando a correnteza
do rio caudaloso.

Vestibular...
Entra para a faculdade
o candidato cego.

774
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Erro

Edifiquei minha vida
casa sobre a
areia

Todo dia recomeço.

836
Amândio César

Amândio César

Par ou Pernão

Lançaram-se os dados
no par ou pernão
e uns foram
outros não.

E houve saudades nos que foram
e revolta nos que não:
os que foram não voltaram
os que ficaram cá estão...

Jogaram-se vidas,
como se jogam dados:
olhos sem luz,
membros amputados
e uns foram outros não...

Vida?... Amor?...
Lançaram-se os dados: Par ou Pernão?

971
André Ricardo Aguiar

André Ricardo Aguiar

Futuro

hão de vir
os indenominados
em uma seta ina-
cabada

Narciso será julgado
com mais freqüência
com asas fartas de temor

a cadência virá primeiro
os passos raros no coração

ninguém sabe este tempo
o sonhar do pêndulo

873
Adriana Lustosa

Adriana Lustosa

Compadre

eu disse as correntezas,
ao rio puro da vida: Passem
mas não passaram.
não desceram,
não foram
eu disse...
perdi todas as jangadas.
de cabeça cai nas aguas
se salvar um fio do arrepio que se fez minha vida
se salvar um fio...
volto para te contar.

1 091
Augusto de Campos

Augusto de Campos

O atirador

Viam-no, outra vez, cair de bruços,
baleado.
Mas viam outra vez erguer-se, invulnerável,
assombroso, terrível, abatendo-se
e aprumando-se, o atirador fantástico.

1 456
José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

Da verdade do amor

Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito
pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados
não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce sem rumor
2 401
João Maimona

João Maimona

Memória

Baloiçando nos escombros de teu itinerário
saberás que os gados constroem estradas.
E quando a mão deslizar pela margem
das cicatrizes que se afundam na noite
saberás que a tua mão viaja para a
colina dos dias sem escombros
e saberás que no berço da noite jaz a luz
drogada e ouvida pela cruz sobre quem viajaste.
1 225
Otávio Ramos

Otávio Ramos

A Terra tem

A Terra tem
5 oceanos
13 mares
5 continentes
148 milhões de km2.
Com tanto lugar no mundo,
você tinha que se apaixonar logo por mim?

Uma hora tem 3.600 segundos.
Um dia, mais ou menos 100 mil.
Uma vida média, uns 250 bilhões de segundos.
E você foi-se apaixonar logo por mim?

937
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

V - I conquered. Far barbarians hear my name.

I conquered. Far barbarians hear my name.
Men were dice in my game,
But to my throw myself did lesser come:
I threw dice, Fate the sum.
3 882
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

II - Me, Chloe, a maid, the mighty fates have given,

Me, Chloe, a maid, the mighty fates have given,
Who was nought to them, to the peopled shades.
Thus the gods will. My years were but twice seven.
I am forgotten in my distant glades.
3 685
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sim, já sei...

Sim, já sei...
Há uma lei
Que manda que no sentir
Haja um seguir
Uma certa estrada
Que leva a nada.

Bem sei. É aquela
Que dizem bela
E definida
Os que na vida
Não querem nada
De qualquer estrada,

Vou no caminho
Que é meu vizinho
Porque não sou
Quem aqui estou.


04/10/1934
4 590
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A aranha do meu destino

A aranha do meu destino
Faz teias de eu não pensar.
Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.
É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir...
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir.
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro...
Sou presa do meu suporte.


10/08/1932
4 634