Escritas

Corpo

Poemas neste tema

Fabio Valor Caldas

Fabio Valor Caldas

Janela

Foi da janela do meu quarto
Que te vi pela primeira e última vez,
Com o meu olhar sonolento
Observava a tua presença.

Seus cabelos brincando com o vento,
E seus olhos distraídos,
Suas pernas em passos frágeis,
E seus belos movimentos perdidos.

Uma passo gracioso saindo da calçada,
No momento em que um alegre
passarinho cantava em seu cortejo,
E você apenas caminhava...

Até que o carro te surpreendeu,
Derrubou-te no chão
Sujando tudo de sangue,
Levando sua alma para longe de mim.

888
Yoji Fujiyama

Yoji Fujiyama

A Garcia Lorca

A branca madrugada não sabia
que encontraria o teu corpo, frio
como o orvalho que caíra
de noite, manso, sobre os olhos.

Estavas já no outro plano
imenso e leve, e breve habitarias
todos os lugares que só tu
e os anjos conhecem intimamente.

O súbito estremecer de uma folhagem
ao toque ingênuo de uma lebre,
e uma asa que deslizava lenta

sobre os teus lábios, eram tudo
que em teu redor inda se movia.
O resto, sem aviso, emudecera longamente...

916
Francisco Carvalho

Francisco Carvalho

Escada do Paraíso

Corpo feito de vagas
agitadas e búzios
sonolentos. Oh corpo
de mulher, entre medusas
e portulanos de areia.
Corpo seduzido pela
luminosidade dos cardumes
pelo movimento sinuoso
das marés. Oh corpo
de terracota e cristal.
Corpo aderido ao sexo
de Deus. Corpo nu
de gaivota em tarde azul
escada do paraíso.
Oh corpo varando a noite
E o dia em diagonal.
Corpo, oh corpo de lava
e lêvedo, fendido
pela cintura de um deus:
eu te celebro nesta
canção. Vertente e foz
dos pecados capitais.

1 170
Fernando J. B. Martinho

Fernando J. B. Martinho

Fronteira Azul

Esta manhã vai subir
como um lírio estrangulado
lentamente na garganta.

Esta manhã vai ter nas mimosas
e no ar a alta vibração
de um caminho para a Morte
decidido firme e incorrupto.

Vai passar o silêncio
a fronteira azul onde os gerânios estremecem
a mais pura gota de água
a que nega o gosto a gravidade
a que cai no céu e o embacia.

Dizer do vento a primeira sílaba
a primeira semente
quando a terra ainda
se não tinha desprendido
do caos
referir da lembrança
o que mais dói
nos seus recessos
como custa suportar
a luz crua
das salinas
que eleva nas margens
do nosso desespero.

Quando a morte
se não podia ainda
olhar de frente
e os morcegos nos feriam
com o latejar de um sangue
mais fulminante que qualquer luz
acontecia na terra
o que nunca mais ousou repetir-se
um lírio dava cor e dava forma
à simplicidade
bravia
entre o silêncio
e o que prometia ser a noite derradeira.

Uma montanha
ao alcance das veias
um dia
deu mais força aos membros
mais volume
à voz
e quando já no rio
toda uma vontade
de nela ser um cardo
crescia
se me recusou
abruptamente.

Onde foi
que um dia
a limpidez
teve o sangue do ultraje
no rosto
e não houve ninguém
um lenço sequer
para lho limpar?

(in Antologia de Poetas Alentejanos)

464
Florisvaldo Mattos

Florisvaldo Mattos

Dezembro

Menino ainda, costumava
romper o cristal da manhã
e do macio horizonte
cavalgar o aromado pêlo
haurindo a seiva do dia, tanto me
comoviam os animais no campo.

Na adolescência,
ave, passei às mãos das incertezas:
como a mim permitiam decidi
a vida cantar por não ser nada.

Transitei pelos vales recolhendo
Um pouco de mim mesmo em cada planta
na água dos riachos me banhava
da pedra me enxugava nas durezas
que ao vento domavam e refaziam
meu secreto saber.

Eu era agora um homem,
tanto me diziam, tanto me provava
o contato com os homens ou algo mais.
A lua cheia matava-me no silêncio,
invariável lua que jamais cantei
por pouco ser e muito dizer.

Amanhecia por vezes sobre um couro,
transido de frio, sem pecados.
Amava a terra, doação da manhã,
mesmo quando armas rudes me cortavam
a fímbria da existência: eu era
um pouco das safras transportadas,
da poeira que tropeiros levantavam
misturada a rastro de sangue nas ladeiras
"Um cavalo cortado ao meio", me diziam,
e isso valia como identificação
ao que vem e suporta seus tropeços.

Os companheiros de infância,
muito bem mortos, lá estão
esculpidos em ecos, regressando,
do afã diário aos búzios vesperais,
ignorando armadilhas do sol-posto,
tanto falam-me os gestos, os ruídos.
E como vêm falar do que não foram!

Agora é dezembro, e pouco vale
um coração cruzado de datas,
mesmo punhais de lâminas fecundas,
rebrilhando ao sol do meio-dia,
de flores, de frutos na campestre senda.
Humilho-me por não ser o que mais fui,
consciente mas expondo-me aos assédios
de ventos ruminosos, águas várias
— águas de aboio insopitado e lento.

Agora é dezembro: com seu penacho
de luz acende o caminho, incinerando
as fétidas lembranças, colorindo
ausências de sonora geometria.
Antes triste que perdido
ao sol que nos confunde,
à chuva que nos vence.

Agora é dezembro, um mês guerreiro,
que doma sombras ao calor de espadas.

938
Fernanda dos Santos

Fernanda dos Santos

Inquietação

Estou disposta
a me confundir com você ,
a me deixar levar,
a me sentir seduzir.

Se seu âmago
te diz do se jeito manso
e seu coração
insiste em atrapalhar
o antigo estado de calmaria ;
Se o seu corpo ,
suado tranborda euforia,
te peço que me leve ;

Me arranquue suspiros e delírios,
me pegue de surpresa,
me faça não ter sentidos e
sensações ;
Me aconchegue no seu coração
e sinta nossa aflição.

Me beije calmo e profundo
e roube os meus charmes e detalhes ,
os meus beijos e
dentes a morder lábios ;

Feche os olhos ,
e sinta á distâncias o meu calor ;
Não sinta culpas e remorsos ,
nem medos de responsabilidades ;

Me envolva
e me faça ver as estrelas
e a entender seu mundo são .

Ao sentir aquela inclinação
a pesar nos pensamentos,
não resista e não rodeie ,
que encorporarei seus sentimentos.

E tranformaremos os seus esboços
e anseios
em pura realização ;
Que te darei
á flor da pele
a mais inesquecível inquietação .

902
Florisvaldo Mattos

Florisvaldo Mattos

Campesino

Como folhas caindo num deserto,
humanas resistências vão caindo
sobre campo sem sol. Peito coberto
de um só grito esperança vai cobrindo.

Rude labor de enxadas consumindo
sangue que dá de sangue um sonho certo,
esperanças do amanho já sumindo
na sede de esperança que está perto.

Amargas deslembranças param, vendo
no íntimo do espetáculo chuvoso
a aparecido desaparecendo.

Antes que o amor se ausente ao chão sem húmus,
já baixam sobre o campo generoso,
as águas da manhã movendo rumos.

971
Florisvaldo Mattos

Florisvaldo Mattos

Duração do Aroma

Não morrem no campo as flores.
Pacíficas continuam
arquiteturas de angústia
dissolvendo-se no chão
amoroso das searas.
Como nuvens distraídas
ficam no solto. Ali somente,
um sofrimento que vem,
uma esperança que vai
da boca dos camponeses
ao chão que abriga silêncio.
Não é pranto nem flor, É vinho.
De amarelo outono e lábios
pranto vinho e flores ficam
incrustados no alimento,

De sangue batendo aos pingos
na superfície das horas
vai seu perfume durando
nas colheitas. Sobrevive
no suor dos músculos tão
sofridos de cicatrizes,
como um hálito de cinza
prenhe de soluço verde.
Prossegue na dor, reunida
à ferrugem dos arados,
a melancolia de olhos,
de pele sacrificada
e ternura corrompida,
de arames e privações.

Que venha o vento brandindo
foices de lua no campo
e corte cercas corte o rio
e das chuvas no caminho
corte horizontes de linho.
Entre abelhas e madeiras,
no coração das florestas
corte as flores e o vizinho
aroma das madrugadas.
Corte pranto dos vaqueiros,
corte rastro dos cavalos
e de quem sofre sozinho
corte voz molhada e fria.
Que venha vento soprando
ferraduras de amargura,
decepe haste das flores
com o alfange da agonia.
Fria lâmina de sombra
inevitável traspasse
o dorso branco do dia.
E o que fica suado na terra
não é pranto nem flor. É vinho.

Sobrevivência do aroma
no lamento desses rostos,
dessas chuvas no caminho,
não morrem no campo as flores:
perduram constituídas
de soluços como o vinho.

821
Fernando Mendes Vianna

Fernando Mendes Vianna

Iniciação

Teu fígado certo
inundarei de álcool.
Tua unha clara
sujarei de sangue.

No teu ventre puro
plantarei dez árvores.
No teu peito liso
agitarei as águas.

Em teu olhar gramado
cavarei uma vala,
e nesse longo sulco
sepultarei teu príncipe.

Rasgarás tuas sedas
e vestirás teu corpo.
Esquecerás tua mãe,
tua melhor amiga
e a oração ao anjo da guarda.

E me adorarás.

1 005

Fim de tarde

O sangue está rompendo dentro
dos meus dedos.
A esperança não é mais o ponto fundamental
A inexperiência esquiva-me
Meus pertences não são mais meus
Estou tomada, a saída qual será?
Os séculos não terão a resposta
Garotos
Nada explicará o inexplicável fato
de eu te adorar
O que estou fazendo aqui?
Será que não era para mim estar lá?
Ou acolá?
Não sei, o conforto não faz-me exemplificar
nem locomover-me
Talvez por isso eu seja covarde
O pensamento vaga e nesta hora
onde você está?
Eu queria tanto ter-te sempre
quando eu precisar
Estar perto de você para amar
Te amar
Como queria, eu agora te amar
com a intensidade dos amantes e a paixão dos
adolescentes e a ternura das crianças
Dizer não talvez fosse a resposta para um nada
O perfeito sempre enfeita o risco de sermos idiotas
O real nem sempre ignoramos
e como ajudar os sentidos?
Como posso ver o horizonte com teus olhos?
Remover os ideais
Ressuscitar o que não nasceu,
de repente a flor do caixão murchou
o defunto apodreceu e eu?
O miolo tornou-se semente e
a vida tornou-se idade nas pedras
sem ideais,
O renascer de pensamentos
obscuros no enraivecer da ignorância humana
Ajudem-me
Cantem algo que socorra-me
Minhas idéias por mais absurdas
que possam ser...

316
Fernando Fábio Fiorese Furtado

Fernando Fábio Fiorese Furtado

Mulher Dormindo

apenas a alma dorme
o corpo insone
trabalha
os minérios do sono
sustenta o pânico
o naufrágio
na penumbra
fogo e relva
os músculos dançam
debruçados sobre o nada

os olhos não
os olhos sonham
à sombra da alma
- e sobrevivem
ao dilúvio

947
Francisco Karam

Francisco Karam

Coração Viajante

Chegam e vão entrando em mim
Como por um caminho aberto.

Passam e vão
Levando da poeira de minha carne
Na carne do seu corpo.

Ficam em mim, como na estrada,
As marcas dos seus pés
E o murmúrio distante dos seus cânticos.

O meu corpo tem saudades.
Ele as iluminou,
Como o braseiro dos serões,
Dando sangue, dando calor.

O meu corpo tem nostalgia.
Ele vive,
Na carne que elas levaram dele.
Na alma que elas arrancaram,
Aos punhados, dos meus olhos.

1 071
Fausto Costa

Fausto Costa

Poluição Noturna

Ela corre sóbria
no meu corpo ébrio,
Enquanto cambaleio excitado
no seu ventre molhado. Sonho.

Calmo momento, desse amor a mil
silhueta estampada na cortina.
Essa menina, furacão e mulher,
ondula as águas serenas do meu fogo.

O inesgotável prazer não nos
assusta e sim completa-nos.
Tudo lindo nesse instante,
Onde os amantes se procuram.

Quando os beijos se completam,
Nossas mãos se entrelaçam,
nossas línguas se enroscam.
No ápice do amor,
Eu acordo para a realidade de nossa
distância.

381
Francisco José Rodrigues

Francisco José Rodrigues

Amarugens

Trazem as ondas amarugens fortes
Que banham o meu corpo já amargo;
Trazem as ondas amarugens tais
Que se unem mais às amarugens minhas.

Por certo, de ondas faz-se a vida toda
E de amarugens duplamente vindas
Da própria vida e das origens nossas...
Por certo, de ondas faz-se a vida e o tempo.

São ondas que se quebram, ondas fortes
Quem em sal se exaurem ou na branca escuma
Que o vento arrasta em sua boca enorme.

Trazem as ondas amarugens, só.
Por certo, de ondas faz-se a vida toda
— Ondas tão fortes mas que em sal se exaurem!

904
Flávio Sátiro Fernandes

Flávio Sátiro Fernandes

Geografia do corpo

Seu corpo tinha culminâncias imprevistas.

Dois montes de areia movediça
mas que sustinham no cume
minúsculas ocorrências rochosas.

Ao pé dos montes situava-se a depressão,
com pequeno lago ao meio,
de formação plistocênica.

Além, entre paredes em erosão,
jorrava a fonte, ora límpida ora turva,
a correr, em seguida, por entre sombria floresta.

Do outro lado da floresta
alteava-se íngreme desfiladeiro
e, após, estendia-se a costa

Da costa, por leste ou por oeste,
era fácil chegar de novo
aos montes de areia movediça
mas que sustinham no cume
minúsculas ocorrências rochosas.

Seu corpo tinha culminâncias imprevistas.

1 065
Fernando José dos Santos Oliveira

Fernando José dos Santos Oliveira

Pensa

Pensa

Pensa
Que sua Presença -
Intensa, Imensa -
Não me é Recompensa
De sua InsensaTEZ ?!

Pensa
Que seu corpo ainda
É virgem de mim
Só porque não o toquei ?!

Atirei-a, vezes muitas,
Ao sofá, ou à cama, ou ao chão.
Rasguei sua roupa,
Com fúria adolescida.
E a amei,
Com calma maturada.

Com a língua escrevi poemas
Em seu corpo-papel-em-branco.
Persegui fugidias gotas de suor
E as sorvi, no alcançá-las,
Para repor a umidade perdida
Na aspereza repentina de sua pele arrepiada,
Na relva macia de seus pêlos sobreviventes.
Quando não, soprava-as - esfriando-as.

Percorri todos os seus caminhos:
Queria sentir-lhes a textura, o cheiro, o gosto;
Usei as mãos (quase flutuando),
A ponta do nariz (quase raspando),
A boca (quase beijando).
Segurei-a para que não me tocasse:
meu prazer vinha do dar.

Formei pequenos seios com sua pele entre meus dentes,
- E a devolvia, levemente marcada;
Aspirei-a, aos pedaços, para dentro de minha boca,
- E os devolvia, levemente avermelhados.
Vi o cerrar de seus olhos,
A procura frenética de sua língua:
Chicoteando o ar, umedecendo os lábios.

Egoísta, não deixei que (só) ELE a invadisse:
Escorri-me, todo, para dentro, vestindo-o.
Ergui-me, meio corpo, nos braços
E levantei a cabeça, estiquei o pescoço,
Para escorrer mais.
Consegui: nos tornamos um só
Nesta viagem úmida, quente, confortável
De idas e vindas.

Não a larguei
Até ouvir o meu prazer de sua boca:
Num grito, num choro, num gemido -
Vindos de um calor,
Um tremor,
Um explodir contraído,
Um suspirar profundo, ofegante - quase arfar.

Vindo de uma vontade de nada mais ser.
Talvez, até, de morrer,
Eis que nada mais importa
(nem mesmo se alguém lembrou de fechar a porta).

Acordei. Foi um sonho. Acordei?! Foi um sonho?!

919
Fábio Afonso de Almeida

Fábio Afonso de Almeida

Espere

Espere, que na noite mais profunda,
Os furores do anseio tirarão meu sono
E aflito, correrei sem rumo
Na busca frenética de mim mesmo.

As horas, desfiando em silêncio,
Irão esfriar meu corpo cansado, a sofrer
Os tremores convulsos da ausência da carne,
Transformados, na dor, em gozo estranho.

A alma solitária, em vôo sem rumo,
Estará confusa pelo nada do ato estéril,
E se debaterá como um manto incontrolado,
Estendido ao fragor da tempestade.

Nessas noites incontroláveis de solidão,
O Espirito, como uma criança abandonada,
Procura perdidamente o corpo que o abriga
E juntos, cristalizam uma lágrima mansa.

Que rola sem rumor, enquanto quente
E única. Mas ao multiplicar-se sem controle
Em gigantescas torrentes de estrépida revolta
Tornará também impossível seu sono de pedra.

793
Fernando Batinga de Mendonça

Fernando Batinga de Mendonça

Poema do Homem Latino-Americano

Para Diego de Rivera,


em cima dos ombros
tens uma pedra:
pedra sem rosto
enorme incerta.

teu corpo de fome
de ossos de pele
trabalha na mina
na lavra da terra.

estendes as mãos
sem forma incertas
nos calos nos cortes
nos dedos nos ferros.

um corpo de fome
vestido de pele
carregas as mãos
um rosto de pedra.
1 081
Fernando Batinga de Mendonça

Fernando Batinga de Mendonça

Vietnã

aos do sul
aos do nortemorte!

irmão natural
da verde jangal
na lama da carne
no fundo do osso
eu vejo teu olho
esquecido no chão:irmão

1 063
Fernando Batinga de Mendonça

Fernando Batinga de Mendonça

Dois Momentos da Infância

1.
pesquisam o sangue
dentro do seu ventre
remexem a carne
pele nervo e osso.

arrancam o filho
do fundo colo escuro
trazido pelo fio
na ponta das agulhas.

— e em resto os meninos
são pedaços
para quem o silêncio
não rompeu.

2.
no centro das paredes
do ventre vão exato
momentos de pesquisa
meninos que se calam.

instalam serpentina
no leito colo escuro
paredes que se fecham
nas portas de platina.

— e nos muros os meninos
se procuram
nas paredes que se fecham
de metal.

918
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Poema para Velhos

onde se fala da emoção imperdoável — e vergonhosa
— das lembranças do País chamado Infância.
Nas comarcas de Infância havia vida.
O que fiz dessa vida? Que sei eu?
Onde estão os anseios desse tempo?
Pois havia, no então, as borboletas
de asas azuis, que agora já não vejo,
as quais eu perseguia, sob as sombras
das bananeiras e dos laranjais.
Que fazer, neste instante, para vê-las
em viagem de volta aos tempos idos?

É muito tarde, Amor, é muito tarde.

Cantava o sabiá sobre as palmeiras
que os ventos marinheiros balançavam
como as brisas beijavam as bandeiras.
Como tornar atrás, sem instrumentos,
sem mapas nem roteiros, destruídos
no fragor dos combates os sextantes?

É muito tarde, Amor, é muito tarde.

Os perfumes de Infância, nos cabelos
da bem-amada, onde estarão nesta hora?
As pipas coloridas, os campinhos
de várzea, num País de Juventude?
Tudo isso acabou. Toda a pureza
morreu, estraçalhada pelas Máquinas.
As crianças de agora se realizam
na frieza dos seus computadores,
curtindo os seus Heróis da Violência,
com sangue, sangue. E cada vez mais sangue.

Não pisaram, jamais, terras de Infância.

já não creem no Lobo, na Avozinha
do Chapeuzinho, a Casa da Floresta
construída de puro chocolate.

Papai Noel existe, com certeza,
para aqueles que sempre creram nele.

A Pequena Sereia, Os Três Porquinhos,
sandálias de cristal da Cinderela,
e João, Maria, os Ovos de Ouro, tudo,
mesmo o Patinho Feio que era um cisne,
já não são coisas da imaginação.
São tevês, são cinema, sem o apelo
das histórias de Infância.

(Capineiro
do meu Pai, por que me cortas o cabelo?
Minha mãe me penteou, minha Madrasta me enterrou,
pelo figo da figueira que o pássaro picou... )

É muito tarde, Amor, é muito tarde.

Como as, outras histórias, sob a Lua
e sob os copiares, Lobisomens
e Mulas sem Cabeça, e Curupiras
com seus pés para trás, como antevendo
o para trás que cresce em tudo, agora.
E Anhangá, e a Alamoa, e o Negrinho
do Pastoreio entregue ao formigueiro.
Tudo morreu, nas garras do Progresso,
que é um bem, que é um mal inevitável.

A leitura está morta. Os livros todos
deverão ser lançados às fogueiras.
— Menos os bestasséleres que vendem
como vende o pão-quente em padaria.

Resta agora a pergunta: como então
apertar mãos de Acab e de Simbad,
encontrar Aladim, seu servo, o Gênio,
escutar Sherazade, noite a noite?

Tudo acabou, e os sons da vida nova
são pios de Corujas, retalhando
as mortalhas do tempo, do meu Tempo.
Habita agora o Corvo no meu quarto.
Nunca mais voltarei a Infância, a antiga
pátria dos sonhos bons, das esperanças.

É muito tarde, Amor, é muito tarde.
1 366
David Mestre

David Mestre

Ngaieta de beiço

Cantarei
as tuas coxas
entre (o pano) abertas, o clamor
da

minha língua (em guarda).

O oiro
o mel
o silêncio cúmplice

a arca da tua boca
magra.

Por que ardem as fontes
no auge
da alegria?

Eros (em chamas) ousasse
gota
a
gota
um rumor
de cal
aflita.

Tu tem ngaieta de beiço
morro damor lá

980
Edmundo de Bettencourt

Edmundo de Bettencourt

A Máquina Prisioneira

A máquina acabava o dia a mastigar
e aos poucos os dentes lhe caíam
perdendo-se na espuma do ar negro,
ondulante, da fábrica.

Um desejo insubmisso
de cercar os átomos gigantes
vinha encher um braço
donde surgia um corpo
lacerado
sangrento!
e donde surgia um braço
cheio de sangue novo
que libertava a máquina!
A sorrir desdentada
a máquina adormecia...

906
Dilercy Adler

Dilercy Adler

Homem

Massa de músculos
e força
quanta potência
emana do teu corpo
teu corpo
que me entontece
estremece
enlouquece
mas também
enternece
com teu doce jeito de ser
menino

875