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Amor

Poemas neste tema

Susana Thénon

Susana Thénon

Hoje

Falo, corneta, rosa
do anjo-barro: o amor
selou
seus vasos comunicantes.
Guardemos o incenso
para os verões públicos.
Deus não funciona.
750
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

De Um Amor Morto

De um amor morto fica
Um pesado tempo quotidiano
Onde os gestos se esbarram
Ao longo do ano

De um amor morto não fica
Nenhuma memória
O passado se rende
O presente o devora
E os navios do tempo
Agudos e lentos
O levam embora

Pois um amor morto não deixa
Em nós seu retrato
De infinita demora
É apenas um facto
Que a eternidade ignora
2 171
Susana Thénon

Susana Thénon

Mais Além

Remontar teu violento mistério
além do sangue,
além do esquecimento,
longe, até o confim do tempo.
Saber-te amanhecendo
na tarde sonora,
no profundo sabor de tuas pernas
subindo meu beijo
até sua boca indefesa,
abrindo tuas portas
lambendo tuas praias secretas
com furor de ressaca do mar .
Descobrindo a rosa em tua língua,
tua bandeira vermelha.
Arrancando do coágulo as horas,
nascendo em segredo.
878
Susana Thénon

Susana Thénon

Aqui

Crava-te, desejo
em meu lado raivoso
e molha suas pupilas
por minha última morte.
Aqui o sangue,
aqui o beijo dissoluto,
aqui a torpe fúria de deus
florescendo em meus ossos.
900
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Soneto 2

Uns lábios que servem a erva azeda,
uma voz gritando "que escândalo";
a pele azul como uma lua bêbeda,
os longos cabelos cheirando a sândalo.

Branda a aparição na soleira da porta,
luz ácida na madrugada de hotel.
Um vago "amo-te" na entoação morta,
um poeta anacrónico a ler o "Fel".

Um entreter de dedos na colheita do lírio,
uma cama desfeita na ausência da alma.
Um incêndio de estrelas num charco de empíreo,

um coração solitário ansiando a calma.
Sóis caindo, cantos de ave, uivo de valquíria:
linguagem de amantes - suspiros, calão e gíria.



Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 51| Na regra do jogo, 1982
583
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

No Mais Secreto

No mais secreto de Junho e de folhagens
Ou interior de flor secretamente
Rosto sob o choupo à luz das luas
Rosto do meu rosto exactamente
Espelho quasi onde me vi de frente
E deslizamos pelo rio como um barco
2 077
Susana Thénon

Susana Thénon

Inferno

Acredita no ódio
que joga veneno em seu lábio?
Acredita no rancor
que te morde até diluir seu inferno?
Acredita na lenda
dos polos opostos
e nesta adorável mentira
da inimizade entre água e azeite?
Hoje?
quando o amor se disfarça de ódio
para sobreviver,
quando o carrasco chora
atrás da morte
e deus descansa?
773
Raquel Nobre Guerra

Raquel Nobre Guerra

Objectos restantes

Objectos restantes do nosso último encontro:
o tubo de tabaco Lucky Strike (seguramente)
e a pontuada consoante «só».
Coisas sem significado que se deixam ficar
como um piropo sem resposta.

Emprestei-me à ideia do erro trágico poder ser belo
rendi-me ao bandido, acomodei-me entre camas
talvez assim nos percamos irremediavelmente.

Mas que farei eu deste lado do muro?

Mover-me na medida da tua distância
para as habituais ratoeiras de estante.
A casa aos baldões porque me deixaste
os explosivos mas não a farmácia
os primeiros socorros e o «Ser e Tempo»
que, quando muito, me alinha um átomo.

Nenhum clássico alternativo ao homem
mudou alguma vez o fuso do mundo.
A malha cai, o gajo escapa
é uma rosa, senhor, de plástico.

Que direi eu deste lado da história?

Que tudo há-de ir para o escuro se até esta luz,
nossa única saúde, foi fechada à perna.

Se pudesse chegar à expressão certa
mentir-te com Deus e Rock & Roll,
perdão, uma pequena elipse,
porque não não foi a flor desse romântico inglês
nem o homem de Porlock mais o paraíso coitado,
quem nos baralhou tão perto de um final feliz.

Foi a noite do teu rosto na noite do meu rosto.

Assim.

Sou até capaz de enunciar as razões
ratazanas da mais afiada prosa roendo
até que o resultado seja outro.
Mas não consigo melhor que isto:
duas beatas tuas encolhidas na cinza.

Pertencem-me para sempre esses cadaverzinhos
que fumaste depois de me beijares ao alto
e arrastar a voz a um amo-te
com a força da luz extrema.
336
Raquel Nobre Guerra

Raquel Nobre Guerra

Uma vez ofereceste-me bananas

Uma vez ofereceste-me bananas
flores para ti, vinha escrito.

Percebo bem a inutilidade da poesia
como de resto a literatura que finge
a mínima desordem dos mundos
o que importa é fingir uma pose.

Explico.

O mais extremo acto de egoísmo:
ter a dimensão própria da caricatura
e endossá-la aos outros.

O que toca a afinal e a quem, que sejamos sinistros?
E o amor um candeeiro de rua frouxo que à nossa passagem se desliga.

Dou conta dos perecíveis.

De ti sabe-se que tinhas um jeito especial
de dar bailinho aos deuses com as mãos
enquanto eu de nariz espetado nesse cima
preferia o abandono onde nada me faltava.

Entendo agora que as bananas dormem com as tuas mãos debaixo da terra e que o nosso amor flutua ainda na calcite.

O mundo, seja como for, cabe nisto.

E eu corro para casa com um bouquet de flores mas tu não estás.

Nada que não estivesse previsto,
heartbreakers, love comes in spurts.
925
Stela do Patrocínio

Stela do Patrocínio

Não deu tempo

não deu tempo
eu estava tomando claridade e luz
quando a luz apagou
a claridade apagou
tudo ficou nas trevas
na madrugada mundial
sem luz
1 604
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Já não é possível

Já tudo é tudo. A perfeição dos
deuses digere o próprio estômago.
O rio da morte corre para a nascente.
O que é feito das palavras senão as palavras?

O que é feito de nós senão
as palavras que nos fazem
Todas as coisas são perfeitas de
Nós até ao infinito, somos pois divinos.

Já não é possível dizer mais nada
mas também não é possível ficar calado.
Eis o verdadeiro rosto do poema.
Assim seja feito a mais e a menos.



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 12 | Assírio & Alvim, 2012
1 773
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Resposta possível à pergunta anterior

Os amigos, a família mais próxima,
esta língua que nos coube, a timidez
alcandorada em cerimónia, o SG,
o vinho bom, a francesinha, os varandins
da burguesia duriense, o Alentejo,
a tradição arquitectónica da pedra,
da modéstia, do adobe, a cortesia
de ser pobre. A quietude remissiva
dos lugares frequentados p'la renúncia.
1 219
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Dizias que gostavas

Dizias que gostavas de poemas.
Escrevi-te, numa tarde, mais de cinco.
São muito bonitos, disseste,
hei-de mostrá-los ao meu namorado.
Nunca mais confiei nos versos
nem no gosto feminil.
1 435
José Miguel Silva

José Miguel Silva

8 MM — Joel Schumacher (1998)

Só o mal pode vencer o mal, pois o bem não tem
poder; tem apenas compaixão, fadiga e compaixão.
É por isso que um polícia não consegue
manter limpos os sapatos. E quando chega a casa
nenhum filho o felicita. Ouve da mulher:
«Patife - a carpete! - estragaste a minha vida!»
Não sei se a culpa é minha ou de ninguém,
mas romperam-se as comportas e a lama
corre livre na cidade do homem.
Quem tem asas pode talvez salvar-se;
mas quem for sozinho, que vontade de morrer.
1 165
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Agora a sério

Nem cínicos nem tontos
o bastante para as guerras
mundiais da mercadânsia,
são simpáticos, os «tugas»,
como todos os inábeis.

Se dão pouco, menos pedem,
desafogam-se em abraços
de convívio quintaleiro,
com o mundo num chinelo
e o chinelo ao pé da porta.

Sem mudanças nem conflitos,
são amáveis com os factos,
obedecem aos estreitos
razoados da renúncia,
não se levam muito a sério.

No lagar da contingência,
reconhecem quase a gosto
a astenia da azeitona,
fazem migas do orgulho,
fazem figas, queimam velas

de tamanho não-te-rales
e que se lixe o candeeiro
do futuro. Malnascidos,
comoventes como ratos
na gaveta da cozinha,

com as patas num trapézio
de suspiros cauteloso,
atilados como filhos
primogénitos da fome,
são apáticos, mas giros:

piedosos quanto baste,
confiantes quando podem,
inocentes como poldros,
pés de salsa ao regadio
da vidina providência.

Faço meus os seus defeitos
(a preguiça, a timidez,
a vocação do remedeio)
e agradeço ter nascido
bem pequeno, com espaço

(quer dizer) para crescer
um pouco mais. Pois
não há pior destino
que nascer acabadinho,
já montado na carroça

triunfante da fiúza,
vendo o mundo p"lo binóculo
invertido do umbigo,
com a alma metralhada
de paixão e cupidez.
1 020
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Salão de beleza (1ª impressão)

Divertidas aporias alimentam os diários
de quem vive o abandono das cidades.
O que fazes, terra vã, nesse passo movediço
de carreta funerária, os lábios uma taça
esbotenada, os olhos como duas pás de cinza,
o que esperas tu à porta da Beleza?
Ditirâmbica ilusão, descordoada lira
cujo timbre nenhum salmo recupera,
por que tintas queres vestir-te para o baile,
se a morte, esse fácil D. Juan, que não sabe
dizer não, é o único galã que permanece
na penumbra do salão e tu própria
já não sabes muito bem
a que santo encomendar as tuas pernas.
522
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Feios, porcos e maus - Ettore Scola (1976)

Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas da limpeza após o combate.

São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem pelo faro
o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.

Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos - tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.

A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.
1 305
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Deixei contigo o meu amor

Deixei contigo o meu amor,
música de açúcar a meio da tarde,
um botão de vestido por apertar,
e o da vida por desapertar,
a flor que secou nas páginas de um livro,
tantas palavras por dizer
e a pressa de chegar,
com o azul do céu à saída.
por entre cafés fechados e um por abrir.
Mas trouxe comigo o teu amor,
os murmúrios que o dizem quando os lembro,
a surpresa de um brilho no olhar,
brinco perdido em secreto campo,
o remorso de partir ao chegar,
e tudo descobrir de cada vez,
mesmo que seja igual ao que vês
neste caminho por encontrar
em que só tu me consegues guiar.
Por isso tenho tudo o que preciso
mesmo que nada nos seja dado;
e basta-me lembrar o teu sorriso
para te sentir ao meu lado.

1 735
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Tudo recomeça

Estar contigo ao acordar, ver como
se abrem as tuas pálpebras, cortinas
corridas sobre o sonho, sacudir dos
teus lábios o silêncio da noite para
que um primeiro riso me traga o dia:
assim, amor, reconheço a vida que
entra contigo pela casa, escancara
janelas e portas, deixa ouvir os pássaros
e o vento fresco da manhã, até que voltas
para junto de mim, e tudo recomeça.
1 373
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Visão

Nas correntes frias onde morre a luz dos astros,
e entre os gritos rápidos dos condenados, encontrei o reflexo
de um amor antigo. Deixou-me um gosto de sangue nos dentes,
os lábios gretados num roxo de ânsia. Rasgou-me a alma
num seco crepitar de papel. Estava imóvel, encostado aos ventos
e às marés, e o seu corpo exalava o cheiro húmido dos litorais. Falava
baixo, num segredo de sombra, num horizonte de bocas sem alegria,
arrastando a voz num sussurro de litania. Fiquei de longe,
a olhar, enquanto o sol nascia.


Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 23 | Na Regra do Jogo, 1982
1 466
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Poema II

Por entre os arcos da nuca e a luz

vidrada dos oblíquos idiomas do amor: as cinzas

de um pássaro refractam-te os cristais da

respiração, prendendo-me os olhos no sulco das cores

amargas da voz. Um eco de mar na concha dos lábios

anuncia o crepúsculo dos hemisférios, que uma

súbita dissolução de versos canta - rumor

que se perde no canto dos mapas, onde o rumo do corpo

se sobrepõe ao traçado de um continente sinuoso.


Colho as flores coaguladas dos sexos

abolidos. Misturo-as no fogo dos tampos arredondados

da manhã, quando o avermelhado silêncio das cigarras

se afoga num encrespar de charco. Bebo as

essências de um sonho cartulário, húmidas sombras

cuja mancha se inscreve na obscura alma. - Que

forma reproduzem? Traços da análoga caverna, peitos

marcados pelo chicote das viagens, im-

precações do rum na voz rouca dos faróis...


Só o que ouço subsiste ( - Mas que luzes

vacilam ainda na névoa da eternidade?)



Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", pág. 297 | Quetzal Editores, 1999

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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Desperdícios

« - Por que me escreves? Que inspiração alheia
te suja os dedos de versos, se os teus lábios
não pronunciaram nunca as palavras que esperei,
quando, em tardes de vento, te olhava em
silêncio? Por que interrompes a estrofe no meu nome,
a flor obscura de uma primavera que não
chegou? Deixa-me!, entre
as copas geométricas de um ritmo vegetal,
respirando na efémera duração de vozes que não ouço;
e sob um breve bater de folhas nos arbustos
perenes que o fumo da madrugada escurece: sombra
separada da própria sombra, e eco já vago
de um canto de pássaro morto! E não deixes que
a minha queixa se dissipe num rumor de águas estagnadas -
charcos da chuva sedentária do outono,
lagoas baças de um choro matinal...» Desperdícios
de vida num fundo amargo de memória.
1 199
Nuno Júdice

Nuno Júdice

A tua mão

Tiro a mão que me esconde o triângulo,
e ela resiste à mão que a desvia; mas
procuro acertar no seu ângulo, e entre-
ver a fresta por onde o amor corria.

Beijo essa mão e ela abre o caminho
para onde me encontro e me perco,
bebendo desse cálice o puro vinho
que me liberta sem sair do cerco.

Amo a tua mão que me guia e prende,
a doce mão de tão finos dedos
a que o meu desejo se rende;

e ao procurá-la, sabendo o que me faz,
deixo que me ensine os seus segredos,
e guardo-a na minha, quando ma dás.
1 738
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Agora é diferente

Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro
Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor
Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora
1 943