Viagens e Horizontes

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Há Cidades Acesas Na Distância

Há cidades acesas na distância,
Magnéticas e fundas como luas,
Descampados em flor e negras ruas
Cheias de exaltação e ressonância.

Há cidades acesas cujo lume
Destrói a insegurança dos meus passos,
E o anjo do real abre os seus braços
Em nardos que me matam de perfume.

E eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual é o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de névoa e de não ser.
2 861
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Os Navegadores

O múltiplo nos inebria
O espanto nos guia
Com audácia desejo e calculado engenho
Forçámos os limites —
Porém o Deus uno
De desvios nos protege
Por isso ao longo das escalas
Cobrimos de oiro o interior sombrio das igrejas
2 221
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Os Biombos Nambam

Os biombos Nambam contam
A história alegre das navegações
Pasmo de povos de repente
Frente a frente

Alvoroço de quem vê
O tão longe tão ao pé

Laca e leque
Kimono camélia
Perfeição esmero
E o sabor do tempero

Cerimónias mesuras
Nipónicas finuras
Malícia perante
Narigudas figuras
Inchados calções

Enquanto no alto
Das mastreações
Fazem pinos dão saltos
Os ágeis acrobatas
Das navegações

Dançam de alegria
Porque o mundo encontrado
É muito mais belo
Do que o imaginado
1987
3 028
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Olímpia

Ele emergiu do poente como se fosse um deus
A luz brilhava de mais no obscuro loiro do seu cabelo

Era o hóspede do acaso
Reunia mal as palavras
Foram juntos a Olímpia lugar de atletas
Terra à qual pertenciam
Os seus largos ombros as ancas estreitas
A sua força esguia espessa e baloiçada
E a sua testa baixa de novilho
Jantaram ao ar livre num rumor de verão e de turistas
Uma leve brisa passava entre diversos rostos

Ela viu-o depois ficar sozinho em plena rua
Subitamente jovem de mais e como expulso e perdido

Porém na manhã seguinte
Entre as espalhadas ruínas da palestra
Ela viu como o corpo dele rimava bem com as colunas
Dóricas

De qualquer forma em Patras poeirenta
No abafado subir da noite
Tomaram barcos diferentes

De muito longe ainda se via
No cais o vulto espesso baloiçado esguio
Que entre luzes com as sombras se fundia

Sob a desprezível indiferença
Não dela mas dos deuses
1 956
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vi. Navegavam Sem o Mapa Que Faziam

Navegavam sem o mapa que faziam

(Atrás deixando conluios e conversas
Intrigas surdas de bordéis e paços)

Os homens sábios tinham concluído
Que só podia haver o já sabido:
Para a frente era só o inavegável
Sob o clamor de um sol inabitável

Indecifrada escrita de outros astros
No silêncio das zonas nebulosas
Trémula a bússola tacteava espaços

Depois surgiram as costas luminosas
Silêncios e palmares frescor ardente
E o brilho do visível frente a frente
1979
3 028
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Homens À Beira-Mar

Nada trazem consigo. As imagens
Que encontram, vão-se delas despedindo.
Nada trazem consigo, pois partiram
Sós e nus, desde sempre, e os seus caminhos
Levam só ao espaço como o vento.

Embalados no próprio movimento,
Como se andar calasse algum tormento,
O seu olhar fixou-se para sempre
Na aparição sem fim dos horizontes.

Como o animal que sente ao longe as fontes,
Tudo neles se cala pra escutar
O coração crescente da distância,
E longínqua lhes é a própria ânsia.

É-lhes longínquo o sol quando os consome,
É-lhes longínqua a noite e a sua fome,
É-lhes longínquo o próprio corpo e o traço
Que deixam pela areia, passo a passo.

Porque o calor do sol não os consome,
Porque o frio da noite não os gela,
E nem sequer lhes dói a própria fome,
E é-lhes estranho até o próprio rasto.

Nenhum jardim, nenhum olhar os prende.
Intactos nas paisagens onde chegam

Só encontram o longe que se afasta,
O apelo do silêncio que os arrasta,
As aves estrangeiras que os trespassam,
E o seu corpo é só um nó de frio
Em busca de mais mar e mais vazio.
2 994
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ilha do Príncipe

«Suave, doce, lânguida ilha
De transparências súbitas»
Ruy Cinatti

A ilha do príncipe que o Ruy Cinatti amou
Surgia devagar
E ele debruçado na amurada do navio
A viu emergir dos longes da distância
No lento aproximar
Flor que desabrocha à flor do mar
Entre alísios vidros e neblinas
Na salgada respiração da vastidão marinha
Na transparência súbita

Eu cheguei mais tarde no ronco do avião
Na bruta rapidez
Porém também eu me banhei nas longas ondas
Das praias belas como no princípio do mundo
E atravessei o verde espesso da floresta
E respirei o perfume da ocá recém-cortada
3 017
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Descobrimento

Um oceano de músculos verdes
Um ídolo de muitos braços como um polvo
Caos incorruptível que irrompe
E tumulto ordenado
Bailarino contorcido
Em redor dos navios esticados

Atravessamos fileiras de cavalos
Que sacudiam suas crinas nos alísios

O mar tornou-se de repente muito novo e muito antigo
Para mostrar as praias
E um povo
De homens recém-criados ainda cor de barro
Ainda nus ainda deslumbrados
2 227
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ítaca

Quando as luzes da noite se reflectirem imóveis nas águas verdes de Brindisi
Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras passos remos e guindastes
A alegria estará em ti acesa como um fruto
Irás à proa entre os negrumes da noite
Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurrar de búzio no silêncio
Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos
Quando o barco rolar na escuridão fechada
Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar
Porque esta é a vigília de um segundo nascimento
O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto
3 345
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iv. Desde a Orla do Mar

IV

Desde a orla do mar
Onde tudo começou intacto no primeiro dia de mim
Desde a orla do mar
Onde vi na areia as pegadas triangulares das gaivotas
Enquanto o céu cego de luz bebia o ângulo do seu voo
Onde amei com êxtase a cor o peso e a forma necessária das conchas
Onde vi desabar ininterruptamente a arquitectura das ondas
E nadei de olhos abertos na transparência das águas
Para reconhecer a anémona a rocha o búzio a medusa
Para fundar no sal e na pedra o eixo recto
Da construção possível
Desde a sombra do bosque
Onde se ergueu o espanto e o não-nome da primeira noite
E onde aceitei em meu ser o eco e a dança da consciência múltipla
Desde a sombra do bosque desde a orla do mar
Caminhei para Delphos
Porque acreditei que o mundo era sagrado
E tinha um centro
Que duas águias definem no bronze de um voo imóvel e pesado
Porém quando cheguei o palácio jazia disperso e destruído
As águias tinham-se ocultado no lugar da sombra mais antiga
A língua torceu-se na boca de Sibila
A água que primeiro eu escutei já não se ouvia
Só Antinoos mostrou o seu corpo assombrado
Seu nocturno meio-dia
Delphos, Maio de 1970
2 468
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

De Pedra E Cal

De pedra e cal é a cidade
Com campanários brancos
De pedra e cal é a cidade
Com algumas figueiras

De pedra e cal são
Os labirintos brancos
E a brancura do sal
Sobe pelas escadas

De pedra e cal a cidade
Toda quadriculada
Como um xadrez jogado
Só com pedras brancas

Um xadrez só de torres
E cavalos-marinhos
Que sacodem as crinas
Sob os olhos das moiras

Caminha devagar
Porque o chão é caiado
2 940
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O País Sem Mal

Um etnólogo diz ter encontrado
Entre selvas e rios depois de longa busca
Uma tribo de índios errantes
Exaustos exauridos semimortos
Pois tinham partido desde há longos anos
Percorrendo florestas desertos e campinas
Subindo e descendo montanhas e colinas
Atravessando rios
Em busca do país sem mal —
Como os revolucionários do meu tempo
Nada tinham encontrado
1 972
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vi

Vi países de pedras e de rios
Onde nuvens escuras como aranhas
Roem o perfil roxo das montanhas
Entre poentes cor-de-rosa e frios.

Transbordante passei entre as imagens
Excessivas das terras e dos céus
Mergulhando no corpo desse deus
Que se oferece, como um beijo, nas paisagens.
2 045
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Os Nossos Dedos Abriram Mãos Fechadas

Os nossos dedos abriram mãos fechadas
Cheias de perfume
Partimos à aventura através de vozes e de gestos
Pressentimos paixões como paisagens
E cada corpo era um caminho.
Mas um se ergueu tomando tudo
E escorreram asas dos seus braços.

Florestas, pântanos e rios,
Viajámos imóveis debruçados,
Enquanto o céu brilhava nas janelas.

E a cidade partiu como um navio
Através da noite.
2 006
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Através de Países E Paisagens

Através de países e paisagens
Caminham ao encontro das imagens
E a terra abraçou-os no calor
Dos seus membros de carne e de folhagens.

Como a luz era a luz nos seus cabelos,
Como o vento era o vento entre os seus dedos!
O seu corpo seguia mil segredos
E tinha o baloiçar dos arvoredos.

E desligados partem novamente
Entre as fogueiras negras do sol-poente.

E eis o coração rítmico do deus
Abandonado e só em frente aos céus.
1 890
Susana Thénon

Susana Thénon

Ser

Morder teu significado
Nesta escala de magnitudes
Inateráveis.
Ser, ao extremo
de teu meridiano,
um ponto,
um breve sinal
peregrino por tuas fronteiras.
Desfazer teu limite,
afundar em tua sonora latitude,
reconhecer um por um teus portos
e nomeá-los por seus nomes.
873
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A moça que há na estalagem

A moça que há na estalagem
Ri porque gosta de rir.
Não sei o que é da viagem
Por esta moça existir.
1 439
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A estrada inteiramente insubjectiva

A estrada inteiramente insubjectiva
Branca, branca, sem pensamento algum
1 415
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

EPIGRAMS - IX

They say that all roads lead to Rome,
        And, what's more, it is true;
But it is clear most of them must
        Lead crookedly thereto.
1 034
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tudo se funde no movimento

Tudo se funde no movimento
(...)
E cada arbusto fitado
Nem é o terceiro que está a seguir.

A bondade da chama nocturna em casas distantes,
Os lares dos outros meras estrelas humanas na noite
A indefinida felicidade para nós de ver outros a distância.
1 396
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Liberta!

Eu ponho-me a sonhar transmigrações
Impossíveis, longínquas, milagrosas,
Voos amplos, céus distantes, migrações
Longe... noutras esferas luminosas!

E pelo meu olhar passam visões:
Ilhas de bruma e nácar, d’oiro e rosas...
E eu penso que, liberta de grilhões,
Hei-de aportar as Ilhas misteriosas!

1 851
António Pocinho

António Pocinho

cartas

As cartas não viajam à velocidade da luz, nem lá perto, nem mesmo as cartas de condução. Só os bilhetes-postais viajam a uma velocidade superior à da luz, com as suas palavras acabadas de se pôr sobre uma paisagem ou um momento, com esses recados de nós, mansos viajantes siderais, mesmo quando vamos só até Cacilhas.

758
Orides Fontela

Orides Fontela

Viagem

Viajar
mas não
para

viajar
mas sem
onde

sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.

Viajar
e nem sequer sonhar-se
esta viagem.


Publicado no livro Rosácea (1986).

In: FONTELA, Orides. Trevo, 1969/1988. Il. Mira Schendel. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
1 906
Eudoro Augusto

Eudoro Augusto

Bandeira Pós-Moderno (Take 1)

Vou-me embora pra Manhattan,
lá sou amigo do Ray.
Tenho a trombonista ruiva
e uma terapeuta gay.


In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera.

NOTA: Referência ao poema "Vou-me Embora pra Pasárgada", de Manuel Bandeir
1 029