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Poemas neste tema

Edith Sitwell

Edith Sitwell

LÁGRIMAS

As minhas lágrimas eram o esplendor de Orionte com sêxtuplos sóis e o milhão
De flores nas campinas do céu, onde os sistemas solares se põem -
As rochas de imenso diamante a meio da clara vaga
Pelo orvalho de Maio e a matutina luz erguida, mais diamantes gerando,
Eu chorava pelas glórias do ar, pelos milhões de auroras
E os esplendores no coração do Homem com treva lutando,
Chorava pelas belas rainhas do mundo, como um canteiro de flores brilhando,
Agora colhidas, às seis, às sete, mas todas as manhãs da Eternidade.
Mas agora as lágrimas refluem e como horas tombam:
Choro por Vénus cujo corpo se mudou em cidade metafísica,
Cujo pulsar do coração é ora o som das revoluções - pelo amor mudado
Em caridade de hospital, em esperança dos sábios no futuro,
E pelo Homem ensombrado, essa complexa multiplicidade
De ar e de água, planta e animal,
Diamante duro, infinito sol.

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Francesco Petrarca

Francesco Petrarca

ITALIA MIA

Itália minha, se o falar não vale
Dessas chagas mortais
Que o belo corpo assim te dilaceram-
Praz-me que meus suspiros sejam quais
Tibre, Arno e Pó esperam.
Que, grave e triste, aqui, eu me não cale.
Reitor celeste: ao mal
Vieste piedoso combater na terra:
Volta, Senhor, a teu país dilecto.
Perfeito que és, completo,
Vê por quão leves causas crua guerra.
E os peitos a quem cerra
Marte soberbo e fero,
Abre-os, ó Pai, desfeitos em doçura,
Ao som de quanto é vero
Em minha voz que só de Ti se apura.

E vós, a quem fortuna o freio há dado
De terras tão formosas,
De que a piedade em vós se vai delindo:
A que vem cá tanto estrangeiro armado?
Porque é que o verde prado
De sangue bárbaro se vai tingindo?
Derros vos iludindo,
Sois como cegos, pois que amor contais
Que existe, ou lealdade, em venais peitos.
Ao imigo sujeitos
Mais estareis quanto o comprardes mais.
Ó águas diluviais
Colhidas em deserto
Para inundar os nossos campos breves!
Quem poderá estar certo
Ao dar a mão a quem tem pés tão leves?

Bem próvida a natura quando alteou
Entre nós e os tudescos
Dos fortes Alpes o limite duro.
Mas a vontade estulta em gigantescos
Esforços se empenhou
E trouxe-os como sarna ao corpo puro
Ou dentro ao mesmo muro
Feras selvagens e a virtuosa grei
Que delas, por melhor, será dolente:
Sendo isto procedente
Dessas, ó dor maior, tribos sem lei,
Às quais, como direi, Mário rasgou o flanco
Qual a memória inda não stá exangue:
Quando, no último arranco,
Águas bebiam que já eram sangue.

César eu calo, que sangrento o verde
Pelas encostas fez
Das veias dels por nosso ferro abertas.
Ora não sei de que astro a rispidez
Perante o céu nos perde,
Se não são culpas vossas mais que certas,
Vontades tão despertas
Para gastar do mundo a parte bela.
De quem será juízo ou é pecado,
Se o povo desgraçado
É quem de aflito por vós paga aquela
Gente que nos flagela,
E detestável mais,
Que as almas vende a troco de áureo peso.
Eu falo pra que ouçais,
Não por ódio de alguém, ou por desprezo.

Que mais necessitais que alguém vos prove
Os bárbaros enganos
Que alçando os dedos com a morte brinquem?
Pior é a tortura do que o são os danos.
E o vosso sangue chove
Mais amplamente em ódios que vos trinquem.
No madrugar se afinquem
Os vossos pensamentos: vereis claro
Quem será caro a quem se tem por vil.
Nosso sangue gentil
É derramado por um esforço ignaro.
Fazeis ídolo raro
De um nome sem sentido:
Que o furor desta gente só repousa
No seu pensar perdido:
Pecado é nosso e não natural cousa.

Esta terra não é que andei primeiro?
Não é este o meu ninho
Em que criado fui tão docemente?
Pátria não é da fé e do carinho,
A madre em cujo seio
Dorme quem me gerou, foi meu parente?
Por Deus, que a vossa mente
Disto se mova, e pios contempleis
As lágrimas do povo doloroso
Que só de vós repouso
Ainda espera: e quanto vos mostreis
Que para el viveis, logo contra o furor
Das armas tomará em fúria absorto,
Pois que o antigo valor
No coração da Itália não está morto.

Mirai, senhors, como o tempo voa
E foge a doce vida
E a morte espreita já por sobre o ombro.
Estais ora aqui: pensai nessa partida,
Quando alma nua aproa,
E solitária, ao duvidoso assombro.
Cruzando neste combro
Deveis depor no val ódios malignos,
Os ars contrários à vida serena;
E se o tempo em dar pena
Aos outros vós gastais que a actos mais dignos
Ou das mãos ou dos signos, O vosso ser se entregue
E a mais honesto estudo se converta. Que a vida aqui sossegue
E que a celeste estrada seja aberta.
Canção, tuas razões
Discretamente e com cautela digas,
Pois que te hás-de ir por entre altiva gente que é presa por demente
De usanças miseráveis, tão antigas, Do vero sempre imigas. Entrega teus apelos
Aos animosos poucos que o bem praz. E, se puders movê-los,
A eles grita, como eu grito: Paz!

(Tradução de Jorge de Sena)

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Castro Alves

Castro Alves

O ADEUS DE TERESA

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
Adeus eu disse-lhe a tremer coa fala...

E ela, corando, murmurou-me: adeus.

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
Adeus lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: adeus!

Passaram tempos... séclos de delírio
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
. . . Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse -- Voltarei!... descansa!...
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: adeus!

Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz dEla e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! . . . Ela me olhou branca . . . surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: adeus!

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David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

É quando estás de joelhos

É quando estás de joelhos
que és toda bicho da Terra
toda fulgente de pêlos
toda brotada de trevas
toda pesada nos beiços
de um barro que nunca seca
nem no cântico dos seios
nem no soluço das pernas
toda raízes nos dedos
nas unhas toda silvestre
nos olhos toda nascente
no ventre toda floresta
em tudo toda segredo
se de joelhos me entregas
sempre que estás de joelhos
todos os frutos da Terra.

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David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

Grito

Cedros, abetos,
pinheiros novos.
O que há no tecto
do céu deserto,
além do grito?
Tudo que e nosso.

São os teus olhos
desmesurados,
lagos enormes,
mas concentrados
nos meus sentidos.
Tudo o que é nosso
é excessivo.

E a minha boca,
de tão rasgada,
corre-te o corpo
de pólo a pólo,
desfaz-te o colo
de espádua a espádua,
são os teus olhos,
depois o grito.

Cedros, abetos,
pinheiros novos.
É o regresso.
É no silêncio
de outro extremo
desta cidade
a tua casa.
É no teu quarto
de novo o grito.

E mais nocturna
do que nunca
a envergadura
das nossas asas.
Punhal de vento,
rosa de espuma:
morre o desejo,
nasce a ternura.
Mas que silêncio
na tua casa.

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Castro Alves

Castro Alves

SAUDAÇÃO A PALMARES

Nos altos cerros erguido
Ninho dáguias atrevido,
Salve! - País do bandido!
Salve! - Pátria do jaguar!
Verde serra onde os palmares
- Como indianos cocares -
No azul dos colúmbios ares
Desfraldam-se em mole arfar! ...

Salve! Região dos valentes
Onde os ecos estridentes
Mandam aos plainos trementes
Os gritos do caçador!
E ao longe os latidos soam...
E as trompas da caça atroam...
E os corvos negros revoam
Sobre o campo abrasador! ...

Palmares! a ti meu grito!
A ti, barca de granito,
Que no soçobro infinito
Abriste a vela ao trovão.
E provocaste a rajada,
Solta a flâmula agitada
Aos uivos da marujada
Nas ondas da escravidão!

De bravos soberbo estádio,
Das liberdades paládio,
Pegaste o punho do gládio,
E olhaste rindo pra o val:
Descei de cada horizonte...
Senhores! Eis-me de fronte!
E riste... O riso de um monte!
E a ironia... de um chacal!...

Cantem Eunucos devassos
Dos reis os marmóreos paços;
E beijem os férreos laços,
Que não ousam sacudir ...
Eu canto a beleza tua,
Caçadora seminua!...
Em cuja perna flutua
Ruiva a pele de um tapir.

Crioula! o teu seio escuro
Nunca deste ao beijo impuro!
Luzidio, firme, duro,
Guardaste pra um nobre amor.
Negra Diana selvagem,
Que escutas sob a ramagem
As vozes - que traz a aragem
Do teu rijo caçador! ...

Salve, Amazona guerreira!
Que nas rochas da clareira,
- Aos urros da cachoeira -
Sabes bater e lutar...
Salve! - nos cerros erguido -
Ninho, onde em sono atrevido,
Dorme o condor... e o bandido!...
A liberdade... e o jaguar!

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Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

Gozo X

São de alumínio
os flancos
e de feltro a língua

de felpa ou seda
a abertura incerta
que cede breve a humidade
esguia
presa no quente do interior
da pedra

Ou musgo doce
de haste sempre dura
de onde pendem seus dois mansos frutos
que a boca aflora e os dentes prendem
a tatear-lhes
o hálito e o suco

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Caio Valério Catulo

Caio Valério Catulo

V

Vivamos, minha Lésbia, e nos amemos,
sem dar o mínimo valor a todos
os boatos dos velhos mais severos.
Os sóis podem pôr-se
e depois voltar,
mas para nós, uma vez que se ponha
nossa breve luz,
a noite deverá ser um perpétuo
e único sono.
Dê-me mil beijos, e em seguida cem,
e depois mil outros,
depois mais cem, e em seguida outros mil
sem interrupção, e em seguida cem.
Depois, quando tivermos completado
muitos mil, teremos
já perdido a conta
para não termos limite e nenhum
mal-intencionado
possa nos invejar por saber quantos
beijos foram dados.

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Langston Hughes

Langston Hughes

POEMA

A noite é bela:
Assim os olhos do meu povo.
As estrelas são belas:
Belas são também as almas do meu povo.

Belo é também o sol.
Belas são também as almas do meu povo.

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Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

Gozo IX

Ondula mansamente a tua língua
de saliva tirando
toda a roupa...

já breves vêm os dias
dentro de noites já
poucas.

Que resta do nosso
gozo
se parares de me beijar?

Oh meu amor...
devagar...
até que eu fique louca!

Depois... não vejas o mar
afogado em minha
boca!

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Juan Ramón Jiménez

Juan Ramón Jiménez

DE VOLTA

Devagar voltamos,
Com tudo já dito.
Tu me olhas ainda,
Eu já não te fito.

Tu tocas nas flores,
Eu vou beira-rio.
Que modo diverso
O de nós sorrirmos!

A grande lua branca
Em nosso caminho!
A ti ela aquece,
A mim me dá frio.

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David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

Segredo

Nem o tempo tem tempo
Para sondar as trevas
Deste rio correndo
Entre a pele e a pele
Nem o Tempo tem tempo
Nem as trevas dão tréguas
Não descubro o segredo
Que o teu corpo segrega.
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José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

Ignorar a morte

Se agitares tesouras numa fogueira
não esqueças que me feres
um avesso de lume é o meu único
segredo
no impreciso avanço das lâminas
um anjo o descobriria

Tira a faca da gaveta
mas não esqueças
se a cravares na água
como altas vagas o mar me sepultará
dentro da casa abandonada

Não lamentes serem os versos
saberes tão frágeis
as flores mais belas são as que se colhem
quando ainda se ignora a morte.
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William Wordsworth

William Wordsworth

I wandered lonely as a cloud

I wandered lonely as a cloud...

I wandered lonely as a cloud

That floats on high oer vales and hills,

When all at once I saw a crowd,

A host, of golden daffodils,

Beside the lake, beneath the trees,

Fluttering and dancing in the breeze.

Continuous as the stars that shine

And twinkle on the milky way,

They stretchd in never-ending line

Along the margin of a bay:

Ten thousand saw I at a glance

Tossing their heads in sprightly dance.

The waves beside them danced, but they

Out-did the sparkling waves in glee:

A Poet could not but be gay

In such a jocund company!

I gazed--and gazed--but little thought

What wealth the show to me had brought;

For oft, when on my couch I lie

In vacant or in pensive mood,

They flash upon that inward eye

Which is the bliss of solitude;

And then my heart with pleasure fills

And dances with the daffodils.

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Seamus Heaney

Seamus Heaney

Lightenings viii

Lightenings viii

The annals say: when the monks of Clonmacnoise

Were all at prayers inside the oratory

A ship appeared above them in the air.

The anchor dragged along behind so deep

It hooked itself into the altar rails

And then, as the big hull rocked to a standstill,

A crewman shinned and grappled down the rope

And struggled to release it. But in vain.

This man cant bear our life here and will drown,

The abbot said, unless we help him. So

They did, the freed ship sailed, and the man climbed back

Out of the marvellous as he had known it.

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Fiama Hasse Pais Brandão

Fiama Hasse Pais Brandão

Depois de traduzir Hélène Dorion

Amar o universo não me traz mágoa.
sobretudo, amar a areia arrebata-me de júbilo e paixão.
Amar o mar completa a minha vida com o tacto de um amor imenso.
Mas veio o vento e, por momentos, amargurou o meu corpo, a oscilar.
E está o Sol aqui, depois de uns dias com o jardim obscurecido a beber sombra.
E sei que os átomos zumbem e dançam como os insectos, ébrios em redor do pólen.
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Juan Ramón Jiménez

Juan Ramón Jiménez

Álamo blanco

Arriba canta el pájaro
y abajo canta el agua.

(Arriba y abajo,
se me abre el alma).

¡Entre dos melodías,
la columna de plata!

Hoja, pájaro, estrella;
baja flor, raíz, agua.

¡Entre dos conmociones,
la columna de plata!

(¡Y tú, tronco ideal,
entre mi alma y mi alma!)

Mece a la estrella el trino,
la onda a la flor baja.

(Abajo y arriba,
me tiembla el alma).

 

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David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

As últimas vontades

Deixa ficar a flor,

a morte na gaveta,

o tempo no degrau.

Conheces o degrau:

o sétimo degrau

depois do patamar;

o que range ao passares;

o que foi esconderijo

do maço de cigarros

fumado às escondidas...

Deixa ficar a flor.

E nem murmures.Deixa

o tempo no degrau,

a morte na gaveta.

Conheces a gaveta:

a primeira da esquerda,

que se mantém fechada.

Quem atirou a chave

pela janela fora?

Na batalha do ódio,

destruam-se,fechados,

sem tréguas,os retratos!

Deixa ficar a flor.

A flor? Não a conheces.

Bem sei.Nem eu.Ninguém.

Deixa ficar a flor.

Não digas nada.Ouve.

Não ouves o degrau?

Quem sobe agora a escada?

Como vem devagar!

Tão devagar que sobe...

Não digas nada.Ouve:

é com certeza alguém,

alguém que traz a chave.

Deixa ficar a flor.

4 353 2
Anna Akhmatova

Anna Akhmatova

Música

Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.

3 003 2
Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Cristalizações

1.
Com palavras amo.

2.
Inclina-te como a rosa
só quando o vento passe.

3.
Despe-te
como o orvalho
na concha da manhã.

4.
Ama
como o rio sobe os últimos degraus
ao encontro do seu leito.

5.
Como podemos florir
ao peso de tanta luz?

6.
Estou de passagem:
ama o efémero.

7.
Onde espero morrer
será amanhã ainda?

de Ostinato Rigore
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

In Memoriam

Ao meu morto querido

Na cidade de Assis, “II Poverello”
Santo, três vezes santo, andou pregando
Que o sol, a terra, a flor, o rocio brando,
Da pobreza o tristíssimo flagelo,

Tudo quanto há de vil, quanto há de belo,
Tudo era nosso irmão! – E assim sonhando,
Pelas estradas da Umbria foi forjando
Da cadeia do amor o maior elo!

“Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água...”
Ah, Poverello! Em mim, essa lição
Perdeu-se como vela em mar de mágoa

Batida por furiosos vendavais!
– Eu fui na vida a irmã dum só Irmão,
E já não sou a irmã de ninguém mais!
7 215 2
Luís Filipe Castro Mendes

Luís Filipe Castro Mendes

Noutra praia

Mas tu pensas
que o mar te não esqueceu:
por isso voltas cada ano a esta praia
onde tudo o que permanece te ignora;
e encaras o mar como se fosses tu,
ainda tu,
quem recebe na face a mudança dos ventos

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Mário Cesariny

Mário Cesariny

Tantos pintores

Tantos pintores... A realidade, comovida, agradece mas fica no mesmo sítio (daqui ninguém me tira) chamado paisagem
Tantos escritores

A realidade, comovida, agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros na cidade
e algures
Tantos mortos
no rio
A realidade, comovida, agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito
Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gostam da realidade
querem-na para um bocado
não se lhe chegam muito pode sufocar
Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade
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David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

Nocturno

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...

Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era no gira-discos, o Martirio
de São Sebastião, de Debussy....
Era, na jarra, de repente, um lirio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...

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