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Corpo

Poemas neste tema

Douglas Mondo

Douglas Mondo

Soneto do passaralho

Moça, venha para o rio.
Tire a saia. Deixe sua
vergonha escondida entre
as folhas de samambaia.

A água límpida, como
minha intenção, vai
apenas lhe refrescar
do forte calor de verão.

Se porventura ou descuido
encostar meu corpo ao seu
não se assuste, ele sou eu.

Feche os olhos e segure
com carinho. Acaricie e
sentirá nágua o passarinho.

784

Traição

Viajo até o ponto mais arrepiante da tua nuca
Percebo o endurecimento do seu corpo
Teus seios
Teus braços
Tua boca
Arrepios
Calafrios
Minha mão decorando teus poros
A ponto de contá-los
Um a um
Conheço o gosto de cada centímetro
Beijos
Cheiros
Misturas
Sinto tremores
Amores
Fisgadas
Calafrios
Minha mão decorando teus pelos
Conheço-os um a um
Cobertura delicada
Da meiga e rija vulva
Que sabe dizer o meu nome
Que me beija
Já não sei onde fica a sua boca
Língua
Mistura
Carnes em estado de fusão
Corpos em estado de tesão
Gozo
Gritos
Beijos
Mentiras
Promessas falsas
Traição

278
Paulo Montalverne

Paulo Montalverne

Dança

Eu me lembro de teu corpo
Esgueirando-se sensual
Pela gula de meu olhar.
No compasso rítmico,
Sibilando,
Trazendo para mim
Tua arte feita de carne.
Degusto na memória,
Ansioso,
O arfar de teus seios
E o suor de tua face.
Que gozo escondia teu sorriso?

846
C. Almeida Stella

C. Almeida Stella

Descoberta

Um CD
uma música
nós dois
um clima
o amor

Noite de estrelas
perfume de madrugada...
sensualidade

A camisa de botões entreabertos
me dá uma pequena amostra
da tua masculinidade...

eu não resisto

e abrindo botão por botão
deixo cair no chão
este primeiro obstáculo

eu te desnudo...

e te toco
te invado
percorro os teus caminhos,
invento trilhas,
descubro o teu ponto G

eu te sinto...

sem atropelos
eu brinco nos teus pêlos,
ora tímida,
ora ousada...

minhas mãos no teu corpo
fazem a sua "Cavalgada".

Te exploro
te provoco
te causo alvoroço,

brinco no teu cabelo
na tua boca
no teu rosto

te acaricio o peito
tuas costas
teu pescoço.

Passeio na tua cintura...

e pouco a pouco
eu te deixo louco

te acarinho aqui,
ali primeiro,
te toco no corpo inteiro

te encho de desejo
te levo ao delirio
incendeio esse corpo teu.

Então eu te descubro...

Eu te possuo
já não és mais o menino.
És um homem
tão...e somente meu!

952
Eliana Mora

Eliana Mora

O caminho das nuvens

Senti na pele
os dedos teus
colando em mim
um surfe estranho
a voltejar
em minhas ondas
olhando enfim para as
paisagens tão
redondas
ouvindo o som
do que de longe
já conheces

E tomas posse
do terreno
demarcado
que amanhece
todo dia
em cama fria
Porém que túmido
servil
e orvalhado
sabe mostrar das noites
frias
resultado

Terreno morno
que se tranca a esperar
que possas vir
[de alguma nuvem
despencar]
Para sorver na noite
a fonte
do esplendor

Colhermos juntos
tão sentido
e doce

amor

708
Isabel Machado

Isabel Machado

Sugar

Me dá meu beijo
me suga feito redemoinho
para o centro da luz
que me espera

Sem pressa
e guloso ao mesmo tempo
sem tempo de esperar
como quem vai morrer amanhã

Deixa encravado na pele
o cheiro da manhã
a nos envolver
a enternecer tanta vida
que suspira
que reflete
em cada ato
em cada tato
em cada canto
do meu quarto

850
Agostina Akemi Sasaoka

Agostina Akemi Sasaoka

Entranhas

O sorriso caiu.
Entre as pétalas de mim:
o cio.
Esperma aos farelos.
A lua bóia na taça de sangue.
Entre os sopros selvagens,
tórridos toques
(sinceros como um cadáver).
Com os dedos enfiados no vento,
quero lamber a liberdade.
Já esfacelei minhas lágrimas...
Enquanto o sol
baba sobre mim,
vou varrendo minha sombra
com restos de beijos...
A esperança dormiu.
Entre os subúrbios de mim:
a dor.
Bolhas de areia,
cacos de suor...
Há bolor nas estrelas.
Eis-me pecado!
Eis-me boca!
Pouca coisa:
alfinetes incendiados.
O amor vai pingando sobre o telhado,
amargo enquanto vocábulo:
deserto parido.
A vida é um estupro:
nasci para morrer.
Renascer das cinzas,
das sobras,
das teias...
Vou lutar até o orgasmo.
A noite
arrotou.
Assim seja,
assim sangre...
Entre a poeira de mim:
o prazer.
Caroço de paixão.
Vou morrer...
Vou morrer... Mas é só para te humilhar.
Vem...
Degola meu cheiro.
Não sou mulher,
sou distanásia.

859
Nico Fagundes

Nico Fagundes

Mulher querência

Na querência do teu corpo
tem coxilhas e canhadas
cacimbas de luas claras,
matas escuras fechadas
e dois cerros de granito
com pitangas coloradas
só eu sei achar o rumo
dos atalhos e picadas
e bebo a noite em teus olhos
no frescor das tuas aguadas
e fumo a brasa escondida
das coivaras e queimadas
como quem acende um sol
no largo das madrugadas

Eu morro em ti,
e me enterro,
e ressuscito outra vez
semente chuva e mormaço,
berro de potro e de rês.
Gineteio sem espora,
faço o que ninguém fez.
Coração de ressolana
com um ovo guacho de indês.
Nas quatro luas campeiras
de volta em roda do mês:
dono, patrão, bolicheiro,
escravo, peão, e freguês.

2 031
Líria Bordinhão Dahlke

Líria Bordinhão Dahlke

Mãos, toques, desejos

Aquelas mãos em toques eternos
em alguns minutos apenas horas se tornaram
Eternos movimentos das pontas dos dedos
Procuravam retorno desejado presente na pele...

Cúmplices, entrelaçados
Numa imagem sem nome, sem entendimento
Sem cobranças
Somente sentimento e desejo

Adoradora química
Dos lábios fortes em toques essenciais
Que nem o melhor de todos que já tive
Poderia imaginar...

944
C. Almeida Stella

C. Almeida Stella

Passeio

Blusa em organza branca
em transparência delicada
insinuando
mostrando tudo... mostrando nada

Botõezinhos perolados... semi-abertos
delicados...
guardam uma fronteira
entre a imaginação e a realidade
de caminhos inexplorados

Tua mão se perde na transparência
dessa diáfana blusinha.
Atravessa timidamente os limites
que os botõezinhos entreabertos deixam ver
e que o teu desejo... adivinha

Tua mão é macia
ela vai brincando,
acarinhando
invadindo a minha geografia
explorando vales, montes, planicies,
detendo-se um pouco aqui
um pouco ali,
desvendando caminhos nunca trilhados
criando atalhos...

Minha pele sente o teu toque,
a tua sedução
e no calor da tua mão
ela vibra
pede mais.

Em seu passeio sensual
tua mão desperta em mim
milhares de sensações
e aquela coisa tão louca
aquele grande desejo
de ter...

não somente a tua mão...
assim...
a me percorrer...
mas também... a tua boca!

827
Ricardo R. Almeida

Ricardo R. Almeida

O deslizar

Deslizo
A sua imagem pelo meu pensamento
O seu cheiro pelo meu sangue
A sua voz, as suas palavras pelo meu desejo

Deslizo
As minhas mãos por entre as suas coxas
A minha boca pelos seus lábios
O meu corpo pelo seu

Deslizo
Tudo o que pode haver no mundo
E que no entanto somos só nós dois
A dançar como imagens oníricas

Deslizar de sonhos
de espaços intermináveis
De amores, paixões incontroláveis
Infinitas

Deslizo
Trêmulo, nervoso pelo meu desejo
De não deixá-la deslizar
Por entre as minhas mãos

870
Carlos Seabra

Carlos Seabra

O amar do mar

boca do mar
beijo de sal
lábios da praia
pele de areia

língua de rio
decote de dunas
seios de ilhas
abraço do sol

correntes de desejo
cheiro de algas
ondas de prazer
espuma que rebenta

gemidos das gaivotas
gozo das nuvens
céu que se funde
no azul do mar

1 092
Elisa Grec

Elisa Grec

De mim, você pode conseguir

De mim,
Você pode conseguir
Tudo que deseja
Tudo que sempre quis ter

Desde um simples
Objeto material
Até prazeres
Prazeres que nunca esquecera

Vá fundo dentro de mim
(entenda isso como quiser)
Descubra meu corpo
Descubra minha mente

Vejamos se consegue
E se depois
Vai gostar do que encontrou
Vai querer algo mais...

706
C. Almeida Stella

C. Almeida Stella

Virtual

Nunca te vi,
Não conheço o teu corpo,
Mas eu te sinto
Mesmo que estejas longe.
Não me olhei ainda
Na luz dos teus olhos
E nem provei
O gosto da tua boca.
Mas eu te quero,
Mesmo sabendo
Que nunca te terei.
Não experimentei o teu toque
E nem sequer te acariciei,
Mas sinto o teu perfume no ar.
Sucumbi à tua sedução,
Mesmo sabendo
Que nunca te encontrarei.
Nosso amor é só virtual,
Mas não faz mal,
Pois alma é mais do que corpo.
E, se não te tenho ao meu lado,
Que o vento sussurre para ti
Minhas palavras de carinho.
Quero também que ele diga
Que alguém te ama
Do jeito que mais sabe,
Com tudo o que é capaz.
E se pensares no amor,
E em tudo o que ele traz,
De felicidade, na vida,
Ora, isso não é nada,
Pois te amo muito mais!
Alma é mais do que corpo.
E minha alma seguirá
Sempre amando a tua,
Mesmo que nossos corpos
Nunca possam se encontrar.
Mas chegará o momento,
Por alma ser mais que corpo,
Que seremos só uma alma,
Um coração
E um só pensamento!

874
Maria Carlos Loureiro

Maria Carlos Loureiro

O amor em linguagem de computador (versão 2)

Percorro com os dedos o teclado
e acaricio nele a tua pele
que imagino morena e macia.

Envolvo com o olhar o monitor aceso
e aprocuro aí os teus olhos
que suponho escuros e ardentes.

Passeio com o rato no tapete
e sinto os teus lábios no meu corpo,
vagarosamente deslizando
e deixando nele o sabor que imagino em ti.

1 030
Eliana Mora

Eliana Mora

Ritmo desnudo

As pétalas de um corpo
são assim
Podem querer se dar
se desfolhar
De certo modo podem mesmo latejar
E ele vai ficando
um tanto mais safado
mais desnudo
E na vergonha
deixa de dizer que ainda fica
mudo
Por que ninguém queria ouvir
um grito seu
E vai perdendo aquele jeito
duro
um ar de estátua
sólido e salino
de planta seca mas vivaz
um certo ar mordaz
[ou ar divino]
De algo que encolheu
que foi fechando
que se rompeu num ritmo
perverso
escondendo de si mesmo
um próprio indesejado
verso
Que tocou desafinado
sem sentido
E assim permaneceu por muito
tempo
[um tempo infindo]
Sem ter pensado
ou procurado achar
perdão
Ou ainda tão somente ter
olhado
Se ainda tinha corda
aquele corpo
Solo virgem

[violão]

697
Ademir Antônio Bacca

Ademir Antônio Bacca

Das viagens

viajo
no teu corpo
caminhos
nunca imaginados

delírios
de náufrago à deriva
em noite de temporal.

viajo em ti
sonhos de uma ternura
nunca sentida.

1 407
Camila Sintra

Camila Sintra

Seios

Sei que não é para mim
teu leite tão doce
e que a boca que o tem
não te deseja como eu...

Sei que não posso beber tudo
que devo sugar pouco
algumas gotas de teu mel
mas que me alucinam...

Sei que logo vai secar
em breve teus seios voltam
teu filho desmama
e não mais mamarei eu...

Sei que sempre sugarei
teus peitos generosos
teus mamilos penetrantes
tuas carnes que desejo...

Sei que quero te beber
beber-te toda e para sempre
na forma de leite, saliva,
em tua boca, seios e vagina!

1 355
Letícia Luccheze

Letícia Luccheze

Uma escritora erótica aos afagos de um poeta

Na casa sem pecado se embriaga
O toque do telefone
O convite dela
O aceito dele

Satisfação e felicidade
Se embriagam

O clima se compõem
Odor, aconchego
Metafísico, afrodisíaco

Sonolenta no sofá adormece

O toque da campainha
Meia noite e trinta
O sorriso transparece
A excitação que desce e faz subir

O beijo na face
Música, pizza,
Bebida e conto

Colchão no chão
Lençol na cama
Travesseiro, almofada,
Cobertor e virou

Liberdade
O filme pornô a luz enubrece

Ela vira
Ele tira a calça
Ele vira
Ela tira a roupa

Ela parece dormir
Ele então comenta
De um beijo que deve a ela

Troca filme
Ele senta no chão

A dívida reluz
Ao seu lado
Ele deita

O beijo...
Ardente, quente,
Molhado, alucinante

Conversas diversas

Outro beijo
Ele e ela
Roupas e lençol
Ao alto

O beijo
A transfusão de desejos
Em posições...

O amanhecer
Despedida
O beijo na boca

367
Luiz Alberto Machado

Luiz Alberto Machado

Painel das fêmeas

A mulher jaz do meu lado
e de mãos dadas
somos finalmente felizes
felizes além da vida
a vida pelo amor

a nossa consaguinidade
sob a aureola da paixão
a pérola dela
que mastiga meus pensamentos
e me atrevo chegar ao seu trono
súdito sem cetro do seu querer
inculto fiel da imagem dela

a quem seria dado
a permissão de lhe desposar
que plebeu afortunado
alcançaria sua majestade
e renunciando o reinado
seria apenas seu amante
um rei destronado
entronizado apenas pelo amor

A mulher jaz do meu lado
é quase de manhã
e a nossa distância cislunar
no que pese ser feliz
ainda sinto seu cheiro quente
seu repouso incólume
depois da entrega dos corpos
sem condenação inquisitorial
sem gravidez rejeitada
sem perseguição de sicários
dorme sem saber Heloisa
sem a despedida de Tzvetaeva
pelos vitrais dos sonhos
no prima de turmalina
a deusa mulher
que jaz do meu lado

Seu corpo modelado
sua ferida santa e viva
seu jeito grácil
o milagre da prodigalidade
seu belo rosto
feliz semblante de Thereza
a viúva bela
mais bela sem par
seu nome endereçado
o seu condão
o seu sexo desejado
sua graça e seu feitio

A mulher jaz do meu lado
e insulto primeiro afeto
o seio embaixo da blusa
as mãos ungidas pelo prazer
a boca dos desejos que não se dizem
o corpo de tão puro recheio
– os maus pensamentos de Moliére repousam na minha cabeça

Minhas mãos resvalam e apalpo e enlevo
pelo evasé de sua saia bandô
as coxas grossas, roliças
a anca macia
a vulva
fulvas redondas
remexe o quadril
a minha intemperança
a minha concupiscência
hei de vê-la ferver no molde exato
a dar o que me falta
coisa feita de coisas que não se dizem
seu olhar lânguido na avareza do querer
endemoninhando minha sede
bebo na sua boca a água que me sacia
e me incendeia
testemunho seu poder de seduzir
Deusa Maceió
invado sua maldita reclusa
reclusa que detona o viço
e me engalfinho em seu esconderijo
por suas peças íntimas
e intumescido e cheio me afogo
bebo o seu rio
mordo a sua carne
sou seu canibal, índia pura
seu corpo baila no meu Albertville
achega-me, sua chama me domina
a mira, o alvo, tonta e dança
mais dança meu coraçãoa dança do ventre de Sheyla Matos
quando pudesse estimar o meu extermínio
e ela vem tão indomável quanto santa a se despir
– um pênalti na pequena área do meu coração
e ela vem bulindo, dinamitando meus sonhos
a se dissolver em mim com meu dedo na boca
e despejo a minha vida
e engole o meu sêmen no centro do feitiço
viúva alada, dorso febril
e a febre ae a cintura
roço-lhe o esfíncter até Grafemberg
na sua nudez Carolina Ferraz
na penumbra andente do seu ser
o seu gemido me extasia no movimento sensual
de Margret, de Durga, de Rachel
das tres uma de cabelos lisos
em seu tamanho menor da geografia colada no vestido curto
no Delicate Sounds of Thunder
faz valer minha fantasia e desmaia
oh! coreografia do prazer
bundinha vai-e-vem, viúva bela
minha tenda de Maria Brown
me enlaça e me diz que sou a camisa dez do seu coração
me espera que contarei das aventuras ao me reabilitarem entre os vivos
e reinarei sobre sua volúpia
e derramarei meu esperma
e saltarei fundo na paixão
vou dormir nos seus olhos com toda a minha agonia
de ilha encantada e cantarei a linda canção de J.Alfredo Pruckfork
e será lindo acordar com você do lado

A mulher jaz ao meu lado
depois de um xeque mate no xadrex de Middleton
sua meiguice sem pudor
no dever de sermos o protótipo dos deuses
me acuda, são juras sinceras de um porta vário e um verso lascivo
amar não faz mal a ninguém
e ensaio versos pros seus olhos
faço cantigas pro seu jeito, raínha minha, raínha nua
sequer suspeita que eu já morria enrubescido e despudorado
com a cara e a coragem peculiares aos enamorados
cadê você? Pedi tanto prá São Lunguinho lhe encontrar
logo jamais deixarei partir
amando com voragem até saber o feitiço do cogumelo de Alice
que me rasga e me cura
e com todo ímpeto eu espero sem medo, viúva
espero ver-lhe o talhe, a alma
anestesiado na moita
repousando às suas coxas
na noite roxa, olhos revirando
no gemido de estar gozando o prazer extremo
o átimo, o ápice da minha jugular aberta
minha aorta infecta de ser feliz deste lado
e do seu lado, viúva, para a mulher que jaz agora aqui comigo.

1 044
Ricardo Kelmer

Ricardo Kelmer

Licor

O teu corpo é um bombom em minha boca
Um som que se quebra em minha língua
Um licor que escorre sensual

Não há nada igual
Minha língua do teu corpo inquilina
Teu licor que minha boca indisciplina

Nada igual
Tua dor, teu louco riso
Teu pouco juízo

Final.

980
Diana Bellessi

Diana Bellessi

Não me mandes para o canto

Quando digo a palavra
nuca
chupo-te suavemente
até afundar
o dente aqui?
Acaso estou te tocando?
Quando digo bico do peito
a mão roça
as dilatadas rosas dos peitos teus?
Toco-te acaso?
Toca, língua, acaso o canto
de meus lábios e aprisiona
na vasta cavidade do corpo
que deseja ser tocado e cingido
por tua língua quando nomeia
por minha boca a palavra língua, acaso?
Não me mandes para o canto
Não faças de mim a testemunha
que se olha te tocando com palavras
É a mão nomeada
não o nome
que deseja aprisionar tuas nádegas
– Fala-me
– Como será?
– O quê?
– Tua voz
Fogo oculto na madeira
do fogo que se expande?
É assim que será?
O corpo de tua voz
no instante em que
não me mandes para o canto
Flui mel das romãs
Não quero
tocar um fantasma
nem quero
a fantasia cortês
do trovador à sua dama
É a você, minha amada
áspero corpo da amiga que desejo
Gesto
de mútua apropriação
instante
onde não se sabe
os limites do tu, do eu
O nome e o nomeado
em tersa conjunção que sabe
não durará
e sabe
é mais eterno
que o gume de um diamante
Alegre
relâmpago de garra
e de mordedura
animal
o mais belo de toodos
o instinto
impera aqui
Sua voz não tem tradução
Verbal moeda de intercâmbio
não
Só o audaz abraço, minha amiga,
responde aqui

785
Cristiane Neder

Cristiane Neder

Águas de Forestier


O vinho que toca seus lábios
desperta o pecado
em um pobre pagão
que sonha com o paraíso,
onde todas as águas
se transformam em vinho,
dos rios, lagos, marés e cachoeiras,
salgadas, doces, porém todas vermelhas.
Lavando seus pés,
molhando os seus seios,
escorrendo sobre todo seu corpo
o doce veneno,
que nos embriaga a sede de outras paixões.
Pequenos Bacos
brincando de serem anões,
e todo pecado será desculpado
por todo motivo impulsionado por prazer.
Toda musa será deusa,
todo ateu será josé,
e o pecado é não beber
da fonte das águas de Forestier.

873
Liz Christine

Liz Christine

Meu chocolate

Ao leite ou derretido
Com passas ou crocante
Puro ou pervertido
Com recheio
É excitante
Eu saboreio
Te mordo
E meu corpo todo
Lambuzada
Chocolate
Fina arte
Transformada
Misturada
Ao sabor supremo
Meu chocolate
Meu veneno
Você é arte
Só você extermina
Minha melancolia
Você, serotonina
Que me vicia

903