Amor
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
Ó pastora, ó pastorinha,
Ó pastora, ó pastorinha,
Que tens ovelhas e riso,
Teu riso ecoa no vale
E nada mais é preciso.
Que tens ovelhas e riso,
Teu riso ecoa no vale
E nada mais é preciso.
1 816
Fernando Pessoa
Boca de romã perfeita
Boca de romã perfeita
Quando a abres p’ra comer,
Que feitiço é que me espreita
Quando ris só de me ver?
Quando a abres p’ra comer,
Que feitiço é que me espreita
Quando ris só de me ver?
1 111
Fernando Pessoa
V - Braços cruzados, sem pensar nem crer.
V
Braços cruzados, sem pensar nem crer,
Fiquemos pois sem mágoas nem desejos.
Deixemos beijos, pois o que são beijos ?
A vida é só o esperar morrer.
Longe da dor e longe do prazer,
Conheçamos no sono os benfazejos
Poderes únicos; sem urzes, brejos,
A sua estrada sabe apetecer.
Coroado de papoilas e trazendo
Artes porque com sono tira sonhos,
Venha Morfeu, que as almas envolvendo,
Faça a felicidade ao mundo vir
Num nada onde sentimo-nos risonhos
Só de sentirmos nada já sentir.
Braços cruzados, sem pensar nem crer,
Fiquemos pois sem mágoas nem desejos.
Deixemos beijos, pois o que são beijos ?
A vida é só o esperar morrer.
Longe da dor e longe do prazer,
Conheçamos no sono os benfazejos
Poderes únicos; sem urzes, brejos,
A sua estrada sabe apetecer.
Coroado de papoilas e trazendo
Artes porque com sono tira sonhos,
Venha Morfeu, que as almas envolvendo,
Faça a felicidade ao mundo vir
Num nada onde sentimo-nos risonhos
Só de sentirmos nada já sentir.
1 284
Fernando Pessoa
Duas horas te esperei./Duas mais te esperaria.
Duas horas te esperei.
Duas mais te esperaria.
Se gostas de mim não sei...
Algum dia há-de ser dia...
Duas mais te esperaria.
Se gostas de mim não sei...
Algum dia há-de ser dia...
1 262
Fernando Pessoa
A vida é pouco aos bocados.
A vida é pouco aos bocados.
O amor é vida a sonhar.
Olho para ambos os lados
E ninguém me vem falar.
O amor é vida a sonhar.
Olho para ambos os lados
E ninguém me vem falar.
791
Fernando Pessoa
THE PICTURE
In a saloon that is a sleep
Mine eyes did a picture meet,
And wondrously wise and woefully deep
And horribly complete.
A profound meaning more than tears
Are seen to give, and human fears,
And human madness and woe,
Come as a scent from that picture weird.
The name of the painter is ignored
And his purpose none do know.
Mine eyes did a picture meet,
And wondrously wise and woefully deep
And horribly complete.
A profound meaning more than tears
Are seen to give, and human fears,
And human madness and woe,
Come as a scent from that picture weird.
The name of the painter is ignored
And his purpose none do know.
1 308
Fernando Pessoa
Nuvem alta, nuvem alta,
Nuvem alta, nuvem alta,
Porque é que tão alta vais?
Se tens o amor que me falta,
Desce um pouco, desce mais.
Porque é que tão alta vais?
Se tens o amor que me falta,
Desce um pouco, desce mais.
1 431
Fernando Pessoa
A luva que retiraste
A luva que retiraste
Deixou livre a tua mão.
Foi com ela que tocaste,
Sem tocar, meu coração.
Deixou livre a tua mão.
Foi com ela que tocaste,
Sem tocar, meu coração.
1 489
Fernando Pessoa
SONG OF THE DREAM‑SPIRITS TO FANNY
From the beach and from the billow
Rapturously loud,
From the zephyr that doth pillow
All his softness on a cloud;
From the murmur of the river,
From the leaves that rustle ever,
Joyously we come.
We are bright and we are many
As the early drops of dew,
And we come to little Fanny
As the day to you;
From the keenness of the mountain,
From the sparkle of the fountain,
Joyously we come.
From the hill and from the valley,
From the mountain and the vale;
From the evening melancholy
Where all hath a tale;
From the sweetness of the meadow,
From the coolness of the shadow,
Joyously we come.
ln the sadness of the willow,
In the homely nest
We have dwelt and had a pillow
In the poet's breast;
And from all things dimly moving
Human souls to bliss and loving
Joyously we come.
Rapturously loud,
From the zephyr that doth pillow
All his softness on a cloud;
From the murmur of the river,
From the leaves that rustle ever,
Joyously we come.
We are bright and we are many
As the early drops of dew,
And we come to little Fanny
As the day to you;
From the keenness of the mountain,
From the sparkle of the fountain,
Joyously we come.
From the hill and from the valley,
From the mountain and the vale;
From the evening melancholy
Where all hath a tale;
From the sweetness of the meadow,
From the coolness of the shadow,
Joyously we come.
ln the sadness of the willow,
In the homely nest
We have dwelt and had a pillow
In the poet's breast;
And from all things dimly moving
Human souls to bliss and loving
Joyously we come.
1 399
Fernando Pessoa
A vida é triste. O céu é sempre o mesmo. A hora
A vida é triste. O céu é sempre o mesmo. A hora
Passa segundo nossa estéril, tímida maneira.
Ah não haver terraços sobre o impossível.
Passa segundo nossa estéril, tímida maneira.
Ah não haver terraços sobre o impossível.
796
Fernando Pessoa
Quando chegaste à janela
Quando chegaste à janela
Todos que estavam na rua
Disseram: olha, é aquela,
Tal é a graça que é tua!
Todos que estavam na rua
Disseram: olha, é aquela,
Tal é a graça que é tua!
1 118
Fernando Pessoa
THINGS THAT HAPPEN IN SOCIETY
Apollo married and Hercules married, and this was in real life.
The wife of Hercules loved beautiful rather than strong men,
And strong and not beautiful men was the taste of Apollo's wife.
The wife of Hercules loved beautiful rather than strong men,
And strong and not beautiful men was the taste of Apollo's wife.
1 219
Fernando Pessoa
Por muito que pense e pense
Por muito que pense e pense
No que nunca me disseste,
Teu silêncio não convence.
Faltaste quando vieste.
No que nunca me disseste,
Teu silêncio não convence.
Faltaste quando vieste.
1 305
Fernando Pessoa
O avental, que à gaveta
O avental, que à gaveta
Foste buscar, não terá
Algibeira em que me meta
Para estar contigo já?
Foste buscar, não terá
Algibeira em que me meta
Para estar contigo já?
2 308
Fernando Pessoa
VISÃO
Há um país imenso mais real
Do que a vida que o mundo mostra ter
Mais do que a Natureza natural
À verdade tremendo de viver.
Sob um céu uno e plácido e normal
Onde nada se mostra haver ou ser
Onde nem vento geme, nem fatal
A ideia de uma nuvem se faz crer,
Jaz — uma terra não — não um solo
Mas estranha, gelando em desconsolo
A alma que vê esse pais sem véu,
Hirtamente silente nos espaços
Uma floresta de escarnados braços
Inutilmente erguidos para o céu.
Do que a vida que o mundo mostra ter
Mais do que a Natureza natural
À verdade tremendo de viver.
Sob um céu uno e plácido e normal
Onde nada se mostra haver ou ser
Onde nem vento geme, nem fatal
A ideia de uma nuvem se faz crer,
Jaz — uma terra não — não um solo
Mas estranha, gelando em desconsolo
A alma que vê esse pais sem véu,
Hirtamente silente nos espaços
Uma floresta de escarnados braços
Inutilmente erguidos para o céu.
2 929
Fernando Pessoa
Trazes um lenço apertado
Trazes um lenço apertado
Na cabeça, e um nó atrás.
Mas o que me traz cansado
É o nó que nunca se faz.
Na cabeça, e um nó atrás.
Mas o que me traz cansado
É o nó que nunca se faz.
1 028
Fernando Pessoa
Teu carinho, que fingido,
Teu carinho, que fingido,
Dá-me o prazer de saber
Que inda não tens esquecido
O que o fingir tem de ser.
Dá-me o prazer de saber
Que inda não tens esquecido
O que o fingir tem de ser.
1 323
Fernando Pessoa
Compras carapaus ao cento,
Compras carapaus ao cento,
Sardinhas ao quarteirão.
Só tenho no pensamento
Que me disseste que não.
Sardinhas ao quarteirão.
Só tenho no pensamento
Que me disseste que não.
1 174
Fernando Pessoa
Viraste-me a cara quando
Viraste-me a cara quando
Ia a dizer-te, à chegada,
Que, se voltasses a cara,
Que eu não me importava nada.
Ia a dizer-te, à chegada,
Que, se voltasses a cara,
Que eu não me importava nada.
1 506
Fernando Pessoa
Olha o teu leque esquecido!
Olha o teu leque esquecido!
Olha o teu cabelo solto!
Maria, toma sentido!
Maria, senão não volto!
Olha o teu cabelo solto!
Maria, toma sentido!
Maria, senão não volto!
1 357
Fernando Pessoa
Puseste a mantilha negra
Puseste a mantilha negra
Que hás-de tirar ao voltar.
A que me puseste na alma
Não tiras. Mas deixa-a estar!
Que hás-de tirar ao voltar.
A que me puseste na alma
Não tiras. Mas deixa-a estar!
1 304
Fernando Pessoa
Descasquei o camarão,
Descasquei o camarão,
Tirei-lhe a cabeça toda.
Quando o amor não tem razão
É que o amor incomoda.
Tirei-lhe a cabeça toda.
Quando o amor não tem razão
É que o amor incomoda.
2 372
Fernando Pessoa
Tiraste o linho da arca,
Tiraste o linho da arca,
Da arca tiraste o linho.
Meu coração tem a marca
Que lhe puseste mansinho.
Da arca tiraste o linho.
Meu coração tem a marca
Que lhe puseste mansinho.
1 211
Fernando Pessoa
São já onze horas da noite.
São já onze horas da noite.
Porque te não vais deitar?
Se de nada serve ver-te,
Mais vale não te fitar.
Porque te não vais deitar?
Se de nada serve ver-te,
Mais vale não te fitar.
1 530
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