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Poemas neste tema

José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Recordações

Desejo me enlear em teus braços,
Envolver o teu corpo,
Penetrar a tua alma...

E num momento de fusão e intenso prazer,
Exorcizar todos os medos e julgamentos,
Libertar-me de quaisquer preconceitos

E na alegria sublime do amor
Encontrar a paz e a eternidade,
No encontro de mim mesmo

E com o passar do tempo,
Recolher este momento mágico de ternura,
Em nosso álbum das melhores recordações.

683
José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Leitura

Eu li em teus olhos as palavras
Que teus lábios não ousaram pronunciar

Eu vi em teu corpo o amor
que teus braços temeram aceitar

Eu senti no arrepio de minha pele
O arrepio de tua alma

Eu provei em tuas mãos o desejo
Que nossos corpos não conseguem dissimular.

790
José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Estrelas

Acariciemos com as
Mãos os seus corpos,
Se não os alcançarmos,
Vamos sussurrar-lhes lindas
Canções aos ouvidos.
Se não se fizerem ouvir,
Vamos mirar-lhes na face e piscar,
E o universo todo piscará para nós.

897
João Gulart de Souza Gomos

João Gulart de Souza Gomos

algaravia

o que se sabe de mim
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados

caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras

tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.

tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões

Goulart Gomes, Salvador, BA

812
João Fortunato

João Fortunato

Estela

Para Manuel Ribeiro de Paiva

Orgulho natural,
Integridade,
Um corpo que não se vende,
Humilha, ou trai.

Só agora,
Toda claridade,
Sua alma a nós se rende
E não se retrai.

E alva,frágil,
Agreste como flor de esteva,
Acima do turbilhão
Da cidade que a colheu,
Liberta, se eleva…

728
João Gulart de Souza Gomos

João Gulart de Souza Gomos

batalha final

se amanhã me condenarem à morte
ou se o halley beijar sofregamente a terra
quero ver por último o brilho dos teus olhos
quando a praia vier dar no meu quintal
e todo magma exsudar na minha sala
vou inalar profundamente os teus cabelos

quando toda lava do vesúvio e
todo suspiro dos vendavais
assomarem à minha rua
será no teu colo que estarei deitado
(des)esperando o último momento
ainda que todo o sal dos oceanos
e toda terra das montanhas
aterrissem no meu teto
só teus lábios soterrarão meu corpo

os tanques cinzas do tio sam estacionarão no abaeté
e ferirão o farol com seus punhais
mas eu estarei deitado
acima, abaixo, sob, sobre, ao lado
em você, de qualquer jeito
quando todos se forem, míssil indetonado

e quando os patriots e exocets desfizerem minhas nuvens
não haverá dia seguinte:
estarei no túmulo dos teus braços
explodindo em milhões de átomos, desintegrando:
o último soldado desconhecido...

Goulart Gomes, Salvador, BA

873
José da Cunha Cardoso

José da Cunha Cardoso

Soneto

Essa nobre matrona, que impelida
De um generoso amor, fez a memória
Do seu ilustre nome tão notória,
Quanto no mundo todo esclarecida,

Os golpes não temeu do matricida
(Exemplo digno de imortal história)
Antes ambicionou do filho a glória
Dando por preço dela a própria vida.

Agripina, que a vida assim despreza,
Segura as adoções da eternidade
Nesta de amor materno alta fineza.

Que é duas vezes mãe nos persuade;
Porque lhe dá no sangue a natureza,
E com sangue lhe compra a majestade.

871
José Carlos Souza Santos

José Carlos Souza Santos

Do livro Estrelas Ausentes

A Tarde que Me Cabe

Eram quatro, as horas da manhã
quando nasci,
ainda não se havia completado
o meio-dia
quando os meus olhos se abeberaram
sôfregos,
de lembranças de nunca vistos pôr-do-sol,
de canelones que pela boca me desceram
sem lhes sentir o gosto,
de apaixonados beijos que os desejos
não me aplacaram,
e foi tão rápida a descoberta
de ter vivido somente o espaço de uma manhã
nos meus quarenta anos.

Ainda não se tinha completado
o meio-dia,
e náufrago em tábua de conveniência,
não me permitira
ver a luz que me tocara,
me lambera, me inundara.

e só pelas tuas mãos,
e pelo teu silêncio em grito de ausência
transformado,
hei de viver o período da tarde
que me cabe,
e vivê-lo tão intensamente, que os refúgios
em nossos corpos usados
inatingíveis hão de se tornar
no compassado ritmo do amor.

814
João Adolfo Hansen

João Adolfo Hansen

Floretes agudos e porretes grossos

especial para a Folha de São Paulo

No Antigo Regime, dizia Adorno, a sátira aparecia como o florete agudo da distinção virtuosa dos melhores. Depois de algumas revoluções, deveria aparecer como o porrete grosso dos privilégios.
Hoje, apropriações de Gregório de Matos, classificação de um corpus poético colonial, ainda fazem o nome reencarnar-se retrospectivamente no seu tempo, o século 17, como um indivíduo liberal-libertino-libertário a profetizar o advento do Barroco e dos neo-Neo no retrô geral desse fim de século.
Na Bahia do século 17, a ordem era imposta, contestada, deformada e sempre reposta como padrão civilizatório em vários registros e meios materiais _entre eles, a sátira atribuída a Gregório de Matos, cuja produção e consumo incluíam-se na política católica do império português.
Como uma prática fundamentalmente integrativa, então a sátira emanava do lugar sagrado do Rei-hipóstase de Deus, ou da Trindade, Potência do Pai, Sabedoria do Filho e Amor do Espírito.
Programática, a arqueologia da ruína satírica seiscentista reconstrói tensões, conflitos e mesmo contradições dos seus usos em seu tempo porque não quer o fóssil. A diferença arruinada do passado é, justamente, a medida crítica das petrificações do presente que efetuam Gregório como desmemória política e cultural.
Como Robinet demonstra para o Ancien Régime, também na Bahia seiscentista a Potência subordina as outras primordialidades, assegurando o monopólio da violência da razão de Estado em nome da prudência política do governo cristão que declara visar ao bem comum. O que se faz com Sabedoria e Amor, segundo a sátira, que glosa o absoluto da ordem. Não distingue público e privado; ratifica a proibição da imprensa e a censura intelectual; aplaude o Santo Ofício da Inquisição e a caça à heresia; reitera ordens-régias e bandos que determinam a destruição de quilombos, a guerra justa ou massacres de índios, as devassas de foros falsos de fidalguia, de desvios de impostos e contrabando, de sedições de soldados e da plebe, de amores freiráticos, de sexo nefando, de blasfêmia e bruxaria. Antimaquiavélica, antierasmiana, antiluterana, anticalvinista, antijudaica, absolutista, contra-reformada, define as medidas da Potência como ações prudentes, amorosas e sábias. Insiste: devem ser complementadas pelo degredo, pelos açoites, pela forca, pelo garrote vil, pelo auto-da-fé e mais castigos, exemplares, não menos prudentes, exercidos com Sabedoria pela Potência pública em nome do Amor do todo. Como se lê, em outro registro, nas Cartas e nas Atas do Senado da Câmara de Salvador, em nome do bem comum do corpo místico do Estado do Brasil.
Na dilatação da Fé e do Império desse corpo místico, o satírico metaforiza a analogia com que Santo Tomás de Aquino define o terceiro modo da unidade de integração das partes do corpo humano no comentário do Livro 5 da Metafísica, de Aristóteles. A unidade do corpo pressupõe a pluralidade dos membros e a diversidade das funções. Sua perfeição, que é ordem, resulta da sua integração harmônica como instrumentos para um princípio superior, a alma. Por analogia, o corpus hominis naturale, o corpo natural do homem, é o termo de comparação para o corpo político do Estado, doutrinado como integração hierárquica, concórdia e paz de indivíduos e estamentos, súditos, que o compõem.
Na sátira, a autonomia é a paixão máxima que pode afetar os corpos. Nela, o bom uso político do cada macaco no seu galho reatualiza o meio-termo racional da virtude da Ética Nicomaquéia, adaptando-o ao elenco completo das virtudes cristãs, como meios e fins da colonização: defesa do território, controle da população, escravismo, catequese, combate à heresia, manutenção dos privilégios, ócio dos doces negócios do açúcar e do sexo.
Assim, a virtude do satírico metaforiza o conceito de superioridade social da racionalidade de Corte absolutista. Então, a superioridade só é mantida pela submissão política e simbólica às instituições. A submissão implica uma lógica da distinção pela subordinação à vontade real, à etiqueta e ao dogma. Afirma uma sátira ao Conde da Ericeira, que se suicidou jogando-se de uma janela: Quem cai da graça dEl-Rei/ cai da sua desgraça. Outra, que identifica sodomia e judaísmo pela perspectiva da instituição real: Mandou-vos El-Rei acaso/ a Sodoma, ou ao Brasil? Se não viveis em Judá,/ quem vos meteu a Rabi?. Ainda segundo o padrão da racionalidade de Corte, a identidade virtuosa do satírico e a não-unidade viciosa dos satirizados são compostas como representação e por meio da representação. A virtude alega signos de limpeza de sangue, catolicismo, fidalguia, liberdade, discrição e masculinidade, opondo-se às representações que pretendem a autonomia que lhe subverte a superioridade pressuposta: Ou por limpo, ou por branco/ fui na Bahia mofino. Em outra: Alerta pardos do trato,/ a quem a soberba emborca,/ que pode ser hoje forca,/ o que ontem foi mulato.
A posição deriva da forma da representação e, sendo figurado como parte de um conflito de representações, o satírico joga com a dupla hierarquia do seu ponto de vista. Quando afirma sua virtude e constitui o vício como obscenidade contra naturam, a (des)constituição do tipo prova metaforicamente a (im)propriedade política do topos. Na sátira, a tipologia semântica de virtudes e vícios é uma topologia pragmática de posições hierárquicas.
Instituição, a sátira produz a perversão como exemplaridade da regra. Para tanto, apropria-se da retórica de Quintiliano, Cícero e Aristóteles; emula a poesia de Juvenal; cantigas de escárnio e maldizer; o Cancioneiro Geral, de Resende; Camões, Suárez, Melo, Rodrigues Lobo, Gracián, Saavedra Fajardo, Quevedo, Góngora, Botero, Tesauro... Aplicando padrões coletivos e anônimos _... é já velho em Poetas elegantes/ O cair em torpezas semelhantes_, opera com técnicas de uma racionalidade não-psicológica, que estiliza e deforma os discursos das instituições e da murmuração informal do lugar. Sem pressupor a expressão do eu, a autoria, o mercado e a originalidade, compõe o público, na representação, como representação teológico-política de discretos e vulgares: O néscio, o ignorante, o inexperto,/ Que não elege o bom, nem mau reprova,/ Por tudo passa deslumbrado, e incerto.
Suas deformações obscenas são reguladas pelos dois estilos do gênero cômico: o ridículo, adequado aos vícios fracos, e a maledicência, própria dos nocivos: Tudo, o que aqui vos digo,/ ora é zombando, ora rindo, diz o personagem satírico. Em Gregório, domina a variante maledicente: zombando. No caso, o satírico é um tipo virtuoso e indignado contra a corrupção do seu mundo, conforme uma afetação retórica de indignação. Como na sátira de Juvenal, que imita, afirma que está às avessas e que sua indignação também é caótica, como se a fala fosse expressão informal de sua ira. A sátira, contudo, é uma arte do insulto que finge não seguir nenhuma arte: suas paixões são naturais, mas não são informais. A irracionalidade da indignação é construída racionalmente e sua obscenidade pressupõe, como dizia Klossowski sobre Sade, as normas que a tornam visível e emolduram. Na poesia católica chamada Gregório, o obsceno é alegoria do pecado mortal, a infração hierárquica, que corrompe a unidade do bem comum. A anatomia horrorosa de vícios, com que compõe tipos vulgares, não é subversiva ou transgressora da ordem. Também na vituperação dos melhores, o desbocado do Boca do Inferno encontra a realidade não na empiria, mas nas convenções hierárquicas da recepção contemporânea, pautadas pela concordância quanto à imagem caricatural que elabora, enquanto mantém em circulação os estereótipos de pessoas, grupos e situações.
A sátira não é iluminista. Concebe o tempo qualitativamente, como análogo do divino. Quando dramatiza os discursos do corpo místico, perspectiva-os pelo dogma da luz natural da Graça inata. Seu estilo misto formaliza a percepção do destinatário como
954
Ivan Junqueira

Ivan Junqueira

Esse punhado de ossos

A Moacyr Félix

Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro
adunco do assassino,
nas úlceras do mendigo,
na voz melíflua do bispo,
no martírio dos suicidas,
na mão crispada das vítimas,
na forca e na Guilhotina,
no sangue sobre o patíbulo,
no sexo do hermafrodita,
no ventre da meretriz
que deu à luz uma harpia,
nas bestas do Apocalipse,
no selo que foi rompido,
nas trombetas do Juízo,
no êxtase mudo dos místicos,
na agonia dos epígonos,
no corvo que bica as vísceras
de alguém cujo sacrifício
vale tanto quanto a epígrafe
de uma página vazia.
Paz, enfim, até no ríctus
que torce a boca do Cristo.

2 329
Hélio Pellegrino

Hélio Pellegrino

Heraclito, o Obscuro

A pedra se move menos que a planta.
A planta se move menos que o réptil, movendo-se sobre a

pedra.

O réptil se move menos que o leopardo, na espessura da

floresta.

O leopardo se move menos que o homem, faminto de

mundo e espaço.

Todo ser, ao mover-se, exprime o seu desassossego: arco

tendido na direção do vir-a-ser.

A pedra tem mais sossego que a planta.
A planta tem mais repouso que o réptil.
O réptil é mais sonolento que o leopardo.
O homem, este é pura insônia — trabalho futuro, vôo e flecha.

1 429
Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

É Estranho

É estranho que, após o pranto
vertido em rios sobre os mares,
venha pousar-te no ombro
o pássaro das ilhas, ó náufrago.

É estranho que, depois das trevas
semeadas por sobre as valas,
teus sentidos se adelgacem
diante das clareiras, ó cego.

É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhado o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.
(da obra Flor da Morte)

2 088
Homero Prates

Homero Prates

O Diamante

Ó divinos Heróis! que uma eterna auriflama
Atrai para o esplendor da noite merencória!
Este é o Inferno de luz que a vossa febre aclama
Em gritos de loucura e em gritos de vitória.

Nele, como num mar de luz fiava e ilusória,
Encheis a Taça de ouro... E o vosso olhar se inflama!
Bebei! que é o vosso sangue e esta é a divina chama
Da ara branca e imortal da Beleza e da Glória.

Ó agonia sublime! Ó jardim dos tormentos
Divinos! onde, ó Luz, nos meus olhos deliras,
Como uma águia ferida entre dois firmamentos!

Olha-os! Morrem cantando, ó Beleza, que passas!
E os Heróis, para os céus soerguendo as grandes liras,
Tombam num resplendor de flamas e de taças.

1 064
Heitor C. Gonçalves

Heitor C. Gonçalves

Menestréis

Quão enfadonho
Seria
Todo o trabalho
Da formiga
Não fosse
O canto
da cigarra

816
Anderson Guerra

Anderson Guerra

Conjunto Vazio

Será que um dia
vou poder estar
entre vocês, meus amigos,
sem explicar a que vim e
porque vivo?

Verei a interrogação
no campo morto
e sem tempo das línguas caducas?

Vivo e permaneço inquieto.

Não fosse a Providência
quem seria meu sofrimento?

Porque padeceria de angústia
se com sangue
eu limpasse a consciência?

Maldita interrogação!

792
Goulart Gomes

Goulart Gomes

Mariniello

agosto seis
havia um cogumelo na história
mega-tons de Hiroxima:
um talo, a rosa

caído de joelhos
e o corpo
numa curva
para traz
teus ais

tudo era tão justo
que o mais
nobre
dos mortais
se renderia
às tuas ancas
brancas
frias; quadris
chuva ácida asperjada

e um clarão
denovo
dia
no espírito
paz...

819
Gregório de Matos

Gregório de Matos

Ao Sanctissimo Sacramento Estando para Comungar

Tremendo chego, meu Deus,
Ante vossa divindade,
que a fé é muito animosa,
mas a culpa mui cobarde.
À vossa mesa divina
como poderei chegar-me,
se é triaga da virtude,
e veneno da maldade?
Como comerei de um pão,
que me dais, porque me salve?
um pão, que a todos dá vida,
e a mim temo, que me mate.
Como não hei de ter medo
de um pão, que é tão formidável
vendo, que estais todo em tudo,
e estais todo em qualquer parte?
Quanto a que o sangue vos beba,
isso não, e perdoai-me:
como quem tanto vos ama,
há de beber-vos o sangue?
Beber o sangue do amigo
é sinal de inimizade;
pois como quereis, que o beba,
para confirmarmos pazes?
Senhor, eu não vos entendo;
vossos preceitos são graves,
vossos juízos são fundos,
vossa idéia inescrutável.
Eu confuso neste caso
entre tais perplexidades
de salvar-me, ou de perder-me,
só sei, que importa salvar-me.
Oh se me déreis tal graça,
que tenho culpas a mares,
me virá salvar na tábua
de auxílios tão eficazes!
É pois já à mesa cheguei,
onde é força alimentar-me
deste manjar, de que os Anjos
fazem seus próprios manjares:
Os Anjos, meu Deus, vos louvem,
que os vossos arcanos sabem,
e os Santos todos da glória,
que, o que vos devem, vos paguem.
Louve-vos minha rudeza,
por mais que sois inefável,
porque se os brutos vos louvam,
será a rudeza bastante.
Todos os brutos vos louvam,
troncos, penhas, montes, vales,
e pois vos louva o sensível,
louve-vos o vegetável,

1 973
Glícia Rodrigues

Glícia Rodrigues

Olhares Cruzados

Abro a janela
Vago o olhar
Sentimentos contidos
Ainda penso ignorar.
Das outras vezes encobri
Limpando a sacada
Regando o vaso
Hoje não
O sol insinua estardalhaço.
Da outra janela
Ele acena diminuindo espaços
Afagando meu corpo
Fingindo abraços.

945
Felipe Sampaio

Felipe Sampaio

Duas Faces

Morri duas vezes.
Duas faces desiguais.
Estranho...
Eu que procurei-as.
O primeiro rosto era lindo,
Singelamente único e terno.
Engraçado...
Um rosto que tinha tudo
Para me dar a vida,
Uma nova vida.
Mas me negou,
Me magoou,
Me matou.
Senti ali o fardo melancólico
De ser reduzido
Ao mais ínfimo ser.
"Formigas, levem-me!"
Fujo,
Atravesso a porta
E escolho um segundo rosto.
Basta um.
Encho-me de coragem.
A morte vem a 4 rodas.
Um rosto agora desconhecido,
Inocente e amedrontado
Que passa por cima de mim
E compreensivelmente foje.
Esquisito...
Agora ele é quem foge,
Enquanto ali eu fico
Mais uma vez
Sentido um peso
Em minhas costas,
Enquanto espero que o primeiro rosto,
Terrivelmente belo,
Vá até a mim
E ao menos chore.
01/06/97

354
Fernanda dos Santos

Fernanda dos Santos

A menina e a Brisa

Um sopro vem
vem mansinho
devagarinho ;
Um vento vem ,
vem ligeiro ,
faceiro .

O primeiro :
- calor ( de amor )
O segundo :
- vapor ( de tempo a girar nos ponteiros )

E respira a
acetinada pele da nuca .
E sacode ,
confunde os fios que escorrem
suave .

Ela não se move .
O sopro e o vento
se misturam e
a sensação engrandece ,
pele enrubresce ,
e a muda telepática
de tocar róseos úmidos
é concebido .

Um segundo
uma brisa .

Uma pulsação
de início .

835
Flávio Villa-Lobos

Flávio Villa-Lobos

Separação

Que estranho sentimento é este
que nos arrebata ferozmente
- sangria aberta
em postas de sangue virtual -
vergalhando a alma alquebrada,
chibata onipresente
do invisível feitor?

A dor que nos une
é a mesma do amor
quando se presume
o golpe final.

726
Fabio Valor Caldas

Fabio Valor Caldas

Tudo Que For Pecado

Sinta a minha presença
Dentro da sua vida,
Dentro do seu corpo,
E seguiremos juntos, sem destino,
Viveremos milhares de loucuras,
Sem um dia certo para acabar.

Eu quero te conhecer,
Em todos os sentidos.
O que é que te excita?
O que te faz feliz?
Seremos capazes de fazer
Tudo que for proibido,
Tudo que for censurado,
Tudo que for pecado.

Você chegou para
Mudar a minha vida.
Vamos mudar o mundo,
Junto poderemos mudar tudo,
E se não formos nós
Quem mais poderá mudar?

A vida termina
Onde começa o amor,
E o nosso amor
Está no limite de tudo.
Um dia o mundo acaba,
A vida acaba sem razão,
Tudo se destrói com o tempo,
Tudo que for pecado.

Eu gosto de olhar
Para os seus olhos,
E sentir toda a sua presença,
Todo o seu carinho,
Como se fosse um mundo
Para se conquistar.

A vida não teria o mesmo sentido
Sem a tua presença.

740
Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Sêmen

Não quero poluir
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.

O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.

A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.

878
Fernanda dos Santos

Fernanda dos Santos

Bruços

Caminha o olhar sobre
as curvas da tua planície ,
pleno morro a
murmurar solução .
Tua pele
meu caminho sem conclusão ;
Umedece e esvairece
face muda : falante .
Teu olhar
o meu infinito .
Passo a viajar
nesse seu beijo .
E fico à admirar
suas carnuudas doces
sutilezas ,
seus passos e suas presas .
Beleza minha
te envolvo em meu amor e
o teu calor : a sua essência
transborda o sopro ;
Pulsação e coração
tudo numa só inundação;
Como tu és belo ,
em seu brilho a irradiar ;
E a suspirar ,
o meu destino é te desejar ...

764