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Poemas neste tema

Águia Mendes

Águia Mendes

A Casa

a gustavo fernandes
de lima sobrinho

há quatrocentos anos
eu sonho
uma casa no mundo
varanda dos lados
wc com luar
ruas refulgentes
poltronas & sofás

há quatrocentos anos
eu sonho
uma casa marítima
alcova com beira-mar
padarias e jardins
vulva crepuscular

casa que é bar
vulgata vulgívaga
retreta lunar

mercearia
com pomares em órbita
e sonoros pardais
ou um negro coagido
por uma confederação
de poetas marginais

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Bruno KKC

Bruno KKC

Uns e Outros

Uns dizem que sim
Outros dizem que vim
Uns dizem que nao
Outros dizem paixao

Uns dizem que espero
Outros dizem que quero
Uns dizem morte
Outros dizem sorte

Uns dizem lento
Outros dizem momento
Uns dizem dor
Outros dizem flor

Desejando o teu sim
Desde do instante em que vim
Para nao dizer nao
A esta paixao

Sera que tudo que espero
E com forca quero
Ira me livrar da morte
De um encontro de sorte ?

Neste lento momento de dor
Quando nasce mais uma flor...

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José Albano

José Albano

Prece

Bom Jesus, amador das almas puras
Bom Jesus, amador das almas mansas,
De ti vêm as serenas esperanças,
De ti vêm as angélicas doçuras.

Em toda parte vejo que procuras
O pecador ingrato e não descansas,
Para lhe dar as bem-aventuranças
Que os espíritos gozam nas alturas.

A mim, pois, que de mágoa desatino
E, noite e dia, em lágrimas me banho,
Vem abrandar o meu cruel destino,

E terminado este degredo estranho,
Tem compaixão de mim, pastor divino,
Que não falte uma ovelha ao teu rebanho!

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Bento Prado Júnior

Bento Prado Júnior

Casa Destelhada

A casa é um templo humilde, em cujo tecto
há goteiras que choram, noite e dia;
o seu recinto todo está repleto
do verde musgo, que a humanidade cria.

Oculta um monge de sereno aspecto
na solidão do templo, a luz sombria.
Vota-lhe o monge singular afeto,
que lhe aviventa a fonte da poesia.

Nunca lhe entre os humbrais alma profana!
Lugar tão venerando dessa forma,
ofendê-lo-á, por certo, a vista humana!

Pois se procede, nesse ambiente sério,
ao milagre da dor, que se transforma,
no cadinho do amor, em refrigério...

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Altemar Pontes de Oliveira

Altemar Pontes de Oliveira

Nu

Primeiro lugar no concurso do
Copo de Mar, Folhetim Cultural - Internet
Dia desses,
despi-me das máscaras
e delas nu, perambulei calçadas....
quão inconveniente notei-me,
passos irregulares.. ,
feridas expostas, esconderijos à mostra...
ainda titubiante sentei-me ao chão,
pouco a pouco, desacorrentei uns medos
enlameei, com lacrimosas palavras, o poste.
(...) em dado momento
não era eu quem falava,
aliás, fui eu ? eu...?
Viciei-me em farsas.

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Amândio César

Amândio César

Tudo

Em surdina chegaste
E em surdina te vais:

— Oh felicidade que baste,
Que nunca bastas de mais!

E eu queria que ficasses,
De tal maneira ficada,
Que nunca mais me trocasses

— Por nada!

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Li Po

Li Po

BEBENDO AO LUAR

Bebendo vinho entre as flores
Só me senti.
Lua tão solitária,
Eu bebo a ti!
Esta ao lado é minha sombra,
Faz três contigo.
Porque hás-de ser tão distante?
Dança com ela e comigo.

Como nuvens dançaremos
A sombra e eu.
Eterno é o gozo, se atendes
O canto meu.
E unidos nesta embriaguez
(Mas sós de dia)
Estaremos juntos os três
Na Láctea Via.

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Ezra Pound

Ezra Pound

SAUDAÇÃO

Oh geração dos afetados consumados
e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
e não possuem nem o que vestir.

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Arlete Nogueira da Cruz

Arlete Nogueira da Cruz

Oração

Apresento-Te,
bem sabes como,
minhas misérias em formas de oferendas:
considera este arrependimento
e estas mãos vazias
que se estendem ansiosas de Teu bem.
Leva em conta a solidão deste corpo maltratado
que se oferece ao resgate.
Avalia a fraca força que passo
às vezes
contra meu mal.

1 145 1
Adriana Lustosa

Adriana Lustosa

Ontem

Ontem
saí por aí
navegando...
Hoje
tenho medo de voltar
à terra estranha
a ter terra nos pés.
Quando a noite caiu
achei que tinha algo a dizer
do silêncio (dele)
mas antes de dizer
caio também
no absurdo
antes de dizer
escuto...

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Langston Hughes

Langston Hughes

ASPIRAÇÃO

Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
E até que morra o dia
Dançar, pular, cantar!
Depois sob uma árvore,
Quando já entardeceu,
Enquanto a noite vem
- Negra como eu -
Descansar... É o que quero!

Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
Cantar, pular, dançar
Até que a tarde caia!
E dormir sob uma árvore
- Este o desejo meu -
Quando a noite baixar
Negra como eu.

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Amândio César

Amândio César

Caminhada

Irmãos!
Não estive nas câmaras de gás,
Nem vi o arame dos campos de concentração.
Fui talvez o último que cheguei,
Mas cheguei.

Não vim para banquetes,
Pois nesta hora desfraldada
Só há choros e lutos,
E esperanças, ainda esperanças,
Numa futura caminhada.

Irmãos!
Nós somos talvez dum mundo novo
E teremos de construir o mundo novo.
Eu sou talvez o último que cheguei
Para os dias do futuro.

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Poemas Sânscritos

Poemas Sânscritos

DE KALIDASA

1

Melhor é uma poesia por antiga?
Então é sempre má, se for moderna?
Só o amador conhece a luta eterna:
e o crítico que espere o que ele diga.

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Eugenio Montale

Eugenio Montale

NUMA CARTA NÃO ESCRITA

Por um formigueiro de auroras, por uns poucos
arames em que se prende
a lá da vida e se enrola
em horas, anos, hoje os golfinhos aos pares
cabriolam com as crias? Oh que eu não ouça
nada de ti, que eu fuja ao fulgor
da tua fronte. É diferente na terra.

Desaparecer não sei, nem tornar a olhar; tarda
a fornalha vermelha
da noite, a tarde se faz longa,
a súplica é suplício e não ainda
entre as rochas que afloram te chegou
a garrafa do mar. A onda vazia
quebra-se contra o cabo em Finisterra.

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Umberto Saba

Umberto Saba

A Cabra

Falei com uma cabra.
Sòzinha no prado, amarrada.
Saciada de erva, molhada
pela chuva, balava.

Aquele balido era fraterno
à minha dor. E eu respondi, primeiro
por graça, depois porque o sofrer é eterno,
tem uma voz não vária.
Esta voz senti
gemer naquela cabra solitária.

Numa cabra de perfil semita
senti que se queixavam outros males,
os da vida infinita.



LA CAPRA

Ho parlato a una capra.
Era sola sul prato, era legata.
Sazia d"erba, bagnata
dalla pioggia, belava.

Quell"uguale belato era fraterno
al mio dolore. Ed io risposi, prima
per celia, poi perché il dolore è eterno.
ha una voce e non varia.
Questa voce sentiva
gemere in una capra solitaria.

In una capra dal viso semita
sentiva querelarsi ogni altro male,
ogni altra vita.

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Fernando Correia Pina

Fernando Correia Pina

Depois de amar tão loucamente

Depois de te amar tão loucamente,
depois dessa paixão que me abrasou,
depois dessa tesão omnipotente
que os ossos do bom senso devorou,

achei-me um dia só, subitamente,
perguntando-me – agora onde é que vou
sem ninguém a quem amar intensamente,
sem ninguém a quem me dar tal como sou?

E a resposta não veio. Fiquei sozinho
afogando-me em desespero e vinho,
em tristes píveas, em anti-depressivos

e de ti, que hoje és apenas história,
guardo somente a saudosa memória
num pintelho entalado entre os incisivos.

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Paulo Montalverne

Paulo Montalverne

Homenagem

Ah, o pecado!
Viva o pecado
Que esconde em si
A mais casta virtude.
Pequemos todos, então,
Pois a alternativa
É sermos todos pequenos e vãos.

Deixemos correr
Mãos sobre nádegas
E olhares incestuosos
Sobre nossas próprias amantes.
Degolemos padres e pastores
(que também pecam, só que pecam
escondidos)
Pelo horror de terem inventado
As velhas beatas que nunca souberam
pecar.

E pequemos sem culpa
Porque culpa e pecado
Não sabem dançar um maxixe,
Só valsas vienenses.
Quando muito!
O pecado é belo,
Fulgurante e molhado;
Feito para ser deliciado
Como outra língua em nossa boca.

Fiquemos apenas com a angústia
Do pecado mal feito
Ou do jamais cumprido.
Pequemos o aqui e no agora
O pecado doce
Da quase-castidade abandonada.

Sem o pecado
Não acredito na sinceridade de Deus.

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J. G. de Araújo Jorge

J. G. de Araújo Jorge

Razões de amor

I

Gosto desse teu ar tristonho,
desse olhar de melancolia,
mesmo nos momentos de prazer e de sonho,
ou nos instantes de amor e de alegria...

Gosto dessa tua expressão de ternura
tão suave e feminina,
desse olhar de ventura
com um brilho úmido a luzir num profundo langor...
Desse teu olhar de meiguice que me cativa e domina,
tu que dás sempre a impressão de quem precisa
de proteção e amor...

Desse teu ar de menina, desse teu ar
que te faz mais mulher
ao meu olhar...

Gosto de tua voz, tranqüila, do tom manso
com que falas, como se acariciasses
até as palavras que dizes;
de tua presença, que é assim como um quieto remanso,
um pedaço de sombra onde me abrigo
quando somos felizes...

Gosto desse teu jeito calmo, sossegado,
com que te encostas em meu peito
e te deixas ficar
entre ternuras e embaraços,
como se tudo ficasse, de repente, parado,
e teu mundo pudesse ser delimitado
pelos meus braços...

Gosto de ti assim, pequenina, macia,
quando te aperto contra mim e te sinto
minha
(inteiramente nua)
e tens um ar abandonado, como quem caminha
sonâmbula, por um estranho caminho
feito de céu e de lua...

II

Gosto de ti
desesperadamente:
dos teus cabelos de tarde
onde mergulho o rosto,
dos teus olhos de remanso
onde me morro e descanso;
dos teus seios de ambrósias,
brancos manjares trementes
com dois vermelhos morangos
para as minhas alegrias;

de teu ventre – uma enseada
– porto sem cais e sem mar –
branca areia à espera da onda
que em vaivém vai se espraiar;
de teus quadris, instrumento
de tantas curvas, convexo,
de tuas coxas que lembram
as brancas asas do sexo;

– do teu corpo só de alvuras
– das infinitas ternuras
de tuas mãos, que são ninhos
de aconchegos e carinhos,
mãos angorás, que parecem
que só de carícias tecem
esses desejos da gente...

Gosto de ti
desesperadamente;

gosto de ti, toda, inteira
nua, nua, bela, bela,
dos teus cabelos de tarde
aos teus pés de Cinderela,
(há dois pássaros inquietos
em teus pequeninos pés)
– gosto de ti, feiticeira,
tal como tu és...

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Julieta Lima

Julieta Lima

Ele

Ele
Agarra-me os cabelos
Morde-me os braços
Beija-me os dedos
E não me diz nada
Não me toca sequer.
Mas para eu me sentir amada
E me sentir mulher
Bastam-me os seus olhos...

Até que eu solte de mim
O cio da fera
Que ando a mascarar de branca asa
E o arraste por fim
Sem pudor sem roupa
Para a minha casa!

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Carlos Lúcio Gontijo

Carlos Lúcio Gontijo

Oração dos casais

Meu bem, sei que Deus protege os casais
Semeia trigais de ternura na pele
Para que o amor sele as marcas da procura
Então, na hora em que a gente for dormir
Façamos jus aos cuidados do Senhor
Por favor, acenda-me quando apagar a luz!

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Liz Christine

Liz Christine

Lilith

Ah, delírio que me erotiza...
Você me despreza, você me pisa...
Me xinga e me avisa...
Que posso fazer?
Eu quero você e gosto de sofrer.
Não é doentio,
É doce esse martírio...
Você é meu desafio.
Quero ser amarrada,
Quero ser queimada...
Pelo fogo da paixão,
Me morde com tesão.
Me morde e me usa...
Depois você me acusa...
De louca e confusa.
Vai, usa, abusa,
Xinga, morde, pisa.
Quero ser espancada,
Quero ficar marcada...
Pela dor dessa paixão...
Quero a marca da sua mão...
Em meu corpo, olhos e coração.
Te amar é morrer...
Me afogar no prazer.

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Bruna Lombardi

Bruna Lombardi

Moto-contínuo

Eu não sabia o que fazer e abri a blusa
mais tarde eu ia dizer foi sem pensar
ele me achou desnorteada, confusa
como acharia qualquer mulher que abre a blusa
e faz tudo que fiz só pra agradar

Minha cabeça não era mesmo muito certa
mulher esperta eu nunca fui, mas deveria
saber me colocar no meu lugar
não adiantava nada, eu era assim desatinada
o tipo de mulher que faz as coisas sem pensar

Você agora, me ouvindo contar essas histórias
talvez me ache, também, um pouco confusa
e eu, que faço tudo para agradar
já sem saber o que fazer abro minha blusa
como faria qualquer mulher confusa no meu lugar.

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Helga Holtz

Helga Holtz

Transmigração

Basta sentir o peso do calor,
a voz rude dos que dominam,
o odor indisfarçável do real,
logo um sonho me transpõe,
busca teu sono para se acudir
e te fazer sonhar, transmigrar,
manchar com a fé nossa cama,
sensual castelo, firme, irreal.

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Sergio Hartenberg

Sergio Hartenberg

Gazela

O que desejo
quando entro em tua carne,
é te rasgar TODA
(pra acalmar
a imensa ANGÚSTIA
de você não ser minha).
Gemer de excitação,
com essas caras, línguas e bocas,
apenas aguça minha RAIVA.
INFINITA
desse gozo
tão efêmero...

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