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Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vai alta no céu a lua da Primavera

Vai alta no céu a lua da Primavera.
Penso em ti e dentro de mim estou completo.
Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.


06/07/1914
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vossa formosa juventude leda,

Vossa formosa juventude leda,
Vossa felicidade pensativa,
Vosso modo de olhar a quem vos olha,
Vosso não conhecer-vos –

Tudo quanto vós sois, que vos semelha
À vida universal que vos esquece
Dá carinho de amor a quem vos ama
Por serdes não lembrando

Quanta igual mocidade a eterna praia
De Cronos, pai injusto da justiça,
Ondas, quebrou, deixando à só memória
Um branco som de 'spuma.


02/09/1923
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SEMITIS DESILIENTIS AQUAE

Semitis desilientis aquae

No ar frio da noite calma
Bóia à vontade a minh'alma,
Quase sem querer viver
Sente os momentos correr,
Como uma folha no rio,
Sente contra si o frio
Das horas fluidas levando
Seu inerte corpo brando.

Mais do que isto? Para quê?
Tudo quanto o olhar vê
A mão toca, o ouvido escuta,
A consciência perscruta,
É inútil que se escutasse,
Que se visse ou se pensasse.

Entre as margens com arbustos
Luze, na noite dos sustos,
Só o luar repousado,
Ao correr vago e amparado
Do rio deixado em livre
A alma passa, a alma vive.

Ninguém. Só eu e o segredo
Do luar e do arvoredo
Que das margens causa medo.

Nada. Só a hora inútil
Só o sacrifício fútil
De desejar sem querer
E sem razão esquecer.

Prolixa memória, toda.
Rio indo como uma roda,
Noite como um lago mudo,
E a incerteza de tudo.

Recosto-me, e a hora dorme.
Corre-me o que a noite enorme
Atribui à minha mágoa,
Como um ser múrmuro de água.

Ninguém; a noite e o luar.
Nada; nem saber pensar.
Raie o dia, ou morra eu
Volte no oriente do céu
O sol ou não volte mais,
Só sempre os tédios iguais
E as horas, calem o medo,
Como o rio entre o arvoredo,
De nocturna consistência,
Com fluida, vaga insistência.
O mal é haver consciência.


08/10/1919
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nunca sei como é que se pode achar um poente triste

Não sei como é que se pode achar um poente triste.
Só se é por um poente não ser uma madrugada.
Mas se ele é um poente, como é que ele havia de ser uma madrugada?


08/11/1915
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O frio especial das manhãs de viagem,

O frio especial das manhãs de viagem,
A angústia da partida, carnal no arrepanhar
Que vai do coração à pele,
Que chora virtualmente embora alegre.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ao longe os montes têm neve ao sol,

Ao longe os montes têm neve ao sol,
Mas é suave já o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.

Hoje, Neera, não nos escondamos,
Nada nos falta, porque nada somos.
Não esperamos nada
E temos frio ao sol.

Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente,
E aguardando a morte
Como quem a conhece.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Estou cansado, é claro,

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto –
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.


24/06/1935
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Amália Bautista

Amália Bautista

Loucuras

E tu tão longe
e tão dentro de mim, tão invasivo.
E esta chuva
que ameaça dissolver toda a terra
e tornar tudo mar, o meu pesadelo.
E de repente todas as distâncias
se tornam infinitas,
como se só o louco mais malvado
as pudesse ter concebido.

1 006
Filipa Leal

Filipa Leal

Nos dias tristes não se fala de aves

Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.

Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.

1 577
Filipa Leal

Filipa Leal

No fundo dos relógios

Demoro-me neste país indeciso
que ainda procura o amor
no fundo dos relógios,
que se abre
como se abrisse os poros solitários
para que neles caiam ossos, vidros, pão.
Demoro-me
no ventre desta cidade
que nenhum navio abandonou
porque lhe faltou a água para a partida,
como por vezes desaparece a estrada
que nos conduz aos lugares
e ali temos que ficar.

1 002
Edmir Domingues

Edmir Domingues

O circo

Na meia luz do picadeiro
do nosso circo, antes que cheguem,
os que serão nossa platéia,
nossa penumbra interna pulsa
da sua própria intensidade
por sobre o chão de pó de serra.

Que pensarão aqueles todos
que vão chegar, portando angústia,
da angústia vã dos nossos números?
Nem saberão que nós sabemos
que eles também morrem de angústia,
que são convivas da miséria,
do mesmo modo que nós somos.
E que eles têm, como nós temos,
a sua volta, um outro circo,
de um toldo azul, de azul intenso.

Na corda bamba, dançaremos,
como um prodígio de equilíbrio,
mas todos eles, que nos olham,
na corda bamba também vivem.
Se a nossa veste é a do palhaço
trazendo o riso a nosso circo,
é bom lembrar que também eles
que não se pintam da pintura
que em nossos rostos ostentamos,
por muitas vezes são palhaços
no enorme circo em que pelejam.

Em nosso sangue o pó de serra
geme e soluça, e rasga a carne,
se somos mímicos (ou trágicos...).
Mas quanta vez eles são gesto,
trágico gesto, se lhes calam
a voz, impondo-lhes silêncio.

Nossa libré de domador
será de um circo noutro Circo.
1 478
Nuno Júdice

Nuno Júdice

A arte da melancolia

O olhar desloca-se para as rosas que estão
em primeiro plano, como se tivessem sido acabadas
de colher. A mulher, porém, tem outras
flores na mão; e obriga-nos a hesitar entre o pote
de onde nascem as rosas e o colo em que pousam
as flores. Trata-se de uma hesitação breve,
porque logo o seu rosto leva-nos a divagar
acerca da paisagem. Vemo-la ao fundo,
num semicírculo que tem a forma perfeita
do seio que o vestido esconde, e se poderia
confundir com uma visão do paraíso se
a mulher nos aparecesse como um anjo. Mas
não tem asas; e o seu corpo empurra para
longe a transcendência, mesmo que o seu rosto
se perca numa vaga tristeza que as flores
caídas acentuam. No entanto, se em vez desse
mórbido acento me fixar no brilho das primeiras
rosas, posso transferir a cor das pétalas
para cada uma das faces, e ela levantar-se-á
com uma pose de anjo, transformando
a paisagem, ao fundo, na imagem do paraíso.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 96 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 092
Ruy Belo

Ruy Belo

O Portugal futuro

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 144 e 145 | Editorial Presença Lda., 1984
1 504
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

G. A. Bürger

No acabo de entender
por qué me afectan de este modo las cosas
que le sucedieron a Bürger
(sus dos fechas están en la enciclopedia)
en una de las ciudades de la llanura,
junto al río que tiene una sola margen
en la que crece la palmera, no el pino.
Al igual de todos los hombres,
dijo y oyó mentiras,
fue traicionado y fue traidor,
agonizó de amor muchas veces
y, tras la noche del insomnio,
vio los cristales grises del alba,
pero mereció la gran voz de Shakespeare
(en la que están las otras)
y la de Angelus Silesius de Breslau
y con falso descuido limó algún verso,
en el estilo de su época.
Sabía que el presente no es otra cosa
que una partícula fugaz del pasado
que estamos hechos de olvido:
sabiduría tan inútil
como los corolarios de Spinoza
o las magias del miedo.
En la ciudad junto al río inmóvil,
unos dos mil años después de la muerte de un dios
(la historia que refiero es antigua),
Bürger está solo y ahora,
precisamente ahora, lima unos versos.



Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 502 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 288
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Descartes

Soy el único hombre en la tierra y acaso no haya tierra ni hombre.
Acaso un dios me engaña.
Acaso un dios me ha condenado al tiempo, esa larga ilusión.
Sueño la luna y sueño mis ojos que perciben la luna.
He soñado la tarde y la mañana del primer día.
He soñado a Cartago y a las legiones que desolaron Cartago.
He soñado a Lucano.
He soñado la colina del Gólgota y las cruces de Roma.
He soñado la geometría.
He soñado el punto, la línea, el plano y el volumen.
He soñado el amarillo, el azul y el rojo.
He soñado mi enfermiza niñez.
He soñado los mapas y los reinos y aquel duelo en el alba.
He soñado el inconcebible dolor.
He soñado mi espada.
He soñado a Elizabeth de Bohemia.
He soñado la duda y la certidumbre.
He soñado el día de ayer.
Quizá no tuve ayer, quizá no he nacido.
Acaso sueño haber soñado.
Siento un poco de frío, un poco de miedo.
Sobre el Danubio está la noche
Seguiré soñando a Descartes y la fe de sus padres.



Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 527 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
3 132
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

A Johannes Brahms

Yo que soy un intruso en los jardines
que has prodigado a la plural memoria
del porvenir, quise cantar la gloria
que hacia el azul erigen tus violines.
He desistido ahora, para honrarte
no basta esa miseria que la gente
suele apodar con vacuidad el arte.
Quien te honrare ha de ser claro y valiente.
Soy un cobarde. Soy un triste. Nada
podrá justificar esa osadía
de cantar la magnífica alegría
-fuego y cristal- de tu alma enamorada.
Mi servidumbre es la palabra impura,
vástago de un concepto y de un sonido;
ni símbolo, ni espejo, ni gemido,
tuyo es el río que huye y que perdura.


"La moneda de hierro" (1975)

Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 451 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 293
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Olaus Magnus (1490-1558)

El libro es de Olaus Magnus el teólogo
que no abjuró de Roma cuando el Norte
profesó las doctrinas de John Wyclif,
de Hus y de Lutero. Desterrado
del Septentrión, buscaba por las tardes
de Italia algún alivio de sus males
y compuso la historia de su gente
pasando de las fechas a la fábula.
Una vez, una sola, la he tenido
en las manos. El tiempo no ha borrado
el dorso de cansado pergamino,
la escritura cursiva, los curiosos
grabados en acero, las columnas
de su docto latín. Hubo aquel roce.
Oh no leído y presentido libro,
tu hermosa condición de cosa eterna
entró una tarde en las perpetuas aguas
de Heráclito, que siguen arrastrándome.


Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 458 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
890
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Un sábado

Un hombre ciego en una casa hueca
fatiga ciertos limitados rumbos
y toca las paredes que se alargan
y el cristal de las puertas interiores
y los ásperos lomos de los libros
vedados a su amor y la apagada
platería que fue de los mayores
y los grifos del agua y las molduras
y unas vagas monedas y la llave.
Está solo y no hay nadie en el espejo.
Ir y venir. La mano roza el borde
del primer anaquel. Sin proponérselo,
se ha tendido en la cama solitaria
y siente que los actos que ejecuta
interminablemente en su crepúsculo
obedecen a un juego que no entiende
y que dirige un dios indescifrable.
En voz alta repite y cadenciosa
fragmentos de los clásicos y ensaya
variaciones de verbos y de epítetos
y bien o mal escribe este poema.


Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 510 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 680
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

La luna

A María Kodama

Hay tanta soledad en ese oro.
La luna de las noches no es la luna
que vio el primer Adán. Los largos siglos
de la vigilia humana la han colmado
de antiguo llanto. Mírala. Es tu espejo.


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 450 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
4 473
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

1972

Temí que el porvenir (que ya declina)
sería un profundo corredor de espejos
indistintos, ociosos y menguantes,
una repetición de vanidades,
y en la penumbra que precede al sueño
rogué a mis dioses, cuyo nombre ignoro,
que enviaran algo o alguien a mis días.
Lo hicieron. Es la Patria. Mis mayores
la sirvieron con largas proscripciones,
con penurias, con hambre, con batallas,
aquí de nuevo está el hermoso riesgo.
No soy aquellas sombras tutelares
que honré con versos que no olvida el tiempo.
Estoy ciego. He cumplido los setenta;
no soy el oriental Francisco Borges
que murió con dos balas en el pecho,
entre las agonías de los hombres,
en el hedor de un hospital de sangre,
pero la Patria, hoy profanada quiere
que con mi oscura pluma de gramático,
docta en las nimiedades académicas
y ajena a los trabajos de la espada,
congregue el gran rumor de la epopeya
y exija mi lugar. Lo estoy haciendo.


"La rosa profunda" (1975)



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 415 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 106
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

El oro de los tigres

Hasta la hora del ocaso amarillo
cuántas veces habré mirado
al poderoso tigre de Bengala
ir y venir por el predestinado camino
detrás de los barrotes de hierro,
sin sospechar que eran su cárcel.
Después vendrían otros tigres,
el tigre de fuego de Blake;
después vendrían otros oros,
el metal amoroso que era Zeus,
el anillo que cada nueve noches *
engendra nueve anillos y éstos, nueve,
y no hay un fin.
Con los años fueron dejándome
los otros hermosos colores
y ahora sólo me quedan
la vaga luz, la inextricable sombra
y el oro del principio.
Oh ponientes, oh tigres, oh fulgores
del mito y de la épica,
oh un oro más precioso, tu cabello
que ansían estas manos.

(1972)


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 380 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
3 314
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Proteo

Antes que los remeros de Odisea
fatigaran el mar color de vino
las inasibles formas adivino
de aquel dios cuyo nombre fue Proteo.

Pastor de los rebaños de los mares
y poseedor del don de profecía,
prefería ocultar lo que sabía
y entretejer oráculos dispares.

Urgido por las gentes asumía
la forma de un león o de una hoguera
o de árbol que da sombra a la ribera

o de agua que en el agua se perdía.
De Proteo el egipcio no te asombres,
tú, que eres uno y eres muchos hombres.


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 406 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
2 087
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

El Perú

De la suma de cosas del orbe ilimitado
vislumbramos apenas una que otra. El olvido
y el azar nos despojan. Para el niño que he sido,
el Perú fue la historia que Prescott ha salvado.
Fue también esa clara palangana de plata
que pendió del arzón de una silla y el mate
de plata con serpientes arqueadas y el embate
de las lanzas que tejen la batalla escarlata.
Fue después una playa que el crepúsculo empaña
y un sigilo de patio, de enrejado y de fuente,
y unas líneas de Eguren que pasan levemente
y una vasta reliquia de piedra en la montaña.
Vivo, soy una sombra que la Sombra amenaza;
moriré y no habré visto mi interminable casa.


"La moneda de hierro" (1976)


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 444 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 828
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Browning resuelve ser poeta

Por estos rojos laberintos de Londres
descubro que he elegido
la más curiosa de las profesiones humanas,
salvo que todas, a su modo, lo son.
Como los alquimistas
que buscaron la piedra filosofar
en el azogue fugitivo,
haré que las comunes palabras
-naipes marcados del tahúr, moneda de la plebe-
rindan la magia que fue suya
cuando Thor era el numen y el estrépito,
el trueno y la plegaria.
En el dialecto de hoy
diré a mi vez las cosas eternas;
trataré de no ser indigno
del gran eco de Byron.
Este polvo que soy será invulnerable.
Si una mujer comparte mi amor
mi verso rozará la décima esfera de los cielos concéntricos;
si una mujer desdeña mi amor
haré de mi tristeza una música,
un alto río que siga resonando en el tiempo.
Viviré de olvidarme.
Seré la cara que entreveo y olvido,
seré Judas que acepta
la divina misión de ser traidor,
seré Calibán en la ciénaga,
seré un soldado mercenario que muere
sin temor y sin fe,
seré Polícrates que ve con espanto
el anillo devuelto por el destino,
seré el amigo que me odia.
El persa me dará el ruiseñor y Roma la espada.
Máscaras, agonías, resurrecciones,
destejerán y tejerán mi suerte
y alguna vez seré Robert Browning.


"La rosa profunda" (1975)


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 390 e 391 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 003