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Poemas neste tema

José Carlos Souza Santos

José Carlos Souza Santos

Cavalgada I

Cavalgada I

Ontem
te encontrei
nas minhas veredas anfíbias
de encantos e descaminhos
e de relance
vi o rosto
de trezentas rosas morenas
brincando de recordar

foi fugaz e relancino
o tempo meu inimigo
escondeu-a numa curva
e por mais que galopasse
a crina azul do meu cavalo
a distância ciumenta me roubava de você

mandei dizer pelo vento
velho companheiro
de brincar nos teus cabelos
te espero na guirlanda do meu verso
vamos cobrar do tempo
o saldo que ele nos deve
vamos no verde do musgo
brincar de cama macia
e o canto dos meus galos
em quatro corpetes cingidos
farão círios e dosséis
na roca do meu tear.

(do livro Estrelas Ausentes)

986
J. B. Sayeg

J. B. Sayeg

Clangor

Mundo em guerra
poesia quieta.
Os poetas andam
de bicicleta
não em suas pode
rosas máquinas
voadoras.

Vida inquieta
com sider
al all dreams
without lider.

A ciber (n) ética
ser / vindo
o homem a ser.

Vil medo a dúvida
do viver.
Para onde dirigir
o raio do laser?

(de Permissivo Amor, 1978)

1 011
J.Cardia

J.Cardia

Busco musgos

Busco musgos
nos bosques noturnos.
Olvidei o Carnaval. Não sei.
Louca fantasia
esta de poeta
no mero confete
da palavra.
Bailam serpentinas.
Desatino.

810
João Dummar

João Dummar

Oceano

Eu quero, amada
que versos brotem
de meu pensamento e de meus lábios
com a força do repente
na alegria dos cantadores.
Que não sejam palavras vãs
e não se percam
no vento da tarde
mas que se gravem no seu coração
que te impulsionem,
na direção do ser
que nos façam descobrir
o mistério de conviver.
Fascinante é penetrar
no mundo dos enigmas
e mergulhar na profundeza
destes oceanos
que se espraiam
em nós.

791
João Dummar

João Dummar

Travessia

A poesia é generosa
e deve ser proclamada
sem medos
quebrando o silêncio
ecoando na solidão
deve ser vela enfunada
na embarcação da existência
nos conduzindo pelos mares
pelos riscos e perigos
na direção do porto
ponto distante
que a vista começa a desvendar.

994
J.Cardia

J.Cardia

Comendo pedras

Comendo pedras
mascando ervas
danou-se cão.
Ladrou e mordeu.
Poetas
vivem assim ação.

862
Iacyr Anderson Freitas

Iacyr Anderson Freitas

Um Caminho Urge

quanto não haveria de consumir-se
para a ostentação e o claustro

dias voados no albume
céus voados

e um vento que não quer
deixar os livros

quanto não haveria de consumir-se
para quedar assim
sobre a mesa
farto
de si
e de toda e qualquer iniqüidade

dias voados céus de alheia estirpe
abancai-vos nestes campos

eis que um caminho urge
sozinho
sob o escuro da flora

774
Humberto Silveira Fernandes

Humberto Silveira Fernandes

Protesto

Nas tardes do Alentejo que eu adoro,
nas campinas de pasto sem amanho,
o pastor ergue o seu cantar sonoro,
e vai seguindo atrás de seu rebanho.

Alguém chamou a um poeta estranho
(a fama não lhe invejo mas deploro)
rei das imagens — no sabor de antanho,
pastor de rimas — no vibrar sonoro.

Pois lendo embora as tuas obras-primas,
rei das imagens e pastor de rimas,
eu tenho sempre a firme convicção

de quanto vale mais esse pastor,
rei das campinas de silêncio e cor,
que tu, pobre pastor duma ilusão!

(Coimbra, 1927)

897
Truck Tumleh

Truck Tumleh

Poeta

Eu sou o poeta...
Talvez diferente de muitos
Já conhecido por você,
Mas eu sou poeta...
Aquele que não fala ou fala...
Aquele que não olha ou olha...

É eu sou poeta...
No centro olhando os cantos
Em um dos cantos
Vendo o centro
E os outros cantos.

Felizmente eu sou poeta....
Não me cobre por isto.

Nasce uma flor...Nasce um pássaro...
Nasce uma criança...
E tudo surge:
A água, o vento e o poeta...
Eu sou a poesia

856
Gregório de Matos

Gregório de Matos

Ao Braço do Mesmo Menino Jesus Quando Appareceo

O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.

1 843
Heitor C. Gonçalves

Heitor C. Gonçalves

Menestréis

Quão enfadonho
Seria
Todo o trabalho
Da formiga
Não fosse
O canto
da cigarra

818
Nelson Ascher

Nelson Ascher

Festas do intelecto e da desordem

Há muito de semelhante nas trajetórias que levaram (ou trouxeram) Waly Salomão e Antonio Risério aos seus respectivos primeiros volumes de poemas. Primeiros, sim _pois o que Waly fazia antes era um tipo de prosa, e o volume de estréia de Risério (incorporado neste novo) estava mais para um ensaio geral, oculto, além disso, no segredo de uma edição mínima. Bom, quanto às semelhanças, ambos vêm do mesmo Estado _a Bahia_, ligaram-se e/ou descendem _mais ou menos_ da MPB de lá (Caetano, Gil & cia.) e da poesia concreta paulista, agitaram revistas nos anos 70 (Navilouca um, Muda o outro) etc.
Mas as diferenças são importantes. "Algaravia" de Waly é um livro cosmopolita, embora claramente enraizado na sua origem. "Fetiche" de Risério, no que tem de mais realizado, é étnico, ou melhor, interétnico. O primeiro metaboliza _sem negá-las_ as influências que formaram o poeta. O segundo oscila entre algo de fato próprio/pessoal e um lastro de tributos pagos explicitamente. Um atrai, entre outras razões, pelo que já não é. O outro, pelo que poderia ser mais plenamente.
As intenções de Waly são claras e ele as declara: "Um poema deve ser uma festa do intelecto"; "_O que é que você quer ser quando crescer?/_Poeta polifônico." A festa polifônica do intelecto se realiza sobretudo na memória que, para ele, "é uma ilha de edição", em que são trabalhados diversos tempos e lugares, reais ou imaginários, evocados de distintas maneiras, mas principalmente por meio de frases em outras línguas (inglês, francês, catalão).
Atravessa o livro uma perpétua perplexidade em face do quê e pelo quê se passou e, curiosamente, sobressai em seus poemas não tanto a nostalgia quanto a náusea _por exemplo, dos anos 60/70 em "Pesadelo de Classe"_ e, quando se celebra (dubiamente) a viagem em "Poema Jet-Lagged", ela é logo após negada em "Anti-Viagem", texto que, com o anterior, espelha-se num díptico oximoresco.
Waly faz do poema uma des-re-montagem da experiência, mas sua meta, obviamente, não é a fixação desta e sim o próprio poema, que, aliás, é continuamente discutido dentro e por dentro sem que se transforme em metapoesia. E as próprias citações eruditas brotam, por assim dizer, organicamente do argumento e da "persona" lírica inventada. E aqui, no conjunto, ele barroquiza tropicalmente, na melhor tradição de seu Estado: "Uns ouvindo o canto intuem Orfeu, outros sentem/ Oxum" _porque sua poesia se faz com "Alaúde, cuíca e pau-de-chuva". Mais que o citado, portanto, conta mesmo é quem cita, pois, afinal, "Alguém acha que ritmo jorra fácil,/ pronto rebento do espontaneismo?".
Em "Fetiche", por sua vez, o mais duradouro é o que se vincula a/e decorre do ensaísmo do poeta.
Risério, conhecido como um dos mais talentosos ensaístas de sua geração, estudou com originalidade a poesia brasileira moderna, a MPB, o carnaval e certos temas _sua marca registrada_ que poderiam ser chamados de etnopoéticos. Quando sua própria poesia se aproxima desse último conjunto de inquietações, ela ganha singularidade. Quando, por outro lado, envolve-se com as admirações literárias e musicais do autor, ela deixa a rigor de ser "sua própria poesia" e torna-se poesia alheia.
Assim há no livro poemas que poderiam ser atribuídos, por exemplo, a Haroldo de Campos ("Dêuteros Hélios" remete obviamente aos "Opúsculos Goetheanos"); a Paulo Leminski ("Leminskiana" naturalmente, mas também "Estreito de Behring"); a Décio Pignatari ("Caras Pintadas", em que frases inteiras ganham outro sentido quando deformadas pela troca de letras);
Caetano Veloso ("Noche de Ronda" descende de "Podres Poderes", "Vaca Profana" etc.), Affonso Avilla, José Paulo Paes e até mesmo Drummond (compare-se "Toque Árabe", que não é um mau poema, com "Anedota Búlgara").
O tributo mais pesado, porém, é pago a Augusto de Campos. E não se trata apenas do caráter visual do livro, com poemas espacializados, transcritos em diversas famílias e corpos de letra e processados por computador, ou de "intraduções", mas de praticamente metade dos textos do livro operando num estilo que, com poucas alterações generacionais, são augustianos sem tirar nem pôr.
Poetas foram feitos para serem imitados, seguidos, mas também alterados. O problema é que Augusto é um dos mais singulares que existem, particularmente quando desenvolve paralela e articuladamente o verbal e o visual, algo no que ele é provavelmente único. Ou seja, uma vez que se chegue ao "ovo novelo" de Colombo, torna-se fácil imitá-lo, mas o resultado acaba sendo precisamente isso _uma imitação, com as consequências de praxe: o que for bom no poema pertence ao mestre, enquanto cabe ao discípulo assumir plena responsabilidade pelos seus defeitos.
Em outras palavras, Augusto é inimitável e metade de "Fetiche" o demonstra bem: quando os poemas funcionam, eles não são, em última instância, de autoria do autor.
Essa autoria se firma e patenteia, isto sim, nos poemas em que Riséio busca sua _com perdão da palavra_ inspiração, em outras culturas, na alteridade, na procura do _com redobrado perdão da palavra_ "outro", uma entidade cantada, decantada e entrevistada, mas raramente entrevista.
É aqui _em "Via Papua" e "Antiskoklaan" (um poema judaico), na algaravia multicultural (no bom sentido) de "Herrera", em "Padê", "Poema de Catequese" e outros_ que o poeta retoma uma das melhores vertentes do primeiro modernismo _a de Oswald, Raul Bopp e do Mario macunaímico_ para começar a trabalhá-la, enquanto fetiche "so to say" primitivo _sem fetichismo primitivista_, num outro patamar de conhecimento antropológico, informado agora menos pelos delírios de Bachofen que pelos estudos de um Mircea Eliade ou um Lévi-Strauss. A chave disso, é Risério mesmo quem a dá em sua "Arte Poética": "Na serra da desordem/ no piracambu tapiri/ em cada igarapé do pindaré/ em cada igarapé do gurupi/ existe uma palavra/ uma palavra nova para mim".
Lançamento - "Algaravias", de Waly Salomão, será lançado no Rio, no dia 8, a partir das 20h, na Livraria Timbre (r. Marquês de São Vicente, 52, loja 221, tel. 021/274-1146), e em São Paulo, no dia 15, a partir das 20h, na Livraria Antes do Baile Verde (al. Gabriel Monteiro da Silva, 1.374, tel. 011/881-9721).

(in Folha de São Paulo)

Leia obra poética de Nelson Ascher

1 106
Goulart Gomes

Goulart Gomes

Algaravia

o que se sabe de mim
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados

caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras

tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.

tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões

1 023
Guy Corrêa

Guy Corrêa

Um País

Havia um povo
com uma dor embutida.
E um pintor, com uma tela menor.
- Como vou pintar o eco dessa gente? -
indagou-se

Sentou-se diante do teorema
e fez-se concentração,
misturando a tinta
para o lacrimejar de seus pincéis

Os dias e os anos se descoloriam
e a obra continuava inacabada
Mas ainda resistiam
um artista - hoje aos fiapos -
e uma nação descompassada
em busca de seu tom.

788
Ana Garrett

Ana Garrett

Quem se esconde

Quem se esconde em meus
versos inacabados,
sou eu...

E nasceu uma flor
duma terra de cem anos.
Sem regá-la, cuidá-la, nasceu.

E as minhas sílabas continuam
no caule verde
dessas flores,
interditas a leituras ao amanhecer.

Quem se olha, assim, como vós,
uma para o outro, em contínuo desejo?
Quais avencas debruçando-se
para um último beijo.

E eu no meio,
sempre toda a vida no meio e permaneço,
escondida nas raízes,
num eterno e agitado sossego

801
Gaitano Antonaccio

Gaitano Antonaccio

Versos Finais

Meus poemas são doces notas do nosso amor
São aves que gorjeiam no espaço da dor ..

Minhas rimas são rudes frases de acusação,
Sentenças condenatórias de urna paixão ...

Minhas estrofes descrevem o teu perfume
Mas cada sílaba jorra o fel do meu ciúme ...

Não consigo decassilabar meus versos
Nesse teu corpo de infinitos universos!...

Minhas palavras, românticas e teatrais,
Nem no sentimento te encontram mais,

Na poesia que te faço, fico perplexo,
Não consigo despertar amor e sexo

Nem faço amor na poesia que te faço,
E nem consigo amar no teu regaço ...

Meus versos não possuem mais sentido
São apenas saudade de um amor perdido...

1 014
Gabriel Nascente

Gabriel Nascente

Anjo em Ruínas

Ao poeta Antônio Carlos Osório, compadre

Alças teu grito
para além dos homens.
O bem se bem tem lanças
é cavalo que remói
cal e fogo
na campina.

Oh nuvem sibilante dos prados,
desde outrora te vejo altiva
no altar das cicatrizes!
A palavra é festa, falta de pudor.
Coisa-pulsante-flor que explode!
Secreta labareda do meu sangue.

Reino, quimera e caos.

Brutal como o enigma
entre os albores da terra
Flor que se aviva entre os dedos da primavera.
Água que flutua no escuro. Cristal terrível,
Anjo em ruínas. Sonho decapitado.

Imperecível, voraz — és tu, poesia!

961
Germano Machado

Germano Machado

Castro Alves - A filosofia na poesia

in Jornal A Tarde, 15/03/97

Em todo movimento literário, dentro de diversas correntes de literatura, subsiste sempre uma filosofia. Se as ciências técnicas e humanas se interligam, por que não se ver a filosofia na literatura, a filosofia na poesia, a própria e intrínseca poesia na filosofia mesmo?
Evidentemente não se afirma que, poeta e gênio poético, em face da idade um fenômeno, seja Castro Alves filósofo, formal ou técnico. Combinaram-se sempre, mesmo quando a combatem, poesia e filosofia, seja em Platão ou Agostinho, um Plotino, um Spinoza, cuja maneira de expor sua filosofia vai a par da poesia. Afirma-se, antes, que a Filosofia perpassou sua poética e deu o sentido que apresenta.
Castro Alves, filósofo? Não. Filosofia na poética de Castro Alves? Sim. Por que não? Não existisse e seria mero copiador de estilos literários de sua época ou decalcador da poesia que dominou o tempo que lhe foi próprio. Ainda seria pior: um poemar sem finalidade. Seu talento poético moralista (no sentido filosófico e não apenas de dicionário), analisadas suas poesias articipantes com o especular pensamental, mostra a influência filosófica envolvendo-o por inteiro na sua dimensão de poetizar, confluindo na filosofia social, política, libertária, humanística.
Eugênio Gomes afirma: “Colocava-se, portanto, em plena e estrepitosa órbita do romantismo liberal, no qual o eco sonoro do verbo hugoano convocava adeptos, iniciando-os numa espécie de evangelização político-social, fortemente nutrida pela fraseologia filosófica do século: Justiça, Ideal, Liberdade, Humanidade, Progresso”.
Importa ver ainda Castro Alves como romântico, em duplo ou triplo sentido, e até por definição. Homem de seu tempo e de sua época e seus reflexos, ao contrário dos seus antecessores a se amarrarem ao passado e em suas nostalgias, ele, ao contrário, antes volta-se para o futuro, para o porvir, o amanhã com toda força de seu coração jovem e pelo íntimo e intrínseco sentir-sonhar-refletir que o que não permanece em um tipo de tendência literária há de ser superado.
Aí, a marca do gênio: saber transcender, pela ‘intuição’ mais do que pela ‘razão’ (e, então, filosofia atual, para o que há de vir), ‘superar’, embora ‘contendo’ o imediato. Era, assim, um místico, tanto quanto um sensual, conhecedor de Bocage e talentos poéticos iguais.
Se Victor Hugo era ‘Poeta Vidente’ (vê para adiante ou entremostra o que há de vir), Castro Alves, adolescente e jovem apenas, menino quase, apesar do tempo pouco de vivência, também o era. Demonstra-se igual ao velho Hugo, embora destinos desiguais, em parte. Igual ou superior, se notarmos as circunstâncias de idade, ambiente, vivências. Neste sentido pode-se afirmar ser o Poeta dos Escravos contemporâneo do futuro, companheiro do amanhã e inebriado da manhã, o hoje que não se torna passado, mas futuro, portanto, um poetar de permanência, o que constitui o substrato e a essência do filosofar.
Permanência do que o tempo deixa, pois, subsistir, pretérito destinado ao presente-futuro: finalidade da história e da filosofia. O permanente na poética castroalvina, sentido eterno do amor à mulher, à flor, à natureza, ao coração, ao próprio amor em si e de Deus (sua poesia toda posta em termos assim situa-o como homem de seu tempo e do que virá), a luta social humana.
Abolicionista, grita, clama, transforma-se em flama pelo negro, escravo explorado; nacionalista e patriota vê a tendência de liberdade dos povos coloniais e ainda também aqueles povos antigos agora subjugados; coração ferido de amor e de dor pelo ser humano, em sua existencialidade.
Particulariza o intuitivo mais do que o social e o humano, sabe-se que, quando cantou O Século, na Faculdade de Direito do Recife, as idéias que a embasavam, a política de redenção e libertação do homem, dentro, aliás, do espírito do liberalismo político das revoluções Francesa e Americana, foram vistas de viés. Um professor avesso às idéias das estrofes político-filosóficas, o reprovou no final do ano.
A filosofia sócio-política do seu século, vinda desde a Revolução de 1789, incomodava os privilegiados. Dificilmente as transformações sociais atingem o coração dos homens concretos do poder e das estruturas. Não querem esses ceder lugar ao novo, ao que muda e lhes tira os privilégios.
A poesia político-social sabe a nacionalismo, aquele que se alarga às fronteiras da terra, não o xenófobo, o que odeia outras pátrias e nações, a embasar os regimes totalitários da direita-e-da-esquerda. O mesmo nacionalismo patriota que o poeta reivindica em sua poética para que o Brasil se liberte de escravos e dê sentido à sua trajetória nacional. Castro Alves político, participante do drama do mundo, inserido na filosofia da época, portanto não alienado, não alheio, porque poeta, ao fator politicista.
Em Recife, devido ao contato com Tobias Barreto, se poeta mais filósofo, na sua Faculdade de Direito tem o senso universitário, apesar de, no tempo, não haver universidade, ficando Direito como um centro de pensamento e ação. Superemos os meros aconteceres amorosos poéticos conhecidos entre os dois e vejamos que o seu contacto mútuo enriqueceu e desprovincianizou ambos daquele sentido de aldeia ainda predominante. Em São Paulo e sua faculdade. No Rio. E pela sensibilidade poética, universaliza-se, a partir da Bahia. Eugênia Câmara, também, dá ao poeta amor, leva-o mais ainda ao teatro, arte por excelência participativa e transformadora.
Logo, em Castro, só neste exemplo de O Século, a política social e política existe em função da poesia participativa (o que implica filosofia com vistas ao humano redimido) dentro do panorama de filosofia liberal e libertária da trajetória do século XIX, com o antecedente dos séculos XVIII e XVII.
O Século é, deste modo, poema de filosofia política, a crença na história libertária. Termina o poema com um dos motivos-chaves de sua poemática, o amor à juventude, a juventude como idéia-força, a juventude do mundo (mundialização da idéia) e a juventude do Brasil (nacionalização e patriotismo da idéia).
Eugênio Gomes exprime com a competência peculiar: “Em suma, nesse poema (O Século) já estava o pensamento central, que Alves iria desenvolver de outras do mesmo teor humano e social, alguns em forma de odes ou de pequenas epopéias hugoanas...
Como era usual em tais composições, evidenciando a ascendência da sociologia sobre o Romantismo, o insólito poema traz abundante nomenclatura histórica... A idéia de que a morte seria o caminho certo à liberdade dominava então mais do que nunca o pensamento de Castro Alves e influiu sobre a concepção de A Cachoeira de Paulo Afonso, ultimada na mesma época, quando o poeta, embora menos combalido, tinha o pressentimento de um fim próximo...”
Sim, o viver de Castro, como lírico, romântico, condoreiro, social-político, humanista, envolve, logicamente, filosofia de existência onde os temas do tempo (e outros de todos os tempos) se deixam apresentar.
A idéia da morte (tão própria da dolência e sofrência românticas) agudiza no poeta, porque pressente que sua doença, a tuberculose, seria fatal e tinha a consciência, ainda aqui um pensador de profundidade apesar dos poucos anos de vivência e sofrência, embora intensos, de que somente a morte, apesar da juventude do poeta, vai a par das idéias de Deus, juventude, alma, amor, livro, mulher, natureza em geral, escravo e libertação, grandes nomes históricos, heróis, sentido bíblico (pois era biblista no significado de conhecer a Bíblia, talvez mais o Antigo Testamento do que o Novo, o que já é uma revelação de uma revolução, pois como católico de tradição, mais se tratava dos Evangelhos nas famílias religiosas da sua época).
Há em toda a poemática de Castro Alves a descida à interioridade, o que, em termos de literatura do século XX, chamaríamos de intimista. Ouso denominá-lo intimista, típico e próprio.
E, aqui chegand
1 281
Francisco Nóbrega

Francisco Nóbrega

Ode ao Aleijadinho

Na sorte amarga que curtiste outrora,
pisando a dor a todo momento,
a mim restou de tua memória
uma grandeza imensa ante o sofrimento.

Quisera a vida retornasse seus passos,
e que pudéssemos refazer a história;
arrastaria de ti esta cruz pesada,
e só tua obra restaria em glória.

Poeta foste de cinzel em riste,
tuas imagens são épicos, em nós, gravadas,
e tua famosa arte, em si embala,
comove o alegre e enleva o triste.

O amor acendrado à tua arte,
manteve vida no teu corpo decomposto;
não te deteve a sombra de atroz morte,
nem o sofrimento a que te viste exposto.

No adro da igreja de Matosinhos
deixaste impresso em divino bailado,
nas pedras que dançam e tangem
os profetas, de luz e beleza inebriados.

Na via-sacra tua e do divino
mestre em cedro reveladas,
mais nos consterna o coração
as duas dores tão identificadas.

Expressão maior da raça brasileira,
em ti colheste nossas sagradas auras;
num meio hostil foste a bandeira
de uma belíssima e radiosa causa.

821
Francisco Orban

Francisco Orban

1975

Éramos 33 poetas
apesar das falhas no céu
apesar dos talhos na carne
33 poetas
amontoados sob o silêncio
das tardes com gomos de chuva
por cima da morte
das baleias e do jasmim
dizendo que assim era o plano
que ninguem morreria
no Outono.
33 poetas
como Maria Cristina
que tinha cheiro de hortelã
e maresia
e bunda morena de porcelana
33 poetas
como Luiz Carlos
batalhando no sol de São Gonçalo
ferido nos inúmeros sobrados
que trazia em si e não sabia

33 poetas como tantos
esperando a polícia todo dia
fosse inverno, verão ou primavera.
Isso no tempo do "milagre"
quando eu ia correndo pro
ginásio
e o tempo estava estancado
não era como agora
Éramos como Edgar, caçador
de balões
heroi como todos nós
que sabia subir em jaqueira
e nunca pensou que iria
enlouquecer
33 poetas
como janda em Salvador
falando da guerrilha perdida
da adolescência perdida
de todas as coisas que não iam
mais da certo
apesar do mistério da Bahia
e da dialética das ruas
em plena terça-feira de
carnaval
no verão da anistia
Éramos 33 poetas
como o meu amigo Ernesto
que um dia chegou em casa
e estourou os miolos
com um 38 emprestado

33 poetas
como Odemir
que escreveu um poema assim:
"Marta, um homem não é um trombone"
como Gregório
voltando do exílio
falando dos canaviais
e das lutas pela vida e pela paz
numa avenida paulista
corrompida de carros
Éramos 33 poetas
apesar do tempo ser um animal
solto,
a máquina de quebrar encantação
que antes não quebrava nada
mas hoje me quebra os dentes
e a cartilagem do rosto.
Se desse pra fazer girar a máquina
escreveria um conto
entre plantas e algas de sol
ergueria nas paredes brilhantes
blocos de ventania sumidos
e beberia contigo
nas fontes, nas águas, nos vinhos
nas cidades sem tempo
nos horizontes abertos
com a pele chamuscada
de marítimas vertigens
e perigos.

Onde está Luiz
sumido em 1975?
ninguem sabe
ninguem responde
havia o cheiro de cilade
e sonho
como em São Paulo
sovrevoando
milharal de luzes
diamante aceso
na noite perdida
de 1975

-Anônimos membros do
degredo unânime-

Como em Santa Teresa
longe da Av. São João
do petróleo queimado
e das vidas queimadas
inutilmente
nas ruas escuras
nos planos nefastos
onde para sempre se baniram
a realidade e a ternura
Éramos 33 poetas
com planos na terra
com as almas brandas
e as noites soltas
mas não sabíamos
que o vendaval espalharia
os nossos versos
as vozes, as cópulas,

músicas sobrariam no ar
o tempo, uma rede blindada
faria apagar na memória
os tratados das noites mornas
como se isso fosse possível
e Edgar ainda não subisse
em Jaqueiras,
Ernesto ainda não tomasse
a sua cerveja gelada,
Cristina ainda com sua boca
de fada,
o tempo com sua malha
de máquinas
telha frágil, nó desatado
não viu sua face aguada
só viu seu lado concreto
que não vai pro mar
dá pro deserto
e assim se proclamou
súdito vitalício da
cidade
senhor da dor e da saudade
embora no calendário do tempo
eu não vejo o último verão
sinto os 33 poetas
com seus violões
velhos e gastos
tomarem de assalto
o dia.

1 030
Francisco Nóbrega

Francisco Nóbrega

Solidão Amena

Malfazeja flor entre os homens
e os campinas humanas desgarradas,
rosa garrida com pétalas desfolhadas,
sombra perdida em horizontes sem fim,
tristeza alada...

Carregada com cores da sarjeta,
resplandeces, contudo, os tons da madrugada,
refúgio pobre de poeta angustiado,
prenhe de inspiração e ansiedade,
dor amada...

Amiga és dos puros, dos padres e dos poetas,
dos que labutam em claustro próprio,
gerando idéias, amargando sonhos,
e que ao fim deste clausura haja,
alegria ansiada...

Qual recato que conduz a dor d’alma,
escapando das mundanas vãs querelas,
arrematas teu leito de esperanças
ao encontro da luz anunciada,
amiga aureolada...

Mitigas a dor aos seres criadores,
na jornada sombria em que sua vida passa,
abrigo afetuoso de peregrinos escritores,
bálsamo amado com mágoas camufladas,
promessa sonhada...

Hás de levar-me aos cimos montanhosos,
donde se alcança o compreender sublime,
descortinando o mistério em plenitude,
amorizando o sonho de uma vida,
paz alcançada.

701
Francisco Carvalho

Francisco Carvalho

Tríptipo

I

tudo o que possuis
a alma, o pomar da lascívia

a fome de palavras
a sede de volúpia

a sentença lavrada
na poeira dos arquivos:

tudo cabe, poeta,
dentro de uma gaveta.

II

o olho da serpente
passeia na treva
o seu fulgor breve

lambe o odor da presa
entre folhas mortas

mastiga as horas
e uma ceia de besouros.

III

somos apanhados
numa teia de mitos

nada sabemos da alma
e do logaritmo binário

entre conchas e búzios
baionetas e obuses

a esfinge nos espreita
nos decifra e devora.

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Moacyr Felix

Moacyr Felix

Tarde na Ilha

Não sei por que,
mas tenho
uma vontade mansa de tomar chá
com Thomas Steams Eliot,
de não dizer nada
de não perguntar nada,
e ficar olhando
todas as manchetes e todas as capas
de todos os livros,
olhando de olhos vazios
não como os do morto, mas vazios
como o luar que orvalha a tamareira e o poço.

Uma vez ou outra, ouvirei
a colherinha pousar na porcelana frágil,
e é tudo que eu ouvirei, a colherinha de prata.

Talvez até lhe disesse uma coisa qualquer, uma coisa
só para quebrar o silêncio, só para isso,
uma coisa sem importância, simples, como por exemplo:
Você sabe, ó T. S. Eliot, minha mãe já foi muito bonita ...

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Fernando Cereja

Fernando Cereja

Parando

nem todo vazio é nada
nem todo nada é zero
nem todo zero é número
nem todo número é dois
nem todo dois é par
nem todo par é chinelo
nem todo chinelo é chão
nem todo chão é terra
nem toda terra é mundo
nem todo mundo é branco
nem todo branco é papel
nem todo papel é livro
nem todo livro é história
nem toda história é passado
nem todo passado é pisado
nem todo pisado é caminho
nem todo caminho é pedra
nem toda pedra é parede
nem toda parede é fim
nem todo fim é vazio
nem todo vazio é nada

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